Da Periferia ao Centro: Cataguases/MG e o nascimento do Cinema Brasileiro

Por Andrey Santiago, estudante de Cinema da Universidade Federal de Santa Catarina.

Introdução

Dentre os territórios férteis para o desenvolvimento dos primórdios do cinema no Brasil, se denotam várias cidades fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, não apenas no Sudeste, mas pelo país inteiro. Podemos citar dessa maneira as produções e circulação de filmes em municípios como Recife, Campinas, Barbacena, Cataguases, Guaranésia, Ouro Fino, Pouso Alegre, Belo Horizonte, Pelotas, Porto Alegre, Manaus, João Pessoa e Curitiba (AUTRAN, 2010).

Filmes produzidos de maneira heterogênea e com uma amplitude de escopos, indo de ficções, cine-jornais, filmes familiares até documentários e filmes institucionais, recebendo influências dos mais variados movimentos e setores da sociedade brasileira e internacional, especialmente influências norte-americanas. Assim como ao redor do globo, esse período inicial de expansão e experimentação do cinema entre 1900 e 1930, teve no Brasil uma marca singular através do financiamento de suas produções crescendo de forma significativa a partir da década de 20, buscando dessa maneira criar uma arte com seu registro de identidade nacional através de uma indústria cinematográfica brasileira.

Dessa forma, importantes personagens da história do cinema brasileiro surgem com significativa influência durante este período, como Humberto Mauro, Pedro Comelo e Homero Cortes, ambos entusiastas do cinema de origem comum, Minas Gerais, realizando seus primeiros filmes em uma cidade localizada na Zona da Mata Mineira: Cataguases. Sua fundação remonta ao século XVIII, com 491,767 km² atualmente, fazendo fronteira com as cidades de Guidoval e Mirai ao Norte; Santana de Cataguases e Laranjal ao Leste; Leopoldina ao Sul; Itamarati de Minas e Dona Euzébia ao Oeste, Cataguases é situada em meio a Mata Atlântica e com proximidade relativa dos estados do Rio de Janeiro e Espirito Santo, como ilustra o mapa abaixo com a Região Imediata de Cataguases:

Figura 1. Em vermelho a Região Imediata de Cataguases.

Durante a década de 20, enquanto outros municípios na Zona da Mata Mineira viviam sob economias predominantemente rurais, Cataguases estava passando por um intenso processo de industrialização, tornando-se então um centro urbano com ares cosmopolitas, surgia na cidade uma intensa relação entre o espaço e a cultura, de tal modo, que recentes desdobramentos em áreas como arquitetura, artes plásticas e cinema foram muito bem-vindos pelas elites locais.

Cataguases além de se tornar um berço do cinema brasileiro, também teria grandes contribuições para o movimento modernista no Brasil, com sua Revista Verde tratando de assuntos do modernismo e dando vazão para que artistas se interessassem pela cidade, revista que seria organizada pelo Grupo Verde, numa reunião de vários intelectuais de Cataguases que protagonizaram essa iniciativa de repercussão nacional. Lembremos que em 1922, acontecia em São Paulo a Semana de Arte Moderna, um evento que determinou a reflexão pela busca da cultura brasileira, com inovações sendo promovidas nos mais variados campos da arte realizada no país.

Este artigo visa explorar a formação socioeconômica de Cataguases e evidenciar a ligação entre o financiamento das produções cinematográficas na cidade com os interesses das elites locais, identificando de que maneira as obras conseguiam os recursos necessários para sua realização, como empresários influentes da cidade se envolviam neste processo e o que levou esse espaço de crescente apoio para o desenvolvimento do cinema ao seu aparente fim.

Discussão

Paulo Emílio Salles Gomes em sua obra “Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte”, uma das principais referências para este artigo, descreve de forma aprofundada a complexificação do desenvolvimento da cidade mineira, perpassando a ocupação indígena nativa nas terras (por variadas tribos indígenas como Coroados, Coropós e Puris), a invasão dos colonizadores, a criação e sustentação da economia cafeeira, a vinda da mão de obra escrava em seguida da chegada de imigrantes europeus para sua substituição e embranquecimento da nascente classe trabalhadora brasileira, contendo também em seu trabalho também relatos do início do comércio e da formação de uma cultura regional que antecede a constituição do cinema na cidade. Assim, Gomes descreve que

Durante aproximadamente três gerações o café da Zona da Mata rendeu muito, apesar das flutuações dos preços e sem que acontecimentos como a abolição da escravatura ou a proclamação da República influíssem no processo. Nos últimos anos do século, porém, a situação não é boa. O patriciado de efêmera duração se decompõe. Na Mata mineira não havia pela frente, como em São Paulo, novos territórios para o plantio e por outro lado Minas não acompanhou a modernização da agricultura paulista. (Gomes, 1974)

Ou seja, devido a exploração das terras para cultivo de café naquele ambiente, sem a devida técnica para que o solo suportasse tantas plantações e colheitas, novas formas de investimento acabaram sendo necessárias para fazer com que a economia de Cataguazes não estagnasse devido ao solo comprometido. Apesar dessa identificação da inutilização das terras antigamente utilizadas para agricultura na cidade, não se deve menosprezar o quão explorada foi essa economia e o quanto a cidade enriqueceu por conta desses negócios relacionados ao café.

Pela estratégica localização no mapa do Sudeste (elemento que será recorrente para a facilidade na abertura de portas para influências de metrópoles situados no RJ e SP), Cataguases tinha uma importância singular na região da Mata

No princípio tudo era em função do café, desde o trabalho na lavoura, passando pela cidade nos armazéns de beneficiamento e comercialização, até o transporte e exportação do produto; tudo girava em torno do que o café proporcionava. A estrada de ferro chegava em 1877, em função do café, pois Cataguases tornou-se polo distribuidor de café de todas as fazendas da redondeza, através do Cel. João Duarte, português, que na ocasião dominava a economia local. Imediatamente o café permitiu que tivessem um meio de comunicação eficiente. Mas permitiu mais, o enriquecimento de alguns grupos, simultaneamente criando um proletariado urbano, concorrendo enfim para estruturar as classes sociais. (NETTO, 2002)

Justamente, é no fim do século XIX, acompanhando um fenômeno nacional de transferência da acumulação de capital cafeicultor para o capital industrial que a indústria de Cataguases ensaia seus primeiros passos. De maneira geral, como elencado pelo economista Caio Prado Jr em seu trabalho “História Econômica do Brasil”, a acumulação capitalista adquirida pela agricultura providenciou uma expansão do capital fixo na mão dos poucos e grandes proprietários de terras, estes posteriormente fizeram-no circular contratando mão de obra assalariada, investindo nas nascentes indústrias e mobilizando-se para o financiamento de obras em vários setores para manterem sua renda crescente e adquirirem influência política.

Vários empreendimentos surgem no início do século XX em Cataguases, entre eles temos em 1905, a instalação da primeira fábrica de tecidos na cidade, a chamada Companhia de Fiação e Tecidos de Cataguases; Em 1906, a inauguração da Companhia Força e Luz Cataguases-Leopoldina, que fornece energia hidroelétrica para o meio industrial e urbano; e a partir de 1906, surgem ao longo do anos seguintes fábricas de massas, biscoitos, balas, baús, gelo, laticínios e das mais diversas atividades. Todo esse processo é facilitado pois

Entre 1901 a 1905 a Câmara municipal isentou de impostos os moinhos de fubá e qualquer indústria que viesse a ser instalada no município, reduzindo também os impostos dos engenhos de café e cana-de-açúcar; como também ficaram isentas durante dez anos, as sociedades com sede no município para a fabricação de fiação, tecelagem e tinturaria. (PIMENTA, 2011)

É possível deslumbrar a partir deste momento que o município em foco seria de fato econômica, social e culturalmente distinto dos que estavam ao seu redor, não apenas haviam várias fábricas que produziam inúmeros produtos para exportação, com destaque especial a indústria têxtil e a integração da cidade por meio da energia elétrica, ou seja, tendo uma economia pulsante e ativa, como também havia um espaço de debate e produção intelectual acerca de questões culturais, como evidenciado pelo Grupo Verde e pelas empreitadas de um jovem cineasta de Volta Grande/MG que conseguiu apoio para suas ideias de filmes.

Figura 2. Inauguração da Primeira Fábrica de Tecidos em Cataguases.

Humberto Mauro, nascido em 1897, filho de imigrantes italianos, se muda na infância de sua cidade natal e é criado em Cataguases onde se torna uma figura central para compreender a produção cinematográfica nesta cidade e também a relação entre cinema e cultura popular brasileira. Dirá Glauber Rocha em seu livro “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro“, publicado nos anos 60:

Cremos que no momento a política mais eficiente é estudar Mauro e neste processo repensar o cinema brasileiro, não em fórmulas de indústria, mas em termos do filme como expressão do homem. […] Humberto Mauro – com o impacto de sua obra – obriga repensar o cinema no Brasil, pelo menos aqueles que são homens e não temem assumir necessária consciência crítica. (ROCHA, 20003)

Imbuído de uma “formação escolar até o início de uma faculdade, habilidades técnicas, intuição e inventividade artística” (SHVARTZMAN, 2004), Mauro começa seu primeiro projeto no cinema em 1925, quando ainda era um técnico em eletricidade, junto de seu amigo e fotógrafo italiano Pedro Comelo, produzem o curta-metragem “Valadão, o Cratera”, perfurando os fotogramas da câmera “Pathé Baby” para liberar toda a largura de 9,5mm para as filmagens, esse curta é exibido pela cidade e atrai comerciantes locais fazendo com que invistam na criação de uma produtora de filmes em Cataguases. A atenção particular de Homero Cortes Domingues, um rico empresário na cidade que se interessa pelo empreendimento dos dois cineastas é fundamental para a compra de equipamentos no Rio de Janeiro para a realização de futuras obras, tais como Os Três Irmãos e Na Primavera da Vida, filmadas e lançadas em 1926.

A partir desses primeiros curtas-metragens até o começo dos anos 30, Cataguases terá um ritmo anual de produções cinematográficas, serão lançados Os Mistérios de São Mateus (dir. Pedro Comelo) em 1926, Tesouro Perdido (dir. Humberto Mauro) e Senhorita Agora Mesmo (dir. Pedro Comelo) em 1927, Brasa Dormida (dir. Humberto Mauro) em 1928 e Sangue Mineiro (dir. Humberto Mauro) em 1929, com este último também marcando o fim do avançado ritmo de produções no período de consolidação do cinema brasileiro em Cataguases.

Para o avanço dessa produção recorrente de filmes que começavam a atrair olhares de fora da província era preciso organizar um meio para reunir as equipes de filmagens e garantir os recursos para os filmes, nasceria dessa iniciativa a Phebo Sul America Films, que posteriormente altera seu nome Phebo Brasil Film afim de evitar confusões com outra produtora de São Paulo. No momento de fundação da produtora, os principais empresários da burguesia cataguasense participaram, o apoio e articulação de Agenor Cortes de Barros, futuro prefeito de Cataguases e presidente da Associação Comercial da cidade era essencial para a nascente produtora de filmes. Paulo Emílio Salles Gomes relata que

A assembleia de instalação realizou-se no dia 20 de novembro de 1927 com a presença de 86 homens – as mulheres não compareciam a esse gênero de reunião – dos quais 47 acionistas. Os outros tinham vindo apenas prestigiar a iniciativa, como os irmãos José e Manoel Ignacio Peixoto, os maiores industriais da cidade. (GOMES, 1974)

Com a produtora se estruturando de fato, começaram a surgir ações de expansão da exibição dos filmes produzidos em Cataguases, chegando aos olhos de Adhemar Gonzaga, outro personagem central na história do cinema brasileiro. A história de Gonzaga e suas iniciativas em prol do desenvolvimento do cinema merece um documento a parte, convém aqui ressaltar que este mantinha uma das principais revistas de críticas de cinema no Rio de Janeiro, a Cinearte, almejava construir no país uma verdadeira indústria brasileira de cinema, assim, não haveria apenas uma proximidade geográfica entre Gonzaga e Mauro, haveria também uma proximidade pessoal acerca da paixão pelo cinema e pelo fazer cinema. A relação próxima entre os dois também impulsionava a confiança por parte dos principais acionistas da Phebo, como assinala Paulo Emílio Salles Gomes.

Ao mesmo tempo em que os olhos de Gonzaga se voltavam para a produção de Humberto Mauro em Cataguases, comentando dela para outros círculos de produtores, Mauro começava a ter perspectivas mais amplas de expansão para seu cinema, sua primeira obra com influência direta de Gonzaga e de suas experiências no Rio é significativa desse processo de amadurecimento e conturbada relação com o apoio financeiro em Cataguases, Brasa Dormida lançado em 1928, inicia com uma cena no Rio de Janeiro, para se voltar a Cataguases durante sua trama recheada de avanços técnicos e mensagens ideologicamente conservadoras.

Figura 3. Cartaz do filme Brasa Dormida.

Na trama, o jovem Luis Soares, filho de um rico industrial é enviado para o Rio de Janeiro para estudar, porém ele acaba se desinteressando pelos estudos e gastando seu tempo com apostas, renegado pelo seu pai após saber dos fatos e não tendo mais recursos, encontra um trabalho e um amor em Cataguases. No decorrer do enredo, Luis se defronta com o pai de Anita, a moça por quem está apaixonado. Seu chefe, dono da Usina onde está trabalhando, não aprova a relação por conta do desconhecimento acerca de onde o aparente pobre jovem se origina, fazendo de tudo para separar o casal.

Existe uma demonstração fortemente calcada na visão conservadora de patriarcado e moralismo burguês, sendo necessário ao fim do filme o descobrimento de que o jovem era de uma “boa família” para que o casal pudesse ter a aprovação do pai da moça para continuar junto, além disso, a caracterização de trabalhadores no filme é vista de forma negativa em certos momentos, como covardes ou alcoólatras, mesmo que um deles auxilie o protagonista em sua busca pela conquista do amor romântico através da música que toca com seu instrumento.

Com a relação cada vez mais próxima entre a Cinearte e produção de Brasa Dormida, várias articulações foram feitas para expandir o seu alcance, especialmente na capital, dessa maneira, Adhemar Gonzaga e Pedro Lima, viam na obra “uma boa oportunidade para a ação mais ampla com que sonhavam em favor do cinema nacional” (GOMES, 1974). A Universal Pictures se interessa pela distribuição do filme e a Phebo Brasil começa a buscar apoio de políticos mineiros, Gonzaga por sua vez vai ao nível federal, a procura de apoio na capital e diretamente do Presidente da República, então Washington Luiz, de origem paulista. Ambas as tentativas ultimamente são frustradas pelo desinteresse governamental acerca do cinema, em Minas os produtores conseguem apenas algumas facilidades para sua próxima obra e no Rio, o presidente veria o filme somente quando quisesse, sem quaisquer exibições no palácio presidencial ou grandes cerimônias (ao contrário do que ocorreria em anos anteriores nos EUA com seus presidentes).

Ainda assim, o sucesso modesto de Brasa Dormida fez com que Humberto Mauro e a Phebo Films produzissem um último filme em Cataguases, uma carta de amor e despedida a Minas Gerais, Sangue Mineiro. Dado o escopo do presente trabalho, a última obra de Humberto Mauro realizada em Cataguases não será detalhada de modo pormenor, cabe ressaltar, entretanto, a sinopse da obra e um elemento central dos últimos filmes de Mauro. Sangue Mineiro conta a história de Carmem, a filha de industriais que depois de ser rejeitada por alguém de seu interesse busca se suicidar, sendo salva por seus primos e levada para a fazenda de Acaba-Mundo, a protagonista se acostuma com a vida naquele lugar, porém acaba se casando e se mudando para o Rio de Janeiro.

A viagem para o Rio de Janeiro pelos protagonistas de Mauro corresponde também ao crescente interesse do cineasta pela cidade, a metrópole brasileira, concentrava várias oportunidades que Cataguases não tinha naquele período, facilitando muito a filmagens que buscava realizar e garantido maior estabilidade em seu emprego, o que resultará em sua mudança definitiva em 1930 para a capital. Em boa parte, devido ao não bem-sucedido lançamento de Sangue Mineiro, as dívidas da Phebo não conseguem se pagar integralmente (o que havia ocorrido com Brasa Dormida, que também contraiu dívidas, mas conseguiu se pagar):

Na realidade, tudo na Phebo era precário a não ser a idoneidade de Agenor e Homero: ressalvadas as peculiaridades da sociologia cataguasense, eram eles evidentemente homens de bem. Contudo, os capitais se resumiam às somas que desviavam dos respectivos negócios, pois nenhum outro acionistas de peso pagou as cotas que subscrevera. A organização repousava sobre as iniciativas desconfiadas e improvisadas de Agenor, secundado pela boa vontade do colega. (GOMES, 1974)

Com a falta de compromisso mais amplo dos setores empresariais da sociedade cataguasense, os ímpetos de expansão da produção cinematográfica não seriam atendidos de forma adequada. Em 1930, surge na cidade a Companhia Industrial Cataguases, mais uma fábrica da indústria têxtil que provocaria mudanças impactantes no cotidiano da cidade, consolidando aquele ambiente enquanto polo industrial voltado a produção de mercadorias, não de cultura nacional. Nesse mesmo período, a Revista Verde também deixa de ser produzida, um paralelo pode ser feito em relação ao tratamento da cidade para com a cultura que buscava se reinventar, tanto no cinema, quanto na literatura, em resumo, não seria bem aceita

o caso de Cataguases, este sentido unitário de cidade pode ser visto como um microcosmo do Brasil observado não apenas no elo estabelecido entre Verde e os escritores do modernismo brasileiro, mas também por ser símbolo de um ponto de inflexão da história da cidade, marcada pela atividade industrial, cujos efeitos colaterais devem ser compreendidos sob o conservadorismo das formas de dominação social. (CARRIERI; XAVIER, 2016)

Conclusão

A constituição sui generis de Cataguases no inicio do século XX providencia ao cinema brasileiro um laboratório de experimentações bastante criativo. Mesmo com poucos recursos, Humberto Mauro e Pedro Comello conseguem inicialmente com uma câmera na mão, tirar as ideias de suas cabeças.

Em Cataguases, por um lado havia uma formação socioeconômica distinta daquelas ao seu redor, enriquecida pela produção cafeeira, limitada pelo seu solo superexplorado, acompanha fenômenos nacionais de industrialização, dessa maneira, substitui a mão de obra escravista por aquela assalariada, que vendendo a sua força de trabalho em troca de um salário, pode gastá-lo consumindo vários bens materiais e imateriais, empresários da cidade tem seu capital acumulado e buscam maneiras de expandir suas influências e investir em seus interesses. Por outro lado, o movimento cultural na cidade, impulsionado pelos intelectuais cataguasenses do Grupo Verde e pelo próprio Humberto Mauro, consagram-na referência para assuntos relacionados ao modernismo e cinema brasileiro. Cataguases é posteriormente visitada por reconhecidos nomes da cultura brasileira como Oscar Niemeyer e Cândido Portinari, festivais de cinema acabam por acontecer na cidade em décadas posteriores com auxílio de Humberto Mauro.

Praticamente, por toda a década de 20, a cidade é apontada como um berço do cinema brasileiro, com sua produtora Phebo Films, lança um filme por ano a partir de 1926, acaba por encerrar sua produção ostensiva logo em 1930, ainda que continuando de “forma ficcional” até pelo menos meados dos anos 60. Dentre os muitos aspectos que podem ser identificados neste ciclo regional, entendido principalmente enquanto polo “cuja produção foi caracterizada por um conjunto de filmes feitos em alguns poucos anos” (AUTRAN, 2010), três principais constatações podem ser feitas.

A primeira se refere aos limites objetivos impostos pelo desenvolvimento do país e do meio social em relação a arte que busca ser feita, mesmo com todos os ímpetos pessoais dos cineastas pela inovação técnica, criativa e cultural, as forças sociais e econômicas do território impediam que o cinema se desenvolvesse plenamente, quanto a isso, somente uma transformação externa a indústria cinematográfica poderia resultar em mudanças profundas na sua lógica de produção, distribuição e circulação, sustentando mais e mais ideias. Neste caso particular de Cataguases, seu principal cineasta – Humberto Mauro – não consegue atrair o devido apoio socioeconômico para continuar com seus projetos e acaba por mudar de cidade.

A segunda constatação surge por meio de uma análise acerca da lógica de produção dos filmes naquele período, mesmo com um interesse cultural movendo os financiadores dos projetos, aquilo que se esperava como objetivo prioritário era o lucro das obras para o financiamento de outras, um ciclo vicioso e limitante, que junto ao descaso pelo investimento público levou o cinema brasileiro em Cataguases a realizar várias produções ano após ano sem que isso resultasse em um enraizamento da indústria cinematográfica na cidade, sem também fazer com que houvessem movimentos mais amplos da sociedade civil acerca do encerramento desse ciclo.

A ultima constatação, que se liga a segunda e encerra este artigo, trata da própria construção narrativa e ideológica que perpassavam as obras em Cataguases na década de 20. Com uma cidade em plena industrialização, tendo o crescimento de um proletariado urbano multicultural – dado que Cataguases tinha uma composição social multifacetada de imigrantes, descendentes de escravos e brasileiros nativos – a atenção dada nas telas correspondia a experiências de vida muitas vezes destoantes do cotidiano das massas que enchiam as salas de cinema.

A mensagem principal dos filmes de Humberto Mauro nesse início do cinema brasileiro é essencialmente conservadora, preservando valores que não impulsionavam uma consciência mais crítica da população acerca do que estavam vivenciando, dessa forma, pouco apoio é recebido com o passar do tempo. A indiferença crescia e os lucros diminuíam, até que a ida embora de Mauro acontecesse sem qualquer resistência estrondosa de qualquer comunidade da sociedade civil, Phebo paralisava de modo discreto (GOMES, 1974). Por fim, é destacável a preocupação de Mauro com cidade em anos posteriores, retornando para a criação de festivais de cinema, buscando reavivar o incentivo a cultura no município da Zona da Mata Mineira.

Referências Bibliográficas

AUTRAN, Arthur. A noção de “ciclo regional” na historiografia do cinema brasileiro. Alceu v. 10, n. 20, jan.-jun. 2010, p. 116-125.

GOMES, Paulo Emílio Salles. Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte. São Paulo: Perspectiva/Editora Universidade de São Paulo, 1974.

NETTO, Marcos Mergarejo. Cultura e Espaço em Cataguases. Monografia (Geografia) – Instituto de Geociências, Universidade Federal de Minas Gerais. Minas Gerais, p. 83. 2002.

PIMENTA, Ângela de Fatima Faria Pimenta. O despertar do proletariado na Zona da Mata Mineira: Cataguases (1906 – 1920). Anais do XXVI Simpósio Nacional de História. 2011.

PRADO JUNIOR, Caio. História econômica do Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.

ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema novo. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

SCHVARZMAN, Sheila. Humberto Mauro e as imagens do Brasil. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

XAVIER, Wescley Silva; CARRIERI, Alexandre de Pádua. Discurso e as cidades: um estudo sobre Cataguases-MG baseado na produção literária modernista da Revista Verde. Cad. EBAPE.BR, Rio de Janeiro, v. 14, n. 4, p. 948-965, Dec. 2016. Disponível em <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-39512016000400948>. Acesso em 11 Mai 2021.

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