A Fundação da Juventude Comunista do Brasil

A criação da Juventude Comunista do Brasil, em 1927, foi uma consequência lógica, e histórica, da própria fundação do Partido Comunista do Brasil cinco anos antes, e da orientação da Internacional Comunista (IC) que, desde seu II Congresso, em 1920, apoiou o I Congresso da Internacional das Juventudes Comunistas e passou a incentivar a criação de organismos para jovens nos partidos comunistas a ela filiados.

No mesmo ano do I Congresso da Internacional das Juventudes Comunistas (IJC) – criada por iniciativa da IC, em 1920 –, realizou-se em Moscou o II Congresso da União da Juventude Comunista da Rússia, o Komsomol. Lênin pronunciou aos 600 delegados presentes, no dia 2 de outubro, o importante e clássico discurso “As tarefas da União da Juventude”.

A Internacional Comunista e a juventude

Do II ao V Congresso, a IC reforçou o seu caráter de “partido mundial”, deixando para trás os princípios federativos da II Internacional. A partir daí começam a ser criadas as Juventudes Comunistas, em todos os continentes. De 4 a 16 de dezembro de 1922 foi realizado o III Congresso da Internacional das Juventudes Comunistas, em Moscou, com 121 delegados de 38 organizações juvenis de distintos países. O IV Congresso da IC havia sido realizado alguns dias antes, no mesmo local. Em 1924, no V Congresso da IC, em Moscou, o Partido Comunista do Brasil, fundado em 1922 como Seção Brasileira da IC, foi reconhecido plenamente e seu secretário-geral, Astrojildo Pereira, foi eleito para a Comissão Central de Controle da IC.

A III Internacional possuía propostas programáticas específicas para a juventude. O VI Congresso da IC, em 1928, aprovou o Programa da Internacional Comunista, que defendia a “redução especial da jornada de trabalho para a juventude (jornada máxima de 6 horas para os jovens menores de 18 anos); reorganização socialista do trabalho da juventude, mediante a combinação da produção material com a educação geral e política”.

Para assegurar o “papel dirigente do Partido Comunista no sistema de ditadura do proletariado”, dizia o Programa, “o Partido do proletariado apoia-se diretamente nos sindicatos e nas outras organizações das massas operárias (sovietes, cooperativas, Juventudes Comunistas, etc) e, através delas nos camponeses, e dirige por este sistema de alavancas o conjunto do sistema soviético”. Diz, ainda: “É necessário também conduzir uma ação sistemática entre a juventude operária e camponesa (principalmente por intermédio da Internacional Comunista e suas seções)”. (3)

No primeiro artigo dos Estatutos da III Internacional consta que esta “representa em si a união dos Partidos Comunistas de todos os países num único Partido Comunista mundial”.

O artigo 35 dos Estatutos estabelece a relação entre a IC e a IJC: “A Internacional Comunista Juvenil é uma seção, com plenitude de direitos, da Internacional Comunista e encontra-se sujeita ao Comitê Executivo da Internacional Comunista (CEIC)”. (4)

O PCB decide construir a JC

Em 1922 foi fundado o Partido Comunista do Brasil, durante seu I Congresso, de 25 a 27 de março, por 9 delegados representando 73 membros. Em maio de 1923 o número de militantes se eleva a 300, em 1928 a 700 e em 1930 a 1200.

Para Octávio Brandão, a fase de 1922 a 1925 foi a de fundação, dos “primeiros passos”, e da “consolidação” do PCB. De 1925 a 1927 o Partido “olha para fora”, e de 1927 a 1930 realiza uma “política de massas”. A JC foi fundada em 1927, justamente neste período de ascensão do Partido, na segunda metade dos anos 20. (5)
Além dos Comitês e células, a Juventude Comunista também nasceu, a exemplo da IJC, como “outro órgão de fundo estatutário” do Partido Comunista do Brasil. (6)

A criação da Juventude Comunista, segundo Astrojildo Pereira, “fora já decidida desde janeiro de 1924, em sessão ampliada da Comissão Central Executiva (CCE). O II Congresso, constatando que só no Rio se havia iniciado sua organização, insiste que a questão fosse encarada seriamente por todo o Partido”. (7) O PCB realizou o seu II Congresso de 16 a 18 de maio de 1925. O item 7 da ordem do dia era “A organização da JC” e o Congresso reafirmou a decisão da CCE. No período 1922-1929, a direção central do Partido era denominada Comissão Central Executiva (CCE).

A fundação da JC do Brasil

Mesmo com as resoluções aprovadas, não se estava conseguindo organizar a JC do Brasil. O encarregado dessa tarefa na CCE, o vassoureiro e fundador do Partido, Luís Perez, por motivo familiar, havia se mudado para o interior de São Paulo, e por isso, quase nada pudera fazer. A CCE incumbiu o jovem Leôncio Basbaum, então com 18 anos, de iniciar o trabalho de construção da JC a partir de Recife, onde este pernambucano, que era estudante de medicina no Rio de Janeiro, iria passar as férias com a família.

Astrojildo orientou Basbaum em sua tarefa. Segundo Basbaum, Astrojildo teria dito: que “já era tempo de que o Partido organizasse uma Juventude Comunista, assim como havia em outros países. (…) Assim, queria que eu fizesse uma experiência em Recife, onde havia um forte núcleo do Partido, que me poderia auxiliar. E eu poderia começar arregimentando os filhos dos próprios membros do Partido”. (8)

Basbaum cumpriu a tarefa e organizou um Comitê Regional da Juventude Comunista em Pernambuco, o primeiro do Brasil. Na sua volta, a CCE decidiu que ele passaria a ser o encarregado do setor juvenil do Partido, com o objetivo de criar uma organização juvenil de caráter nacional, tornando-o membro da CCE, com direito a voz e voto, como representante da Juventude Comunista, que na realidade ainda não existia.

O jornal diário, A Nação, ligado ao Partido, publicou “pequenos artigos sobre a juventude operária, e a necessidade de sua organização”. A Nação publicava papeletas de inscrição para a JC em branco, para que os jovens interessados em aderir à JC as preenchessem e as enviassem de volta para o jornal. Em poucos meses foram recebidas mais de cem inscrições, de vários Estados. “No dia 1º de Maio de 1927”, relata Basbaum, “a Juventude, melhor dizendo, os jovens comunistas, apareceram com destaque, não somente carregando faixas com inscrições próprias, como também com um orador (…) E os jovens vibravam. Esses êxitos iniciais nos animaram a apressar a fundação da JC”. (9)

Em 1º de agosto de 1927 foi fundada a Juventude Comunista, na sede da antiga União dos Trabalhadores Gráficos, a UTG, na Rua Frei Caneca esquina com a Praça da República. De acordo com Basbaum, “houve uma festa com discursos, nos quais o que mais se destacou foi o de um jovem metalúrgico, de uns 17 anos, Jaime Ferreira (…).

No dia seguinte escolhemos alguns companheiros jovens para constituir um Comitê Central provisório e fui eleito por esse Comitê secretário-geral, cargo em que permaneci até princípios de 1929, quando tendo atingido 21 anos, passei ao partido, de onde, aliás, eu viera.” “Posso afirmar que cerca de 90% dos membros da juventude comunista da época constituía-se de jovens operários de 15 a 19 anos, os quais, pelos estatutos aprovados, ao completarem 21 anos deveriam ingressar ao Partido.”

“Embora por vezes ultrapassássemos nosso campo de ação, procurando tomar atitudes políticas, na verdade tínhamos de seguir a linha traçada pelo Partido. Nossa ação se limitava a recrutar jovens nas fábricas e nas empresas ou no comércio, e mesmo nas escolas superiores, naquela faixa de idade, mantê-los unidos em torno de atrações de toda ordem, como esportes, teatro, festinhas, piquenique, fazer propaganda de nossas ideias marxistas e prepará-los para serem bons comunistas. A tarefa não era fácil, pois tínhamos jovens de todos os graus de cultura, desde semianalfabetos até estudantes de curso superior, estes em pequena minoria. Adotamos a mesma organização do Partido, com células e Comitês Regionais, nos Estados. Pelos meados de 1928 já tínhamos organizações regionais no Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Espírito Santo”.

“A primeira ‘direção nacional’ possuía sete membros e creio que me lembro dos nomes de alguns deles: Jaime Ferreira, Elísio, Altamiro, Brasilino, Pedro Magalhães, todos operários, e mais o Arlindo Pinho; que vigorou até fins de 1928, ou princípios de 1929, quando, no seu primeiro congresso nacional, foi eleita uma nova direção. (…)”

“Começamos a editar um jornalzinho mimeografado, semanal, O Jovem Proletário. (…) Lá imprimíamos ainda nossos ‘manifestos’, volantes, falando sobre diferentes assuntos juvenis, reivindicações dos trabalhadores jovens (menos horas de trabalho, salário igual para trabalho igual), proclamações contra visita que nos fizeram navios de guerra norte-americanos, contra o imperialismo e contra uma porção de coisas a que éramos contra. Uma vez fizemos um volante escrito em língua inglesa, contra o imperialismo, que distribuímos entre os marinheiros norte-americanos, o que causou certo escândalo na imprensa, a qual protestou contra nossa ‘ousadia’.” (10) A JC do Brasil (JCB) finalmente saiu do papel e ganhou as ruas, fábricas, empresas e escolas.

A JCB no Congresso da IJC

No mês de sua fundação, agosto de 1927, a JC escreveu para Moscou, sede da IJC comunicando a fundação da JC do Brasil e solicitando a adesão dos jovens à Internacional.
A resposta demorou um pouco a vir. Basbaum relata que em “abril ou maio de 1928, recebíamos carta de Moscou, do Komintern, com um convite para que o PCB se fizesse representar no VI Congresso da Internacional Comunista. E, ao mesmo tempo, a JC recebia igual convite para que se fizesse representar no seu V Congresso, da IJC ou KIM (Internacional Juvenil Comunista) que se realizaria a seguir. (…)”. (11) A JC do Brasil fez uma campanha para arranjar dinheiro para a viagem. Houve iniciativas como rifas, festivais e doações.

No VI Congresso da IC a delegação brasileira era composta de três camaradas, entre eles Leôncio Basbaum, delegado da JC do Brasil. Durante o Congresso, em setembro de 1928, Astrojildo Pereira foi eleito para o Comitê Executivo da IC, o CEIC.

Esse Congresso da IC substituiu a política de “frente única” pela política de “classe contra classe”. Em virtude dessa orientação sectária, que também foi implementada no Brasil, o Partido não participou do movimento político conhecido como Revolução de 1930.

O Congresso da IJC durou em torno de 15 dias e uma de suas resoluções foi admissão plena da JCB na IJC. A jovem comunista alemã Olga Benário, que depois seria companheira de Prestes e dirigente da insurreição de 1935 no Brasil, participou do Congresso da IJC de 1928 como delegada da Juventude Comunista Alemã. Durante o Congresso, Olga foi eleita para o Presidium da IJC, e passou a viver em Moscou.

A resolução do III Congresso do PCB sobre a JC

No III Congresso do PCB participaram de suas sessões 31 camaradas, sendo dois da JC. O ponto 13 da ordem do dia era “Sobre a Juventude Comunista”. Nas teses, havia a proposta de “maior ajuda à Juventude Comunista”. Foi aprovada uma resolução sobre a Juventude Comunista, que em determinado trecho dizia:

“Os primeiros membros da Juventude Comunista do Brasil entraram em 1925, 14; em 1926, 13. Destes 27, em 1927 só restavam 8. Em maio de 1927, foi obrigado a ausentar-se o encarregado da Juventude da Comissão Central Executiva do Partido, passando seu cargo às mãos de membros da Juventude. Aproveitando o período de legalidade, fez-se ampla agitação pelo jornal A Nação, sendo comemorada em junho a Semana da Juventude Operária. Por esse tempo, a ligação com os Estados era quase nenhuma. Apenas correspondência com camaradas isolados de algumas regiões. Havia ao todo uns 30 membros, mais ou menos ativos, distribuídos por 5 células.”

“As ligações com o Partido e com o Secretariado Sul-Americano eram quase nenhuma. Veio por fim, em agosto, a ‘lei celerada’, que pôs fim ao trabalho legal, havendo em seguida como uma debandada de alguns membros. Admitido um representante da JC na CCE do Partido, recomeçou o trabalho com a publicação de um jornalzinho mimeografado, O Jovem Proletário, que saiu regularmente até abril de 1928, quando fechou para auxiliar com o dinheiro de que dispunha A Classe Operária. Deve-se acrescentar que desde janeiro ele era impresso e teve uma tiragem de 1000 exemplares.”

“No começo da organização, o trabalho era dificultado por ser na sua maioria dirigido por estudantes. Hoje, a maioria absoluta é de operários, havendo cerca de 25 células no Rio, das quais 5 de empresa.  Um total de 120 membros, mais ou menos ativos, em 120 inscritos.”

“A ligação com os Estados é bem intensa, e existem organizações, além do Rio de Janeiro, em Porto Alegre, Santos, São Paulo, Sertãozinho, Ribeirão Preto, Vitória, Pernambuco e Rio Grande do Norte.”

“Em maio houve uma troca de representação com voz deliberativa entre o CC da JC e a CCE do Partido. Em junho, um delegado foi enviado ao 5º Congresso da Internacional da JC, fazendo da nossa organização uma seção brasileira da IJC”. (12)

Segundo Astrojildo Pereira, o outro trecho da resolução do III Congresso “traça diretivas práticas para o trabalho específico da JC e suas ligações com o Partido”. (13)

O III Congresso do Partido elegeu Leôncio Basbaum para o Comitê Central do Partido. Basbaum passou então de representante da JC na direção do Partido, para representante do Partido na direção da Juventude Comunista e ficou com a responsabilidade de preparar um companheiro para substituí-lo na direção da JC.

O I Congresso da JC

Em 4 de janeiro de 1929, durante o Congresso do Partido, e no mesmo local, realizou-se o I Congresso da JC, com 15 delegados, de Rio de Janeiro, São Paulo, Campos, Niterói, Vitória, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. Entre os militantes da JC nesse período estava Raquel de Queiroz, autora de “O Quinze”, que participou da Juventude no Ceará.

Por sugestão da IJC, enviada de Moscou, o I Congresso da JCB incluiu o trabalho antimilitarista entre os jovens das forças armadas. O Congresso resolveu ainda, segundo Basbaum, “intensificar nossa atividade nos setores recreativos e culturais, dando maior atenção ao Centro de Jovens Proletários – já fundado e que congregava jovens de todas as tendências, com fins esportivos e culturais. Ele nos havia trazido excelentes rapazes e moças para a JC. Também havíamos decidido esforçar-nos junto aos sindicatos para a criação de departamentos juvenis, a fim de atrair para eles os operários mais jovens. (…) Na verdade, depois do Congresso, o movimento juvenil havia crescido muito, assim como o Partido”.

“Começava o ano de 1929”, relata Basbaum, “e estávamos animados, em grande atividade, (…) e com um grande número de camaradas transformados em ‘revolucionários profissionais’, como queria Lênin. Não sei como viviam, pois o PC e a JC pouco tinham para lhes dar.” (14) Na greve dos gráficos, deflagrada em 23 de março de 1929 e com a duração de 72 dias, foram enviados a São Paulo membros da Juventude Comunista para ajudar na coordenação da greve. (15) Artur Basbaum, que já era membro da direção central da JCB, substituiu o irmão mais velho, Leôncio, na secretaria geral.

O Partido e a JC passaram a ter maiores dificuldades para crescer e ampliar sua influência e atividade políticas em função da orientação política sectária de “classe contra classe”, definida pela IC. Em janeiro de 1931, a avaliação de Leôncio era de que a JC “não crescera muito, mas tinha um bom quadro de militantes fiéis e combativos, a maioria, como sempre, de jovens operários, mas uma percentagem maior do que antes, de estudantes.” (16)

Refêrencias

(3) Programa e Estatutos da Internacional Comunista, Edições Maria da Fonte, Lisboa, 1975.
(4) Idem.
(5) Octávio Brandão, Combates e batalhas: memórias, volume 1, Alfa-Ômega, 1978.
(6) Edgar Carone, Classes sociais e movimento operário, Ática, 1989.
(7) Astrojildo Pereira, Ensaios históricos e políticos, Alfa-Ômega, São Paulo, 1979.
(8) Leôncio Basbaum, Uma vida em seis tempos: memórias, Alfa-Ômega, 1978.
(9) Idem.
(10) Ibidem.
(11) Ibidem.
(12) A resolução sobre a JC do III Congresso do PCB está transcrita em Astrojildo Pereira, Ensaios históricos e políticos, Alfa-Ômega, 1978.
(13) Astrojildo Pereira, Ensaios históricos e políticos, Alfa-Ômega, 1978.
(14) Leôncio Basbaum, Uma vida em seis tempos: memórias, Alfa-Ômega, 1978.
(15) John W. Foster Dulles, Anarquistas e comunistas no Brasil, Nova Fronteira, 1977.
(16) Leôncio Basbaum, Uma vida em seis tempos: memórias, Alfa-Ômega, 1978.


Alguns erros gramaticais foram corrigidos em relação ao texto original.

Artigo escrito por Ricardo Abreu, disponível neste link.

Na imagem da capa esta a foto de Leôncio Basbaum.

 

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