O Professor Camarada: Entrevista com Jodi Dean

Entrevista com Jodi Dean feita por Maximillian Alvarez, 11/10/2019.

Disponível nos site The Chronicle of Higher Education.

Tradução por Dio Costa.


Para Jodi Dean, a luta de classes está acontecendo – e acadêmicos precisam escolher um lado.

Acadêmicos são encorajados a serem muitas coisas: “profissional”, “atento”, “colaborativo”, “sensível”, “socialmente consciente”, “inovador”, “voltado para o público”, “produtivo”, “acessível”. Estas qualidades projetadas, em última análise, definem o que um acadêmico deve (e não deve) ser, o papel do conhecimento na sociedade, as funções que professores servem dentro da universidade, e a própria missão da universidade. O que significaria, então, se a principal diretriz para os acadêmicos fosse ser … camarada?

Para Jodi Dean, uma professora de ciências políticas na Hobart and William Smith, a palavra “camarada” não é de forma alguma uma descrição simples, nem uma relíquia empoeirada dos tempos em que existiu de fato o socialismo de estado. É uma chamada permanente para a ação, um desafio para aceitar sua própria responsabilidade perante outros que estão “do mesmo lado de uma luta política.” No seu novo livro,  Camarada: um ensaio sobre pertencimento político (Verso), Dean argumenta que nós estamos vivendo numa era em que as linhas de uma luta mundial histórica – uma luta contra a destruição do planeta, guerra ininterrupta, crescente fascismo, e um retorno global ao feudalismo – já foram desenhadas. E neutralidade não é uma opção. Todos devem responder a questão: De que lado você está? E o que você fará a respeito?

Isto, de acordo com Dean, explica porque é imperativo examinar a figura do camarada, e evitar conceitos de identidade e organização política que não deixam espaço para a luta coletiva. Ser e ser chamado de camarada é saber onde se está e com quem se está. É reconhecer que todos devemos ser claros sobre pelo que lutamos a favor – e sobre o que lutamos contra. Como estudiosa e  organizadora política que é, Dean assume essa responsabilidade seriamente.

Ela falou com a The Chronicle Review sobre a relação entre política e academicismo, o que significa ser uma professora comunista hoje em dia, e o que acadêmicos poderiam ser – como pesquisadores, professores, colegas e até mesmo servidores públicos – se eles tomassem camaradagem como principal diretriz.

Houve algo relacionado ao nosso momento político, ou na alçada de seu trabalho acadêmico, que fez você sentir que uma teoria política sobre “camarada” deveria ser trabalhada?

Oh deus, sim. Isso vem da política contemporânea, de uma preocupação com a maneira que os pressupostos liberais de individualidade solapam as preocupações da esquerda com a coletividade. Na vaga, incipiente esquerda contemporânea das mídias sociais, campus universitários, ONGs e artes engajadas socialmente, apelos à identidade individual, esforços para proteger a identidade individual e a vigilância contra suspeitas de ameaças à identidade individual deslocam os esforços para construir coletividade. Meu objetivo com Camarada é lembrar os esquerdistas de outro conceito de política, um que estava proeminente no século XX, um conceito de todos unidos numa luta de emancipação igualitária contra racismo, sexismo, capitalismo e imperialismo.

Meu trabalho político e o acadêmico estão profundamente interconectados. Eles informam um ao outro. Cada um é melhor por causa do outro.”

Então eu tenho uma crítica detalhada sobre o conceito de aliado e a política de alianças. É estranho, não é, que um nome associado a estados nacionais soberanos se agrupando para protegerem suas próprias soberanias, salvaguardarem suas próprias fronteiras, tenha se tornado tão onipresente em setores que se entendem como de esquerda? Mas esse esforço para salvaguardar fronteiras é a pista para os limites das alianças: Indivíduos são imaginados como pequenos estados soberanos, defendendo seu território e apenas se juntando sob os termos mais cautelosos e egoístas. Aqueles que compartilham uma identidade se presume que compartilham uma política, como se a identidade fosse óbvia e a política não precisasse ser construída.

Os acadêmicos deveriam se ver como camaradas?

É difícil. E é difícil porque inclui um real antagonismo acadêmico entre universidade como local de trabalho e academia como uma coleção acadêmica de práticas e ideais intelectuais.  A relação entre camaradas é política; camaradas são aqueles do mesmo lado de uma luta política. Na tradição socialista e comunista, essa luta tem sido entendida como uma luta entre o oprimido e o opressor, proletário e burguesia, camponês e senhorio, nações oprimidas e poderes imperialistas, etc. Se nós acadêmicos nos víssemos como camaradas, nós iríamos precisar nos ver do mesmo lado político contra, digamos, governos estaduais orientados para austeridade e redução de impostos e grupos de agentes neoliberais financeirizados e com mentalidade corporativa.

E isso pode nem sempre colocar como prioridade o ensino e a pesquisa – os quais envolvem uma enorme quantidade de trabalho não remunerado. Adjuntos e professores em linhas não titulares carregam de longe a maior parte deste fardo. Mas muitos, mesmo em posições nominalmente seguras, estão experienciando intensificação da precariedade, e ainda assim levados a pensar que lutar por melhores condições é errado ou suspeito porque prejudica os estudantes ou atrasa valiosas pesquisas.

Por outro ângulo, podemos dizer que universidades já são locais de intensa politização, quer se pense em, digamos, o papel dos economistas da escola de Chicago minando a social democracia e inaugurando uma era de intensa desigualdade ou em termos dos vários tipos de “estudos” (estudos de gênero, estudos étnicos, estudos Africanos, estudos indígenas, etc.) lutando para corrigir os preconceitos de séculos de produção acadêmica que reforçam formas de discriminação, opressão, exploração, apartheid e genocídio. Mas essa intensa politização em geral não aponta para pesquisadores e professores como camaradas. Aponta para a forma com que pesquisadores e professores podem encontrar camaradas ou construir relações de camaradagem nas lutas das quais participam.

Quando as pessoas pensam “camarada,” suas mentes estão provavelmente conjurando alguma imagem da guerra fria com sovietes vestindo ushankas. Então, o que o termo “camarada” significa, e o que significa se considerar um camarada para os outros?

Etimologicamente, camarada deriva de camera, a palavra em Latim para quarto, câmara e abóbada. A função genérica de uma abóbada é produzir um espaço e segurar ele aberto. Isso nos permite entender o significado de camarada: Dividir um quarto, dividir um espaço gera uma proximidade, uma intensidade de sentimento e expectativa de solidariedade que diferencia aqueles de um lado daqueles do outro. Politicamente, camaradagem é uma relação de cobertura com suporte, isto é, a expectativa de solidariedade que aqueles do mesmo lado tem um do outro. Camarada, então, é uma forma de tratamento, figura de pertencimento político, e portador de expectativas de ação. Quando nós nos chamamos de camaradas, nós estamos dizendo que estamos do mesmo lado, unidos no entorno de um mesmo propósito político.

Muitos dentro e fora da academia chamam você de camarada. Você sente que há uma distinção clara entre seu trabalho político e o acadêmico?

Talvez nós pudéssemos dizer que meu trabalho político e acadêmico estão profundamente interconectados. Eles informam um ao outro. Cada um é melhor por causa do outro. Eu sou melhor teórica política do que era antes de me engajar seriamente na luta política organizada, porque agora eu penso mais sobre audiência e em destinatários, sobre as coletividades que podem se envolver ou responder às minhas ideias, sobre as formas de ação política e de pertencimento que as minhas ideias pressupõem. Para quem são elas? Por que?

Ser um professor comunista hoje significa tentar encontrar e promover otimismo revolucionário num cenário de clima catastrófico.”

A camarada acadêmica é comprometida, intensa e decididamente partidária. Isso significa que é mais provável que ela seja odiada do que amada na academia. Seus comprometimentos são políticos, não comprometimentos disciplinares ou profissionais, o que é claro, não significa que ela seja indisciplinada ou não profissional. Pense em Angela Davis. Ronald Reagan, quando governador da Califórnia, tentou evitar que ela pudesse lecionar no sistema estadual de ensino porque ela era comunista.

Existe diferença entre um “acadêmico público” e um “acadêmico camarada”?

Acadêmicos públicos são recompensados pelo mesmo sistema acadêmico estadunidense que demoniza comunistas como traidores, subordinados e autômatos, que os bloqueia e os demite de trabalhos acadêmicos …  acadêmicos camaradas, nem tanto.  

No grande esquema das coisas, nós não estamos tão longe dos dias em que pessoas eram silenciadas, caçadas, e expurgadas em massa da academia por serem comunistas (ou por simplesmente serem acusadas de simpatia ao comunismo). O que significa ser uma professora comunista hoje?

Ao longo dos últimos anos, uma série de brilhantes acadêmicos foram expulsos da academia por causa de suas convicções políticas, seu comprometimento com a luta de direitos aos Palestinos e contra a supremacia branca. Ao mesmo tempo, administrações covardes repetem discursos da extrema direita sobre liberdade de expressão. É indicativo desse mundo de pernas para o ar capitalista, que nos diz que as corporações são gente mas que gente é descartável, que nós vivemos na sociedade do conhecimento mas fatos, aprendizagem e educação são desvalorizados e mercantilizados simultaneamente, que sucesso traz liberdade quando de fato traz débito e aprisionamento em prol da acumulação de capital dos muito ricos. Ser um professor comunista hoje significa tentar encontrar e promover otimismo revolucionário em um cenário de clima catastrófico. A fonte desse otimismo é a camaradagem.

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