O Peso do Mundo: Reflexões acerca do ato de Falhar

Recentemente uma afirmação começou a aparecer em minha vida e a cada dia que passava começou a fazer mais sentido: “Só não erra, quem não tenta”. A primeira vista, pode ser uma frase simples de motivação ou de algum charlatão que faz coaching, porém acredito que existe algo a mais por trás dessa simples afirmação, algo que pode ajudar a entender mais sobre a pressão que colocamos em nós mesmos, sobre as críticas que fazemos, as autocríticas, os erros e acertos.

Sobre esforços e falhas

Chegamos no final do ano, um momento em que normalmente várias retrospectivas são feitas, aquelas dos principais momentos políticos do ano, dos principais álbuns, dos principais filmes, daqueles acontecimentos pessoais. Todos aqueles momentos que foram vividos são relembrados, comemorados ou não, as metas que foram feitas são refletidas, é visto se foram cumpridas, se o dinheiro que iria ser guardado de fato foi, se aquela rotina de exercícios foi feita, se a nova língua foi aprendida. Inúmeras metas podem ter sido feitas, pois, o começo do ano é sempre um momento favorável para isso, para começar e recomeçar, existe uma esperança e um senso de otimismo que se carrega nesse período, não é a toa que o verso de Belchior “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” é tão citado nesta época.

Alguns conseguiram cumprir com suas metas, mas outros não, mesmo com todo o esforço, com todo o suor, sangue e lágrimas, suas metas não foram cumpridas e está tudo bem. Esse, porém não é um texto sobre metas de ano novo. A vida em geral faz com que alguns objetivos sejam postos com mais ou menos intensidade em determinados momentos, objetivos que podem ser desde conseguir aquela nota para passar numa matéria ou cumprir uma tarefa de sua militância até se sentir bem consigo mesmo e ser aceito socialmente.

As vezes tentar o máximo e não conseguir atingir tal objetivo acontece e está tudo bem. Falhar faz parte, em busca dos objetivos que são colocados, erros podem acontecer, falhas podem aparecer e isso faz parte, quem nunca errou ou diz que sempre acertou em tudo está mentido. Está tudo bem em dizer que ainda se está trabalhando nessa ou naquela questão, entretanto, aqui entra um tópico importante, o papel dos outros nesse processo de entender que as falhas fazem parte do cotidiano e que trabalhar sob elas é não é algo fácil que se faz rapidamente.

A fera que gritou “eu” no coração do mundo

O atual sistema econômico que predomina em nosso planeta, o capitalismo, é marcado por um constante processo de mercantilização e individualização de todos os aspectos da vida, se antes o sujeito podia ter uma certa apropriação do que ele produzia, hoje em dia isso deve ser impensável e impraticável. Pela lógica dominante, que é martelada cotidianamente nos mais variados meios, todos os espaços criados pelos e para os seres humanos devem entender que ele é um ser único e responsável pelo seu próprio destino, isolado dos outros, com uma suposta igualdade para conseguir competir com seus semelhantes e realizar seus objetivos.

A atual lógica de funcionamento desse sistema causa um evidente mal-estar sob aqueles que não conseguem cumprir com as diversas demandas que são apresentadas, tanto por aqueles que querem alcançar os padrões impostos pela sociedade, quanto aqueles que lutam contra esses padrões e são marginalizados ou relegados a inúmeras tarefas que os desgastam e esgotam, fisicamente e mentalmente.

Assentada sob uma realidade material em que a produção de mercadorias determina tudo que rege a vida das pessoas, a vida humana se norteia por princípios que colocam o lucro acima de qualquer outra coisa, o ser humano é alienado de suas capacidades e de tudo que tem possibilidade de fazer, neste momento, a citação abaixo de Karl Marx no livro Manifestos Economicos-Filósoficos faz todo sentido:

Quanto menos você come, bebe e lê livros; quanto menos você vai ao teatro, ao baile, à discussão pública; quanto menos você pensa, ama, teoriza, canta, pinta, se exercita, quanto mais você poupa – quanto maior se torna seu tesouro que nem traças nem a poeira podem devorar… Menos você é, mais você tem; quanto menos você expressa sua própria vida, maior é sua vida alienada – maior o estoque do seu ser alienado”.

Com o capital tomando esse protagonismo enorme nas relações sociais, acontece um processo de humanização das coisas, aquilo que é produzido toma caracteristicas antes humanas, presentes equivalem a sentimentos, ter algum produto diz quem você é, as mercadorias controlam a vida das pessoas e como elas vão se relacionar. O trabalho, atividade pela qual os seres humanos interagem com a natureza e a modificam, nesse sistema não pertence inteiramente também a quem produz, fazendo com que essa atividade se torne estranha, pois pertence a outro, aquele que paga por esse trabalho, explora o sujeito e se apropria das riquezas dele. O trabalho se torna alienado ao ponto que para se sentir realmente humano, o homem deve conseguir cumprir apenas as suas funções vitais mais instintivas, como dormir, descansar, beber e comer, sendo essas atividades a finalidade de sua existência, podando qualquer criatividade e imaginação, um processo de animalização do homem ocorre. O ser humano se perde em si mesmo.

A subjetividade humana é moldada para que essa lógica individualista e alienada seja internalizada na pessoa, fazendo com que ela coloque todo o peso do mundo sobre si mesma, fazendo com que várias cobranças do que ela fez ou não fez partam apenas de uma análise singular, sem levar em conta diversos fatores e a possível cooperação de outras pessoas, camaradas, familiares, amigos e colegas para a resolução dos vários problemas que acometem sob o sujeito.

Heráclito estava certo

Porém o ser humano não é um animal individualista por natureza, muito menos egoísta ou cegamente ambicioso, ao que tudo indica, por muito tempo o que regia as ações humanas era um senso de cooperação e altruísmo, até que, por razões históricas, como o surgimento de  grandes instituições como a Igreja e o Estado, junto a acumulação de riqueza por poucos e outras determinações esse senso foi se corrompendo. O que vivemos hoje tem razões históricas e socias concretas para ser deste modo, podendo ser modificado, algo que de fato já aconteceu diversas vezes na história humana. A mudança é possível.

Assim como nunca podemos entrar num rio exatamente igual duas vezes, pois as águas que passam por ele se movem, devemos compreender que a partir das diversas experiências que adquirimos conseguimos entender mais e mais quem somos e como podemos superar nossos erros, entendendo que nunca somos os mesmos após a realização de uma atividade ou até mesmo a tentativa desta.

A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na rarefeita dialética entre o não ser e o ser outro“, é o que diz o históriador e crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, mas o que significa isso meu caro leitor? Significa que para alcançarmos a nossa expressão mais autêntica, expressar aquilo que de fato somos, devemos andar nessa tênue linha entre não deixar de ser quem somos até o momento, não sermos nada e não procurar somente em outro a nossa autenticidade, não imita-los, mas sim, se refletir no outro e procurar avançar junto com o próximo em prol de uma auto-realização mútua, sem tirar vantagens ou proporcionar privilégios.

A realidade não é estática, tudo se movimenta, com suas contradições e suas sínteses, o tempo flui e tudo muda, essa certeza é algo que pode dar um certo conforto quando não vemos saída alguma para a situação que estamos lidando. O tema deste texto é o ato de falhar e toda as falhas trazem isso, frustrações, marcas, experiências, coisas que podem ser refletidas e pensadas sobre para numa próxima vez não cometer o que não deu certo ou conseguir com a ajuda de outros superar a limitação antes dada.

É principalmente junto aos outros que as potencialidades dos seres humanos conseguem se concretizar, nenhuma pessoa é uma ilha isolada, todas fazem parte de um todo e a solidariedade entre aqueles que estão nessa situação de constante mal-estar por não conseguirem se adequar a esta sociedade faz com que essas pessoas se sintam mais fortes, principalmente através de laços mais firmes.

Como o ouro que se purifica em contato com o fogo

A cada dia que passa, cada dificuldade enfrentada, cada obstáculo que aparece, aprendizados são feitos e é justamente nessa luta diária que evoluímos, nunca esquecendo que nesse caminho, sempre terão outros que trilharam algo parecido, que podem auxiliar e dar alguma orientação. Somos humanos e temos atributos que podem ser ou não impulsionados pelo meio em que vivemos, desde a compaixão até solidariedade pelo outro, como o ouro que se purifica em contato com o fogo, vamos construindo o nosso ser em meio as diversas dores, mas também alegrias.

Dizer que a atual situação é um inferno de certo modo é justo, realmente não é fácil viver num planeta em que valores e padrões tão mesquinhos são propagados o tempo todo, que as vezes faz você sentir que todos te odeiam, que não tem interesse em você, que não tem notam, mas algo diferente pode ser pensado e proposto, não é possível que deixemos nos adoecer sem fazer nada, que aceitemos as condições sem nenhuma indignação, o escritor italiano Italo Calvino proporciona uma boa reflexão sobre essa questão:

“O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: procurar e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.”

Esse reconhecimento daqueles que não são inferno é possível, existem várias pessoas dispostas a lutar por outro modelo de sociedade, por outro modo de se socializar e se realizar, existem pessoas que podem auxiliar aqueles em situações vulneravéis, abrir espaço nesse inferno para construir um futuro paraíso ou algo que busque ser isso ao menos.

De volta a frase que deu inicio ao texto “só não erra, quem não tenta“, acredito que ela demonstra de maneira bastante direta que para uma vida sem erros ou falhas, sem frustrações, é necessário que a pessoa fique basicamente parada numa posição, que ela aceite esse inferno. E o que trago com este texto é justamente a reflexão a partir da ideia de que está tudo bem em falhar um passo a mais pode ser dado, tentar já é um bom início, errando, aprendendo e seguindo, fazendo o melhor que você pode nas circunstâncias que são dadas. As vezes não se consegue atingir aquilo, porém é preciso levar em conta que vários fatores podem ser levantados para que tal coisa não acontecesse, nunca colocando todo o peso do mundo sobre si mesmo.

Apesar de tudo, você chegou aqui, você fez o seu melhor com o que pode, você não está sozinho. Quem faz pouco erra pouco, quem faz muito erra muito, porém só aquele que não faz nada, nunca erra e o que seria vida sem errar e aprender?

Refêrencias

CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

GOMES, P. E. S. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1966.

MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos [1844]. Trad. br. Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004.

Apêndice:

Existe uma canção de Marcelo Jeneci que pode dar um significado maior a este texto, sempre que ouço ela sinto uma calma e uma sensação forte de entendimento do que significa estar imerso nesse mar de pessoas, concordo com a música quando diz que somos feitos feitos para acabar e que também somo feitos para caber nesse mar.

Deixo por último o poema “Pedagogia das Quedas” de Mauro Iasi, republicado recentemente no livro “Metamorfases” e que diáloga bastante com o presente texto:

Há aqueles que caem e não se levantam,
passam a fazer parte da terra
deitam-se, minerais, entre pedras e raízes
e dormem o sono dos ausentes.

Mas há aqueles que quando caem
buscam no solo fértil novas energias,
buscam as raízes, reencontram as sementes,
abraçam o planeta e bebem os rios.

Nunca estão sós,
nem mesmo no vazio da noite e da espera,
pois lhe encontram multidões de mãos companheiras
de todos os sonhos aprisionados

de toda a fome não saciada
de toda a terra não repartida
de toda a fúria contida
de todo futuro adiado

Há aqueles que quando caem não se levantam,
mas há aqueles que se levantam ainda mais fortes,
mais fortes que as derrotas,
mais fortes que as vitórias vazias,

mais fortes do que toda a força
que a aurora em vão adia

Um comentário em “O Peso do Mundo: Reflexões acerca do ato de Falhar

  1. Encontrei esse texto em um momento muito oportuno!!

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