Marx: os revolucionários também amam

Por Leandro Konder.

Trecho retirado do livro “Sobre o amor”, publicado pela Editora Boitempo em 2007.

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“No peito do desafinado também bate um coração”
Tom Jobim e Newton Mendonça

Marx e o amor são duas palavras que dificilmente encontramos juntas, uma ao lado da outra. O que os ligaria, afinal? O que teriam a ver, um com o outro, o teórico militante da luta de classes e o sentimento sublime cantado pelos poetas? Que impressão produziriam, reunidos num mesmo quadro, o enérgico filósofo barbudo e o deus menino Eros, filho de Afrodite? Só o nosso tempo, fascinado por audácias anticonvencionais e questionamentos (revisões) dilacerantes, poderia descobrir interesse nessa estranha aproximação.

Em 1847, Marx irritou-se bastante quando encontrou ecos da retórica cristã sobre o amor em escritos de Feuerbach. Para ele, Feuerbach idealizava e superestimava os impulsos afetivos do ser humano, tinha uma visão contemplativa da sensibilidade e não levava suficientemente em conta a atividade criadora de que o homem é capaz, seu poder de transformar-se e transformar o mundo.

Marx acusava os “princípio sociais do cristianismo” de projetar no céu a compensação de todas as infâmias sofridas na terra. Considerava essa perspectiva inaceitável, porque enfraquecia a combatividade, num período em que os lutadores precisavam travar grandes combates. Quando foi da Alemanha para Paris, convenceu-se de que o portador material da causa da libertação da humanidade era o proletariado.

A adesão do intelectual Marx à causa da classe operária não foi uma adesão friamente pensada. Ao participar de uma reunião clandestina de trabalhadores, Marx emocionou-se com a fisionomia dos operários socialistas: “[…] a fraternidade dos homens não é nenhuma frase, mas sim verdade para eles, e a nobreza da humanidade nos ilumina a partir d[ess]as figuras endurecidas pelo trabalho”. E isso foi escrito em 1844, bem antes de O Capital.

Uma das causas mais profundas da repulsa que Marx sentia pelo capitalismo estava justamente em sua convicção de que o modo de produção capitalista não só introduz grave “alienação” na relação entre sujeito-trabalhador e o fruto do seu trabalho, como cria um terrível “estranhamento” na relação dos homens uns com os outros que os torna extremamente inseguros, hipercompetitivos, e solapa as bases da solidariedade humana. Sufocada pela estreiteza dos horizontes classistas, a consciência dos homens experimenta enorme dificuldade em compreender os problemas universalmente, quer dizer, do ângulo do gênero humano.

A alienação tem suas raízes no trabalho, porém abrange, com grande variedade de formas, todas as atividades do homem. Ela coloca o ser humano em doloroso conflito com ele mesmo, com seus semelhantes e com a natureza (inclusive com o que existe nele de irredutivelmente natural).

A propriedade privada deforma tudo, leva-nos a crer que o homem rico é aquele que possui coisas, quando na realidade o homem “naturalmente” rico é aquele que sente com mais intensidade a necessidade interior de se realizar através de múltiplas manifestações vitais, isto é, aquele cuja atividade essencial sensível está carregada de paixão.

Essa paixão, no sentido que Marx atribui ao termo, não se confunde com a palavra usada com frequência para designar surtos entusiásticos, arrebatadamente adolescentes, que no entanto não ultrapassam as fronteiras dos horizontes do individualismo. O autor de Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 escreveu: “a dominação da essência objetiva em mim, a irrupção sensível da minha atividade essencial é a paixão”.

Colocada em nossa atividade essencial sensível, universal e humana, a paixão tem uma significação especial na relação entre homens e mulheres.

“A relação imediata, natural, necessária, do homem com o homem é a relação do homem com a mulher. Nesta relação genérica natural a relação do homem com a natureza é imediatamente a sua relação com o homem, assim como a relação com o homem é imediatamente a sua relação com a natureza, a sua própria determinação natural. Nesta relação fica sensivelmente claro portanto, e reduzido a um factum intuível, até que ponto a essência humana veio a ser para o homem natureza ou a natureza [veio a ser] essência humana do homem. A partir desta relação pode-se julgar, portanto, o completo nível de formação (die ganze Bildungsstufe) do homem”.

A relação do homem com a mulher põe a nu a degradação a que chegam os seres humanos em sociedades marcadas pela divisão social do trabalho, pela propriedade privada. E Marx insiste: na relação do homem com a mulher vê-se “até que ponto a carência do ser humano se tornou carência humana para ele”, quer dizer, “até que ponto ele, em sua existência mais individual, é ao mesmo tempo coletividade (Gemeinwesen)”.

Em outra passagem de Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, Marx adverte o leitor: “Pressupondo o homem enquanto homem e seu comportamento com o mundo enquanto um [comportamento] humano, tu só podes trocar amor por amor, confiança por confiança etc.”. Nas condições da alienação, todavia, o dinheiro – a capacidade exteriorizada (entäusserte) da humanidade – quantifica e relativiza tudo, subverte todos os valores, “transforma a fidelidade em infidelidade, o amor em ódio, o ódio em amor, a virtude em vício, o vício em virtude”.

O texto em que Marx esclareceu pela primeira vez alguns aspectos decisivos de sua perspectiva filosófica já deixava ver em seu pensamento uma concepção antropológica do amor. O amor é uma “maneira universal” que o ser humano tem de se apropriar do seu ser como “um homem total”, agindo e refletindo, sentindo e pensando, descobrindo-se, reconhecendo-se e inventando-se.

A propriedade privada complica as coisas, dificulta tanto a compreensão com a experiência vivida do amor: “o lugar de todos os sentidos físicos e espirituais passou a ser ocupado, portanto, pelo simples estranhamento de todos esses sentidos, pelo sentido do ter“. E o capitalismo torna o problema ainda mais agudo.

Depois de 1844, Marx não voltou a dedicar atenção ao tema, porque outras questões lhe pareceram ter implicações mais diretas e profundas nos conflitos políticos em que se achou envolvido. Quando o amor aparecia nos escritos que estava lendo, o filósofo marcava posição.

Em A sagrada família, ele ridicularizou Edgar Bauer, representante da chamada “Crítica crítica”, porque este se referia ao amor como uma “criancice”. Marx fustigou a abstratividade e o intelectualismo do outro: “O que a Crítica crítica quer combater com isso não é apenas o amor, mas tudo aquilo que é vivo, tudo que é imediato, toda experiência sensual, toda experiência real“.

Marx também foi sarcástico em relação a Max Stirner e a outro campeão da “Crítica crítica” de nome Szeliga. Disse que Szeliga reduzia “o verdadeiro amor sensual à secretio seminis [secreção seminal] mecânica“. E afirmou que a relação entre as teorias muito especulativas de Max Stirner e o estudo do mundo real era uma relação análoga àquela que existia entre o onanismo e o amor sexual.

Marx não tinha nenhuma tendência a flutuar no plano da teoria como num limbo: ele vivia o que pensava. A luta política, os estudos, as dívidas e as preocupações financeiras, nada disso o absorvia tanto a ponto de fazê-lo esquecer o amor que tinha por sua mulher, Jenny.

Sua concepção do amor como um dos meios da realização do “homem total”, como um dos modos de o ser humano apropriar-se universalmente do seu ser, não pode ser desligada de seu engajamento amoroso existencial, quer dizer, de sua relação amorosa com Jenny.

O jornalista francês Pierre Durand escreveu um livro interessante a respeito desta relação. Nele estão reconstituídas todas as principais peripécias e vicissitudes de um grande amor, cuja história atravessa numerosas crises ao longo de mais de 45 anos.

Em 1836, aos dezoito anos de idade, Marx apaixonou-se por Jenny, que era quatro anos mais velha do que ele. Pediu-a em casamento, ela aceitou. Como o pretendente não tinha condições de se casar, os dois foram obrigados a esperar oito anos.

Jenny fazia muito sucesso na cidade de Trier, era admirada nas festas e não teria dificuldade para desposar algum pretendente rico; ela era a filha dileta do primeiro conselheiro, o barão Ludwig von Mestphallen. Quando aceitou se casa com o jovem filho do cristão-novo Hirschel Marx, a situação tornou-se tão insólita que de início o noivado permaneceu em segredo.

Karl Marx, o noivo, foi para Berlim. De lá, enviava à noiva poemas transbordantes de carinho, saudade e má literatura. Voltando a Trier de férias, oficializou o noivado. Pretendia tornar-se professor de filosofia, chegou a doutorar-se, porém o clima político na Prússia piorou e o filósofo só conseguiu arranjar trabalho como jornalista. O casamento só se realizou em junho de 1843.

A vida do casal, como se sabe, foi atribuladíssima. Instalaram-se em Paris, onde Marx foi diretor de uma revista que teve um único número e fracassou. Em dado momento, acusado de desenvolver atividades políticas “subversivas”, foi mandado para a Bélgica. Regressou à Alemanha, editou um jornal em Colônia e acabou se fixando em Londres, como exilado, por mais de trinta anos.

Marx e Jenny tiveram muitos filhos: a filha mais velha nasceu em Paris, em 1844, ano em que os Manuscritos foram escritos. A segunda filha, Laura, nasceu em Bruxelas, em 1845. Edgar também nasceu em Bruxelas, em 1846, e morreu oito anos e meio mais tarde. Já Guido nasceu em Londres, em 1849, e viveu somente um ano. Francisca, nascida igualmente em Londres, em 1851, teve o mesmo destino trágico do irmão: morreu com um ano de idade, Eleanor, a caçula a quem todos chamavam de Tussy, teve mais sorte: nasceu em 1855 e sobreviveu.

Dos seis filhos nascidos, afinal, sobreviveram apenas as três mulheres. E das três – evidentemente marcadas pela dramática vida dos pais -, duas (Eleanor e Laura) viriam mais tarde a se suicidar.

A vida privada de Marx não foi menos agitada do que sua vida pública. Um episódio em particular foi ocultado durante muito tempo e só mais de um século depois é que foi possível reconstituí-lo. Em 1962, o historiador alemão Werner Blumenberg comprovou que em 1851 Helene Demuth, criada de Jenny e oito anos mais nova do que ela, teve um filho de Marx. Engels, o fiel amigo, assumiu a paternidade da criança para ajudar o apavorado Karl. O menino Friedrich Demuth foi entregue a uma família no East End de Londres que cuidou dele às custas de Engels. Friedrich viveu até 1929. Eleanor, a mais jovem das filhas de Marx, chegou a saber da verdade. O próprio Engels, no fim da vida, impossibilitado de falar, rabiscou a informação numa lousa. Eleanor chorou muito. Depois, estabeleceu contato com seu meio-irmão e apreciou muito suas qualidades humanas.

Eleanor matinha com Edward Aveling uma relação amorosa muito sofrida. Um mês antes de se suicidar, ela escreveu uma carta a Friedrich, em que lhe dizia: “Considero-o um dos maiores e melhores homens que já conheci”. Mesmo que o tom da declaração pareça um tanto exagerado, talvez funcionando inconscientemente com uma compensação pelas decepções sofridas com o pai e o com o amante, a admiração da meia-irmã depõe a favor do enjeitado Friedrich.

Em meio a todas as tempestades, enfrentando agruras, fugindo dos credores, preocupado com as filhas, Marx lutou a vida inteira pelo afeto de sua mulher, Jenny. Há numerosos testemunhos, diversas cartas que o comprovam.

Uma carta de Marx a Jenny, escrita em 21 de junho de 1856, quando ele estava em Manchester, é particularmente expressiva. Ela nos traz algo do viço e da impetuosidade de vinte anos antes. Marx começa dizendo: “Amadinha do meu coração, torno a te escrever porque estou sozinho e porque me cansa ficar dialogando na minha cabeça o tempo todo, sem que tomes conhecimento disso, sem que possas me ouvir e responder”.

Em seguida, ele conta que beija sempre o retrato dela e sonha com ela. “Beijo-te dos pés à cabeça, caio de joelhos diante de ti e gemo: amo-a, minha senhora. De fato, te amo. E te amo mais do que o mouro de Veneza jamais amou”. (A comparação com Otelo se deve ao fato de que o apelido de Marx na família era “mouro”.) Adiante, ele escreve: “Quem, entre os meus numerosos caluniadores, quem, entre os meus inimigos maledicentes, já me acusou de ter vocação para desempenhar o papel de apaixonado num teatro de segunda categoria? Nenhum. No entanto, essa acusação seria verdadeira”.

E prossegue: “Certamente sorris, meu bem, e perguntas por que de repente eu venho com toda essa retórica. Se eu pudesse, contudo, apertar teu coração doce contra o meu coração, então me calaria, não diria mais nada”.

A existência de outras mulheres, até bonitas, é reconhecida por Marx, porém elas não lhe interesssam: “Na realidade, existem muitas outras mulheres e algumas delas são belas. Mas onde eu encontraria de novo um rosto no qual cada traço – e mesmo cada ruga – seja capaz de evocar as lembranças mais fortes e deliciosas da minha vida”.

Em outro trecho, o pensador revolucionário volta, mais uma vez, a discorrer em termos gerais sobre o amor. Não o faz em termos filosóficos, como nos Manuscritos de 1844, mas em função de sua experiência de homem apaixonado. Diz ele:

“Basta que estejas longe e meu amor por ti aparece como ele é, como um gigante no qual se acham reunidas toda a energia do meu espírito e toda a vitalidade do meu coração. Sinto-me outra vez um homem, na medida em que me sinto vivendo uma grande paixão. A complexidade na qual somos envolvidos pelos estudos e pela educação modernos, bem como o ceticismo com que necessariamente relativizamos todas as impressões subjetivas e objetivas, tudo isso nos leva muito eficazmente a nos sentirmos fracos, pequenos, indecisos e titubeantes. Porém o amor – não o amor feuerbachiano pelo ser, não o amor moleschottiano pela transformação da matéria, não o amor pelo proletariado, mas o amor pela amada (no caso, por ti) – torna a fazer do homem um homem”.

Um dos efeitos perniciosos da alienação manifesta-se na cisão da personalidade, no abismo criado entre a vida pública e a vida privada. A paixão que Jenny inspira a Marx estimula-o a reagir contra a exagerada separação entre as duas esferas e fortalece no interior de sua alma as tendências comprometidas com a unidade.

É claro que o fortalecimento da unidade é sempre precário, o equilíbrio precisa ser constantemente reconquistado em meio a grandes tumultos. O filósofo sabia disso. Ele conhecia e apreciava uma frase de Shakespeare – e a cita no primeiro volume de O Capital – que diz: “O curso do verdadeiro nunca é sereno”.

Marx não foi só um defensor do amor no plano teórico, mas foi também um praticante radical do amor em sua relação com Jenny. Quando ela morreu, em 1 de dezembro de 1881, Engels previu, desanimado: “O ‘mouro’ não vai sobreviver”. De fato, Marx ficou arrasado. Numa carta ao amigo, em 1 de março de 1882, ele escreveu: “Você sabe que há poucas pessoas mais avessas ao patético-demonstrativo do que eu. Seria, contudo, uma mentira não confessar que grande parte do meu pensamento está absorvida pela recordação da minha mulher, boa parte da melhor parte da minha vida”.

Em seus escritos, o número de lapsos de linguagem aumenta. Sua saúde piora a cada semana. Os genros – Lafargue e Longuet – despertam-lhe crescente irritação. Um ano e quatro meses após a morte de sua mulher, também ele, afinal, se extingue.

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