Panteras Negras sobre estabelecer uma Frente Única com Comunistas

17 de julho de 1969.

Texto originalmente publicado no jornal The Black Panther.

Disponível no livro “Black Panther Speaks”, organizado por Philip S. Foner.

Tradução por Andrey Santiago.

A edição de 31 de maio de 1969 de The Black Panther convocava uma “Conferência Revolucionária para uma Frente Unida contra o Fascismo”, a ser realizada em Oakland em 18 a 21 de julho daquele ano. O anúncio traçou ligações entre o assassinato de James Rector e a prisão de Huey Newton, e delineou o propósito da conferência: ela desenvolveria um programa político representando os “pobres, negros, trabalhadores oprimidos e povo da América”, envolvendo estratégias para as comunidades controlarem o policiamento, a libertação de presos políticos, a expulsão de militares dos campi universitários e autodefesa das comunidades.

Neste artigo lançado nas vésperas da Conferência, os Panteras Negras rebatem argumentos lançados por várias forças políticas contra a formação de uma frente única com os comunistas.


Quais objeções os oponentes da frente única têm e como expõe suas objeções?

Alguns dizem: “Para os comunistas a palavra de ordem da frente única é apenas uma manobra”. Mas se realmente é uma manobra, respondemos, por que você não expõe a “manobra comunista” pela sua participação honesta na frente única? Declaramos francamente: “Queremos a unidade de ação da classe trabalhadora, para que o proletariado possa crescer com força na sua luta contra a burguesia, para que enquanto defenda os interesses atuais contra os ataques do capital, contra o fascismo, o proletariado possa estar numa posição amanhã para criar as condições preliminares para a emancipação final.”

“Os comunistas nos atacam”, dizem outros. Mas escute, declaramos repetidamente: Nós não vamos atacar ninguém, nem pessoas, nem organizações, nem partidos que se posicionam pela frente única da classe trabalhadora contra o inimigo de classe. Mas ao mesmo tempo é nosso dever, nos interesses do proletariado e de sua causa, criticar essas pessoas, essas organizações, esses partidos que impedem a unidade de ação dos trabalhadores.

“Não podemos formar uma frente única com comunistas, porque eles têm um programa diferente”, diz um terceiro grupo. Mas vocês mesmos dizem que seu programa difere do programa dos partidos burgueses, e ainda assim, isso não preveniu e não previne você de entrar em coalizões com esses partidos.

“Os partidos democráticos-burgueses são melhores aliados contra o fascismo que os comunistas”, dizem os oponentes da frente única e os que defendem a coalizão com a burguesia. Mas o que a experiência alemã ensina? Os sociais-democratas não formaram um bloco com aqueles “melhores” aliados? E quais foram os resultados?

“Se estabelecermos uma frente única com os comunistas a pequena-burguesia irá se assustar com o “Perigo Vermelho” e irá desertar para os fascistas”, ouvimos isso com certa frequência. Mas a frente única representa uma ameaça para os pobres, para os pequenos comerciantes, para os artesãos, para os intelectuais trabalhadores, Não, a frente única é a uma ameaça para a grande burguesia, para os magnatas financeiros, para os latifundiários e outros exploradores, com seu regime que traz a completa ruína para todas esses setores.

“A social-democracia é pela democracia, os comunistas são pela ditadura; dessa maneira não podemos formar uma frente única com os comunistas,” dizem alguns dos líderes sociais-democratas. Mas estamos te oferecendo agora uma frente única com o propósito de proclamar a ditadura do proletariado? Não fazemos nenhuma propostas destas no atual momento.

“Deixe os comunistas reconhecerem a democracia, deixem eles vir em sua defesa, então estaremos preparados para uma frente única”. Para isso respondemos: “Somos adeptos da democracia soviética, da democracia dos trabalhadores, da mais consistente democracia do mundo. Mas nos países capitalistas nos defendemos e vamos continuar a defender todo centímetro de liberdade democrática-burguesa que vem sendo atacada pelo fascismo e pela reação burguesa, porque os interesses da classe trabalhadora e do proletariado ditam isto.”

“Mas os pequenos Partidos Comunistas não contribuem nada ao participar da frente única suscitada pelo Partido Trabalhistas”, dizem, por exemplo, os líderes trabalhistas da Grã-Bretanha. Relembrem como os lideres sociais-democratas austríacos disseram as mesmas coisas em referência ao pequeno Partido Comunista Austríaco. E o que os eventos demonstraram? Não foi o Partido Social-Democrata Austríaco dirigido por Otto Bauer e Karl Renner que se provou correto, mas o pequeno Partido Comunista Austríaco que no momento certo assinalou o perigo fascista na Áustria e convocou os trabalhadores para a luta. Toda a experiência do movimento dos trabalhadores mostrou que os comunistas mesmo com a sua relativa insignificância em números são um poder motivador da atividade militante do proletariado. Além disso, não deve se esquecer que os Partidos Comunistas da Áustria e Grã-Bretanha não apenas tem centenas de milhares de trabalhadores que são apoiadores do Partido, mas são partes do movimento comunista do mundo, são seções da Internacional Comunista, o principal partido que é o partido do proletariado que já alcançou a vitória e governa um sexto do globo.

“Mas a frente única não permitiu o fascismo de vencer no Saar”, é outra objeção avançada pelos oponentes da frente única. Estranha é a lógica dessas pessoas! Primeiro eles não deixam nenhuma pedra no caminho para garantir a vitória do fascismo e depois e depois se regozijam com um olhar maliciosa porque a frente única na qual entraram no último momento não levou a uma vitória dos trabalhadores.

“Se fôssemos formar uma frente única com os comunistas, nós teríamos que recuar da coalizão, e os partidos reacionários e fascistas iriam entrar no governo”, dizem os líderes social-democratas que ocupam gabinetes em vários países. Muito bem. O Partido Social-Democrata Alemão não estava num governo de coalizão? Estava. O Partido Social-Democrata Austríaco não estava no gabinete? Estava.  Os socialistas espanhóis não estavam no mesmo governo que a burguesia? Estavam, também. A participação desses Partidos Social-Democratas nos governos burgueses de coalizão destes país preveniu o fascismo de atacar o proletariado? Não preveniu. Consequentemente, é claro como a luz do dia que a participação de ministro social-democratas no governo burguês não é uma barreira para o fascismo.

“Os comunistas agem como ditadores, eles querem determinar e ditar tudo para nós.” Não. Não determinamos nada e ditamos nada. Fazemos apenas propostas considerando que temos convicção de que se forem realizadas, elas irão atender os interesses do povo trabalhador. Isto não é apenas correto, como é o dever de todos aqueles agindo em nome dos trabalhadores. Vocês tem medo da “ditadura” dos comunistas? Deixem-nos discutir com eles e escolher, juntos com todos os trabalhadores, aquelas propostas que são as mais úteis para a causa da classe trabalhadora.

Assim todos esses argumentos contra a frente única não vão aguentar qualquer crítica. Eles são, na verdade, frágeis desculpas para os líderes reacionários da Social-Democracia, que preferem sua frente única com a burguesia do que uma frente única do proletariado.

Não. Essas desculpas não vão se segurar. O proletariado internacional conheceu toda essa amargura de tribulações causadas pela divisão da classe trabalhadora, e se torna mais e mais convencida de que a frente única, e que a unidade de ação do proletariado na escala nacional e internacional são ambas necessárias e perfeitamente possíveis.

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