Vladímir Ilich Lênin – Purgando o Partido

Publicado em 1921.

Disponível originalmente no site Marxists.

Tradução por Leonardo Lamarca, em seu Medium.

Revisão na tradução por Andrey Santiago.


O expurgo do Partido¹ claramente se desenvolveu em um caso amplamente importante e sério.

Em alguns lugares o Partido está sendo depurado majoritariamente com o auxílio da experiência e sugestões de trabalhadores não-partidários; estas sugestões e os representantes das massas proletárias não-militantes estão sendo atendidas com a devida consideração. Esta é a coisa mais importante e mais valorosa. Se nós realmente prosperarmos em expurgar nosso Partido de cima a baixo desta maneira, sem exceções, será, de fato, será uma enorme conquista para a revolução.

Os feitos da revolução não podem agora ser os mesmos de antes. Sua natureza inevitavelmente muda em conformidade com a transição do front da guerra para o front econômico, a transição para a Nova Política Econômica (NEP), as condições que primariamente demandam elevada produtividade do trabalho, maior disciplina laboral. Em tempos assim melhorias na casa são as maiores conquistas da revolução; um aperfeiçoamento nem saliente, impressionante, nem imediatamente perceptível no trabalho, na sua organização e resultados; uma melhoria do ponto de vista da luta contra a influência do elemento pequeno-burguês e pequeno-burguês-anarquista, que corrompe tanto o proletariado e o Partido. Para atingir tal façanha, o Partido deve ser expurgado daqueles que perderam contato com as massas (ainda mais, é claro, aqueles que desacreditam o Partido aos olhos das massas). Naturalmente, nós não devemos nos submeter a tudo que as massas dizem, porque as massas, também, às vezes — particularmente em tempos de excepcional cansaço e exaustão resultantes de excessivo sofrimento e dificuldade — cedem a sentimentos que de nenhuma maneira são avançados. Mas em avaliar pessoas, na atitude negativa com aqueles que se “prenderam” a nós por motivos egoístas, com aqueles que se tornaram “comissários inchados” e “burocratas”, as sugestões das massas proletárias e, em muitos casos, campesinas, não-partidárias são extremamente valiosas. As massas trabalhadoras têm uma fina intuição, o que as permite distinguir comunistas honestos e devotados daqueles que despertam o desgosto de pessoas ganhando seu pão pelo suor de suas sobrancelhas, gozando de nenhum privilégio e sem nenhum “arranque”.

Para expurgar o Partido é muito importante levar as sugestões dos trabalhadores não-partidários em consideração. Isto produzirá grandes resultados. Fará do Partido uma vanguarda da classe muito mais forte do que era antes; o fará uma vanguarda mais fortemente atada à classe, mais capaz de liderá-la à vitória em meio a um mar de dificuldades e perigos.

Como um dos objetos específicos do expurgo partidário, eu apontaria para um pente fino em ex-Mencheviques. Na minha opinião, dos Mencheviques que ingressaram no Partido após o início de 1918, não mais do que um centésimo deveria ser autorizado a permanecer; e mesmo assim, cada um daqueles permitidos a continuar devem ser testados continuamente. Por que? Como uma tendência, os Mencheviques demonstraram em 1918–21 as duas qualidades que os caracterizam: primeira, a hábil capacidade de adaptar, de “grudar” na tendência prevalecente entre os trabalhadores; e segunda, a competência ainda mais hábil de servir o Exército Branco de coração e alma, de servi-los em ação, enquanto se desassocia deles em palavras. Ambas as qualidades são o resultado lógico de toda a história do Menchevismo. É suficiente recordar a proposta de Axelrod de um “congresso trabalhista”², a atitude dos Mencheviques para com os Kadets³ (e com a monarquia) em palavras e ação, etc., etc. Os Mencheviques se “prendem” ao Partido Comunista Russo não apenas e mesmo não tanto porque são maquiavélicos (embora, desde 1903, tenham demonstrado que são antigos mestres na arte da diplomacia burguesa), mas porque eles são tão ”adaptáveis”. Cada oportunista é distinguido por sua adaptabilidade (mas nem toda adaptabilidade é oportunismo); e os Mencheviques, como oportunistas, se adaptam ”a princípio”, por assim dizer, à tendência predominante entre os trabalhadores e assumem a coloração protetora, assim como um casaco de lebre fica branco no inverno. Esta característica dos Mencheviques deve ser mantida em mente e levada em consideração. E levar em consideração significa expurgar o Partido de aproximadamente noventa e nove de cada cem Mencheviques que ingressaram no Partido Comunista Russo após 1918, isto é, quando a vitória dos Bolcheviques se tornou primeiro provável e então certa.

O Partido deve ser purgado de comunistas patifes, burocráticos, desonestos ou vacilantes, e de Mencheviques que remodelaram sua “fachada” mas que permaneceram Mencheviques de coração.

20 de Setembro de 1921

Notas

[1] O expurgo ocorreu na segunda metade de 1921 na base da resolução “Sobre Problemas do Desenvolvimento do Partido” do Décimo Congresso do Partido Comunista Russo(Bolchevique). Foi precedido por uma longa e cuidadosa preparação.

Durante a depuração em torno de 170,000 pessoas, ou seja, quase 25 por cento dos membros, foram expulsos do Partido. Isto melhorou a composição social do Partido, fortaleceu a disciplina, deu ao Partido maior prestígio entre as massas trabalhadoras e camponesas não-partidárias e libertou o Partido de elementos que o desacreditavam. A unidade ideológica e organizacional do Partido foi melhorada.

[2] A ideia de convocar um assim chamado congresso do trabalho, proposta por P. B. Axelrod e apoiada por outros Mencheviques, visava reunir representantes de diversas organizações de trabalhadores e fundar um “partido trabalhista amplo” legal, que incluiria Social-Democratas, Socialistas-Revolucionários e anarquistas. Na verdade, teria significado a dissolução do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) e a substituição por uma organização não-Partidária.

[3] Kadets — membros do Partido Constitucional Democrata, a principal organização política da burguesia liberal-monarquista na Rússia. Fundado em outubro de 1905, seus membros incluíam representantes da burguesia, líderes de Zemstvo entre os latifundiários, e intelectuais burgueses. Para enganar os trabalhadores, os Kadets se chamavam falsamente de “Partido da Liberdade do Povo”, mas, na realidade, nunca foram além da demanda por uma monarquia constitucional. Eles consideravam como sua principal tarefa a luta contra o movimento revolucionário e aspiravam dividir poder com o Czar e os latifundiários. Durante a Primeira Guerra Mundial apoiaram ativamente a política externa de conquista por parte do governo czarista, e no período da revolução democrático-burguesa de fevereiro de 1917 tentaram salvar a monarquia. Depois da Grande Revolução Socialista de Outubro se tornaram inimigos irreconciliáveis do governo Soviético e participaram ativamente de todas as ações e campanhas contrarrevolucionárias armadas dos intervencionistas. Quando estes e o Exército Branco foram derrotados, os Kadets fugiram para o exterior, onde continuaram sua atividade anti-Soviética e contrarrevolucionária.

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