Walter Rodney – “Sobre a Questão Racial na Guiana”

Em meados da década de 70, em um discurso realizado na cidade de Georgetown em defesa de Arnold Rampersaud (Rampersaud era um militante do Partido Popular Progressista que foi preso e acusado do assassinato de um policial em 1974. Em meio a atenção e mobilização local e internacional, ele foi finalmente absolvido em 1977), Walter Rodney lembra a população guianesa dos custos da suspeita mútua e quais interesses isso servia no fim.

É importante compreender que os seguintes comentários foram feitos especificamente no contexto da situação guianesa.


Vejam bem, já tivemos o suficiente desta tolice de raça. Não vou tentar atribuir a culpa a alguma coisa de uma forma ou de outra. Acredito que mais de um partido político foi responsável pela crise das relações raciais neste país. Acredito que nossa liderança nos falhou nesse aspecto. Acredito que a intervenção externa foi importante para colocar as raças umas contra as outras a partir dos anos cinquenta e principalmente no início dos anos sessenta. Mas estou preocupado com o presente. Se cometemos esse erro uma vez, não podemos nos dar ao luxo de ser enganados a esse respeito hoje. Nenhum afro-guianense comum, nenhum indo-guianense comum pode hoje se dar ao luxo de ser enganado pelo mito da raça. Vez após vez, foi a nossa ruína.

Tem alguma coisa a ver com a raça que o custo de vida supere em muito o aumento dos salários? Tem alguma coisa a ver com a raça o fato de não haver mercadorias nas lojas? Tem alguma coisa a ver com a raça quando a falta de democracia real, exemplificada nas eleições nacionais, é reproduzida ao nível das eleições governamentais locais? Tem alguma coisa a ver com a raça quando os trabalhadores da bauxita não podem eleger sua própria direção sindical? Tem alguma coisa a ver com a raça quando, dia após dia, quer se seja indígena ou africano, sem as devidas credenciais partidárias, a pessoa não consegue um emprego, ou perde os seu emprego ou fica sujeito à falta de promoção no trabalho?

É claro que devemos ir além dessa pista falsa e reconhecer que ela se destina a dividir, que não é do interesse do povo africano e indígena comum neste país. Aqueles que manipularam na década de 1960, de ambos os lados, não foram os sofredores. Não houve os perdedores. Os perdedores foram aqueles que participaram, que compartilharam golpes e que receberam golpes. E eles são os perdedores hoje.

É hora de entendermos que aqueles que estão no poder ainda estão tentando nos manter nessa mentalidade – nos manter cativos naquela mentalidade em que temos medo de agir ou agimos de forma imprudente porque acreditamos que nossos interesses raciais estão em jogo. Certamente temos que transcender os problemas raciais? Certamente temos que encontrar maneiras e meios de garantir que haja justiça racial nesta sociedade? Mas certamente não será feito por um punhado de supostos negros monopolizando o poder, tirando a vida de todos os setores da classe trabalhadora e dando meia volta e esperando que eles manipulem uma questão como a do caso de Arnold Rampersaud e obtenham o apoio de pessoas negras comuns porque diremos: ‘Afinal; é só um indígena. Poderíamos enforcá-lo. Sem trabalho.’

Porque, como eu disse antes, você começa com uma coisa e termina com outra. O sistema não para na discriminação racial. Por ser um sistema de opressão de classe, ele apenas camufla sua natureza de classe sob uma cobertura racial. E, no final, ele se moverá contra qualquer um, independentemente da cor. No final, eles se moverão até mesmo contra os seus. Porque, não acredite se você for membro desse partido hoje, que amanhã estará protegido das injustiças. Porque quando um monstro cresce, ele fica fora de controle. Ele devora até mesmo aqueles que criaram o monstro. E é hora de nosso povo entender isso.


Texto originalmente publicado no site History as a Weapon, disponível neste link.

Tradução por Andrey Santiago

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