O declínio do Partido dos Panteras Negras: Entre Concessões e Contradições

Tradução do décimo quinto capítulo do livro “Blacks against Empire: The History and Politics of the Black Panther Party” (Pretos contra o Império: A História e Política do Partido dos Panteras Negras) de Joshua Bloom e Waldo E. Martin, lançado em 2013. O livro é resultado de uma pesquisa de vários anos que contou com entrevistas a antigos membros do Partido, consulta a todos os jornais do Partido e uma profunda pesquisa histórica sobre o contexto político do surgimento e declínio do Partido dos Panteras Negras.

Neste capítulo, os autores demonstram os principais motivos pelos quais o Partido dos Panteras Negras entrou em declínio, identificando a perda de apoio interno e externo, as divisões ideológicas no Partido, as dificuldades de disciplina e organização, tudo em meio enorme repressão enfrentada.

Todos os créditos a equipe de tradução do livro, da qual o TraduAgindo compõe e apoia.


Ruptura

Em 15 de novembro de 1969, o chefe de gabinete dos Panteras Negras David Hilliard subiu ao palco em São Francisco na mobilização da Costa Oeste contra a guerra do Vietnã. Como líder sênior Pantera que estava fora da prisão ou exílio, Hilliard era novo no comando do Partido Nacional, tendo assumido o cargo, quando Bobby Seale foi preso em agosto. Na audiência, mais de cem mil pessoas reunidas em um protesto pela paz – o maior protesto já ocorrido na Costa Oeste até aquela data. Simultaneamente, duzentos e cinquenta mil manifestantes reuniram-se no Monumento de Washington, o qual, segundo o New York Times, foi o maior protesto realizado na capital estadunidense – incluindo a marcha de 1963 em Washington por Emprego e Liberdade. As multidões incluíam muitos jovens radicais que haviam se mobilizado contra o serviço militar obrigatório e passaram a se engajar pelo anti-imperialismo e pela a revolução. Mas ao contrário das ações anti-guerra menores e mais radicais dos anos anteriores, essas multidões também incluíam uma grande parcela de moderados – que empunhavam bandeiras americanas e expressavam polidamente seu desejo pela paz. Uma variedade de políticos Democratas eleitos participou nas mobilizações deste dia, incluindo os Senadores Eugene McCarthy e George McGovern, e o prefeito de São Francisco, Joseph Alioto.

Quando chegou a vez de Hilliard discursar, ele disse aos ouvintes que suas bandeiras americanas eram símbolos do fascismo. Sentindo-se em ambiente estranho, ele gritou, nervoso e provocador: “Nós dizemos: abaixo a sociedade americana fascista! Abaixo Richard Milhous Nixon, aquele filho da puta.” Parte dos ouvintes vaiou e Hilliard foi ainda mais longe: “Vamos matar Richard Nixon… Vamos matar qualquer filho da puta que impeça nosso caminho para a liberdade!”. Grande parte da multidão reagiu com coros por “Paz! Paz! Paz!” e até mesmo vaiou Hilliard até que ele deixasse o palco, uma experiência que sem dúvidas formataria suas preocupações como líder do Partido nos meses seguintes.

Por trás da maneira áspera com que Hilliard lidou com a multidão naquele dia há uma contradição mais profunda que eventualmente destruiria o Partido dos Panteras Negras. A política revolucionária de autodefesa armada do partido contra o Estado havia os impulsionado a nível nacional e ganhado influência política significante, mas, no final de 1969, e, cada vez mais nos anos 70, concessões políticas feitas pelo establishment político para o seu eleitorado chave corroeram as bases de aliados que apoiavam as políticas dos Panteras Negras.

National Captain David Hilliard, Chief of Staff of the Black Panther Party,  Free Huey Rally, Bobby Hutton Memorial Park, Oakland, CA, #41 from A  Photographic Essay on The Black Panthers — Calisphere
David Hilliard.

EXPURGOS

Manter aa disciplina e a proteção da reputação do Partido sempre foi um desafio. Em 19 de novembro de 1968, enquanto usava um caminhão de entregas do jornal Pantera Negra claramente identificado pelas logomarcas dos Panteras Negras pintadas nas laterais, William Lee Brent colocou um frentista em um posto de gasolina sob a mira de uma arma, roubando-lhe oitenta dólares. Sete outros Panteras estavam no carro, mas Brent agiu sozinho. Quando a polícia parou o veículo, Brent saltou e atirou nos oficiais, ferindo três.

Em organizações não-insurgentes, leis e costumes estabelecidos são aceitos e amplamente respeitados. Manter a coerência organizacional pode ser desafiador, mas transgressões a leis e costumes geralmente estão fora da responsabilidade organizacional. Entre organizações insurgentes como o Partido dos Panteras Negras, leis e costumes eram vistos como opressivos e ilegítimos. Insurgentes veem seu movimento acima das leis e costumes, a materialização de uma moralidade maior. Como resultado, definir tipos de transgressão aceitáveis, e manter disciplina no limite dessas restrições com frequência apresenta um desafio sério para organizações insurgentes, como o Partido dos Panteras Negras. Que tipos de violações às leis e costumes são consistentes com a visão e as metas da insurgência? Quando William Lee Brent assaltou o posto de gasolina e atirou em três policiais, ele estava claramente quebrando a lei. Mas ele estava agindo como um revolucionário ou como um renegado da revolução?

Imaxe
William Lee Brent no centro da imagem, após ser expulso do Partido roubou um avião e se exilou em Cuba até a sua morte.

Desde o início da história do Partido, a organização se emaranhou com estas questões, estabelecendo para seus membros regras de conduta específicas que serviriam aos interesses políticos dos Panteras e ameaçando expulsar qualquer um que as desafiasse. No início de 1968, em resposta às politicamente vergonhosas invasões da polícia às casas dos Panteras Negras sem mandados legais, Newton emitiu a Ordem Executiva N.º3 determinando que os membros defendessem suas casas contra invasões ilegais e que qualquer membro que falhasse em fazê-lo “seria expulso do partido permanentemente”. [4]

Até o outono de 1968, na medida em que o Partido se tornava uma organização nacional, ele precisava administrar as ramificações políticas de ações empreendidas por filiados frouxamente organizados através do país. O Comitê Central em Oakland codificou dez Regras do Partido dos Panteras Negras e começou a publicá-las em cada edição do Pantera Negra. Essas regras estabeleciam perspectivas de disciplina básica, advertindo especialmente contra violência aleatória que poderia ser desestabilizadoras ou politicamente vexatórias. Elas proibiam o uso de narcóticos, álcool ou maconha enquanto atividades do Partido estivessem sendo conduzidas ou enquanto algum membro portasse armas. O Partido insistia para que os Panteras usassem as armas apenas contra “o inimigo” e proibia furtos contra outras “pessoas Negras”. Mas elas permitiam violência revolucionária disciplinada e especificamente a participação no clandestino e insurrecional “Exército da Libertação Negra”. [5]

A tentativa de roubo de Brent ocorreu por volta de um mês depois da publicação dessas regras pelo Comitê Central. Não apenas ele agiu sem o consentimento dos líderes do Partido, como a ação foi politicamente vexatória para os Panteras porque pareceu que o próprio Partido estivesse orquestrando crimes apolíticos – e executando-os mal. O Comitê Central convocou uma coletiva de imprensa para condenar Brent e expulsá-lo do Partido: “William Brent, que alegadamente cometeu um assalto à mão armada no valor de $80,00 em nosso caminhão de distribuição de jornais é por nós considerado tanto um agente infiltrado quanto um homem louco”. O Comitê Central afirmou ainda, mais genericamente, “O Partido dos Panteras Negras não defende gangues de bandidos itinerantes, bandidos que roubam postos de gasolina e bares. Qualquer membro que violar as regras do Partido dos Panteras Negras está sujeito à expulsão sumária”.

Ao mesmo tempo, o Comitê Central expandiu as Regras do Partido dos Panteras Negras e publicou o novo conjunto de vinte e seis regras no Pantera Negra de 4 de janeiro de 1969. A maior parte das novas regras enfatizava a prestação de contas organizacional, especialmente uma prestação de contas programática, ideológica e financeira ao Comitê Central: “Todos as filiais devem aderir à política e à ideologia estabelecida pelo Comitê Central do Partido dos Panteras Negras”. [6] Eles estipularam que “todos os oficiais financeiros trabalharam sob a jurisdição do Ministério das Finanças”. Para se manter informado sobre as atividades locais, o comitê também determinou que “todas as filiais devem submeter relatórios semanais por escrito à Sede Nacional”. [7]

Em Janeiro de 1969, para administrar o rápido crescimento do Partido e restringir ações apolíticas dos novos membros, o Comitê Central congelou os recrutamentos. Em 12 de janeiro, Bobby Seale disse à imprensa: “Nós temos agora 45 [seções]… Nós não estamos recebendo nenhum novo membro pelos próximos três a seis meses… Nós estamos se concentrando em nosso interior para fortalecer a segurança, [para] nos livrarmos dos agentes e infiltrados e para promover educação política entre aqueles que se juntaram aos Panteras mas que ainda não entendem sobre o que somos.” [8]

O Partido dos Panteras Negras derivou seu poder largamente das ameaças insurgentes que foram apresentadas pela ordem estabelecida – sua habilidade para atrair membros que eram preparados para desafiar fisicamente a autoridade do estado. Mas esse poder também dependeu da capacidade de organizar e disciplinar estes membros. Quando os Panteras provocavam a autoridade do Partido, agiam contra sua posição ideológica ou se engajavam em atividades criminosas apolíticas, suas ações enfraqueceram o Partido, não menos aos olhos de potenciais aliados. Os Panteras não podiam levantar fundos, obter assistência jurídica, mobilizar apoio político ou mesmo vender jornais a muitos de seus aliados se fossem percebidos como criminosos, separatistas ou agressivos, incompetentes indisciplinados. A sobrevivência do Partido dependeria na sua coerência política e disciplina organizacional.

Com o crescimento do Partido nacionalmente e o aumento de conflitos com o estado em 1969, manter disciplina e imagem de coerência política ficou mais desafiador. A tensão entre o anti-autoritarismo de membros em seções desiguais e a necessidade para o Partido avançar com uma visão política coerente aumentou. Uma das principais ferramentas para manter a disciplina – tanto de membros individuais quanto de seções locais esperadas a conformar diretivas do Comitê Central – era a ameaça de expulsão.

Até a primavera de 1969, o indivíduo com maior responsabilidade à tendência da imagem política do Partido era David Hilliard. Com Huey Newton na cadeia, Eldridge Cleaver em exílio e Bobby Seale em alta demanda como orador público, Hilliard gerenciava as operações diárias do Partido. Suas responsabilidades somente aumentaram quando Seale foi preso em agosto. Hilliard pessoalmente carregou muito o fardo de manter a disciplina do Partido.

Em uma entrevista sobre o Nova Iorque 21 em april de 1969, Hiliard procurou proteger a imagem da seção de Nova Iorque e o Partido, desafiando a noção de que os Panteras nova iorquinos haviam planejado explodir lojas de departamentos: “É absurdo pensar que uma organização com a magnitude do Partido dos Panteras Negras, com cerca de 40 seções neste ponto, arriscaria a destruição de uma de nossas seções mais revolucionárias, uma de nossas seções mais organizadas, para perambular falando sobre explodir lojas de departamento. É algo que nosso Comitê Central não endossa. É apenas mais uma mentira”. [9]

Hilliard explicou a importância do expurgo para manter a disciplina do partido: ”Nós nos relacionamos ao que Lênin disse, ‘que um partido que expurga a si mesmo cresce mais forte’. Purgar-se é bom. Você reconhece que há uma distinção dentre a base do partido, na própria estrutura interna do partido. Então o fato de que você expurga é bom, fortalece o partido… Você se torna mais forte, como uma fortaleza… Nossas portas não estão abertas a qualquer um que decida que deseja se juntar ao nosso partido.” [10] Mais tarde, naquele mesmo ano, em uma entrevista em exílio, Eldridge Cleaver ecoou aquelas ideias, explicando a necessidade dos expurgos:

Uma coisa que é importante, um monte de gente não entende porque muita gente foi expurgada do partido. Durante o período no qual Huey Newton estava indo para a audiência, por causa da necessidade de mobilizarmos a maior quantidade de gente o possível, começamos a sair filiando as pessoas… Para que maximizássemos o número de gente, nós não iriamos argumentar com as pessoas se elas colocavam jaquetas de couro pretas ou boinas pretas, ou falassem que faziam parte dos Panteras. Eles apenas entravam em um comitê e falavam que davam apoio a Huey Newton e queriam se juntar à nossa organização. Nós não tínhamos tempo para conduzir aulas de educação política… Eles provaram ser indisciplinados… e nós fomos muito duros. [11]

Tanto o Partido teve expansão em 1969 e 1970, quanto os conflitos entre as ações dos membros de seções locais através do país, assim como a identidade política do Partido –  cuidadosamente tosada pelo Comitê Central. Quando membros violavam a disciplina, os líderes do Partido com frequência os expulsavam e publicavam as expulsões no periódico Pantera Negra. Uma amostra de alguns desses expurgos provêm um senso dos contínuos esforços do Partido nacional a restringir indisciplinados, vexatórios e ações contra-revolucionárias pelos membros nas seções pelo país:

  • Em fevereiro de 1969, o Partido publicou uma declaração de John Huggins depois da sua morte na qual declarou, “O Partido dos Panteras Negras, seção da Califórnia do Sul, em conformidade com a diretiva do Comitê Central dos Panteras Negras, mudou-se para purgar desta seção fileiras de agentes infiltrados, loucos e tolos gananciosos.” [12]
  • Em março, o Partido expulsou 38 membros do filial de Leste Oakland, listando cada um pelo nome. O Partido purgou 26 membros do filial de Vallejo, listando-os pelo nome e acusando-os de serem “renegados, contra-revolucionários e traidores.” [13]
  •  Em abril, logo depois do assassinato de Rackley, o Partido expulsou um Pantera de Connecticut por suspeita de ser um infiltrado. [14]
  •  Em maio, o Partido expulsou um membro de Chicago por falar em nome do Partido sem autorização. [15]
  • Em junho, o Partido expulsou dois membros por colaborarem com a investigação do Senado sobre os Panteras, e purgou três membros do ramo de Harlem. [16]
  • Em julho, o partido purgou Chico Neblett, um marechal nacional de campo do Partido, e 16 outros membros da seção de Boston. O partido deu a seguinte justificativa: “Um bando de idiotas nacionalistas culturais liderados por Chico Neblett tentou minar a revolução do povo. Estes contra-revolucionários com cérebros-de-ervilha tentaram ir contra os ensinamentos do ministro da defesa e assumir poder no ramo de Boston dos Panteras Negras. Eles falharam em sua tentativa e foram eliminados do partido. Chico se juntou ao Partido com outro lambedor de botas Stokely Carmichael… falando sobre alguma loucura que ele chamou de pan-africanismo… Ao ir contra os ensinamentos de Huey P. Newton, Chico disse, “foda-se o povo, foda-se o partido e a libertação completa dos negros aqui na América fascista.” [17]
  • Em agosto, o Partido expulsou um Pantera de Denver por ameaçar outros membros do Partido. [18]
  • Nos meses seguintes, o Partido expulsou mais três  membros de Leste Oakland “devido aos seus pontos de vista individualistas e aversão à disciplina.” O Partido também expulsou um membro de Chicago porque ele “se negou a aderir à disciplina organizacional.” e ejetou dois membros do ramo de Harlem por “desvio” e “mostrar um desrespeito pelos princípios que orientam nosso partido.”

CONCESSÕES

A resiliência da política dos Panteras Negras dependia fortemente do apoio de três grandes círculos: negros, opositores da guerra ao Vietnã, e governos revolucionários internacionais. Sem o apoio desses aliados, o partido dos Panteras Negras não poderia suportar ações repressivas contra eles por parte do estado. Mas a partir de 1969, e aumentando cada vez mais durante 1970, transformações políticas minaram os próprios interesses que motivaram esses públicos a apoiarem a política dos Panteras. Como os líderes democratas do grosso da população se opuseram à guerra e Nixon reduziu o alistamento militar, negros ganharam acesso social mais amplo e representação política, e governos revolucionários entraram em relações diplomáticas com os Estados Unidos, os Panteras tiveram maior dificuldade em manter o apoio dos seus aliados.

Primeiramente, grandes concessões por parte do establishment político e da administração Nixon em relação a guerra do Vietnã corroeram a base de sustentação dos adversários de guerra para a política dos Panteras. Na desastrosa convenção de Chicago em Agosto de 1968, a liderança do partido Democrata tinha empurrado um candidato pró-guerra e uma plataforma pró-guerra contra a vontade da base do partido Democrata e perdeu a presidência do país como resultado. Mas, desde então, a liderança do partido Democrata tinha pedido cada vez mais um fim à guerra do Vietnã. Em uma convenção política organizada pelo Presidente Nacional do partido Democrata Fred Harris em 26 de setembro de 1969, cerca de 12 senadores e 12 deputados americanos traçaram uma estratégia para “forçar um confronto com a administração Nixon que poderia levar à retirada de todas as tropas americanas do Vietnã.” A convenção decidiu pressionar por uma resolução congressista endossando a “moratória” do movimento anti-guerra por todo o país organizados para 15 de outubro e considerou a tentativa de impedir que o senado se reunisse naquele dia como um gesto de solidariedade com os manifestantes. Em 6 de outubro, na preparação para os protestos de 15 de outubro, um comitê bipartidário revelou uma resolução co-patrocinada por 108 membros do congresso estadunidense, cerca de um quarto da Câmara dos Deputados, pedindo a retirada das tropas do Vietnam. [21] Em 9 de outubro, 17 senadores e 47 deputados enviaram uma carta aberta ao Comitê Moratório Vietnamita endossando o protesto nacional anti-guerra que estava por vir.

Richard Nixon respondeu dramaticamente ao crescente consenso anti-guerra. Eleito presidente em 1968 em uma plataforma de “Lei e Ordem,” ele prometeu tanto reprimir as rebeliões anti-guerra nas ruas quanto acabar rapidamente com a guerra no Vietnã e trazer as tropas para casa. No ofício, ele prometeu a “vietnamização” da guerra, transferindo a responsabilidade da guerra para os aliados dos EUA no Vietnã, permitindo a retirada gradual das tropas americanas. Mesmo quando Nixon aumentou a repressão dos ativistas domésticos, ele fez bem em sua promessa de acalmar a guerra. Quando tomou posse em janeiro de 1969, o número de soldados americanos estavam no auge, com mais de 540.000 militares no Vietnã. No primeiro ano da sua presidência, 12.214 soldados americanos foram mortos lá. Mas por volta de 1970, havia cerca de 475.000 soldados americanos no Vietnã, e 4.221 soldados foram mortos naquele ano, cerca de um terço do número de mortos no ano anterior. Até o final de 1971, os níveis de tropas tinham mergulhado abaixo de 160.000 com 1.381 soldados norte-americanos mortos, cerca de um nono do número em 1969.

Talvez até mais importante, Nixon reduziu drasticamente o projeto militar que havia motivado muitos jovens a abraçar anti-imperialismo revolucionário. As induções do projeto militar da guerra do Vietnã atingiram o pico nos fins dos anos 1960, com mais de 225.00 soldados induzidos a cada ano desde 1965 até 1969. A administração Nixon induziu menos que 165.000 soldados novos em 1970 e menos que 95.000 soldados em 1971. Até então, a maioria dos americanos abraçou argumentos contra a guerra. No entanto, enquanto Nixon completava seu processo de acalmar a guerra, as pessoas tinham menos razão para abraçar a política anti-imperialista que tinha gerado o movimento anti-guerra – contribuindo à moderação do movimento anti-guerra, mesmo à medida que crescia. Ao aparecer que a guerra acabaria através de meios institucionalizados, aqueles principalmente comprometidos em acabar com o projeto e guerra já não tinham um interesse pessoal em transformar radicalmente as instituições políticas. Muitos, agora cada vez mais, viram a chamada dos Panteras para a revolução como desnecessário.

De 1969 em diante, aumentando o número de representatividade eleitoral, assim como programas de cotas raciais, o crescente acesso à empregos governamentais e educação de elite enfraqueceram as bases de suporte para as políticas revolucionárias dos Panteras entre os negros. Do final da Reconstrução (1877) até 1969, não mais do que seis negros ocupavam cargos na Câmara dos Deputados (U.S. House of Representatives) de uma só vez. Mas apenas dois anos mais tarde, a representação negra mais do que dobrou, contando com treze membros em cadeiras na Câmara dos Deputados em 1971. O número continuou a crescer durante a década, atingindo a 18 cadeiras em 1981e mais de 40 cadeiras hoje em dia. 25. Seguindo o desastre na convenção do partido Democrata em Chicago em 1968, o partido Democrata obteve acesso a ativistas eleitorais negros e reformou o processo de indicações com a Comissão de McGovern-Fraser. A representatividade negra entre delegados de partidos mais do que dobrou em 1972 para cerca de 15%. [26] A representatividade eleitoral negra cresceu genericamente no início dos anos 70. De maneira que em março de 1969, 1.125 negros ocupavam cargos políticos nos Estados Unidos, e até maio de 1975, o número havia mais do que triplicando, passando a ser 3.499. Este número incluiu 281 negros em cargos legislativos ou executivos, 135 prefeitos, 305 executivos de condado, 387 juízes e policiais eleitos, 939 membros eleitos do ministério da educação, e 1.438 pessoas em outros cargos eletivos no governo municipal. [27] Durante este período, uma variedade de organizações negras radicais decidiu trabalhar em direção a um programa eleitoral negro unificado que cruzaria o espectro político. Essa noção foi promovida na convenção nacional política negra de 1972 em Gary – o que o cientista político Cedric Johnson chamou de “casamento forçado das aspirações radicais do Black Power com os modos convencionais de política. Enquanto as declarações programáticas da convenção incluíam uma retórica radical, o principal resultado político foi para ajudar a estabelecer “políticos” negros e moderados… como os principais agentes de raça no contexto pós-segregação.” [28]

Enquanto o establishment liberal procurava corrigir o radicalismo negro através da despesa social, pelo aprofundamento do programa Great Society de Johnson e pela facilitação a expansão da representação eleitoral negra, o Presidente Nixon intensificou a repressão do governo a radicais negros. Mas mesmo o presidente republicano e direitista tentou apelar aos negros moderados, trazendo-os mais para a classe média por ampliar as oportunidades de serviços públicos e por expandir as cotas raciais. Nixon tinha defendido por muito tempo os programas de emprego como uma maneira de corrigir o radicalismo negro. No verão de 1967, após as rebeliões grandes em Newark e Detroit, Nixon tomou a posição de que “empregos são a questão principal” em inquietação racial. Em 1969, seu primeiro ano de mandato, Nixon conseguiu passar a primeira política federal de cotas raciais, o “Plano da Filadélfia”, que estabeleceu cotas explícitas, determinadas pelo governo para a contratação de negros e outras minorias em projetos de construção financiados pelo governo federal.

Também durante este período, muitos colégios predominante brancos e universidades de alta qualidade expandiram matrículas de negros e outros estudantes parte de minorias. Estas instituições também desenvolveram programas de estudos negros na maré dos protestos nos campus. Estudiosos documentaram o papel crucial dos ativistas dos Panteras Negras no Colégio Estadual de San Francisco em fomentar o movimento nacional. Eles também apontaram a importância do papel de filantropos ricos – especialmente a Fundação Ford – na formação de programas de estudos negros como meio de controle social. Enquanto menos de 5% de pesquisas universitárias proviam programas de estudos negros em 1967, em 1971 mais de 35% o provia. [31]

O aumento na representação eleitoral, contratações governamentais, cotas raciais e reformas no acesso em escolas e universidades e programas de estudos concedeu aos negros maiores canais institucionais para participar na sociedade e política americana. Esse aumento ao acesso para as principais universidades rebaixou as bases para o suporte dos negros nas políticas dos Panteras.

Ao mesmo tempo que o clima doméstico estava mudando, a base internacional de apoio ao Partido dos Panteras Negras começou a contrair com a abertura de relações diplomáticas com governos revolucionários pelo mundo. O auxílio chinês a uma delegação dos Panteras Negras em 1970 e as altas honras estatais demonstradas a Huey Newton durante sua visita em 1971 indicaram a extensão do suporte global do Partido. Porém, abaixo do simbolismo da superfície, a visita de 1971 também indicou que fundações de apoio global às políticas revolucionárias dos Panteras estavam na melhor das hipóteses, abaladas. Mais cedo naquela primavera, a China havia acolhido o time profissional de tênis de mesa dos Estados Unidos, dando origem ao popular termo da “diplomacia ping-pong”. A visita patrocinada pelo estado de Newton à China sucedeu a visita de Henry Kissinger e veio em meio ao planejamento para uma visita do próprio presidente Nixon. Durante um evento em homenagem a Newton e os Panteras, o premiê Zhou Enlai relevou a importância da diplomacia ping-pong ao governo chinês atribuindo ao próprio Mao Zedong – presidente do Partido Comunista Chinês e líder mais alto da política chinesa. Zhou disse que a China estava pronta para negociar com os Estados Unidos ou lutar contra ele, conforme o caso. [32] Aparentemente o apoio chinês aos Panteras era parte de políticas simbólicas planejadas para enviar a mensagem de Zhou aos Estados Unidos. Como as relações sino-americanas melhoraram nos 1970, o apoio da China aos Panteras evaporou.

Huey Newton meets with Zhou Enlai in Beijing: 1970 | Flickr
Zhou Enlai e Huey P. Newton.

O suporte argelino aos Panteras também enfraqueceu com a melhora das relações com os Estados Unidos. O governo estadunidense reconheceu a independência argelina em 1962 e estabeleceu relações diplomáticas. Mas a Argélia rompeu essas relações diplomáticas em 1967, após a Guerra árabe-israelense. Enquanto desafiava a hegemonia geopolítica dos EUA, a Argélia se tornou um importante local de apoio aos movimentos de independência em toda a África e para o mundo na década de 1960. Mas as relações econômicas com os Estados Unidos continuaram e o governo dos EUA mantiveram uma Seção de Interesses através da embaixada suíça na Argélia. Quando Eldridge e Kathleen Cleaver chegaram na Argélia em 1969, as companhias petrolíferas americanas e seu pessoal já estavam fortemente envolvidos na indústria petrolífera argelina. Os Panteras receberam apoio do governo argelino, mas com o contexto geopolítico mudando, a sua situação nunca foi segura. Mesmo antes de o governo argelino conceder aos Panteras status diplomático formal e uma embaixada na Argélia, um funcionário da Argélia disse aos Cleaver que a Argélia iria eventualmente retomar as relações diplomáticas com os Estados Unidos. Na década de 1970, as relações argelinas com os Estados Unidos melhoraram e o apoio aos Panteras deterioraram. Em 1972, a Argélia encerrou o status diplomático dos Panteras e os expulsou do país. Assim, enquanto os Panteras beneficiaram-se de um forte apoio da Argélia como um movimento de libertação externa de 1969 até 1971, a situação geopolítica mudou rapidamente dissolvendo esta relação. [33]

O apoio cubano para os Panteras Negras também mudou durante a segunda metade dos anos 1960. Quando Eldridge Cleaver fugiu para Cuba como um exilado político no final de 1968, Cuba não só forneceu sua passagem e segurança, mas prometeu criar um centro de treinamento militar para o partido em uma fazenda abandonada nos arredores de Havana. Esta promessa foi consistente com o papel mais ativo que Cuba teve no apoio à luta para a libertação negra nos Estados Unidos na década de 1960, quando patrocinou a transmissão do programa de rádio insurrecional de Robert Williams “Radio Free Dixie“, bem como a publicação de seu jornal, The Crusader, e seu livro “Negros Armados“. Mas, como a maré da revolução mudou globalmente até o final da década, as preocupações com sua segurança assumiram maior prioridade na política cubana. Para evitar provocar uma retaliação dos Estados Unidos, Cuba se distanciou da luta de libertação negra, continuando a permitir a entrada de exilados, mas abstendo-se de um apoio ativo da insurreição negra. O governo nunca abriu um campo de treinamento militar para os Panteras. Em vez disso colocou restrições sobre as atividades políticas dos Panteras exilados. [34]

Como os Estados Unidos reduziu a participação na guerra do Vietnã; reduziu-se o alistamento militar; melhorou-se o acesso político, educacional e o acesso à empregos para os negros; e melhorou as relações com governos previamente revolucionários no mundo todo, os Panteras Negras tiveram dificuldade em manter o apoio para a política que envolvia confronto armado com o Estado.

Mais confortável e seguro com a capacidade das instituições políticas tradicionais para aliviar as suas preocupações – especialmente o projeto militar – os liberais partiram para o ataque, desafiando a política revolucionária do Partido dos Panteras Negras. Em 14 de janeiro de 1970, o Partido realizou um levantamento de fundos na casa de Park Avenue de Leonard Bernstein, o laureado regente da Filarmônica de Nova York. A delegação Pantera foi liderada pelo Marechal de Campo Don Cox e incluiu membros das Panteras de Nova Iorque, esposas, e advogados do Partido. Cerca de noventa membros da alta sociedade de Nova York participaram, incluindo Cynthia Phipps, Otto Preminger, Sra. Agosto Heckscher, e, claro, Felicia e Leonard Bernstein. Os convidados discutiram a ideologia Pantera, e os Panteras arrecadaram $10.000 em doações. No dia seguinte, o New York Times publicou um relato devastador do evento pela editora da revista Charlotte Curtis em que ela ridicularizou Bernstein por sediar a reunião. [35] Tom Wolfe abordou a paródia em um destaque maior – de quase vinte e cinco mil palavras – publicado na revista New York. Em seu relato semi-ficcional, “Radical Chic”, Wolfe despolitizou o apoio do partido, retratando os Panteras Negras como malandros lucrando com suas credenciais de rua por atender aos sabores exóticos da elite super-estética. Em novembro, Wolfe republicou o artigo em forma de livro, acrescentando outra redação relacionada “Mau-Mauing the Flak Catchers“. [36]

Em fevereiro seguinte, o New Yorker publicou um longo artigo de Edward Jay Epstein questionando a veracidade de algumas das reivindicações dos Panteras quanto à repressão por parte da polícia, especificamente desafiando a ideia de que as mortes dos Panteras “representam um padrão de destruição sistemática.” Revendo as evidências disponíveis sobre confrontos violentos em que os Panteras tinham sido mortos, Epstein escreveu: “a ideia de que a polícia tenha declarado uma espécie de temporada aberta contra os Panteras Negras se baseia principalmente, tanto quanto eu posso determinar, no pressuposto de que todas as mortes Panteras. . . ocorreram em circunstâncias que eram semelhantes ao ataque Hampton-Clark. Esta é uma suposição que comprova, em exame, ser falso “. O papel do FBI na repressão nacional do Partido dos Panteras Negras, particularmente suas atividades COINTELPRO, não estavam disponíveis, então uma revisão detalhada de Epstein das evidências circunstanciais e sua conclusão foi de que não havia repressão coordenada ao Partido convincente. O argumento de Epstein foi amplamente citado na mídia e fez muito para minar o apoio aliado para os Panteras Negras. [38] David Frost convidou o advogado dos Panteras, Charles Garry para debater com Edward Epstein em seu show, onde Frost e Epstein uniram-se contra Garry para atacar suas reivindicações de repressões coordenadas aos Panteras.

O establishment liberal evitou tais ataques contra os Panteras quando o partido era uma pequena organização local. E tais cutucadas teriam encontrado menos ressonância em 1968 e 1969 em que rebeliões negras varreram cidades dos Estados Unidos e lideres políticos não ofereceram nenhuma compensação credível à corrente.  Mas os leitores liberais da New Yorker e New York Magazine eram muito mais aptos a abraçar a ridicularização do anti-imperialismo dos Panteras Negras, uma vez que seus filhos não estavam suscetíveis a serem lançados no alistamento militar e morrer no Vietnã.

Ironicamente, mesmo com ataques contra os Panteras pelo establishment liberal à todo vapor, o Partido atingiu o pico tanto em notoriedade, quanto em nível de apoio financeiro que recebeu de doadores. [40] Isso criou uma panela de pressão política. Ao mesmo tempo que o Partido estava se tornando cada vez mais dependente dos aliados, foi se tornando cada vez mais difícil manter um apoio amplo de suas políticas revolucionárias. O partido enfrentou cada vez mais pressão de potenciais aliados para defender a sua imagem.

CONTRADIÇÕES

As pressões contraditórias de manter o apoio de aliados cada vez mais complacentes, por um lado, e de continuar a política de auto-defesa armada contra a polícia, por outro lado, vieram à tona quando Huey Newton foi libertado. Em 5 de agosto, 1970, Newton foi libertado da prisão por uma tecnicalidade. Naquela altura, a grande maioria dos atuais membros dos Panteras Negras tinham aderido ao partido enquanto Newton estava na prisão, e quase todos tinham trabalhado para a sua libertação. A soltura foi uma vitória duramente conquistada, e dez mil pessoas se reuniram fora da cadeia do condado de Alameda para celebrar. Rodeada por um mar de adeptos, Newton subiu em cima da Volkswagen do seu advogado Alex Hoffman, um palco improvisado no sol quente. David Hilliard e Geronimo Pratt, os dois panteras mais influentes que não estavam na prisão ou no exílio naquele período, ficaram ao lado de Huey. O Chefe de Gabiente Hilliard, vestindo um longo casaco preto e óculos escuros, ficou atrás de Newton com os braços estendidos e orgulhosamente anunciou a liberdade de Newton para a multidão. Geronimo Pratt não tinha a classificação formal que Hilliard tinha, mas era amplamente reconhecido e respeitado. Ele era o vice-ministro da defesa e líder da seção de Los Angeles que tinha resistido com sucesso o ataque dos agentes policiais e federais oito meses antes. Vestindo um chapéu à moda antiga com abas, jaqueta escura e óculos escuros, ele examinou a multidão para identificar quaisquer ameaças à segurança de Newton. No calor do sol e o entusiasmo da multidão, Newton começou a suar. Em um gesto simbólico, significando sua libertação conquistada pelo povo, Huey tirou a camisa, mostrando seu físico malhado da prisão para seus apoiadores maravilhados. [41]

Huey Newton Released from Prison - The Berkeley Revolution - The Berkeley  Revolution
Huey P. Newton logo após ser liberto.

Muitos Panteras esperavam que Huey resolveria os desafios que o partido enfrentava e os guiaria com sucesso à revolução. Mas a sua libertação teve o efeito oposto, exacerbando as tensões dentro do Partido alguns membros dos Panteras levaram a longa espera da libertação de Huey como um prelúdio à vitória e uma licença à violência, e seu militarismo agressivo se tornou mais difícil de conter. Organizativamente, o Partido tinha crescido exponencialmente em nome de Newton, mas na realidade foi sob a direção de outros líderes. Sua libertação forçou uma reconfiguração de poder no partido.

Paradoxalmente, a liberação de Newton também tornou mais difícil para o partido para manter o apoio de aliados mais moderados. Ele enviou uma forte mensagem para muitos moderados que – contrária à famosa frase de Kingman Brewster três meses antes, um revolucionário negro poderia receber um julgamento justo nos Estados Unidos. A esquerda radical viu um progresso revolucionário em ganhar a liberdade de Huey, mas muitos aliados moderados viu menos razão para a revolução.

Assim que Newton saiu da prisão ele apresentou uma visão altamente militarizada e insurrecional para o Partido. Em uma entrevista cerca de uma semana após a sua libertação, ele declarou:

O nosso programa é a luta armada. Nós temos nos ligado às pessoas que estão se levantando em todo o mundo com armas, porque nós sentimos que apenas o poder das armas destruirá a burguesia e transformar o mundo… Eu acho que [a inspiração mais importante para os Panteras Negras é] não só Fidel e Che, Ho Chi Minh e Mao e Kim Il Sung, mas também todos os grupos de guerrilha que têm vindo a operar em Moçambique e Angola, e as guerrilhas palestinas que estão lutando por um mundo socialista… Os guerrilheiros que estão operando na África do Sul e muitos outros países têm tido grande influência. Nós estudamos e vamos seguir seus exemplos. Nós estamos muito interessados na estratégia que está sendo usada [por Carlos Marighella] no Brasil, que é uma área urbana, e nós planejamos nos basear nela. [43]

Não importa o quão romântica deve ter sido a analogia entre o Partido dos Panteras Negras e os grupos de guerrilha fora do país, ou a defesa de ações guerrilheiras, o Partido nunca organizou diretamente uma guerrilha em estado de guerra. Ao contrário da situação no Vietnã ou em Cuba, a guerrilha nunca foi politicamente prática no Estados Unidos. Nos Estados Unidos, a capacidade do Estado para a repressão violenta era enorme, muitos círculos eleitorais tinham recursos significantes através de políticas institucionalizadas e sociedade civil, e apenas uma pequena parcela da população apoiava táticas de guerrilha em estado de guerra. Dentro de três meses de sua soltura, Newton havia moderado sua posição consideravelmente para atender às responsabilidades de gerir a organização Pantera nacionalmente e para manter o apoio de aliados. Em um discurso em 18 de novembro de 1970 no Colégio de Boston, Newton minimizou a luta armada e salientou o papel do Partido no fornecimento de programas de serviço social da comunidade, que agora ele chamava de “programas de sobrevivência”.

Hoje à noite, eu gostaria de delinear para você o programa do partido dos Panteras Negras e também explicar como chegamos à nossa posição ideológica e por que sentimos a necessidade de instituir um Programa de Dez Pontos. Um programa de dez pontos não é revolucionário por si só, nem é reformista. É um programa de sobrevivência. Nós sentimos que nós, o povo, estamos ameaçados de um genocídio porque o racismo e o fascismo estão galopantes… Nós pretendemos mudar tudo isso. A fim de mudar isso, deve haver uma transformação total. Mas até o momento em que nós pudermos conseguir atingir essa transformação total, nós devemos existir. Para que possamos existir, temos que sobreviver, assim, portanto, precisamos de um kit de sobrevivência. O Programa de Dez Pontos é um kit de sobrevivência, irmãos e irmãs. Em outras palavras, é necessário para as nossas crianças que cresçam saudáveis ​, com mentes que podem ser funcionais e criativas. Eles não podem fazer isso se eles não recebem a nutrição correta. É por isso que temos um programa de café da manhã para crianças. Temos também programas de saúde comunitária. Temos um programa de transportes… Isso também é um programa de sobrevivência. [44]

No mesmo discurso, Newton também anunciou a ideia de “suicídio revolucionário.” Ao contrário da guerrilha, que é uma estratégia ofensiva, a ideia era basicamente defensiva:

Nós dizemos que, se temos de morrer, então vamos morrer a morte de o suicídio revolucionário. O suicídio revolucionário que diz que se for colocado para baixo, se eu for expulso, eu me recuso a ser varrido com uma vassoura. Eu prefiro muito mais ser varrido com um pedaço de pau, porque com a vassoura, quando estou sendo impulsionado para fora vai me humilhar e eu vou perder respeito próprio. Mas se eu for expulso com o pau, então pelo menos eu posso permanecer com a dignidade de um homem e morrer a morte de um homem, em vez de morrer a morte de um cão. Naturalmente, o nosso desejo real é viver, mas não vamos ser covardes, não vamos ser intimidados. [45]

Como Newton se estabeleceu na liderança da organização nacional dos Panteras Negras no final dos anos 1970, as tensões entre o Comitê Central e algumas das seções locais aumentou. As relações ficaram especialmente pesadas entre a seção de Nova Iorque, uma das maiores e melhores organizadas, e a liderança nacional. Como a mobilização para os 21 Panteras de Nova Iorque que tornou-se uma das campanhas de maior destaque do Partido, tensões financeiras ideológicas aumentou este fosso crescente.

O conflito financeiro centrou-se em torno daqueles que deviam controlar o dinheiro arrecadado para os Panteras em Nova Iorque. O maior arrecadador de fundos da Costa Leste era de um aliado judeu branco da Esquerda Nova, Martin Kenner. Kenner se tornou diretor do Comitê da Defesa dos Panteras Negras em meados de 1969 e começou a solicitar fundos dos progressistas, em grande parte para apoiar a defesa legal dos 21 de Nova Iorque. Ele organizou o famoso jantar na casa de Leonard Bernstein e atingiu amplamente potenciais aliados à esquerda. O dinheiro começou  a aparecer no início. Mas com a publicidade das audiências de Chicago e New Haven, o assassinato de Fred Hampton e Mark Clark e o ataque ao escritório de L. A., o dinheiro veio em enxurrada. Kenner recordou mais tarde, “Fred Hampton foi assassinado em Chicago. Quatro dias depois, foi o ataque, em 8 de dezembro ,  aos Panteras de L.A… nesse ponto… o dinheiro começou a chegar aos nossos escritórios em quantidades inacreditáveis. Tivemos apenas alguns anúncios no jornal e nós recebemos sem solicitar, enormes quantidades de dinheiro. Milhares e milhares de dólares… Tivemos as pessoas simplesmente abrindo envelopes o dia inteiro. Somente em janeiro de 1970, recebemos pelo menos $100,000 em pequenas doações. David Hilliard enviou Masai Hewitt e Donald Cox para Nova Iorque para ajudar a arrecadar dinheiro. Logo após algumas pessoas estavam fazendo doações individuais de US $100.000 ou mais. [46]

De acordo com Kenner, enquanto doadores contribuíram com os fundos devido à notoriedade do Partido dos Panteras Negras em geral, os Panteras de Nova Iorque pensavam que eles deveriam ser aqueles que controlariam os fundos, já que a maior parte do dinheiro arrecadado foi em sua cidade:

Lá . . . Tem que ser sangue ruim porque o 21 Panteras disse que sentiam-se negligenciados ou algo assim, e eu fiquei horrorizado com isso, porque eu sabia o quão fortemente David [Hilliard] tinha lutado por eles, e eu também sabia a origem de onde o veio de suporte deles, o qual não foi a partir de conta própria.  Porque mais tarde, para estarem à frente, realmente me irritou eles terem dito “Ei, todo esse apoio foi para nós.” Mas eu sabia se fosse os 21 Panteras não teríamos sido capazes de fazer nada. . . . Se não fosse para o encadeamento de Bobby e… a notoriedade… nenhuma destas coisas teria acontecido… eles totalmente se separaram, e se recusaram a reconhecer isso. [47]

Além disso, segundo Kenner, “parte disso tinha a ver também com os advogados envolvidos.” [48] Alguns dos advogados trabalhando no caso 21 de Nova Iorque estavam trabalhando em segundo plano em uma base pro bono, enquanto outros estavam recebendo tanto atenção da mídia quanto pagamento. Como resultado, alguns dos advogados que não estavam sendo pagos se sentiam rancorosos. Quando o Comitê Central usou parte do dinheiro arrecadado em Nova York para outros fins, tais como pagamento de fiança de Panteras presos em Los Angeles, os advogados não pagos de Nova York questionaram: “Como puderam fazer isso?”. [49]

Geronimo Pratt.

Em 18 de agosto, Geronimo Pratt deixou de se apresentar no Tribunal Superior de Los Angeles sob a acusação da posse de uma bomba, e o tribunal emitiu um mandado de prisão em seu nome. Enfrentando diversas acusações, Geronimo ficou clandestino. [50] Mais tarde, ele lembrou que ele queria evitar gastar o tempo no tribunal enquanto poderia estar gastando tempo construindo quadros de guerrilha no Sul e conduzindo treinamento paramilitar para os membros dos Panteras, para que eles pudessem se defender melhor. [51] Em 21 de setembro, o Superior Tribunal de L.A. revogou a fiança de Pratt e emitiu um novo mandado de condução para a sua prisão por não comparecer em tribunal sob a acusação de conspiração para cometer assassinato no tiroteio do 8 de dezembro. O Partido pagou $30.000 de fiança, tudo perdido quando ele não apareceu na corte. [52]

No início, o partido continuou a apoiar Geronimo. Em um artigo de 29 de agosto na Pantera Negra, e novamente em um comunicado à imprensa no dia 24 de Setembro de 1970, o Partido dos Panteras Negras explicou que Geronimo tinha ido a clandestinidade. O comunicado explicou que a polícia marcou Geronimo para extrema repressão e que ele tinha sido preso injustamente 37 vezes, bem como inúmeras vezes espancado e baleado por policiais desde janeiro de 1969, quando foi nomeado vice-ministro da defesa e colocado no comando da seção da Califórnia do Sul do Partido. O Partido enfatizou a ilustre carreira militar de Geronimo – anotando as treze medalhas que ele tinha recebido antes de sua honrosa descarga e argumentou “devido ao que os EUA sabiam que ele seria capaz de fazer com o próprio conhecimento que os próprios lhe tinham dado, e com sua mente brilhante e a sua devoção pelo seu povo, ele sofreu os ataques mais severos por parte da polícia local e nacional a partir desse momento.” [53]

Geronimo passou à clandestinidade, disse o comunicado, para que ele estivesse livre “para continuar seu trabalho duro para o povo.” Mas a harmonia não foi sustentável. Viver na clandestinidade custava dinheiro e criava problemas políticos. Ir à clandestinidade era diferente de ir para o exílio. Quando Geronimo passou à clandestinidade, ele se tornou um criminoso. Se esconder para evitar julgamento nos Estados Unidos era uma violação da lei, uma declaração de guerra sobre a legitimidade dos Estados Unidos no seu próprio território. Esta era uma posição muito diferente da denúncia de legitimidade EUA por um exílio. Exilados não representavam nenhum desafio imediato à lei. Ir para a clandestinidade também sacrificou a superioridade moral de lutar nos tribunais – uma atividade que recebeu muito apoio de aliados.

Além disso, qualquer um que abrigava Geronimo também estava violando a lei. Também, viver na clandestinidade era caro. Por causa da estatura e apoio para Geronimo dentro do Partido, ele acreditava que o Partido deveria financeiramente sustentá-lo na clandestinidade. Huey Newton discordou. Amigos de Geronimo recordaram, “Newton afirmou que Geronimo exigiu dinheiro. Esta é uma meia-verdade. A liderança dos Panteras se recusou a ajudá-lo em seus esforços clandestinos, enquanto ele e seus próximos foram ameaçados com a sobrevivência. . . . A recusa em apoiar Geronimo tornou mais difícil para ele iludir os porcos.” [54]

Em 9 de dezembro de 1970, o FBI e a polícia local prenderam Geronimo em Dallas, Texas, sobre as acusações decorrentes do cerco de 8 de dezembro de 1969. Além de Geronimo, prenderam os Panteras Melvin “Cotton” Smith, Ellie Stafford, e Roland Freeman. [55]

Mais tarde, David Hilliard lembrou: “A unidade clandestina de G. se autodestruiu. Os caras ligam reclamando, dizendo que precisam de dinheiro, que estão entediados, que estão com problemas. Eles se envolvem em tiroteiros estúpidos, não têm autodisciplina, e Geronimo não consegue controlá-los. Criamos uma linha telefônica para evitar falar com eles nas linhas grampeadas do QG Central. Eles usam os números errados de qualquer jeito, dizendo coisas aventureiras e incriminatórias. Mesmo quando os punimos, eles continuam em suas maneiras desenfreadas. No início de dezembro, a polícia capturou Geronimo em Dallas”. [56] A combinação de atividades clandestinas com falta de disciplina, possivelmente instigada pelos agentes provocadores, ameaçaram danificar gravemente a imagem do Partido. [57]

Enquanto isso, de seu refúgio na Argélia, membros da seção internacional do Partido promoviam a guerrilha imediata contra o governo dos EUA. Eldridge Cleaver e o Marechal de Campo Donald Cox exortavam regularmente jovens negros à violência nas páginas do Pantera Negra. Em janeiro de 1971, Cox afirmou: “Quando uma unidade de guerrilha se move contra esse sistema opressivo executando um porco ou atacando suas instituições, por qualquer meio – tiro, esfaqueamento, bombardeio, etc. – em defesa dos 400 anos de brutalidade, assassinato e exploração racistas, isso só pode ser definido corretamente como autodefesa”. Ele citou o guerrilheiro brasileiro Carlos Marighella: “Hoje, ser ‘violento’ ou um ‘terrorista’ é uma qualidade que enobrece qualquer pessoa honrada, porque é um ato digno de um revolucionário engajado na luta armada contra a vergonhosa ditadura militar e suas atrocidades… Unidades de Guerrilha (grupos de autodefesa) devem ser formada e os golpes devem ser atingidos contra o senhor de escravos até que asseguremos nossa sobrevivência como povo”. [58]

MOTIM

Ao longo do tempo, à medida que desenvolvimentos externos ao Partido tornavam mais difícil sustentar o apoio aliado, aumentavam as exigências da organização nacional para manter a disciplina interna. Um grande orçamento do Partido apenas exacerbava essas tensões, aumentando a necessidade de disciplina interna para agradar aos cada vez mais influentes doadores. A alocação do financiamento tornou-se cada vez mais um ponto de disputa interna. Os líderes locais criticaram a disciplina nacional do Partido, que logo começou a se desmantelar. Nos primeiros dois meses de 1971, três dos mais importantes grupos de Pantera romperam com a organização nacional.

David Hilliard relembrou as tensões durante esse período entre o apelo de alguns Panteras para uma guerra revolucionária imediata e os limites do apoio aliado: “Eu falo com Eldridge todos os dias e estou atento ao quadro que quer pegar em armas. Mas o conceito de Partido como um exército de libertação capaz de derrotar o governo americano não é realista. Quando iniciarmos nosso ataque, quem vai se juntar a nós? Os camaradas do Partido pulariam da ponte se Huey lhes dissesse. Nossos aliados não.” [59] Em 19 de janeiro de 1971, os 21 de Nova Iorque publicaram uma carta aberta ao Weather Underground no East Village Other, denunciando não tão sutilmente a liderança nacional do Partido Pantera Negra.

O Weather Underground foi um grupo dissidente que se originou dos Estudantes para uma Sociedade Democrática para se envolver em atentados a bomba e outros atos de guerra. Apesar de acreditar que atrairiam muitos seguidores e ajudariam a liderar um levante revolucionário contra o estado, o grupo nunca atraiu mais do que um punhado de membros dispostos a participar da guerrilha. Ao lado de um gráfico caricatural de um jipe ​​pesado com uma descrição semipornográfica de uma mulher disparando uma metralhadora montada no topo e as palavras “Vingança Proletária Instantânea” marcadas no lado, os Panteras de Nova Iorque louvavam o Weather Underground por abraçar a guerra de guerrilha e criticavam a restrição de seu próprio Partido.

O 21 Panteras afirmavam que o Partido dos Panteras Negras não eram a verdadeira vanguarda revolucionária nos Estados Unidos e saudava o Weather Underground como uma das, se não “a verdadeira vanguarda”. Em linha com a ideologia vanguardista do Weather Underground, os 21 Panteras argumentavam que era chegada a hora da violência revolucionária total, que eles acreditavam que atrairia muitos seguidores e que eventualmente derrubaria a economia capitalista e o estado:

O única coisa capaz de lidar com força e violência reacionária é a contra-força e a contra-violência revolucionária… A máquina Amerikkkana e sua economia devem ser destruídas – e isso só pode ser conseguido com consciência política inteligente e revolução – luta armada… como Che declarou: “A luta armada é a única solução para as pessoas que lutam para se libertar”… A revolução é – em última análise – LUTA ARMADA – revolução é VIOLÊNCIA – revolução é GUERRA – revolução é DERRAMAMENTO DE SANGUE! Por quanto tempo diferentes frentes de libertação nacional bem sucedidas lutaram antes de ganharem um grande apoio popular? Che declarou: “Uma revolução é um punhado de homens e mulheres sem outra alternativa senão a morte ou a vitória. Nos momentos em que a morte é um conceito mil vezes mais real e uma vitória é um mito que só um revolucionário pode sonhar.” Você está ligado no Marighella – Carlos Marighella? . . . “A organização revolucionária geralmente cresce por dois métodos importantes: 1) agrupamento e treinamento de quadros políticos para realizar reuniões e discutir documentos e programas; 2) ação revolucionária – seu método é violência extrema e radicalização. Nós escolhemos o segundo porque sentimos que é o método mais convincente e que o primeiro leva – se não combinado com o segundo – a táticas burguesas e à perda de iniciativa.”… O objetivo é 1) destruir a economia – por exemplo, explodindo locais que afetarão mais afetarão a economia; 2) roubar  dinheiro, armas e etc; 3) ataques de franco-atiradores. Fábricas de bombas, fábricas de minas, fábricas de armas e fábricas de balas são necessárias. Vamos falar sobre “danos materiais em larga escala” – essa economia deve ser derrubada – há uma guerra em andamento.60

Os 21 Panteras de Nova Iorque também criticaram a abordagem gradualista do Comitê Central do Partido dos Panteras Negras:

Percebemos que esta será uma luta prolongada – mas quando o prolongada se torna ausência de movimento – escapismo, isolamento e retrocesso? … Por exemplo, um grupo, um partido, seus apoiadores e alguns ativistas – podem se movimentar de forma revolucionária contra os porcos OU podem funcionar – ter um jornal, realizar comícios, convenções, congressos etc. – então a retórica, os funcionários funcionam, a imprensa publica, os delegados viajam, as amizades internacionais crescem, os “líderes” ficam sobrecarregados de “trabalho” – então as perspectivas da luta armada – a revolução real – diminuem. Perdida dentre os “trabalhos” – ela passa a ser considerada aventurosa – sempre prematura – com potencial para “sabotar” a legalidade do partido – (que, se fosse efetivo, seria ilegal de qualquer maneira) – podendo atrair repressão intensa – enquanto isso, os fascistas tiram de circulação os ativistas que não são tão barulhentos – mas considerados mais perigosos. Isso não soa familiar? 61

Enquanto os Panteras de Nova Iorque denunciavam o gradualismo de seu próprio partido, Geronimo Pratt ainda estava na prisão em Dallas lutando contra sua extradição para a Califórnia. Ele tentou ligar para Huey Newton e para outros membros do Comitê Central do Partido dos Panteras Negras, mas não conseguiu contato. [62] Então, no dia 23 de janeiro, quatro dias depois de os Panteras de Nova Iorque publicarem sua carta aberta, Huey Newton publicou uma carta no Pantera Negra expulsando Geronimo Pratt do Partido – um dos mais famosos e respeitados Panteras Negras – juntamente com seus aliados próximos Saundra Lee, Will Stafford, Wilfred “Crutch” Holiday e George Lloyd. Newton afirmou que, enquanto tentava sobreviver na clandestinidade, Geronimo havia exigido dinheiro do Partido e ameaçado matar David Hilliard se o Partido não atendesse sua demanda. [63]

Depois de tomar conhecimento que havia sido expulso, Geronimo assinou os documentos de extradição da Califórnia e foi enviado para julgamento em Los Angeles. Ele tentou desesperadamente entrar em contato com alguém na sede do Partido para descobrir o que estava acontecendo, mas não obteve qualquer resposta. Entretanto, quando falou com Eldridge Cleaver, que estava na Argélia, recebeu uma boa acolhida. Geronimo disse a um entrevistador ainda naquele ano: “Tentei contatar David, alguém para conversar. Era como se eu já tivesse sido julgado e condenado. Quando Papa [Eldridge Cleaver] me contatou, era como se fosse um novo sopro de vida. Eldridge me disse que sabia o que estava acontecendo, que os irmãos não haviam sido expulsos, que ele falaria com Huey.” [64]

Cerca de duas semanas depois, no dia 8 de fevereiro, dois dos principais Panteras de Nova York – Dhoruba Bin Wahad (Richard Moore) e Cetawayo Tabor – não compareceram para sua data prevista do tribunal como parte do julgamento dos 21 de Nova York. Ao não comparecerem, eles desperdiçaram US$ 150.000 em dinheiro de fiança angariado por apoiadores os Panteras.

O juiz ordenou um mandado para sua prisão. Ele também revogou a fiança de US$ 200.000 de Joan Bird e Afeni Shakur, as duas únicas outras Panteras de Nova York que estavam em liberdade por fiança e ordenou seu retorno à prisão. [65]

Ao mesmo tempo, a secretária de Huey Newton, Connie Matthews, também desapareceu, levando consigo importantes registros do Partido, incluindo informações de contato de aliados dos Panteras Negras na Europa. O procurador assistente do distrito de Nova York, Phillips, um dos autores da ação no caso dos 21 Panteras, anunciou no tribunal que Cetawayo Tabor havia se casado com Connie Mathews na Califórnia há vários meses e que Matthews tinha obtido cidadania argelina. Ele especulou que Matthews havia obtido passaportes para Tabor e Dhoruba e que eles haviam fugido com ela para a Argélia. [66]

Dhoruba Bin Whada discursando.

Dhoruba Bin Wahad explicou sua decisão de abandonar o Partido dos Panteras Negras como uma resposta à crescente moderação de Newton, Hilliard e do Comitê Central e seus esforços para agradar doadores ricos. Em uma declaração pública em maio de 1971, Dhoruba escreveu:

“Nós estávamos cientes dos planos que emanavam das temíveis mentes cooptadas de Huey Newton e do arqui-revisionista, David Hilliard. Sabíamos de seus desejos de destruir, com seus planos amedrontados e sonhos burgueses, o único órgão verdadeiramente revolucionário de mudança social que o povo negro possuía [o Partido dos Panteras Negras]… Por isso, assumimos integralmente a guerra contra o opressor de nosso Povo – para vencer ou morrer… Tornou-se claro, há quase um ano, que David Hilliard estava destruindo o desejo dos camaradas de travar uma luta decidida ao limitar o Partido a manifestações de massa e “benfeitorias para arrecadar fundos”. É claro que a mobilização em massa é importante e o dinheiro é necessário, mas os efeitos que essas restrições têm sobre a mentalidade de um Irmão ou Irmã são horríveis… A obsessão com a angariação de fundos leva à dependência em relação aos próprios inimigos da nosso Povo… Essas contradições internas desenvolveram-se naturalmente até o Ponto em que aqueles dentro do Partido se perceberam em uma organização que se aproximava rapidamente das maneiras da N.A.A.C.P. – dedicada à escravidão modificada, ao invés de se pôr fim a todas as formas de escravidão. [67]

Em 9 de fevereiro, um dia depois de Dhoruba e Tabor deixarem de comparecer ao tribunal e desperdiçarem sua fiança de US$ 150.000, o Comitê Central expulsou a maior parte dos 21 de Nova Iorque do Partido Pantera Negra. Em uma declaração mimeografada assinada por Newton e distribuída fora do tribunal no Center Street, nº 100, o Comitê Central chamou os renegados de Nova Iorque de “inimigos do povo.” O comunicado acusava que, ao ignorarem a fiança, Dhoruba e Tabor “deram aos porcos uma desculpa para lançar Joan Bird e Afeni Shakur, grávida de quatro meses, de volta à segurança máxima”, comprometendo a possibilidade de fiança para seus defensores e “sustentaram o caso moribundo” da acusação.[68]

A capa da edição de 13 de fevereiro de 1971 do Pantera Negra, com a manchete “Inimigos do Povo”, além de destacar fotografias de Michael Cetawayo Tabor, Connie Matthews Tabor e Dhoruba Bin Wahad, reproduzira a declaração mimeografada distribuída em frente ao tribunal de Nova York tribunal que expulsava a maioria dos Panteras de Nova Iorque do Partido. [69] A declaração explicava que nove Panteras de Nova York aprisionados já haviam sido expulsos por sua “Carta Aberta aos Weathermen” em janeiro, mas que os líderes haviam mantido sigilo intrapartidário em relação à expulsão até o fim do julgamento. O desaparecimento de Tabor e Dhoruba havia obrigado o Partido a revelar a divisão.

Esta sequência sugere que o Comitê Central estava preocupado com a forma como aliados e apoiantes do Partido, especialmente os financiadores, perceberiam as expulsões. A rápida e bastante divulgada expulsão pelo comitê dos Panteras de Nova York que atuavam na clandestinidade indicava que a liderança queria se distanciar de qualquer atividade clandestina que Dhoruba e Tabor pudessem haver empreendido e deixar clara a desaprovação de sua perda do dinheiro de fiança que os doadores do Partido haviam arrecadado.

O Comitê Central ainda estava disposto a defender a revolução, mas também tentaria promover sua causa na corte – não na luta armada imediata. E queria que tanto aliados, quanto apoiadores e doadores soubessem disso. [70]

Em 26 de fevereiro, as tensões no Partido explodiram no “A.M. Show” de Jim Dunbar, transmitido ao vivo pela afiliada da ABC-TV de São Francisco. Do estúdio, Huey Newton falou com Eldridge Cleaver na Argélia por telefone. Cleaver exigiu que Newton restabelece os 21 de Nova York e expulsasse Hilliard do Partido. Newton recusou-se a continuar a discussão. [71] Depois do programa, em um telefonema particular que Cleaver gravou em segredo, Newton se enfureceu com Cleaver por ter discutido em público questões internas do Partido, expulsando-o juntamente com toda a seção internacional do Partido. Newton também disse a Cleaver que ele seria cortado da rede de aliados internacionais do Partido: “Vou escrever aos coreanos, aos chineses e aos argelinos e dizer-lhes para expulsá-lo da nossa embaixada e colocá-lo na prisão”. [72]

SORDIDEZ ENTRE FACÇÕES

A disputa entre facções se intensificou rapidamente. Dois dias depois do bate-boca televisionado, Eldridge Cleaver e Donald Cox enviaram fitas de vídeo para a imprensa dos EUA acusando Hilliard de transformar a organização dos Panteras em uma burocracia centralizada e antidemocrática que servia a seus propósitos pessoais e de expulsar aqueles que não lhe agradavam.

Cox conclamou a remoção de David e June Hilliard da liderança do Partido pela força: “As condições devem ser criadas para que eles nem possam andar na rua… Não se pode permitir que eles entrem em qualquer escritório do Partido Pantera Negra. Esta maquinaria que eles agora estão usando foi construída com o sangue de nossos companheiros, como Bobby e Bunchy… E se Huey não consegue compreender isso, então ele também tem que sair.” [73]

A capa da edição de 6 de março de 1971 do Pantera Negra destacava uma imagem de Kathleen Cleaver usando óculos escuros com a manchete “Libertem Kathleen Cleaver e todos os prisioneiros políticos”. Dentro do periódico, um artigo de Elaine Brown alegava que além de Eldridge Cleaver agredir Kathleen fisicamente, impedia-a de deixar a Argélia e não a permitia conversar com seus colegas do Comitê Central. Brown afirmou que Kathleen estava agendada para discursar em nome de Bobby Seale no dia 5 de março, mas Eldridge não a deixaria ir. Ela também disse que Eldridge havia isolado Kathleen na Coréia do Norte e confiscado cartas que ela tentou enviar para Oakland. Ela alegou que Eldridge estava tendo vários casos, mas que ele proibiu Kathleen de fazer o mesmo. E acusou Eldridge do assassinato de Clinton “Rahim” Smith em Argel por ele ter tido um caso com Kathleen. Ela escreveu: “Mesmo que, se Kathleen tiver permissão para falar por si mesma, ela provavelmente apoiará os devaneios de seu louco opressor pessoal. Sabemos que negar essas afirmações neste momento significaria uma sentença de morte para ela”. [74]

Dois dias depois, na segunda-feira, 8 de março, o Pantera Negra Robert Webb foi baleado na cabeça e morto na esquina entre a 125th Street e a Seventh Avenue em Nova Iorque. Em uma coletiva de imprensa no dia seguinte, Zayd Shakur, dos Panteras de Nova Iorque alinhados a Cleaver, afirmou que Webb foi baleado enquanto tentava “confiscar o jornaleco reacionário de dois idiotas”. Em outras palavras, Shakur disse que Webb foi morto enquanto tentava apreender das mãos de dois aliados de Newton que estavam distribuindo o jornal na rua cópias do Pantera Negra que descrevia Kathleen Cleaver como um prisioneira política. Shakur também alegou que Webb havia sido morto porque ele havia se juntado à convocação pela destituição ou pressão pela renúncia de David Hilliard, e por ter se referido à facção de Newton como “revisionista” ou “direitista”. [75] Em outra observação sobre o assassinato, Shakur disse: “Os seis ou sete cães raivosos assassinos que tiraram a vida de nosso irmão Robert Webb foram os primeiros a chegar [em Nova Iorque]”. [76] O Comitê Central Pantera chamou de “ridícula” a acusação de que havia enviado alguém para o Harlem para matar a Webb. [77] Ninguém jamais foi condenado pela morte de Webb. [78] No entanto, alegou-se amplamente que o assassinato foi resultado da disputa entre facções. [79]

Samuel Napier era o gerente nacional de distribuição do Pantera Negra. Alinhado à liderança nacional do Partido, ele trabalhou na cidade de Nova Iorque. Na tarde de 17 de abril de 1971, atiradores dispararam três vezes nas costas de Napier, amarraram-no a uma cama na sede do quartel-general da filial Pantera Negra de Corona Queens, que era alinhada a Oakland, amordaçaram-no, deram três tiros em sua cabeça e depois incendiarem o prédio. Carbonizado para além de reconhecimento possível, o corpo de Napier foi identificado através de suas impressões digitais. Após um julgamento de homicídio e um júri indeciso, os Panteras de Nova Iorque Dhoruba Bin Wahad, Michael Hill, Eddie Jamal Joseph e Irving Mason se declararam culpados para uma acusação reduzida de tentativa de homicídio involuntário. [80]

DIVISÃO IDEOLÓGICA

Via de regra, relativamente poucas filiais Panteras Negras desafiavam a liderança do Partido nacional. [81] A maioria das lideranças Panteras locais em todo o país concordava com o Partido. Em 20 de março de 1971, juntamente com um aviso de que a Seção Internacional havia “desertado o Partido dos Panteras Negras”, o Pantera Negra publicou cartas em que líderes nacionais cruciais proclamavam sua lealdade. [82] Uma carta foi subscrita por Doug Miranda, líder das mobilizações de New Haven; Masai Hewitt, Ministro da Educação; “Big Man” Howard, editor da Pantera Negra; Emory Douglas, Ministro da Cultura; e Bobby Rush, líder da seção de Chicago. Eles declararam seu apoio inequívoco a Huey Newton e afirmaram que a “deserção” de alguns Panteras havia fortalecido o Partido: “Elementos corrosivos do nosso Partido”… estão enfraquecendo e se desligando. Assim, eles estão depurando nosso Partido, para que mantenhamos a força invencível que sempre tivemos.” [83]

Em julgamento por sua vida em New Haven, Bobby Seale escreveu uma carta condenando Cleaver: “O Partido aceita críticas construtivas… Mas as ações divisionárias, contrarrevolucionárias e as táticas enganosas de Eldridge Cleaver não fazem nada além de ajudar a estrutura de poder dos porcos em sua tentativa de prender e colocar em câmaras de gás mais de 130 prisioneiros políticos, que estão, atualmente, como Ericka e eu, retidos nestas prisões, e a caminho da câmara de gás, onde estamos lutando por nossas vidas nesses julgamentos… Não há divisão no Partido dos Panteras Negras.” [84] Outra carta, da seção de San Quentin do Partido dos Panteras Negras, liderado por George Jackson, ridicularizou Cleaver e declarou forte apoio a Newton. Em 7 de agosto de 1970, o irmão mais novo de George Jackson, Jonathan Jackson, tentando libertar George, foi morto quando invadiu um tribunal e sequestrou um juiz. O apoio da seção de San Quentin foi importante para Newton porque Eldridge Cleaver proclamou amplamente Jonathan Jackson como um mártir e elogiou seu ato insurrecional no último mês de agosto como um emblemático tipo de ação que era necessário. O apoio da seção de San Quentin a Newton contribuiu muito para minar a credibilidade de Cleaver. [85]

O número de líderes reconhecidos que se opôs a Huey Newton e à liderança do Partido nacional no início de 1971 manteve-se pequeno. Mas com os assassinatos de Robert Webb e Sam Napier, o motim tornou-se a base de uma divisão ideológica catastrófica. A divisão arruinou a política do Partido Pantera Negra que havia permitiu seu crescimento de uma organização local no início de 1968 para um considerável poder político nacional até o final de 1970.

Durante esses três anos, os Panteras mantiveram uma receita vencedora. Sua política de autodefesa armada drenou os poços de resistência entre a juventude negra, e a organização nacional havia mobilizado amplo apoio de um espectro de aliados negros, anti-guerra e internacionais. Este apoio, por sua vez, permitiu que o Partido prosperasse diante da repressão do governo e sustentasse seu movimento anti-imperialista. Em comparação, a maioria das outras organizações Black Power eram politicamente impotentes e não ficavam muito aquém dos Panteras em termos de eficácia ou influência. Alguns, como a organização de Karenga nos EUA, permaneceram pequenas e restritas, não produziram consequências políticas e obtiveram um limitado de seguidores nacionalmente. Outros, como a República da Nova Afrika, desafiaram o estado e sofreram forte repressão como resultado, mas – ao atrair pouco apoio aliado – não conseguiu sustentar nem expandir sua luta.

Embora a estratégia dos Panteras tenha se mostrado altamente eficaz durante três anos, ela eventualmente criou tensões organizacionais significativas. O Comitê Central tinha uma organização para administrar e um rosto público para manter. Como consequência, ele se concentrava prioritariamente na manutenção da coerência organizacional e do apoio aliado. Por outro lado, muitos membros e filiais locais participaram do Partido porque queriam desafiar o status quo.

Eles queriam enfrentar a polícia e o sistema que os oprimia. Mas as fronteiras entre ação revolucionária, aventurismo e atividades criminosas nem sempre eram claras. Consequentemente, desenvolveram-se tensões entre as atividades necessariamente independentes das seções locais, algumas das quais beiravam à insurreição aberta e os esforços do Comitê Central para manter o apoio aliado.

Entre 1968 e 1970, três fatores exacerbaram essas tensões. Primeiro, as atividades de contra inteligência do governo federal tiveram efeito em vilipendiar o Partido. O governo reconheceu que incursões e outras formas de repressão direta aos Panteras tendiam a legitimar suas reivindicações e aumentar o apoio aliado ao Partido. Assim, procurou-se desacreditar o Partido ao semear conflitos internos através de agentes provocadores que fomentavam a violência repulsiva e sem sentido político. O FBI planejou meticulosamente campanhas para destruir a reputação dos líderes Panteras Negras, tal como o esforço para atribuir o assassinato de Alex Rackley a Bobby Seale.

Em segundo lugar, o sucesso do Partido criou um conflito entre a promoção da insurreição e a manutenção de sua imagem. Por exemplo, a libertação de prisão de Huey Newton sugeriu a muitos aliados potenciais que os Panteras poderiam obter justiça judicial, mas sinalizou a muitos membros de base que eles poderiam obter justiça através da resistência armada à polícia. E o aumento da influência e do orçamento do Partido deu aos líderes Panteras algo a perder e algo pelo qual lutar para manter. Mas nenhum desses dois primeiros fatores – nem a repressão, nem o sucesso – poderiam, por si sós, arruinar a política do Partido, e os Panteras Negras continuaram a crescer entre 1969 e 1970, quando experimentaram tanto sua maior repressão quanto seu momento de maior sucesso.

O terceiro fator que tornou a política da Pantera Negra insustentável foi a decisão do establishment de oferecer concessões políticas aos aliados dos Panteras, mudando assim o contexto político e reduzindo a capacidade dos Panteras de manter o apoio aliado. Como muitos dos aliados potenciais dos Panteras entre ativistas contra a guerra, negros moderados e outros viram seus interesses sendo atendidos pela política e retórica do governo, eles ficaram menos dispostos a apoiar atividades revolucionárias.

Ao mesmo tempo, a normalização das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e os aliados internacionais dos Panteras tornou cada vez mais difícil para o Partido sustentar seu apoio internacional. Os tempos estavam mudando, e a política revolucionária de autodefesa dos Panteras Negras começou a perder ressonância.

À medida em que aumentava a tensão entre a necessidade de agradar potenciais aliados e o compromisso com a política de autodefesa armada dos Panteras, também aumentava a tensão entre algumas seções do Partido e a liderança nacional em Oakland. Esta tensão ficou evidente na crescente disputa entre os Panteras de Nova York, Cleaver e Geronimo Pratt, por um lado, e os líderes do Partido Nacional David Hilliard e Huey Newton, por outro. Em cada caso, líderes locais criticavam a administração da organização nacional.

À medida em que aumentavam as pressões internas e externas, as diferenças ideológicas começaram a se solidificar, conflitando a ênfase na social-democracia do Comitê Central com a ênfase na guerrilha dos elementos divergentes do Partido. Com o motim, e especialmente com as mortes de Webb e Napier, esta divisão ideológica se endureceu.

Os assassinatos de Webb e Napier podem não ter tido relação com diferenças ideológicas. Eles poderiam ter resultado de simples conflitos de poder entre facções, e é difícil determinar com certeza quem cometeu esses assassinatos. No entanto, os assassinatos tornaram a retórica insurrecional insustentável para o Partido e cristalizaram uma divisão ideológica aguda.

Em casos anteriores em que Panteras foram acusados ​​de matar um policial ou informante suspeito, o Partido podia reformular as acusações como repressão estatal. Por exemplo, o Partido argumentou que Huey estava se defendendo contra a brutalidade policial quando o oficial Frey foi morto e que o FBI provavelmente havia ordenado o assassinato de Rackley como meio de incriminar Bobby Seale e enviá-lo para a câmara de gás. As agressivas e muitas vezes explícitas ações repressivas pelo estado nesses casos e outros, como no assassinato de Fred Hampton, enquanto ele dormia em sua cama, conferia credibilidade à perspectiva Pantera e permitia que o Partido continuasse avançando a retórica insurrecional e ainda atraísse potenciais aliados como vítimas de opressão.

Mas com grande cobertura midiática do rancoroso conflito entre facções, os assassinatos brutais de representantes de cada uma e as subsequentes acusações generalizadas de que as facções rivais eram responsáveis, os Panteras não podiam simultaneamente manter um amplo apoio e retórica insurrecional. O Comitê Central não poderia denunciar Cleaver, os 21 de Nova York e Geronimo – alguns dos mais importantes ex-membros do Partido – negar qualquer papel no assassinato da Webb; apelar de forma crível a aliados negros, anti-guerra e internacionais por apoio contra a repressão estatal; e, ao mesmo tempo, glorificar a resistência armada contra o estado.

Ao invés disso, o Comitê Central renunciou à insurreição imediata, denunciou a facção rival “desviante” por seu apego imprudente à insurreição e insistiu para que os Panteras se concentrassem exclusivamente em programas social-democratas até que uma massa suficiente de pessoas estivesse pronta para a revolução. Esta posição significava um afastamento profundo da retórica da resistência armada e das políticas práticas de autodefesa armada contra a polícia que alimentaram o crescimento explosivo do Partido.

Os dissidentes enfrentaram o mesmo dilema, incapazes de promover uma retórica insurrecional e esperar atrair uma base ampla de potenciais aliados. Mas, embora o Comitê Central estivesse gerenciando as relações com aliados o tempo todo, a facção rivais criticava-o por conta de suas exigências e liderança. Os 21 de Nova York já haviam convocado insurreição imediata em sua carta aberta ao Weather Underground em janeiro, e as mortes de Webb e Napier apenas consolidaram essa posição.

Da Argélia, Cleaver e seu grupo ansiavam por ação e sentiram-se podados e restringidos pela liderança de Oakland. Eldridge Cleaver havia sido o principal arquiteto da retórica insurrecional do Partido. Para ele, um chamamento pacificado para a social-democracia não continha apelo algum. Geronimo ingressou para a clandestinidade, foi preso por atividades ilegais e depois foi expulso pelo Comitê Central. Juntar-se aos partidários dos Cleaver e ao chamado para a insurreição imediata era sua melhor – senão única – opção.

A política da insurreição imediata não estava completamente sem apoio aliado. Um extrema- esquerda melhor exemplificada pelo Weather Underground –, mas também por alguns dos advogados que continuaram a defender os 21 de Nova York e Geronimo nos tribunais, parte da imprensa alternativa, e alguns poucos financiadores ricos – concordavam integral e explicitamente que a insurreição imediata era essencial. Mas a base muito mais ampla de aliados que apoiava a organização Pantera nacionalmente em 1969 e 1970 não concordava essa posição.

Em 20 de março de 1971, a edição do Pantera Negra, juntamente com demonstrações de apoio à liderança do Partido Nacional, destacava na capa traseira o título “Revolução dependente da sobrevivência” e uma imagem de uma mulher carregando itens rotulados para os programas “do povo”: uma sacola de alimentos rotulado “Programa de Alimentação Gratuita”, calçados rotulados “Programa de Calçados Livres”, uma blusa rotulada “Programa de Vestuário Livre” e um livro intitulado “Escolas de Libertação”. A mulher usava um chapéu de enfermeira com os dizeres “clínicas de saúde gratuitas”, e um ônibus no fundo carregava o sinal “programa de ônibus gratuito”. A imagem incluía uma citação de Huey Newton: “Deve haver uma transformação total. Mas até a chegada desse momento em que poderemos conseguir essa transformação total, devemos existir. E para existir, devemos sobreviver. Portanto, precisamos de um kit de sobrevivência”. [86]

Em 27 de março, após as graves denúncias da facção Cleaver e as declarações de fidelidade a Huey Newton, a capa do Pantera Negra destacou fotos de crianças pré-escolares e de ensino fundamental vestidas com uniformes Pantera e em formação.

Uma legenda grande dizia: “O mundo é de vocês, bem como nosso, mas, em última análise, é de vocês. Vocês jovens, cheios de vigor e vitalidade, estão na flor da idade, como o sol às oito ou nove da manhã. Nossa esperança está depositada em vocês.” O jornal destacava histórias sobre a escola Pantera e programas sociais e incluía muitas fotos de crianças Pantera lendo, marchando, jogando, estudando em sala de aula e tomando café da manhã.87 Com esta edição, o Partido Pantera Negra implementou uma ampla desmilitarização de sua imagem, uma mudança documentada nas edições do Pantera Negra publicadas no primeiro semestre de 1971. As primeiras doze edições do Pantera Negra em 1971, até 20 de março, incluíam 225 imagens explícitas de armas, uma média de mais de dezoito imagens de armas por edição. Em contraste, as doze edições publicadas de 27 de março em diante continham apenas cinco retratos de armas, uma média de menos de uma imagem por edição. [88]

Na maioria das edições do Pantera Negra, o Partido imprimia seu Programa de Dez Pontos perto da parte de trás do documento. Até março de 1971, o layout do Programa de Dez Pontos trazia uma proeminentemente foto de Huey carregando uma espingarda e bandoleira com a legenda “Huey P. Newton, Ministro da Defesa, Partido Pantera Negra”; a parte superior do layout apresentava o Programa de Dez Pontos, e uma metralhadora como imagem de fundo. Em 13 de março, as fotos foram removidas e, a partir de 27 de março, o layout do Programa de Dez Pontos destacava a grande legenda em negrito, “Servindo o Corpo e a Alma do Povo” ao lado do novo título de Newton, “Servo do People”.

Essa mudança gráfica foi emblemática de uma mudança radical na retórica do Partido. De 1967 a 1969, 45% dos artigos editoriais políticos do Black Panther preconizaram “revolução agora”. Em 1970, essa parcela subiu para 65%. Mas em 1971, caiu para 16%, e em 1972-73, caiu para menos de 1%.

Por outro lado, aumentou significativamente a defesa da “política tradicional” nos artigos editoriais políticos no Pantera Negra após a divisão. De 1967 a 1969, apenas 7% desses artigos defendiam a “política tradicional” e menos de 4% em 1970, contra 32% em 1971 e quase 67% em 1972-73. [90]

À medida que a liderança nacional do Partido avançava para a retórica social-democrata e se afastava de falas sobre insurreição, a facção partidária de Cleaver empreendeu uma reviravolta insurrecional. Em 3 de abril de 1971, começou a publicar seu próprio jornal, Right On!, defendendo a insurreição total e imediata. O artigo foi publicado com o apoio dos Weathermen através de um aliado que não estava na clandestinidade – o Caucus Independente da SDS na Universidade do Estado de Nova Iorque. O jornal trazia artigos de Eldridge Cleaver e dos 21 de Nova Iorque. No rodapé da capa, uma citação resumiu a posição alinhada a Cleaver:

“O melhor exemplo que temos de uma maneira alternativa de lidar com os tribunais é o caso de Jonathan Jackson.” [91]

No início de abril, um repórter do jornal esquerdista independente The Guardian entrevistou Kathleen Cleaver na Argélia sobre o racha. Cleaver criticou David Hilliard por seu “oportunismo de direita”, sua “falta de militância” e seus “métodos burocráticos” ao dirigir o Partido desde que seu marido havia sido exilado. [92] Kathleen afirmou que David reorientou o partido de “organizar a violência contra os porcos” para “concentrar-se em ações legais e na defesa de pessoas nos tribunais,” e “conscientemente preparado para destruir a clandestinidade armada”. Ela disse: “Ele mesmo ordenou que as armas fossem retiradas de alguns escritórios Panteras!… A fase da defesa legal acabou… Jonathan Jackson acabou com tudo isso… Agora nós temos que libertá-los.”

Kathleen Cleaver afirmou que o conflito entre a “camarilha Hilliard” e a facção Cleaver já vinha de longa data, mas que a Seção Internacional esperava que Newton “reorientasse o partido para o caminho certo quando ele saiu da prisão no ano passado”. Ao invés disso, ele endossou a administração de Hilliard. [93]

Kathleen Cleaver observou que a Seção Internacional abriu uma sede dos Estados Unidos no Bronx e que seu foco principal seria composto de ação armada, sabotagem e apoio a uma clandestinidade militar. Ela declarou: “Estamos fartos de ações legais… O que é necessário agora é um partido para avançar e acelerar a luta armada… Há uma guerra revolucionária acontecendo. As pessoas estão prontas para uma verdadeira vanguarda, para a ação militar… Precisamos de um exército popular e a vanguarda do Partido Pantera Negra providenciará isso… As pessoas estão preparadas.” [94]

Em 17 de abril de 1971, no mesmo dia em que a entrevista de Kathleen Cleaver apareceu no Guardian, Huey Newton publicou um ensaio no Pantera Negra intitulado “Sobre a Deserção de Eldridge Cleaver do Partido Pantera Negra e o Deserção do Partido Pantera Negra da Comunidade Negra.” Newton descreveu o conflito como ideológico. Ele afirmou que as raízes do Partido eram solidamente socialdemocratas (dependentes de apoio suficiente para uma revolução) e criticou a defesa de insurreição de Eldridge Cleaver:

Você precisa estabelecer um programa de ação prática e ser um modelo a ser seguido e apreciado pela comunidade. A visão original do Partido era desenvolver uma linha de vida para as pessoas, atendendo às suas necessidades… Muitas vezes as pessoas dizem que nosso Programa de Dez Pontos é reformista; mas ignoram o fato de que a revolução é um processo… As pessoas veem as coisas como se elas mudassem de A para B, de B para C; elas não veem as coisas como se mudando de A para Z. Em outras palavras, eles devem ver primeiro algumas realizações básicas, para perceber que os sucessos maiores são possíveis… O Partido Pantera Negra chegou a uma contradição com Eldridge Cleaver e ele desertou do Partido, porque não ordenaríamos a todos para ocuparem as ruas amanhã para fazerem uma revolução.

Reconhecemos que isso é impossível… porque as pessoas não estão nesse ponto agora. Essa contradição e conflito podem parecer infelizes para alguns, mas… agora estamos livres para avançar na construção de uma estrutura comunitária que se tornará uma verdadeira voz das pessoas, promovendo seus interesses de muitas maneiras. Podemos continuar a impulsionar o nosso programa básico de sobrevivência. Podemos continuar a servir as pessoas como defensores de seus verdadeiros interesses. Podemos realmente nos tornar um veículo revolucionário político que levará as pessoas a um nível mais alto de consciência, para que elas saibam o que devem realmente fazer na busca da liberdade. [95]

A política do Partido dos Panteras Negras continha uma tensão. Por um lado, grande parte de sua alavanca política e atração aos membros derivava da resistência armada à polícia. Por outro lado, sua capacidade de resistir à repressão pelo estado dependia em grande medida do apoio de aliados mais moderados. Por volta de 1969 e ao longo de grande parte de 1970, nacionalmente o Partido foi capaz de conter essa tensão, moldando sua imagem pública através de seus programas de serviço e mantendo a disciplina interna através de expurgos. Mas ao longo do tempo, concessões exacerbaram a contradição que o Partido enfrentou entre a prática de autodefesa armada contra o Estado e a manutenção do apoio aliado. Essas tensões atingiram seu ápice quando facções-chave desafiaram a liderança do Partido Nacional. Quanto mais a luta intra-organizacional se tornava violenta, mais os Panteras se dividiam em linhas ideológicas. Se, por um lado, a organização nacional apelou aos membros para que largassem as armas e enfatizassem os programas comunitários, por outro, a facção dissidente convocava uma guerra de guerrilha imediata contra o estado. Sem contar com a viabilidade das políticas de autodefesa armada contra a polícia, como essa nova política Panteras se desenrolaria na década de 1970?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close