Jorge Amado – “A Bandeira do Partido em Mato Grosso”

Artigo escrito por Jorge Amado para a Tribuna Popular nº 74.

Publicado em 15 de agosto de 1945.

Transcrição de Luca Quitete.

Campo Grande, agosto – Quero vos falar primeiro do sr. João Pedro de Souza e dele quero falar com respeito, com amizade também. É um velho alto e magro, de face queimada pelo sol do oeste, rosto curtido pelos ventos que levantam a vermelha poeira das ruas de Campo Grande. Setenta e um anos é a sua vivida idade. É o mais recente membro do Partido Comunista do Brasil, em Mato Grosso. Seu coração não envelheceu. Quando a bandeira do Partido do proletariado e do povo foi desfraldada sobre os campos agrestes, as cidades, os latifúndios imensos, os rios, a dor dos camponeses, a rápida riqueza e a rápida miséria dos garimpos, ele, o velho Souza, preencheu uma ficha de inscrição. Que importa que mais de setenta janeiros já tenham cortado de rugas seu semblante, já tenham pintado de branco seus cabelos, dado certo tremor à sua voz? Nunca é tarde para lutar pela liberdade, pela Pátria e pelo povo. Seu filho Mario de Souza levantou-se um dia de armas na mão quando o fascismo ameaçava dominar o Brasil, quando a quinta-coluna vestia de verde o que existia de mais podre e sujo no país. Foi no tempo do povo em armas, na madrugada nacional-libertadora de 35, o Mário era oficial do 3º Regimento, o da Praia Vermelha. Seu filho Mário de Souza andou pelas prisões, morou em ilhas, acostumou-se ao mar tão diverso dos campos sem fim de Mato Grosso.

Nunca é tarde para lutar pela liberdade, pela democracia, contra o fascismo, contra a dor e a miséria, eis o que nos ensina o velho João Pedro de Souza, que aos 71 anos de idade ingressou no Partido Comunista do Brasil, vanguarda de toda luta pelo bem do homem. Outros velhos procuram descansar, que muito já trabalharam e sofreram neste mundo. O velho João Pedro deu seus filhos, o bem maior que ele tinha. Mas seu coração não deseja o descanso quando em torno há tanta injustiça e tanto sofrimento. Em meio a esta poeira vermelha de Campo Grande leio a notícia alegre: Teodoro Dreiser, o grande romancista yankee, velho ele também de setenta anos, ingressou no Partido Comunista dos Estados Unidos. E junto na mesma emoção desses nomes distantes, o do romancista glorioso e o do velho mato-grossense. As portas do Partido estão abertas para todos os homens de bem. Vi um jovem índio, não tinha vinte anos. Vi o velho João Pedro, eis o Partido, juventude do mundo, esperança do mundo, alegria final dos anciãos. É a maior família do Brasil.

Operários nas vossas fábricas, ferroviários sobre as locomotivas na Noroeste inesquecível, camponeses curvados nos feudos, artistas e escritores, aqui está vosso companheiro João Pedro de Souza que não deseja vegetar descansada a velhice, que marcha convosco nas fileiras do Partido Comunista. A bandeira do Partido sobre seu incansável coração. Sob essa bandeira da foice e martelo, desfraldada em Mato Grosso nesses dias de agosto, quem eu enxergo primeiro é o velho João Pedro de Souza, seu rosto curtido pelo sol e pelo vento, sua flama de esperança, seu magnífico exemplo.

Vieram homens de toda parte dessa imensa nação de Mato Grosso para a cidade de Campo Grande. Antes eram os campos desertos, imensos e abandonados, latifúndios onde nasce a dor e floresce a miséria. O avião cruzava sobre o atraso do mundo feudal. Era como viajar para traz no tempo e na história. Mas em campo Grande estava o futuro tremulando com a bandeira do Partido, nas mãos dos operários, nas mãos dos camponeses olhando de frente, seu rosto sério e sofrido, nome nas bocas repetido: Prestes. Desde os dias de 24, quando a Coluna passou como uma rajada de justiça em armas.

Falarei antes dos que vieram de longe, cruzando os rios difíceis, cortando a selva, nos trens primitivos, nas canoas demoradas, no lombo tardio dos animais. Vieram nas conduções mais diversas, mas chegaram todos para a instalação do Comitê Estadual do Partido. Vieram de Corumbá, vieram de Aquidauana, de Três Lagoas dos ferroviários, de Cuiabá, de Três Barras, esses são homens dos garimpos, homens sem pouco e sem descanso, vieram de Camapuã, de Três Barras chegaram a cavalo que outra condução não havia para Campo Grande. Mas como não vir pra essa festa do povo no fim do Brasil? Como não chegar a tempo para aplaudir o alfaiate Benedito Domingues, secretário estadual, na análise dos problemas de Mato Grosso e do Brasil: “O Partido Comunista do Brasil preconiza ou a exploração intensiva, por métodos progressistas, das grandes propriedades vizinhas aos centros de consumo e ao longo das vias de comunicações ou a sua desapropriação para parcelamento e entrega a verdadeiros lavradores não possuidores de terras. A distribuição dessas terras deverá naturalmente ser acompanhada de amparo material e técnico, indispensável para que o pequeno lavrador não fracasse frente às grandes dificuldades conhecidas, de falta de transporte, instrução e crédito.

O Partido Comunista do Brasil condena o aspecto reacionário e antiprogressista das grandes fazendas de criação com terras e insuficientemente aproveitadas ou inaproveitadas de todo.

O Partido Comunistas do Brasil trabalha pela desapropriação das partes improdutivas dessas fazendas e sua entrega aos pequenos criadores sem-terra, sempre acorrentados a odiosos contratos de arrendamento.

Paralelamente pleiteamos um sistema de crédito agropecuário, que realmente contribua para o desenvolvimento econômico da região, isto é, uma menor taxa de juros, um prazo maior para pagamentos dos empréstimos, sua extensão sobre tudo nos pequenos agricultores e pecuarista e severa fiscalização para prevenir o desvirtuamento na aplicação desses créditos.

É claro que a solução para todas essas questões só poderá ser encontrada no esforço conjunto de todas as classes progressistas, na grande União Nacional que o Partido Comunista propõe pela voz do seu chefe e líder querido do povo Brasileiro Luiz Carlos Prestes.”

E vieram também das cidades e vilas do Território de Ponta-Porã, nas fronteiras da Pátria, chegaram da capital, de Miranda, de Maracajú, de Porto Esperança, de Boavista, de Nioac. Eu os vejo junto aos homens de Campo Grande, no apertado da sede apenas instalada e já pequena do Partido. São homens rudes, de rosto bronzeado, bigodes caindo sobre os lábios fortes, homens da selva, a língua que eles falam é densamente misturada em espanhol e palavras em guarani, recordam o Paraguai e a Bolívia, são homens que chegaram de longe e levarão as sentenças de Benedito, de Celso Cabral que veio representar o Comité Nacional, dos demais dirigentes, do escritor e médico Pery Alves Campos, para suas distantes moradas onde luz de esperança nascerá.

Sobram na sede do Partido para as ruas de Campo Grande, para as estradas e os rios de Mato Grosso, para os latifúndios, as vilas perdidas, a selva e os pântanos. Daqui, desta mesa onde estamos, eu os vejo, homens dos confins do mundo brasileiros, figuras talhadas como primitivas esculturas, de traços largos e fortes, velhos e moços, sérios e calados, ouvindo atentos, os olhos fixos e brilhantes. Estendem-se sob a bandeira do Partido por todo Mato Grosso, são a nova Coluna na nova marcha, desta vez pacífica, com a arma do voto, da unidade pelo progresso do Brasil. Eu os vejo, são os soldados de Prestes e do Partido em Mato Grosso. Esse que veio de tão longe, vencendo mil dificuldades, fez a cavalgada gloriosa da Coluna. É um áspero capitão da selva, de poucas palavras, de raro sorriso. Abre passagem até a mesa, só quer perguntar:

– Como vai ele? É verdade que tá doente?

Fala de Prestes, não é preciso dizer o nome. Há uma ternura de funda amizade na sua voz, um temeroso cuidado quando pergunta por aqueles boatos que chegaram às fronteiras:

–  É verdade que tá doente?

E em torno, os outros aguardam a resposta por que Prestes é um capital de todos eles, eles o conhecem de perto e de há muito. Eles viram-no passar no seu cavalo em 24, era um jovem capitão, era um general de gênio, era um aprendiz de política no sofrimento do povo. Eles o viram, eles o conheceram e o amaram. E o reconhecem agora na sua face serena sobre o passado de ilimitada angústia, sua voz de verdade, sua voz de amor.

Há um brilho nos olhos aguardando a resposta, uma ansiedade que parecia impossível nesses homens de bronze chegados da selva. Digo que o vi no Rio, já bem melhor de saúde que em São Paulo na festa do Pacaembú.

– Ele trabalha demais – diz o homem da Coluna e completa – mas isso nunca ninguém vai conseguir mudar. Ele é mesmo assim…

E já não quer saber de nada, fita a bandeira do Partido que as mãos operárias de Campo Grande desfraldaram sobre Mato Grosso.

E ouvem os nomes heroicos, pronunciados com emoção, nomes de Mato Grosso, nomes do Partido.

Jofre Alonso da Costa, o cabo Jofre da aviação, que morreu lutando para salvar companheiros quando a caravana policial chegou ao esconderijo do Partido. Foi no Rio de Janeiro nos dias subterrâneos da ilegalidade, mas Jofre nasceu em Mato Grosso e seu nome é uma legenda de glória. E agora é a vez das palmas para Apolônio de Carvalho que saiu da selva indevassável, para lutar pela liberdade nos quatro cantos do mundo. O oficial de 35 foi depois o herói da Espanha leal, da república contra o fascismo nos dias de ascenso de Hitler. Desapareceu quando chegou a guerra e em todos os corações revolucionários vivia a pergunta: – Onde andará Apolônio?

Ele andava onde a liberdade lutava que essa é sua vocação.

Um dia a França foi redimida e eis que o mato-grossense Apolônio de Carvalho, cidadão de Madrid, era coronel de “maquis”* libertando Paris. Sob a bandeira do Partido mesmo na ilegalidade perseguida, formaram-se os homens em Mato grosso. O Partido é uma escola de dignidade e honra.

Vi o comício, vi o banquete dos intelectuais, vi os estudantes do “Grêmio Castro Alves”. Vi o Mato Grosso de pé e quero vos contar, operários das fábricas, marinheiros dos navios, ferroviário das locomotivas que perguntavam por Mario Scott em cada estação, camponeses dos feudos, quero vos contar que era belo e que dava ânimo e confiança. A bandeira do Partido sobre os rios e os campos, sobre os pântanos e as cidades, sobre a miséria e a dor. Luz sobre o oeste brasileiro. O nome de Prestes em todas as bocas na doce pronuncia guarani. Celso Cabral me perguntou num espanto que era seu e meu:

– Quem não é comunista em Mato Grosso?

Não sei quem não é comunista em Mato Grosso, mas sei dos seus comunistas que são capazes e desejam ser ainda mais capazes. São muitos e serão milhares e milhares amanhã. Vão nos trens e nas canoas, nos lombos dos cavalos, estão curvados sobre os rios nos garimpos, de enxada e foice nos feudos atrasados. Aqui passou a Coluna Prestes na viagem que supera a imaginação. Agora está o Partido Comunista, herdeiro da esperança do Brasil.

Sei de João Hernandez, das oficinas do Noroeste em Três Lagoas, dirigente estadual do Partido. Forjado na ilegalidade mais dura, na luta mais brava, na perseguição mais injusta, na fome, nas torturas, no cárcere. São 15 anos de Partido, mais de vinte de luta. O trem da Noroeste vai partir de Campo Grande e os companheiros estão na plataforma. Radio Maia acena sua mão amiga, vejo Cecilio Rocha, o escritor ao lado do operário. João Hernandez vai conosco, ficará em Três Lagoas. Rosto nobre, voz profunda, doces olhos de criança, mãos calosas de trabalhador. Sua voz enche a noite no relato das histórias de ontem, heroísmo anônimos e desconhecidos. Mas seus olhos fitam o futuro, são olhos cheios de ternura pelo povo e pelo Partido, suas palavras agora são quase paternais quando fala do povo de Mato Grosso. Rosto tão nobre poucas vezes vi, coração tão irredutível no amor ao ser humano, à dignidade da vida, confiança tão grande no destino da humanidade.

Nessas mãos assim está a bandeira do Partido desfraldada em Mato Grosso em agosto de 45. Fico feliz de testemunhar essa festa, viver essa alegria.

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