Vladímir Ilich Lênin – Quem é a Favor da Aliança com os Cadetes?

Publicado pela primeira vez no jornal Ekho, No. 3, 24 de junho de 1906.

Originalmente disponível no site Marxists.

Tradução de Igor A. Torres Ribeiro.

De acordo com o Dicionário Político do site Marxists, o Partido Cadete é definido brevemente da seguinte forma:

“Partido da Liberdade do Povo”, também chamado “Partido Constitucional-Democrata” ou simplesmente, “Cadete” (K. D.): principal partido da burguesia monárquica liberal e em seguida, da burguesia imperialista russa. Seu objetivo era a transformação do czarismo em monarquia constitucional, foi formado em Outubro de 1905. Faziam parte dele representantes da burguesia, dos latifundiários e dos intelectuais burgueses. Na tentativa de enganar os trabalhadores e desviá-los de uma luta consequente, impondo-lhes a sua hegemonia, estes elementos, que se opunham à autocracia de um modo inconsequente, mas que acima de tudo receavam o desenvolvimento do movimento popular revolucionário, alicerçado na aliança operário-camponesa, e a direção consequente que a este garantia a hegemonia do proletariado, puseram no seu estandarte a insígnia da luta pela «liberdade do povo», quando efetivamente lutavam apenas na defesa dos seus estritos interesses de classe. Certos elementos, como Struvé, tentaram mesmo passar, nos seus escritos, por marxistas, sendo, por isso, conhecidos pelo nome de “marxistas legais”. Durante a primeira guerra mundial, os cadetes defenderam ativamente a política externa expansionista do governo czarista. Durante a Revolução democrático-burguesa de Fevereiro de 1917 fizeram todos os possíveis para salvar a monarquia. Fazendo parte do Governo provisório desenvolveram, conjuntamente com os mencheviques e os “socialistas revolucionários”, uma política profundamente antipopular e contrarrevolucionária. Após a Revolução Socialista de Outubro, inimigos Jurados do Poder dos Sovietes, participaram ativamente em todos os empreendimentos militares contrarrevolucionários.


Às vezes acontece que estadistas experientes e cautelosos, que apreciam sua responsabilidade em cada passo político importante que dão, enviam recrutas jovens e um tanto descuidados para fazer, por assim dizer, o reconhecimento com antecedência. “Não adianta desperdiçar um rapaz inteligente”(1) eles dizem a si mesmos, antecipando que os rapazes irão deixar escapar um ou outro segredo menor, que servirá com uma sondagem.

O camarada N. Rakhmetov, escrevendo no Golos Truda, passa a impressão de ser tal aprendiz cumprindo a missão pretendida. Mas é exatamente por isso, a partir de um certo ângulo, que o artigo tão trivial do camarada Rakhmetov – nós fizemos piada dele ontem – adquire, sem dúvida, importância política. Se um órgão influente dos nossos Sociais-Democratas de Direita como o Golos Truda publica um artigo, sem um único comentário editorial, apelando aos Sociais-Democratas para que se aliem aos Cadetes, isso mostra que o nosso Partido sofre de alguma doença grave. Não importa o quanto homens cautelosos, experientes e astutos possam tentar esconder seus sintomas, a doença se mostra a despeito deles. Ficar calado sobre isso seria um grande crime.

O erro fundamental dos Social Democratas oportunistas reside em sua falha em compreender o que significa a vitória decisiva da revolução burguesa. Nossos oportunistas Russos que, como todos os oportunistas, menosprezam a teoria do Marxismo revolucionário e o papel do proletariado como vanguarda, constantemente trabalham sob a ilusão de que a burguesia liberal deve ser inevitavelmente o “chefe” na revolução burguesa. Eles falham totalmente em compreender o papel histórico, digamos, da Convenção na grande Revolução Francesa, como a ditadura das camadas mais baixas da sociedade, do proletariado e da pequena burguesia. Eles falham totalmente em compreender a ideia da ditadura do proletariado e do campesinato como o único bastião social possível de uma revolução burguesa Russa totalmente vitoriosa.

Em essência, oportunismo significa sacrificar os interesses permanentes e de longo prazo do proletariado por interesses superficiais e temporários. No período da revolução burguesa, o Social Democrata oportunista esquece a importância da ala revolucionária dos democratas burgueses e presta uma homenagem servil aos sucessos da ala não revolucionária desses democratas burgueses. Ele perde de vista a diferença essencial entre a burguesia liberal-monárquica (Partido Democrata-Constitucionalista, Partido das Reformas Democráticas(2), etc.) e os democratas burgueses revolucionários, particularmente os camponeses. Nós temos chamado a atenção de nossos camaradas de Direita para essa diferença centenas, senão milhares de vezes. O esboço da resolução Bolchevique para o Congresso afirmou muito claramente que a burguesia liberal está tentando fazer um acordo com o antigo regime, está vacilando entre a revolução e a reação, está com medo do povo e tem medo do desenvolvimento livre e completo de suas atividades; e que tudo isso não se deve ao acaso, mas aos seus interesses fundamentais. Nós dissemos que devemos utilizar as frases democráticas proferidas por esta burguesia e utilizar os passos tímidos que ela dá; mas não devemos por um momento esquecer seus esforços “comprometedores” e traiçoeiros. Os camponeses democratas, por outro lado, devido às condições objetivas em que se encontram as massas camponesas, são obrigados a agir de maneira revolucionária, a despeito do fato deles não estarem completamente conscientes politicamente. Os interesses fundamentais desses democratas burgueses não estão, no momento, os impelindo a buscar um acordo, mas os compelem a lutar determinadamente contra o antigo regime. Para evitar sacrificar os interesses fundamentais do proletariado na revolução democrático-burguesa, uma distinção clara deve ser traçada entre democratas burgueses liberais, os “Cadetes”, e democratas burgueses camponeses, os revolucionários.

É isto que os Sociais-Democratas oportunistas não desejam compreender, embora os eventos tenham confirmado brilhantemente a precisão desta distinção e continuem a fazê-lo. Também na Duma os camponeses democratas tornam-se um grupo distinto ao serem compelidos a se aproximar da revolução e a se esforçar para se libertar do jugo dos Cadetes. Os Cadetes e Outubristas contra os Trudoviques e Social Democratas – tal é o alinhamento que já ocorreu tanto na questão da instituição de comitês agrários locais eleitos, quanto na questão da tentativa dos Cadetes de “restringir” a liberdade de reunião.

Os camaradas da ala à Direita da Social Democracia estão cegos a estes fatos. Deslumbrados pela situação imediata, eles estão inclinados a identificar o partido que atualmente predomina na Duma, ou seja, o Partido Democrata-Constitucionalista, com os democratas burgueses em geral. N. Rakhmetov é particularmente ingênuo ao repetir esse velho erro dos Mencheviques. Enquanto as “pessoas experientes” contornam artisticamente as deduções desagradáveis que devem ser retiradas de premissas erradas, os recrutas tagarelam e deixam escapar a verdade. Se os Democratas-Constitucionalistas representam os democratas burgueses genuínos em geral (e não apenas os piores estratos da burguesia, e nisso as pequenas camadas superiores), então, naturalmente, a necessária aliança de luta entre o proletariado e os democratas burgueses deve ser uma aliança com os Cadetes. O proletariado pode, e deve, estar na linha de frente da luta pela vitória da revolução burguesa, enquanto preserva estritamente sua independência de classe. Mas sem os democratas burgueses ele não pode carregar esta revolução até o fim. Com quem, então, ele deve “marchar separadamente, mas golpear junto”? Com os democratas liberais ou com os democratas camponeses?

Com os liberais, com os Cadetes, gorjeia Rakhmetov. Por que hesitar? Os Cadetes estão no topo; eles são mais chamativos; eles são vistosos e falastrões! Com os Cadetes, é claro, com os Cadetes! “É muito mais fácil para os Cadetes se torcer e virar”, diz Rakhmetov, “quando estão cercados por uma sólida parede de hostilidade do que seria se fossem abordados com uma oferta de uma coalizão política, • Muito mais pode ser alcançado pela pressão da opinião pública sobre os Cadetes (enviando à Duma resoluções, instruções, petições e demandas, organizando reuniões de protesto, negociações entre o Grupo dos Trabalhadores e os Cadetes) do que por tumultos sem sentido e, portanto, inúteis, badernagem, para se colocar mais fortemente” (nosso itálico).

Portanto, aqui está uma dedução completamente formulada, pela qual Rakhmetov totalmente merece um certificado portando a inscrição: “Dos gratos Bolcheviques”. Alianças políticas com os Cadetes, negociações entre Social Democratas e Cadetes – que slogan claro e preciso! Tudo o que temos a fazer agora é espalhar este slogan Menchevique o mais amplamente possível em todo o partido dos trabalhadores e apresentar aos trabalhadores a pergunta: Quem é a favor das alianças com os Cadetes? Quem sabe qualquer coisa do proletariado não terá dúvidas de qual será a resposta.

A mesma edição do Golos Truda contém o que é substancialmente uma advertência correta do Comitê Central do POSDR contra a fusão dos Social Democratas com os Trudoviques. Mas o Golos Truda prestou um desserviço ao Comitê Central de nosso Partido, ao converter este aviso em uma cobertura para a defesa de uma aliança entre os Sociais-Democratas e os Cadetes! Nada poderia ser mais calculado para desacreditar os Social Democratas do que esta ação de combinar uma – substancialmente correta, repetimos – advertência contra a fusão dos Social Democratas com a burguesia revolucionária, com a defesa de uma aliança entre os Sociais-Democratas e a burguesia oportunista!

E que momento nossos Mencheviques escolheram para defender tal aliança? O momento em que a aliança entre a burguesia revolucionária e oportunista, entre as Trudoviques e os Cadetes, está se desfazendo. Um momento muito apropriado, de fato, para o nosso bom Rakhmetov escolher para lançar sua cruzada! No mesmo momento em que os Trudoviques – com a ajuda dos Social Democratas, seja dito – estão começando a se separar dos Cadetes, a se livrar do jugo, a votar contra eles e a se manifestar contra a “aliança” entre os Cadetes e os Outubristas. E pessoas como Rakhmetov tem a presunção de falar pomposamente em revolucionar a Duma, quando, na verdade, estão ajudando os Cadetes a degradar a Duma.

Lembrem-se, senhores: alianças e negociações com os Cadetes são a pior forma de exercer pressão sobre eles. Na prática, isso significará embotar a luta independente dos Social Democratas e não a pressão Social Democrata sobre os Cadetes. São aqueles que expõem implacavelmente cada passo falso dos Cadetes que estão ajudando a revolucionar a Duma e estão “exercendo pressão” sobre os Cadetes. A recusa em apoiar esses passos falso exerce muito mais pressão sobre a Duma Cadete do que quaisquer negociações com os Cadetes visando apoiá-los. O Grupo dos Trabalhadores recusou-se a votar pela resposta ao discurso do trono: os Cadetes a haviam castrado. O Grupo dos Trabalhadores se recusou a apoiar os Cadetes; dessa forma os desacreditou aos olhos do povo e transferiu moralmente o foco da atenção pública dos Cadetes para o núcleo “de esquerda” da Duma. Ao denunciar implacavelmente a falta de entusiasmo da Duma Cadete, nós estamos revolucionando a Duma e – o que é mais importante – as pessoas que acreditam na Duma. Deste modo, de fato, nós emitimos um chamado para nos livrarmos do jugo Cadete, para agirmos com mais ousadia, determinação e consistência. Deste modo, também, nós causamos uma divisão entre os Cadetes e fazemos suas fileiras vacilarem sob o ataque conjunto dos Social Democratas e dos Trudoviques.

Nós estamos conduzindo a política do proletariado como a vanguarda lutadora na revolução e não como apêndice das mais tímidas e lamentáveis camadas superiores da burguesia liberal.

Notas de rodapé:

(1) Lênin cita a primeira linha da canção dos soldados Russos que zombava dos incapazes generais Russos (o General Réad entre eles) durante a Guerra da Crimeia:

“Não adianta desperdiçar um rapaz inteligente
Apenas envie Réad…
O autor da canção era Lev Tolstoi, então um oficial em campo.

(2) Partido das Reformas Democráticas – PRD – um dos agrupamentos políticos da burguesia monarquista liberal, formado em 1906 durante as eleições para a Primeira Duma do Estado. Ocupou uma posição à direita do Partido Cadete, sendo na verdade uma dissidência insignificante deste último.

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