W. E. B. Du Bois – O Negro e o Socialismo

Em 1958, Du Bois falou em um simpósio intitulado “Em direção a uma América socialista” onde ele discursou o texto que segue. O texto resume a visão de Du Bois sobre o socialismo, sua perspectiva sobre qual deveria ser a atitude dos afro-americanos frente à ascensão do socialismo no mundo e sua compreensão da geopolítica do momento.

Tradução de Sandro M. Dos Santos

Sobre o autor

Um dos maiores se não o maior dos pensadores afro-americanos, W. E. B. Du Bois é responsável por alguns dos escritos mais importantes sobre a história e realidade social dos negros dentro e fora dos Estados Unidos. Sua vida se confunde com a história da luta contra o racismo e a segregação no país. Um dos fundadores da NAACP e um dos responsáveis pelo primeiro congresso pan-africanista, Du Bois foi uma das vozes mais proeminentes no movimento afro-americano e no movimento pan-africano. Entretanto, seu interesse e eventual adesão à causa do socialismo o levou a um caminho muito diferente do trilhado pela liderança da organização que ele ajudou a fundar. Seu descontentamento com o liberalismo e a subordinação aos interesses da administração Truman pela liderança da NAACP produziu um rompimento permanente com a organização. Para Du Bois, a emancipação do povo negro não poderia ser alcançada pela submissão aos interesses do imperialismo norte-americano. A consciência disso consolidou as convicções socialistas de Du Bois culminando na sua filiação ao Partido Comunista dos EUA em 1961. Na carta que escreveu para requisitar a sua filiação pode-se ler: “No fim, o comunismo triunfará. Quero contribuir para fazer esse dia chegar. ”

Sobre o escrito

Em 1958, Du Bois falou em um simpósio intitulado “Em direção a uma América socialista” onde ele discursou o texto que segue. O texto resume a visão de Du Bois sobre o socialismo, sua perspectiva sobre qual deveria ser a atitude dos afro-americanos frente à ascensão do socialismo no mundo e sua compreensão da geopolítica do momento. No texto, Du Bois lança uma poderosa denúncia do capitalismo e especialmente do crescente imperialismo dos Estados Unidos, identificando em ambos a origem do racismo, da miséria generalizada e do perigo da guerra em escala mundial. Para ele, somente o socialismo seria capaz de conduzir a humanidade para fora desse curso de autodestruição. No final do escrito, aos afro-americanos, Du Bois lança uma conclamação para que não se limitem aos métodos do movimento dos direitos civis: “Resistência passiva não é o fim da ação, mas o começo. Após a recusa por lutar, há a questão de como viver. ” As conquistas do movimento são célebres, mas o problema de fundo da opressão e exploração dos negros somente poderá ser encontrado no sistema socioeconômico. Por essa razão, o grande intelectual negro lança o alerta: não bastará pôr fim a descriminação racial nos ônibus se nada se faz a respeito da exploração dos donos das companhias de ônibus, que representam nessa questão o monstruoso sistema capitalista de exploração. Uma real e concreta emancipação do povo negro dos Estados Unidos somente será possível quando esse sistema, nascido da escravização de corpos negros, também for abolido. Com sorte esse será apenas o primeiro de vários textos de Du Bois e da luta revolucionária antirracista nos Estados Unidos que pretendo traduzir e disponibilizar em português.

O Negro e o Socialismo

Os Estados Unidos, que gostariam de ser considerados uma democracia devota à paz encontram-se hoje fazendo os maiores preparativos para guerra entre todas as nações da terra e realizando eleições onde seus cidadãos não tem a oportunidade para votar pelas políticas que eles prefeririam.

Quais são as causas para essa situação contraditória? Primeiro, nós sabemos que a principal razão em se preparar para guerra é o fato de que de forma devagar, mas segura o socialismo se disseminou pelo mundo e se tornou uma forma viável de governo. Hoje, pela primeira vez na história, a maioria da humanidade vive em regimes socialistas, seja uma forma completa de socialismo como na União Soviética e China, ou um socialismo parcial como na Índia e Escandinávia. A maioria dos americanos professa a crença de que essa propagação do socialismo é principalmente o resultado de uma conspiração liderada pela União Soviética e instigada por um setor de cidadãos americanos. Por medo desse grupo, nós cerceamos governo democrático, limitados liberdades civis e planejamos guerras em uma escala gigantesca.

A propagação do socialismo nos últimos cem anos é um fato inquestionável. Ela surgiu de um protesto crescente contra a expansão tremenda do empreendimento de negócios que se seguiu a Revolução Francesa. Essa iniciativa privada e anarquia econômica resultou no sistema fabril, que surgiu do comércio escravo americano, do império do açúcar e do Reino do Algodão. Tudo isso foi concomitante com tanto sofrimento e degradação entre as massas trabalhadoras, que no final do século XIX dificilmente havia um homem de pensamento ou sentimento, dificilmente um cientista ou um artista que não acreditasse que o socialismo eventualmente deveria suplantar o descontrolado capitalismo privado ou a civilização iria perecer.

Por toda parte, desde a Guerra Civil nos Estados Unidos, o socialismo cresceu e se propagou e se tornou mais e mais definido. Ele surgiu no sonho e na fantasia doutrinária que caracterizou Fourier e Saint-Simon para se tornar a doutrina bem fundamentada de Karl Marx e, finalmente, os Estados socialistas de Lênin e Mao Tse-tung. Em todo esse avanço difícil, se encontrava a ideia central de que todo homem deve trabalhar por seu sustento, mas que os resultados de seu trabalho não deveriam ir principalmente para sustentar pessoas privilegiadas e concentrar poder nos donos da riqueza; que o bem-estar das massas deveria ser o principal objetivo do governo.

Para assegurar esse fim cresceu a convicção que o governo precisa cada vez mais ser controlado pelos governados; que as massas, crescendo em inteligência, com renda suficiente para viver uma vida boa e saudável, deveriam controlar o governo e que eles seriam capazes de fazer isso pela propagação da ciência e de técnicas científicas, acesso à verdade, o uso da razão, a liberdade de pensamento e o impulso criativo da arte e da literatura.

A dificuldade de conquistar isso reside nos padrões culturais presentes — nos dogmas religiosos opressivos e na longa ideia inculcada de que nada melhor do que a propriedade privada e o controle do capital poderia ser pensado, haja vista à natureza humana.

Controle democrático, portanto, ainda que crescente, tem a tendência de ser restritamente político ao invés de econômico. Ele tem mais haver com a escolha de representantes do que com trabalho e renda. A descoberta de novas forças naturais e o uso crescente de maquinário com técnicas industriais intricadas tendem a pôr a terra, o trabalho e a propriedade do capital e da riqueza sob controle de poucos que são afortunados ou agressivos ou escrupulosos e enfatiza a crença de que, enquanto as massas de cidadãos podem compartilhar o governo elegendo representantes para administrar a lei, e legisladores podem criar leis em certas áreas do governo, o povo não pode controlar a indústria ou limitar ganhos.

Na medida em que a ciência aumenta seu domínio da natureza e à medida em que a indústria começa a usar o comércio mundial para expandir mercados, um problema inteiramente novo de governo surge. A indústria percebe que, a menos que a organização industrial tenha amplo controle sobre o governo, ela não poderia controlar terra e trabalho, monopolizar matérias, determinar preços no mercado mundial e regular crédito e moeda. Para esse propósito, uma nova indústria mundial integrada surgiu chamada de “grande negócio” [no original, “big business”], um nome impróprio. Sua significância não reside em seu tamanho. Não foi simplesmente pequenos negócios se tornando grandes. Foi o surgimento de um supergoverno organizado da humanidade em matéria de trabalho e salários, dirigido com ciência e perícia para o lucro privado de indivíduos. Ele não poderia ser controlado pelo voto popular, a menos que aquele voto fosse inteligente, experienciado e votado por pessoas essencialmente iguais em riqueza e poder. A maioria esmagadora da humanidade ainda era ignorante, doente e indigente.

Repetidos e variados mecanismos para manter e aumentar controle democrático sobre a indústria e a riqueza foram regularmente tornados inúteis por treinamento superior e uma moral inescrupulosa dos donos da riqueza contra a ignorância e a inexperiência dos eleitores. Suborno dos eleitores mais empobrecidos; ameaças e mesmo violência; medo pelo futuro e conspiração organizada da minoria interessada contra a maioria desorganizada; propaganda mentirosa e habilmente disseminada usou ódio racial, dogma religioso e diferentes interesses familiares e de classe para arruinar a democracia. Em nosso próprio tempo, nós vimos que o imposto de renda, planejado para colocar o fardo dos gastos do governo na classe dos proprietários em proporção à renda, na verdade coloca o maior peso dos impostos nas classes de menor renda, enquanto os indivíduos ricos e as corporações escapam com a menor proporção dos impostos.

Quando os fazendeiros americanos e trabalhadores se revoltaram contra o começo do sistema colonial britânico e estabeleceram uma república de cidadãos livres e iguais, às pessoas mais cultas parecia que uma nova era de desenvolvimento da civilização ocidental havia começado. Aqui, longe de uma Europa de títulos, longe de um condicionamento consolidado das massas a uma desigualdade hereditária e subserviência ao luxo e ostentação deveria emergir uma nação de homens iguais. Aquela igualdade era para ser baseada em oportunidade econômica que, como Karl Marx depois iria pregar, era a única igualdade real.

Mas infelizmente enquanto os Estados Unidos proclamaram completa igualdade, eles nunca a adotaram. Primeiro, eles prolongaram o reconhecimento europeu da propriedade como mais significativa que irmandade humana. E então eles descobriram que o roubo da terra dos indígenas não era assassinato, mas um método de progresso. Depois, a América reduziu o trabalho africano, que o emergente comércio britânico a impusera, à condição escravizada e ganhou disso uma riqueza tão fabulosa do tabaco, do açúcar e do algodão que a Europa se tornou o centro triunfante do capitalismo privado e os Estados Unidos seu fornecedor de terra livre e trabalho barato.

Essa nação teve que lutar a Guerra Civil para prevenir todo operariado americano de se tornar semi-escravizado. Assim, de 1620 quando os puritanos desembarcaram até 1865 quando a escravidão foi abolida, não havia democracia completa nos Estados Unidos. Isso não se devia apenas por que grande parte da classe trabalhadora estava escravizada, mas também por que os trabalhadores brancos estavam em competição com escravos e, portanto, não eram realmente livres.

Nos séculos XIX e XX, enquanto o socialismo avançava nas principais nações europeias e na América do Norte, na maioria do mundo europeu o monopólio da riqueza e da técnica — fortalecidas pelas teorias de inferioridade natural da maioria dos seres humanos — levou ao direito presumido da Europa Ocidental de governar o mundo para o benefício e entretenimento do povo branco. Essa teoria de dominação mundial estava por de trás da ascensão da classe trabalhadora ocidental e ajudou a manter democracia e progresso social afastadas da Europa oriental, da Ásia e África, da América Central e América do Sul e das ilhas dos sete mares.

Na Europa Ocidental, um movimento operário e uma educação popular continuou introduzindo crescentes números de trabalhadores e membros da classe média dentro de um poder econômico compartilhado. Mas, em contrapartida, as massas do operariado de cor e do operariado branco nas atrasadas terras latinas e eslavas foram reduzidas a um status social subordinado de tal modo que o crescente lucro de sua terra e trabalho ajudou a manter elevado os lucros e os salários da indústria na Europa ocidental e na América do Norte. Também foi fácil contratar soldados brancos para manter “niggers”, “chinks”, “dagoes”, e “hunkies” [insultos raciais em língua inglesa referentes, respectivamente, aos negros, aos chineses, às pessoas de origem italiana e às pessoas da Europa central, mais especificamente eslavos e húngaros] em seus devidos lugares. Essa era a essência do imperialismo colonial. Foi a indústria organizada em escala mundial e manutenção da maioria da humanidade em tal sujeição econômica que produziu os maiores lucros aos donos da riqueza.

Enquanto isso, o novo esforço para alcançar o socialismo concebido por Karl Marx e seus sucessores cresceu. Nesse esforço foi declarado que, muito antes das massas de trabalhadores serem inteligentes e experienciadas o suficiente para conduzir uma indústria moderna, a direção industrial poderia ser fornecida para eles por uma ditadura de seus inteligentes e devotos líderes. Na medida que conhecimento e eficiência crescesse, democracia iria se desimanar entre as massas e eles se tornariam capazes de conduzir um moderno estado de bem-estar social. Para o governo mundial dos donos do capital, esse programa social era impossível sem essa ditadura cair das mãos de pessoas bem-intencionadas para as mãos de demagogos. Todo tipo de força foi utilizado para parar até mesmo a tentativa de instaurar tais Estados. Apesar disso, a Primeira Guerra Mundial, causada pela rivalidade sobre a possessão de colônias, resultou no esforço de começar um Estados socialista completo na Rússia; e, após a Segunda Guerra Mundial, surgida das mesmas causas da Primeira, uma tentativa similar foi feita na China.

Apesar de grande e repetida oposição, que usou todo método desprezível e criminoso possível, ambos Estados se tornaram tão bem-sucedidos e fortes que sua derrubada por forças externas ou revolta interna não parece de forma alguma provável. Além disso, e enquanto isso, em todos os países avançados, uma legislação socialista cresce firmemente. Ela não rastejou. Ela avançou com passadas poderosas.

Esse desenvolvimento enfatizou a luta entre o beligerante capitalismo privado e o socialismo em ascensão, os comunistas apontando o desnecessário atraso da socialização nas terras ocidentais e os capitalistas acusando comunismo de ditadura antidemocrática.

Para lutar contra o socialismo, grandes negócios, em contraste com empreendimentos ordinários de pequeno negócio, tiveram que se tornar socialistas em reverso. Se bem-estar público ao invés de lucro privado se tornou seu objetivo, se agentes públicos suplantaram donos privados, governo socialista ficaria sob controle da indústria. Entretanto, aqueles americanos que tem esperança de que o estado de bem-estar social será, assim, realizado sob o sistema de capital privado estão hoje tendo o tapete puxado sob seus pés pela recessão da democracia nos Estados Unidos. Isso surgiu de uma rejeição do socialismo por parte do operariado organizado e da consequente recusa do voto operário de seguir até mesmo os objetivos do New Deal. Essa rendição do operariado foi liderada pela nova indústria do Sul, com clima favorável, trabalho barato e metade daquele operariado privado de direitos eleitorais e em sua maioria desorganizado. A massa dos sulistas não vota. No distrito congressional onde o garoto negro Till foi morto,[1] viviam 400.000 negros e 300.000 brancos. Ainda assim, apenas sete mil eleitores foram às urnas para eleger seu atual congressista. Essa restrição do sufrágio da metade negra do voto operário no Sul mantém os negros pobres, doentes e ignorantes. Mas também fere o operariado branco ao tornar governo democrático disfuncional enquanto o Sul tiver de três a dez vezes o poder de voto do Norte e do Oeste.

Por causa dessa ilegal e sistemática restrição do voto, a maioria dos eleitores americanos pode ser vencida por uma minoria. Leis tais como os Ato McCarran e o Ato Smith podem se tornar estatutos ilegais porque uma minoraria de eleitores pode prevalecer sobre uma maioria. Números para provar isso são fáceis de aduzir, mas eu apenas menciono agora o fato que o ex-senador Lehman de Nova York representava o voto de cinco milhões de cidadãos que foram às urnas, enquanto o senador Eastland do Mississipi representa menos de 150 mil eleitores. Ainda assim, Eastland era muito mais poderoso que Lehman.

Essa perda de controle democrático do governo da nossa nação pode ser ainda mais bem claramente demonstrada. Não houve candidato efetivo para presidência na última eleição comprometido com a paz, desarmamento, abolição do alistamento obrigatório, impostos mais baixos, reconhecimento do direito da União Soviética e da China de terem o governo de sua escolha e comprometido em parar nosso esforço de forçar outras nações a fazerem o que queremos que elas façam. Não apenas não tivemos a chance de escolher nossa política externa, mas somos igualmente impotentes em decidir o curso dos nossos assuntos domésticos. Nosso sistema de educação está caindo aos pedaços. Nós precisamos de professores e escolas aos milhões, mas não podemos os ter se continuarmos produzindo armas no ritmo atual e enviando nossa juventude para aprender morte e destruição ao invés de enviá-la para construir, curar e ensinar.

Essa restrição da democracia é o resultado de conhecimento e discussão? Ao contrário, conhecimento e discussões são hoje tão restringidos que a maioria dos homens nem mesmo tenta expressar suas opiniões, a menos que arrisquem serem acusados de traição ou conspiração.

Qual é o porquê disso?

No mesmo momento em que os povos colonizados estão tentando desesperadamente conseguir comida e liberdade, poderosos americanos estão obcecados pela ambição de ter a América do Norte substituindo a Grã-Bretanha como o império sobre o qual o sol nunca se atreve a se pôr. Eles demandam lucros elevados e altos salários mesmo que o resto do mundo passe fome. Para restaurar o controle mundial da indústria organizada, abalada pela guerra e pela depressão, os Estados Unidos preferem preparação para guerra mundial universal e continua até que o imperialismo colonial em alguma forma seja restaurado sob nossa liderança.

A maioria do povo dos Estados Unidos está submetida a esse programa. Como tal submissão surgiu? Essa política nacional encontrou apoio inesperado em nosso longamente encorajado preconceito contra pessoas de pele negra ou de cor e contra todos os grupos de nascidos no exterior que não são de descendência anglo-saxã. Esse ponto de vista providencial, repudiado pela ciência e pela religião, ainda é na América um motivo vivo e poderoso guiando nossas vidas. Esse apoio ao sistema colonial pelo preconceito racial americano tem resultado no nosso presente programa para a guerra. Como isso foi conquistado? Como a maioria do povo americano foi convencido que preparação para a guerra, suspensão de liberdades civis e redução da democracia são nossos melhores caminhos para o progresso?

A América é uma nação inteligente, apesar da grande quantidade de analfabetos e da falta de um histórico integrado de cultura. Nós ainda temos grandes números de pobres e doentes, mas nossa renda média é muito maior do que a da maioria das nações. Essa nação quer fazer o certo, como evidenciado por uma pletora de igrejas e uma elevada profissão de fé. Se há um país preparado para o aumento da democracia são os Estados Unidos. Apesar disso, nós estamos preparando nossos filhos para a guerra porque nós realmente fomos induzidos a acreditar que a União Soviética está por de trás de uma conspiração mundial criminosa para destruir os Estados Unidos e que o socialismo é seu resultado. Essa declaração é tão fantástica que a maioria dos povos do estrangeiro não pode conceber como acabamos por realmente aceitar esse conto de fadas.

Para restaurar nossa oportunidade perdida de conseguir elevados lucros em investimento privado na Rússia, nos Balcãs e particularmente na China, o grande capital tem restringido e guiado o acesso público à verdade. Ele tem dominado a produção de notícias, monopolizado a imprensa e limitado publicação. Através do medo de perder emprego, através de polícia secreta e de informantes bem pagos, muitas vezes mentirosos confessos; através do controle da educação e da limitação do rádio e da televisão e censura do drama — através de todos esses métodos e outros, a opinião pública da nação foi forçada em um canal de ferro de desastre.

Para deixar a nação retornar a uma sanidade normal nós temos que perceber que socialismo não é um crime ou uma conspiração, mas um caminho para o progresso ao qual toda a humanidade está destinada. Alguns dos grandes líderes intelectuais de nossa era tem advogado o socialismo: Charles Kingsley, Leo Tolstói, Edward Bellamy, William Morris, Henry George, Robert Owen, Bernard Shaw, Sidney e Beatrice Webb, Keir Hardie, H. G. Wells, Harold Laski. Os passos das massas há muito tempo oprimidas e abaladas nem sempre são diretos e confiantes, mas seus erros nunca podem ser causa da miséria e do sofrimento que o sistema fabril provocou na Europa e que o imperialismo colonial causou na Ásia e África e que a escravidão, linchamento, restrição do voto e legislação Jim Crow causaram nos Estados Unidos.

O caminho para fora desse impasse é direto e claro e tão antigo quanto a luta pela liberdade para a mente do homem: os americanos precisam encarar os fatos a todo custo. Caminhar com determinação através de um pântano de deliberação distorcida, nós devemos insistir no direito de conhecer a verdade, em discuti-la e em escutar sua interpretação por homens de inteligência e honestidade; nós precisamos restaurar para todos os cidadãos seus direitos civis e o direito ao voto, sejam eles negros, comunistas ou estrangeiros naturalizados. Nós devemos insistir que tanto nossa política externa, quanto nossos problemas domésticos e especialmente nosso problema da indústria sejam questões sobre os quais temos o direito de votar.

Enquanto isso, nós somos prisioneiros da propaganda. O povo dos Estados Unidos foi completamente conquistado pelo método de conduzir a indústria, que tem sido tão poderoso e triunfante no mundo por dois séculos que os americanos o consideram o único modo de vida normal. Nós consideramos a produção de coisas e sua compra e venda para a obtenção de lucro privado como o principal objetivo da vida. Nós encaramos pintura e poesia como divertimento inofensivo. Nós encaramos a literatura como algo de valor apenas quando manufaturara para a indústria. Nós ensinamos negócios como uma ciência quando ela é a única arte de roubo legalizado. Nós consideramos publicidade como uma profissão até mesmo quando ela ensina o melhor modo de mentir. Nós consideramos o sacrifício altruísta de um para o progresso de todos como um esforço desperdiçado. Riqueza é a maior das ambições humanas mesmo quando nós não temos ideia de como gastá-la, exceto para produzir mais riqueza ou para desperdiçá-la em ostentação prejudicial e inútil. Nós queremos altos lucros e altos salários mesmo quando a maioria do mundo morre de fome.

Colocando de lado questões de direito e suspeitando de todos os nossos vizinhos de serem tão egoístas quanto nós somos, nós adotamos um credo de total egoísmo. Nós acreditamos que, se todos os povos trabalhassem para seu benefício egoísta, o mundo seria o melhor de todos os mundos possíveis. É nessa corrida de ratos que estamos colocados e nós temos suspeita e medo dos povos que se opõem a esse programa e imploram por uma antiga bondade, o novo uso do poder e maquinário para o bem dos desafortunados e o bem-estar de todo o mundo de todas as raças e cor. Nós podemos e fazemos caridade abundantemente, particularmente quando damos dinheiro ou coisas que não podemos nos mesmos utilizar. Nós damos para pedintes, mas nós odiamos os pedintes que recuam da mendicância. É isso que se destaca de nossa assassina preparação para a guerra como também de nosso ímpeto para sermos ricos. A todo custo e com todo e qualquer método, esse é a nossa razão de viver; apostar em taxas, em ações ou corridas é nosso modo de vida.

O poder da riqueza e da indústria privada se estende sobre a educação, literatura e arte e nós vivemos com medo, com um padrão baixo de cultura, para que, como consequência, a democracia não possa subsistir o monopólio da riqueza no controle do Estado.

Um dos efeitos devastadoras de nossa atual educação na nossa juventude é seu treinamento por oficiais militares. Eles são doutrinados por propaganda contra o socialismo, pela ridicularizarão pelo seu apego a suas mães e pelo desrespeito por todas as mulheres. Eles aprendem a matar e destruir e força como método social de progresso é exaltada. Não surpreende que o que chamamos de “delinquência juvenil” tenha crescido entre nós.

Uma das contradições de nossos dias é o nosso argumento sobre a distribuição de propriedade e o relativo tamanho da renda, em um tempo em que segredo em torno da verdade desses assuntos é uma questão de compulsão oficial e é muito bem consolidada a noção de que renda de um homem é seu assunto privado e que a posse de propriedade concerne ao dono primariamente. Essas preposições são falsas e ridículas. A distribuição da renda é um assunto público sendo cada vez mais resultado de uma função pública. Propriedade é um assunto de controle estatal, permitido estar em mãos privadas apenas na medida em que é de benefício público que assim esteja. Para qualquer pensamento ou ação razoável que concerne propriedade, primeiro deveria haver informação aberta sobre seus donos. Sem isso, nenhuma ciência ou ética da riqueza é possível. Nós só podemos adivinhar loucamente e concluir erroneamente. Pegando a adivinhação escassa do censo dos Estados Unidos como uma aproximação da verdade: fica claro que os pobres ainda estão conosco nessa terra rica.

Quase 40% de nossas famílias recebem menos do que 2 mil dólares por ano e mais de 6 milhões de nossas 45.500.000 de famílias recebem menos de 500 dólares. Em adição a isso, há a pobreza psicológica, em alguns sentidos mais assustadora que a falta real de renda: há grande número de artesões, trabalhadores de colarinho branco e profissionais que poderiam viver plenamente com sua renda, mas que poupam e pegam empréstimos e apostam e às vezes roubam para “keeping up with the Joneses”[2]; que dirigem um carro e gastam muito pouco com comida e medicamentos; que compram casacos de pele e que se aglomeram em um quarto inteiro. A cultura americana é tornada inquieta e insana por milhões entre nós que esperam de alguma forma se tornar extravagantemente ricos e não podem se satisfazer com a vida simples que toda experiência ensina que é a melhor.

Os negros americanos devem especialmente, acordando de seu medo presente e letargia, reafirmar sua liderança no mundo americano da cultura que Phillis Wheatley começou no século XVIII, Frederick Douglass liderou no XIX e James Weldon Johnson e Carter Woodson avançaram no XX. Negros americanos devem estudar o socialismo, sua ascensão na Europa e Ásia e sua particular adequação para a emancipação da África. Eles precisam compreender que nenhum sistema de reformas pode oferecer ao negro americano uma emancipação tão real quanto o socialismo. O capitalismo que por tanto tempo reinou a Europa a América do Norte foi fundada sobre a escravidão negra na América e aquela escravidão não desaparecerá complemente enquanto capitalismo privado continuar sobrevivendo.

A luta para preservar segregação racial ao longo da linha de cor nos Estados Unidos apenas ajuda a direcionar o negro americano mais rapidamente nos braços do socialismo. O movimento de uma nação inteira em direção ao estado de bem-estar social e longe do conceito de lucro privado como o único objetivo da indústria está fadado mais cedo ou mais tarde a acontecer em toda a nação. Mas se o décimo negro da nação for forçado adiante pela discriminação de cor, a socialização da nação acontecerá muito mais cedo.

Considere a situação: há hoje em torno de 16 milhões de americanos que admitem descendência negra. Eles são em razão dessa descendência sujeitos a insultos públicos, perda de oportunidade de trabalho em acordo com habilidade ou a receber salários no nível de trabalhadores brancos; a maioria dessas pessoas não possuem direito ao voto e são segregadas na educação, deslocamento, direitos civis e recreação pública. Dez milhões desses negros são pobres, recebendo menos de 50 dólares por semana por família. Metade deles não conseguem ler ou escrever. Eles vivem majoritariamente nos distritos rurais e pequenas cidades dos antigos estados escravocratas em que seus esforços para escapar foram impedidos pela lei, violência de multidões e escassez de lugares de refúgio que os recebessem ou lhes dessem trabalho ou lugares para viver.

Acima desses dez milhões de negros deprimidos existem quatro milhões de negros que são economicamente inseguros e no limiar da pobreza. Eles trabalham como operários e serventes em pequenas e grandes cidades. Eles podem ler e escrever, mas entre eles há uma classe de criminosos. Depois temos 1 milhão e meio de negros de classe média vivendo em cidades. Eles têm educação e propriedade e estão engajados em trabalhos semiqualificados e trabalhos de colarinho branco. Muitos são treinados em trabalhos melhor pagos de serviço pessoal, alguns são professores e ministros de religião. Desse grupo surge a principal intelligentsia. Do ápice econômico do grupo econômico médio estão meio milhão de negros que são prósperos, recebendo ao menos 10 mil dólares ao ano. Eles são profissionais e homens de negócios, servidores civis e artistas públicos. Eles têm boa e às vezes até elaboradas moradias, carros e serventes. Eles vivem majoritariamente nas grandes cidades.

Quando falamos sobre os americanos negros, temos que os distinguir entre essas classes. Sulistas delirando sobre a degradação dos negros estão usualmente falando sobre seus servos explorados e sem direito ao voto. Negros falando sobre seu progresso geralmente estão se referindo à sua burguesa. Mas a intelligentsia negra precisa se perguntar como nas livre e rica América tantos negros devem ser pobres, doentes e ignorantes enquanto na Rússia comunista, camponeses que foram emancipados quase no mesmo momento que os negros, vivem sem pobreza, com educação universal e em uma ofensiva nacional contra doenças? Por que o coolie chinês, que estava recentemente tão degradado quanto o escravo negro, é hoje um homem em seu próprio país, com a expulsão dos brancos sanguessugas? Todo o esforço é feito na América para suprimir essa linha de pensamento entre os negros; mas na medida que o pensamento na América readquire sua liberdade perdida, na medida que a democracia começa a subsistir a plutocracia, o pensamento social da nação encontrará crescente apoio entre os negros.

Muito antes dessas liberdades aparecerem, o grupo de negros segregados irão cada vez mais serem forçados em direção aos métodos socialistas para resolver seus problemas internos. Eles se unirão em boicotes como em Montgomery, Alabama; eles irão formar cooperativas de consumidores; uma nova literatura negra precisa irromper dos grilhões da prisão e irá encontrar no socialismo praticamente sua única voz. Escolas e universidades negras, enquanto estudantes são excluídos da educação pública, se tornarão centros de pensamento onde a União Soviética e a China não poderão escapar de discussão inteligente.

A ascensão moderna dos africanos no século XX para a auto expressão e demanda organizada por autonomia e liberdade foi em grande parte resultado do movimento pan-africano iniciado por americanos negros. Hoje, toda parte da África possui um congresso nacional lutando pelos fins que o movimento pan-africano começou em 1919. Uma continuação da liderança da África pela América negra foi paralisada — mas tarde demais. Os africanos já possuem seus próprios líderes e esses líderes como Nkrumah e Azikiwe estão bastante cientes da União Soviética e da China e estão construindo suas novas nações em linhas socialistas.

Além disso, na medida em que as massas dos povos de cor do mundo se movem em direção ao socialismo na Ásia e África, é inevitável que eles influenciarão os negros americanos. Eu tenho há muito tempo tido a esperança que os negros americanos iriam liderar esse processo por causa de suas chances de educação. Mas “filantropia” disfarçada em subornos e religião encoberta de hipocrisia estrangularam a educação negra e silenciaram as vozes de profetas. Os pensadores amarelos, marrons e negros da Ásia seguiram adiante. Mas, mesmo assim, o povo negro da América ouvirá suas vozes e, o que é ainda mais estimulante, verão o seu sucesso extraordinário. Em 6 de março, 1957, quando a antiga Gana renasceu na África Ocidental, americanos negros perceberam quão longe em direção ao socialismo esse grupo de negros foi. Em breve, também, o Sudão negro na África Oriental, o Congo belga e a África do Sul colocarão o mundo negro no trem da Rússia soviética, China e Índia e romperão com a lealdade, que agora negros americanos tentam professar, à ditadura da riqueza nos Estados Unidos.

Uma coisa e apenas uma impede o socialismo de crescer ainda mais rapidamente do que está crescendo — o medo da guerra e especialmente de um ataque pela União Soviética e pela China. A maioria da nossa renda nacional está sendo gasta para a preparação para tal guerra e nós temos apenas pequenos fundos disponíveis para educação, saúde e controle e desenvolvimento da água que são tão dolorosamente necessárias. O frenético e continuo cultivo do medo nacional aumenta na medida em que o perigo de guerra diminuiu. A estrutura de classe da nossa nação cresce tremendamente ao mesmo tempo que nossos propagandistas negam ferozmente esse crescimento. Nós temos uma classe privilegiada de homens com mais riqueza do que eles podem possivelmente gastar e mais poder do que eles podem contratar cérebros para usar. Sob o disfarce de rico ocioso, com executivos treinados com uma vasta e inútil organização militar jogando os impostos empilhados nos trabalhados, essa camarilha reinante supera a aristocracia de George III e Louis XIV. Nós temos uma classe média de trabalhadores de colarinho branco, técnicos, artesões, artistas, homens profissionais e professores capazes de viver em conforto contanto que eles restrinjam seu pensamento e planejamento e se iludam em pensar que eles irão em algum momento se juntar aos “independentemente ricos”.

Nossa última eleição presidencial foi uma farsa. Nós não tínhamos nenhuma chance de votar pelas questões nas quais somos realmente interessados: paz, desarmamento, alistamento, impostos injustos, preconceito racial, educação, medicina social e controle de enchentes. Ao contrário, nós tivemos à nossa frente uma cédula com dois nomes e dois indicados se enfrentando com falsa fanfarra e publicidade pelas mesmas políticas, com infinitesimal diferença e com seriedade espúria. Não é de se admirar que metade dos eleitores americanos ficou em casa.

Assim, é claro hoje que a salvação dos negros americanos reside no socialismo. Eles deveriam apoiar todas as medidas e homens que apoiam o estado de bem-estar social; eles deveriam votar pela propriedade governamental do capital na indústria; eles deveriam apoiar regulações estritas de corporações ou torná-las propriedade pública. Eles deveriam votar para prevenir o controle monopolista da impressa e publicação de opiniões. Eles deveriam apoiar propriedade e controle público da água, eletricidade e energia atômica; eles deveriam apoiar cédulas limpas, o encorajamento de terceiros partidos, candidatos independentes e a eliminação de trapaça e jogos de azar na televisão e até mesmo nas igrejas.

A questão do método através do qual o Estado socialista pode ser alcançado precisa ser trabalhado por experimento e razão, não por dogma. Se os métodos que são claros e corretos na Rússia e na China irão servir ou não para nossas circunstâncias será nossa inteligência que irá decidir. A bomba atômica tem revolucionado nosso pensamento. Paz não é apenas preferível hoje, é cada vez mais inevitável. Resistência passiva não é o fim da ação, mas o começo. Após a recusa por lutar, há a questão de como viver. A igreja negra que pôs fim à descriminação contra passageiros de ônibus precisa agora descobrir como eles poderão ter uma vida decente e não se manter desamparadamente explorados por aqueles que possuem os ônibus e fazem as leis Jim Crow. Esse poderá ser um programa difícil, mas é o único que existe.

[1] Emmett Till foi um jovem negro de 14 anos linchado no Mississipi em 1955 após ter sido acusado de flertar com uma mulher branca, algo que ia completamente contra as regras de conduta de um homem negro para com uma mulher branca no Sul do período Jim Crow. A brutalidade de seu assassinato e o fato de seus assassinos terem sido absolvidos trouxe atenção para a longa história de violência contra afro-americanos nos Estados Unidos.

[2] “Keeping up with the Joneses” é uma expressão idiomática em muitas partes do mundo anglófono que se refere à comparação com o vizinho como uma referência para a classe social ou para o acúmulo de bens materiais. Deixar de “keeping up with the Joneses”, ou seja, deixar de demostrar a mesma capacidade de consumo que seus vizinhos é percebido como uma demonstração de inferioridade socioeconômica ou cultural.

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