Discurso do Presidente Mao para os Trabalhadores da Música 

Discurso proferido em 24 de agosto de 1956.

Originalmente publicado no site Marxists.

Tradução por Rafaela Fraga.


A arte de todas as nações do mundo é similar no que diz respeito aos princípios fundamentais, mas diferem no que tange a forma e estilo. A arte de vários países socialistas tem o socialismo em seu conteúdo, mas cada uma possui sua particularidade nacional. Todas trazem similaridades e diferenças, com características comuns e individuais. É a lei da vida. Todas as coisas são assim, não importa se pertencem à natureza, à sociedade ou ao reino do intelecto. Tire as folhas de uma árvore: à primeira vista vão parecer iguais, mas quando examinadas de perto, vimos que cada uma é diferente; é impossível encontrar duas folhas absolutamente iguais.

Luta de classes, revolução social, transição do capitalismo para o socialismo, todas têm o mesmo princípio elementar nos países ao redor do mundo. Mas, quando se trata de princípios e manifestações menores, ainda ligados a esses fundamentos, é diferente em cada país. A Revolução de Outubro e a Revolução Chinesa são assim: similares nos princípios essenciais, mas no que tange a forma como esses princípios se manifestam, as duas revoluções têm grandes diferenças. Por exemplo, na Rússia a revolução se desenvolveu a partir das cidades para o campo, enquanto no nosso país, se desenvolveu do campo para a cidade. Essa é uma das várias diferenças entre as duas revoluções.

A arte de diferentes países do mundo tem, cada uma, sua própria forma e seu próprio estilo nacional. Algumas pessoas não entendem a questão: elas rejeitam suas próprias características nacionais e adoram cegamente o Ocidente, pensando que ele é melhor em todos os aspectos. Chegam longe, defendendo a “ocidentalização completa”. Isso está errado. “Ocidentalização completa” é impraticável, e não será aceita pela população chinesa. As artes e as ciências naturais diferem nesse aspecto; por exemplo, remover o apêndice e tomar aspirina não têm uma forma nacional de se fazer. Esse não é o caso das artes: com elas, surge a questão da forma nacional. Isso porque a arte é a manifestação da vida, das emoções e dos pensamentos das pessoas, e tem uma relação muito próxima com os costumes e a linguagem de uma nação.

Historicamente, o patrimônio artístico tem crescido na esfera nacional. Arte chinesa, música chinesa, pintura, drama, literatura, canto e dança tiveram, cada um, seu próprio desenvolvimento histórico. Em atitude de rejeição, as pessoas que defendem a ocidentalização completa dizem que as coisas da China não têm suas próprias regras, e por isso, estão relutantes em estudá-las ou desenvolvê-las. Isso significa adotar uma atitude niilista em relação à arte chinesa.

Toda nação do mundo tem sua própria história e seus pontos fortes e fracos. Desde tempos primórdios, coisas excelentes e coisas péssimas estiveram misturadas e se acumularam ao longo das eras. Separá-las e distinguir o joio do trigo é uma tarefa difícil, mas não podemos rejeitar a história por conta da dificuldade. Não adianta nos desligarmos da história e abandonar nossa herança. O povo não aprovaria.

É claro que isso não significa que não precisamos aprender com países estrangeiros. Nós devemos aprender muitas coisas deles, e dominá-las. Devemos dominar especialmente a teoria fundamental. Algumas pessoas defendem a máxima “aprendizado chinês como substância, aprendizado ocidental para aplicação prática”. Essa ideia é certa ou errada? É errada. A palavra “aprendizado”, na verdade, refere-se à teoria fundamental. A teoria fundamental deveria ser a mesma na China e em países estrangeiros. Não deve haver distinção entre as coisas da China e do Ocidente no que tange a teoria fundamental.

O Marxismo é uma teoria fundamental que foi produzida no Ocidente. Então como nós iremos agora fazer uma distinção entre o que é chinês e o que é ocidental a esse respeito? Iremos nos recusar a aceitar o Marxismo? A prática da Revolução Chinesa prova que não aceitar o Marxismo seria ruim para nós. Não seria razoável não aceitá-lo. No passado, a Segunda Internacional ameaçou recusar e revisar as teorias fundamentais do Marxismo, e levou à frente alguns argumentos para isso, que foram completamente refutados por Lênin. O Marxismo é uma verdade geral que tem aplicação universal. Devemos aceitá-lo. Mas essa verdade geral precisa ser combinada com a prática concreta da revolução de cada nação. E só porque o povo chinês aceitou o Marxismo e o combinou com a prática da Revolução Chinesa, esta foi vitoriosa.

Nós aprendemos coisas estrangeiras porque queremos estudar e desenvolver coisas chinesas. A este respeito, ciências naturais e sociais são similares. Nós devemos dominar todas as coisas boas dos países estrangeiros, aplicá-los e, no processo, desenvolvê-los. No campo das ciências naturais, devemos fazer nosso próprio trabalho criativo independente e usar os conhecimentos e métodos científicos modernos de fora para classificar a herança científica chinesa, até que possamos formar nossas próprias escolas de pensamento. Pegar, por exemplo, ciência médica ocidental e outras ciências modernas relacionadas, como psicologia, patologia, bioquímica, bacteriologia e anatomia. Você diria que nós não queremos estudá-los? Nós devemos estudar todas estas ciências modernas. Mas quem estudou medicina ocidental também deveria estudar medicina chinesa, e usar o conhecimento e o método científico moderno deles para pôr em ordem e estudar nossos métodos e materiais médicos ancestrais chineses. Eles também devem combinar medicina e farmácia chinesas e ocidentais, para criar novas ciências médicas e farmacêuticas chinesas unificadas.

Se isso se aplica para ciências naturais e sociais, quanto mais não se aplicaria para as artes? Devemos aprender com os países estrangeiros e absorver as coisas boas deles, mas quando tivermos aprendido, devemos usá-las para estudar e desenvolver as artes dos mais diversos povos da China, ou nosso trabalho não beneficiará ninguém. Nosso propósito estudando artes estrangeiras é aprender suas teorias e técnicas fundamentais e criar uma nova arte socialista da população chinesa, que possuirá suas próprias formas e estilos nacionais.

Precisamos reconhecer que, no que tange à cultura moderna, os padrões do Ocidente são mais altos que os nossos. Nós ficamos para trás. Este é o caso nas artes? Nas artes nós temos nossas forças e também fraquezas. Devemos nos aprimorar em absorver as coisas boas dos países estrangeiros para compensar nossas deficiências. Se nos apegamos às nossas velhas maneiras e não estudamos literatura estrangeira, não a introduzimos à China; se não sabemos como ouvir ou tocar música estrangeira, isso não é bom. Não precisamos ser como a imperatriz viúva Tz’u-hsi, que cegamente rejeitou todas as coisas estrangeiras. Rejeitá-las cegamente é como adorá-las cegamente. Ambos estão incorretos e são prejudiciais.

Ao aprender com países estrangeiros, devemos nos opor tanto ao conservadorismo quanto ao dogmatismo. Nós já sofremos com o dogmatismo na política. Tudo o que copiávamos de fora adotávamos rigidamente, o que acabava numa enorme derrota, com as organizações do Partido em áreas brancas perdendo 100% da sua força e das suas bases revolucionárias, o Exército Vermelho perdendo 90% da sua força, e a revolução sendo adiada por muitos anos. Isto porque, lá, havia alguns camaradas que não tomavam a realidade como ponto de partida, mas sim o dogmatismo. Eles não combinavam a teoria fundamental do Marxismo-Leninismo com a prática concreta da Revolução Chinesa. Se nós não tivéssemos rejeitado esse tipo de dogmatismo, a Revolução Chinesa não seria vitoriosa hoje.

No campo das artes, precisamos também aprender essa lição e termos cuidado para não permitir que o dogmatismo tome conta do que nós temos de melhor. Estudar coisas de países estrangeiros não significa importar tudo deles. Precisamos aceitar as coisas criticamente. Aprendemos com nossos ancestrais para beneficiar nossos contemporâneos, e aprendemos com os estrangeiros para beneficiar a população chinesa.

Devemos aprender coisas boas com os países estrangeiros e também aprender coisas boas com a China. Meias garrafas de vinagre não servem: temos que transformar duas garrafas pela metade em duas garrafas inteiras. Devemos dominar tanto as coisas chinesas quanto as estrangeiras, e combiná-las num todo orgânico. Lu Hsün fez isso. Ele era muito bem versado tanto nos trabalhos chineses quanto nos do exterior, mas seu brilhantismo não se destacava pelo que trazia cruamente à China, e sim pelo seu trabalho criativo. Seu trabalho criativo não era semelhante nem às produções estrangeiras, nem às antigas produções nacionais, mas ainda assim continuava sendo chinês. Devemos estudar o espírito de Lu Hsün e assim como ele dominar as coisas chinesas e as estrangeiras, absorver pontos positivos da arte chinesa e do exterior, fundi-las e criar uma arte nova, com características nacionais de forma e estilo.

Claro que não é fácil ter êxito na combinação entre o que é chinês e o que é estrangeiro; é um processo que exige tempo. Existem algumas coisas chinesas que podem se fundir com coisas estrangeiras, como por exemplo: ao escrever romances, o idioma, os personagens e o plano de fundo devem ser chineses, mas não precisam ser escritos no formato chinês “prescrito”. Você pode produzir coisas que não são nem da China, nem do Ocidente. Se o que surge não é nem um asno nem um cavalo, mas uma mula, isso não é de todo ruim. Quando duas coisas se combinam, sua forma muda. É impossível que se mantenham completamente imutáveis. Coisas da China irão mudar. Politicamente, economicamente e culturalmente, a face chinesa vem passando por grandes mudanças, mas não importa o quanto mudem, as coisas da China terão sempre suas características inerentes. Após a Revolução de Outubro, a face do mundo também passou por mudanças fundamentais. Coisas estrangeiras também mudam, e com a Segunda Guerra Mundial, essas mudanças se desenvolveram numa nova direção. Precisamos voltar nossas atenções à aceitação crítica das coisas estrangeiras, e especialmente, à introdução de coisas advindas do mundo socialista e do povo progressista do mundo capitalista.

Em suma, a arte deve ter qualidades criativas independentes; precisa ser particularmente imbuída da característica dos tempos e das características nacionais. A arte da China não deve ficar voltada para o passado, nem deve se tornar ocidentalizada. Ela precisa refletir cada vez mais os aspectos de seu tempo e de sua nação, e na tentativa de alcançar isso, não devemos repelir a experimentação. Especialmente num país como a China, com uma longa história e uma vasta população, é ainda mais necessário fazer algumas experimentações, que também servirão melhor às necessidades das várias nacionalidades. Não precisamos de uniformidade completa. A uniformidade leva a fórmulas prontas. Não importa se são fórmulas estrangeiras ou locais, ambas são sem vida e não são bem-vindas ao povo chinês.

Nós temos aqui a questão do tratamento da burguesia intelectual, que tem recebido uma educação ocidentalizada. Se nós não tratarmos devidamente dessa questão, haverá um efeito adverso não só na arte, mas em toda a causa revolucionária. A burguesia nacional da China e seus intelectuais consistem em alguns milhões de pessoas. Apesar de seus números não serem tão grandes, eles possuem cultura moderna. Precisamos nos unir a eles, educá-los e moldá-los. A classe compradora tem sua própria cultura, que é uma cultura escrava. A classe latifundiária também tem sua cultura – a cultura feudal. Os trabalhadores e camponeses da China, tendo sido oprimidos por tanto tempo, ainda não têm muito conhecimento cultural. Até que as tarefas das revoluções culturais e técnicas sejam concluídas, a burguesia intelectual tem relativamente mais conhecimento e habilidade. Desde que nossa política esteja correta e nós eduquemo-los e moldemo-los, podemos ganhá-los para a causa do socialismo. Podemos educá-los e moldá-los? Sim. Muitas pessoas aqui presentes foram intelectuais burgueses no passado e cruzaram a linha da burguesia para o proletariado, então por que eles não podem cruzar essa linha também? Na verdade, muitos já o fizeram. Não podemos falhar em nos unir a eles, educá-los e moldá-los. Apenas se fizermos isso, eles serão benéficos à causa revolucionária da classe trabalhadora, da revolução socialista e da construção socialista.

Vocês, presentes aqui, são todos músicos. Ao estudarem música ocidental, vocês têm grandes responsabilidades. O ordenamento e o desenvolvimento da música chinesa depende potencialmente de quem estuda os estilos musicais ocidentais, assim como o ordenamento e o desenvolvimento da medicina chinesa depende dos doutores versados no ocidentalismo. As coisas do Ocidente que vocês estudam são úteis, mas vocês precisam dominar também as coisas da China, e não podem se “ocidentalizar completamente”. Vocês devem ter atenção devota às coisas chinesas, dar seu melhor para estudá-las e aprimorá-las, mirando em criar nossas próprias coisas chinesas com formas e estilos nacionais. Se vocês se agarrarem a essa política básica, seu trabalho terá um excelente futuro.

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