Qual a diferença entre a Camaradagem e outras Relações Sociais?

Qualquer um, mas nem todo mundo, pode ser um camarada

por Jodi Dean

Quem é o camarada? Essa questão impulsiona a primeira cena de Greta Garbo no filme Ninotchka, dirigido por Ernst Lubitch e lançado em 1939.

Iranoff, Buljanoff e Kopalski são três baixos oficiais soviéticos que estão em Paris para negociar uma venda de joias confiscadas de aristocratas russos. Nesta cidade, eles acabam se deixando levar pelas tentações burguesas e se corrompem pela decadência da riqueza parisiense, comprando ternos de luxo e bebendo champagne. Moscou acaba sabendo do desenvolvimento dessa situação e envia um camarada para corrigi-los. Enquanto a cena se inicia, Iranoff, Buljanoff e Kopalski estão em uma estação de trem para encontrar seu camarada. Mas quem é o camarada? “Como podemos encontrar alguém sem saber como ele se parece?” pergunta Kopalski. Observando os passageiros, Iranoff acredita que encontrou o camarada. “Deve ser aquela pessoa!” concorda Buljanoff. “Sim. Ele parece um camarada.” Mas o olhar pode ser enganoso. Enquanto eles andam de encontro a pessoa, o homem que eles identificam cumprimenta outra pessoa: “Heil Hitler!” Iranoff balança sua cabeça, “Não é ele.” Qualquer um ali poderia ser seu camarada, mas nem todo mundo. Algumas pessoas claramente não são camaradas. Eles são inimigos. Iranoff, Buljanoff e Kopalksi não conseguem descobrir seu camarada ao procurar olhando-o. A identidade não tem relação com a camaradagem.

Enquanto eles pensam no que vão fazer, eles são abordados por uma mulher (Garbo). Ela se anuncia enquanto Nina Ivanova Yakushova, uma enviada extraordinária. Kopalski e Iranoff nota sua surpresa ao ver que Moscou enviou uma “camarada mulher”. Se soubessem, teriam trazido flores. Yakushova adverte eles. “Não façam isso uma questão da minha feminilidade” ela diz. “Nós estamos aqui para trabalhar por todos nós.” O fato dela ser uma mulher é desconsiderado. Novamente, a identidade não tem relação com a camaradagem – é sobre uma tarefa, a tarefa de construir o socialismo.

Dizer que qualquer um, mas nem todo mundo, pode ser um camarada acentua como “camarada” denota uma relação que é ao mesmo tempo uma divisão. A camaradagem tem como premissa a inclusão e a exclusão – que qualquer um, mas nem todo mundo pode ser um camarada. Não é uma relação infinitamente aberta ou flexível, mas uma que tem base na divisão e na luta. Existe um inimigo. Mas ao contrário do clássico relato de Schmitt sobre a política em termos da intensidade do antagonismo entre um amigo e um inimigo, a camaradagem não diz respeito ao inimigo. O fato de que o inimigo, da luta, é a condição ou a sustentação da camaradagem, não determina a relação entre os camaradas. Camaradas são aqueles que estão do mesmo lado dessa divisão. Em respeito a essa divisão, eles são iguais. A igualdade é daqueles que estão do mesmo lado. Ao dizer “camarada” se está anunciando um pertencimento, uma igualdade que vem por estar ao mesmo lado.

Essa igualdade não aparece simplesmente na relação entre membros de um partido, mas também na expressão militar “camaradas de armas”. “Camaradas de armas” designa aqueles que lutam ao mesmo lado contra um inimigo, um outro exército, um outro pelotão de “camaradas de armas”. Na introdução de Condenados da Terra de Frantz Fanon, Jean-Paul Sartre escreve que “cada camarada em armas representa a nação para qualquer outro camarada. Seu amor fraterno é o lado contrário do ódio que eles sentem por você.”

A forma que Sartre se aproxima da linguagem da fraternidade demonstra as sustentações étnicas e sanguíneas da nação que o termo “amigo” de Schmitt oculta. Sartre nos alerta, então, não apenas sobre a relação comum entre os camaradas de armas com o inimigo (o ódio, aquele que se deve matar), sobre como camaradas de armas estão do mesmo lado, mas também a distinção entre o camarada de armas e o camarada enquanto figura de pertencimento na tradição política socialista e comunista: a solidariedade entre camaradas não é um ódio invertido. Como vimos com Kollontai e Gorki, é uma resposta a fragmentação, hierarquia, isolação e opressão. Ao estarem do mesmo lado, camaradas confrontam e rejeitam a fragmentação, hierarquia, isolação e opressão com uma promessa igualitária de pertencimento.

Para reiterar: dizer que qualquer um, mas nem todo mundo, pode ser um camarada ressalta como a camaradagem demonstra uma relação de divisão – nós e eles – uma relação política, que não é a mesma que a relação entre um amigo e um inimigo, uma relação de estado absoluto e exclusivo. Em vez disso, existe um espaço de possibilidade: qualquer um pode ser um camarada, mas nem todo mundo.

Evocar aqueles que estão do mesmo lado, “camarada” é um termo de tratamento e designação das relações no exército, as vezes entre colegas de classe, e típico nos partidos socialistas e comunistas. Nós ganhamos a clareza do núcleo igualitário e emancipatório do termo quando distinguimos a camaradagem de outras relações.

A relação entre camaradas não é uma relação de parentesco. Não é igual a relação entre irmãos, irmãs, pais e filhos, casais ou primos. O primo de alguém pode ser um camarada, mas adicionar “camarada” mostra que algo a mais está sendo dito, demonstra um aspecto de uma relação que a relação entre primos não demonstra. O termo “camarada” adiciona um elemento político, destacando o fato de que os primos estão do mesmo lado. Eles compartilham a política para além de sua relação sanguínea ou de parentesco. Parentes podem e discordam politicamente. Nós podemos ter uma relação sanguínea sem compartilhar a mesma política. A mesma coisa acontece com o casamento. Pessoas podem ser maridos e esposas sem serem camaradas. Frida Kahlo uma vez disse em uma famosa passagem sobre Diego Rivera, com quem ela se casou duas vezes, “Diego não é o marido de ninguém e nunca será, mas ele é um grande camarada.”

E também como a relação entre camaradas não é mediada por sangue ou casamento, ela também não é mediada por meio de herança. Em vez de passar adiante propriedade e privilégio, o camarada se coloca contra eles, desmanchando as hierarquias com a insistência igualitária daqueles que estão lutando do mesmo lado.

O camarada não é um vizinho. Morar perto de alguém não faz dessa pessoa um camarada. Podemos fazer parte da mesma localidade, da mesma comunidade, tribo ou vizinhança, sem ser camaradas. Camaradagem não indica uma relação espacial ou uma obrigação que vem da proximidade e ou de uma sociabilidade compartilhada.

O camarada não é um cidadão. A cidadania é uma relação mediada pelo Estado. A camaradagem excede o Estado. Ela não tem o Estado enquanto base de referência. Uma pessoa pode ter camaradas pelo mundo todo. O Camarada é interessante nesse sentido pois coleta cartas, discursos, artigos, e todos os tipos de textos de socialistas europeus. Mesmo enquanto os novos socialistas dos EUA não são ainda parte da “internacional”, eles enfatizam e se afiliam com o movimento político internacional. A ruptura de camarada com o cidadão também se manifesta quando nós notamos o medo do Estado de comunistas serem traidores, com estes tendo lealdade a uma organização, em vez de serem leais ao Estado. Nos Estados Unidos, durante a Guerra Fria (e hoje em dia com a retórica da direita), o termo “camarada” era utilizado de uma maneira negativa para acentuar a quão perigosa era a alteridade dos comunistas. Os camaradas podem se opor a outros cidadãos.

A relação entre camaradas não é a mesma relação entre amigos. O livro “O retorno do camarada Ricardo Flores Magón” de Claudio Lomnitz ajuda a ilustrar este ponto. Lomnitz descreve a vida do Partido Liberal Mexicano, uma rede transnacional de comunistas revolucionários libertários que operavam no México e nos EUA e que se engajaram na Revolução Mexicana. Os imigrantes e exilados mexicanos vivendo nos EUA dividiam o trabalho político e o trabalho para sobreviver sob as condições capitalistas. Devotando tudo para sua causa, alguns camaradas se abriam para o oportunismo daqueles menos comprometidos, para a exploração daqueles que começaram a priorizar o seu caminho para os EUA. Tensões sobre a socialização e trabalho, política e comprometimento, levaram a suspeitas de infiltramentos. Lomnitz escreve, “E se achassem que um camarada estava sendo oportunista e tinha ambições pessoais, essa pessoa poderia estar inclinada a se entregar e até mesmo entregar seus camaradas. Por esse motivo, a linha entre as desavenças pessoais e as suspeitas de traição poderiam ser muito tênues, e havia um trabalho para manter essa distinção.”

Camaradas podem ser amigos, mas amizade e camaradagem não são a mesma coisa. Nós vemos isso claramente quando amizades se desgastam. A antipatia pessoal não significa que uma pessoa não seja um camarada. Em associações próximas, as relações entre camaradas e amigos se confundem e se sobrepõem. Manter a diferença, a distância, entre elas requer trabalho, um importante trabalho. A camaradagem requer um certo grau de alienação das necessidades e exigências da vida pessoal às quais os amigos devem atender.

Nós aprendemos com a Ética e Nicômaco de Aristóteles que a amizade é uma relação direta entre duas pessoas que se beneficiam uma a outra. É uma relação ancorada na pessoa, para o benefício e excelência do indivíduo. Em contraste, a camaradagem é ampla – são como abelhas e estrelas, alguém antes desconhecido agora é revelado como um camarada. A camaradagem se estende por meio das relações intimas até relações com aqueles que não conhecemos quase nada da personalidade. Qualquer um pode ser um camarada, gostem de mim ou não, sejam como eu ou não.

A distinção entre um camarada e um amigo aponta a dimensão inumana do termo camarada: a camaradagem não tem relação com a pessoa ou a personalidade em sua especificidade; é um termo genérico. A camaradagem abstrai o que é especifico das vidas individuais, da singularidade da experiência vivida. Ela se preocupa antes, com a igualdade que resulta de estar do mesmo lado em uma luta política. Nesse sentido, o camarada é libertado das determinações da especificidade, libertado pelo horizonte político comum. Ellen Schrecker mostra esse ponto em seu relato magistral do anticomunismo nos Estados Unidos. Durante o período de perseguição comunista de McCarthy, havia uma suposição comum de que “todos os comunistas eram iguais”.

Comunistas eram comparados com fantoches, engrenagens, automações, robôs e até escravos. Nas palavras de “uma testemunha profissional da era de McCarthy” as pessoas que se tornavam comunistas eram “não mais humanas, mas sim robôs; elas eram acorrentadas em uma escravidão moral e intelectual pior do que qualquer prisão.”

A verdade por trás dessa afirmação hiperbólica anticomunista é o aspecto genérico do camarada, do camarada enquanto uma relação disciplinada e disciplinante que excede os interesses pessoais. A camaradagem não é pessoal. É política.

As outras relações – parentesco, vizinhança, cidadania, amizade – ordenam degenerações da camaradagem, erros que camaradas comentem quando eles substancializam a camaradagem por via da raça, etnia, nacionalidade e personalidade. Vemos esse erro substancialista no uso de “camarada” pelos italianos e alemães (camerata, Kamerad) enquanto termo de tratamento. Para eles, “camarada” é um nome politicamente fascista. Entretanto, essa substancialização é claramente uma degeneração: um fascista não pode dizer que qualquer um pode ser um camarada. Os alemães de esquerda (socialistas, comunistas, anarquistas) em vez disso utilizam Genosse/Genossen e os italianos usam compagno/compagna. Genosse vem da antiga palavra alemã “ginoz”, que designa o prazer de compartilhar algo, o prazer de fazer algo com alguém.

De volta ao meu ponto: a energia igualitária e emancipatória do termo “camarada”, sua capacidade vitalizadora e habilidade para mapear as relações sociais de um novo modo, é o produto de seu aspecto genérico – qualquer um, mas nem todo mundo, pode ser um camarada. Quando a camaradagem se inclina para a nacionalidade, etnia, raça ou é confundida enquanto uma relação que supostamente vai beneficiar o indivíduo, e quando é equacionada com as relações medidas pelo Estado, o recorte do aspecto genérico é perdido.


Tradução da segunda tese sobre a camaradagem, publicada no ensaio “Quatro teses sobre a camaradagem” escrito por Jodi Dean, o documento completo pode ser visto neste link.

Tradução por Andrey Santiago

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