Luiz Carlos Oliveira Jr. – O Homem que Copiava

Originalmente publicado na Revista de Cinema Contracampo.


De que Jorge Furtado é um hábil roteirista ninguém duvida. O Homem que Copiava, segundo longa-metragem que escreve/dirige, apresenta uma narrativa absolutamente engenhosa e consciente de seus artifícios. Não faltam aspectos elogiáveis no filme, desde a concepção de espaço (a grande cidade introduzida a partir de pouquíssimos pontos de referência que se repetem ao longo do filme, construindo a idéia de “mundo pequeno”) até o trabalho com o elenco e a assimilação do artificial por ele mesmo (diferente daquele artificial atabalhoado que, como bastante comum no cinema brasileiro contemporâneo, no fundo pretende naturalismo). Ao optar por atores consagrados, ao contrário do que havia feito com Houve Uma Vez Dois Verões, Furtado demonstrou que é possível transpor figuras globais para a telona e tê-las em sintonia total com o filme, a despeito de uma suposta estereotipagem promovida pelas suas presenças constantes na televisão.

Os diálogos escritos e encenados por Furtado vêm se mantendo, desde os curtas até os dois longas, bem ritmados e atraentes (os com Pedro Cardoso, em O Homem que Copiava, são particularmente cômicos). Sem nunca abrir mão de um enredo claro e divertido, o cineasta confirma sua vontade de congregar exercício de estilo a histórias que partem de uma fórmula simples, porém são trabalhadas de maneira inventiva. Em linhas tão grosseiras quanto negligentes, O Homem que Copiava pode ser assim resumido: homem comum observa mulher comum e gosta dela; há o encontro, ambos se apaixonam, eliminam obstáculos e ficam felizes. O que ocorre no miolo é uma sucessão de pontos de virada e artimanhas da narração, incluindo flertes com elementos de um ou outro gênero cinematográfico, algo que Furtado faz com a maior descontração do mundo.

O tal miolo, que pode ser demarcado como o espaço compreendido entre o fim da apresentação e a descoberta do bilhete premiado – esta cena inclusa – é o que há de mais cativante no filme. O restante, contudo, torna O Homem que Copiava um filme eficiente somente até certo ponto. Há algo nitidamente sobrando, a começar pela excessivamente longa auto-apresentação do protagonista (aferir-lhe uma boa alma e conquistar o público logo de início para que depois não haja julgamento?) e a terminar pelos atropelos do roteiro lá pelo terceiro terço do filme (como se o quebra-cabeça tivesse adquirido mais peças do que o tempo de sua resolução permite). Certos atropelos, por outro lado, são propositais e realmente funcionam, a exemplo do final feliz.

O happy end em O Homem que Copiava, assim como em Houve Uma Vez Dois Verões, é simplesmente uma preferência do autor. Ele quis que, não importando o quão tortuosos fossem os caminhos dos personagens, tudo terminasse bem. Esse happy end não é algo construído desde o primeiro fotograma, no sentido de encaminhar os personagens para tal desfecho, de fazê-los merecer um final alegre e afortunado – até lúdico, num certo aspecto. Por trás de um pragmatismo vacilante e de uma suposta obstinação do protagonista (André, personagem de Lázaro Ramos, sabe bem o que quer: ter dinheiro, conquistar a mulher que ama e levá-la ao Rio de Janeiro), há uma moral oscilante, atitudes dúbias, veleidades – daí a dificuldade de um possível detrator flagrar um discurso moralizante no filme. Ainda que bastante objetivo nos seus anseios de conquista (o dinheiro, a mulher, a viagem), André não representa o herói à americana, aquele que ao pragmatismo assomaria clareza de princípios, conduta, moral inabalável, enorme força de vontade. Faltam-lhe, ao herói de Furtado, não só essa convicção no que diz respeito aos fins como também a destreza quando da utilização dos meios. André é tímido, travado, sente vergonha de trabalhar numa máquina de xerox, fato que escamoteia dizendo às meninas que é “operador de fotocopiadora”. Sua força de vontade a princípio parece determinante, mas os agentes externos não tardam em mostrar sua primordialidade – e, como a narração em off de Leandra Leal revela ao fim, André fora envolvido num jogo do qual conhecia só parcialmente as regras. “Não levo heróis muito a sério”, disse Furtado em entrevista (ver Contracampo nº 47). E por isso prefere a comédia.

Comédia voyeurista? Não, é preferível não rotulá-lo, mas apenas expor que o voyeurismo, único “crime” cometido por André que aos mocinhos americanos também era permitido (Hitchcock que o dissesse), ajuda a unir, através do olhar do protagonista, o espaço aparentemente fragmentado de O Homem que Copiava. A aparente fragmentação é resultado da narrativa ágil, picotada em alguns momentos, cruzamento de técnicas em vários outros (ótimas animações e trucagens). Mas o enredo, no fundo, confere autonomia ao espaço, torna-o fechado: as “coincidências” não cessam de acontecer, as pessoas se esbarram como se, mesmo em meio à metrópole, vivessem num mundo muito pequeno e suas vidas, por conseguinte, estivessem submetidas a ciclos (seu enredo realmente cíclico, porém, é o do anterior Houve Uma Vez Dois Verões – em O Homem que Copiava prevalecem as interrupções e os redirecionamentos). O espaço, portanto, longe de ser fragmentado, está reunido em torno dos personagens e encerra-os, espaço quase determinista (um flerte com o cinema de gênero, afinal, não poderia deixar de passar por aí).

O Homem que Copiava enaltece o poder da ficção e, como é muito raro, debruça-se sobre nosso desejo de consumi-la sem julgamento depreciativo (ganhar uma fortuna do nada, comprar um Mercedes e passar a noite num hotel cinco estrelas – pura ficção de consumo – não parece condenável). Enaltecimento da ficção que faz com que Silvia (Leandra Leal) mate seu pai, ou padrasto que seja, menos por odiá-lo e achar sua morte justa do que por estar no cinema (a girl and a gun, certo?). Os personagens de O Homem que Copiava não precisam fazer uma boa ação e garantir a felicidade alheia para só então conquistar a sua – não há esse “fabuloso destino” (no sentido poulainiano do termo) rondando a vida de André, de Silvia ou dos demais. Esses personagens que roubam, enganam, falsificam e matam, portanto, serão vistos felizes no belo plano derradeiro, independente da “mensagem errada” que essa imagem pode representar para alguns.

Seguindo a composição dialética de Ilha das Flores, clássico curta-metragem de Jorge Furtado (e que rende a private joke do final, ou seja, a participação de Paulo José, narrador de Ilha das Flores), O Homem que Copiava faz uma cena completar a anterior negando-a, não propriamente ludibriando o espectador, pois desde o princípio – do que a imagem de notas de cinqüenta pegando fogo serve como metáfora – salientou a falsificação do “Real” engendrada pelo filme. Não é só o dinheiro que se reproduz de modo falso e passa de mão em mão: a vida se encena minuto a minuto, e não se pode falar em realidade absoluta. A imitação da vida é a vida em si mesma. E, assim sendo, por que não terminar com a afirmação feliz de tudo isso, com sorrisos sob um enorme abraço Redentor? Ao que o filme indica, Furtado não titubeou em fazê-lo – com prazer, já que O Homem que Copiava definitivamente passa essa boa impressão de que é um filme feito com muito gosto pelo ofício.

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