O Sucesso e o Fracasso da Política Hídrica da URSS na Ásia Central

Por Kateřina Zäch, professora assistente na Universidade de Friburgo, onde está fazendo doutorado sob a supervisão da Prof. Christine Bichsel no Departamento de Geociências. Para sua dissertação, ela está explorando a política hídrica cotidiana e como os lugares rurais estão sendo transformados por meio das relações homem-água. Ela busca entender como as influências modernas afetaram os ambientes rurais, além de analisar como as práticas de arquivo e memória moldam o engajamento humano com a água. Sua pesquisa se concentra em aspectos culturais da mudança ambiental, a vida social das coisas, modernidade, patrimônio, perda e memória.

Publicado em 19 de outubro de 2021.

Originalmente disponível no site Voices on Central Asia.

Tradução por Guilherme Henrique.


O estado soviético investiu pesadamente em infraestrutura hídrica na árida Ásia Central. Esses investimentos produziram transformações com significativo impacto social.

Eles também criaram memórias que muitos estudos antropológicos tentaram investigar ao lado das várias perspectivas e percepções dos habitantes locais sobre a política hídrica cotidiana soviética. Esses dados empíricos, de certa forma, dão mais voz à realidade social e às preocupações das pessoas à medida que suas vidas foram transformadas pelas políticas sociais.

Abordar a política hídrica soviética através do paradigma das memórias sociais (Connerton 1989) ilumina quais crenças soviéticas ocupavam a mente das pessoas e como as pessoas implementaram suas crenças nos atuais locais socioestruturais de suas vidas passadas (Halbwachs 1985). Neste ensaio, observo como a política hídrica da era soviética afetou percepções, práticas sociais e arranjos políticos em ambientes rurais no Quirguistão soviético.

Mais infraestrutura – maior prosperidade

Compreender a política hídrica cotidiana requer muita atenção aos detalhes de como as pessoas viviam; como agiram; sua relação com representantes do governo local; e até mesmo o que disseram. O Estado soviético alegou que a implementação coercitiva da política soviética era necessária para alcançar o crescimento econômico – que considerava estar vinculado à produção de diversos bens, metais ou outros recursos – e atender às necessidades locais de segurança no emprego, garantindo mão de obra e conforto material por meio de sua infraestrutura hídrica.

A análise dos dados empíricos que compilei durante minha pesquisa de campo revela que, da perspectiva de muitos cidadãos da Ásia Central soviética, a política hídrica soviética funcionou com sucesso, principalmente porque muitas das bombas, tubulações e canais de água soviéticos continuam funcionando de forma eficaz e apoiam a vida cotidiana dos habitantes locais nas áreas rurais até hoje.

O sonho da modernização começou com a infraestrutura da vida cotidiana, que se tornou um ponto de partida para a sustentação do crescimento econômico. Nesse sentido, a infraestrutura de água encanada pode ser vista como um motor que ajuda a concretizar esse crescimento.

As memórias sociais que investiguei durante meu trabalho de campo no Quirguistão revelam que ser um pastor era um trabalho bem remunerado, apoiado pelo Estado e altamente organizado. Na era soviética, o Estado estruturalmente organizado reconhecia a necessidade de um sistema de abastecimento de água que funcionasse bem, que fornecesse água até mesmo aos agricultores e suas famílias que viviam em áreas montanhosas.

Durante a era soviética, muitas famílias nas aldeias rurais do Quirguistão viviam em harmonia com a natureza, mas permaneceram dependentes do acesso a água suficiente para realizar seu sonho de trabalhar como agricultores em nome do Estado. Entrevistei uma mulher de 83 anos que descreveu a era soviética como vantajosa e útil em termos de apoio e cuidados prestados às pessoas. Ela declarou: “No período soviético, trabalhei quando jovem como ordenhadora de vacas. Por volta de 14 anos. O trabalho trouxe diferentes pagamentos mensais, mas era frequentemente 100 com. Sendo um agricultor, você desfrutava de um bom padrão de vida. Depois que me casei, meu marido e eu trabalhamos em um jailloo¹ e tínhamos nosso próprio poço à nossa disposição.” 2

Assim, o registro empírico ilustra a responsabilidade percebida do governo soviético de fornecer infraestrutura de trabalho, neste caso uma bomba de água, para facilitar a produção agrícola. É importante ressaltar que o Estado socialista atendeu – e possivelmente até superou – essas expectativas, fornecendo um salário mensal e acesso à água para garantir a satisfação dos habitantes locais com suas condições de trabalho. Como resultado, não só a situação da população local, que agora podia cobrir todas as despesas da vida diária, melhorou, mas a satisfação da população local fez com que a situação política também fosse assegurada.

Presentes e Dependência

O acesso suficiente à água fazia parte do esforço para fornecer condições adequadas de vida e trabalho e desenvolver a infraestrutura para cultivar campos no ambiente árido rural do Quirguistão soviético ao longo do tempo. Os soviéticos instituíram uma variedade de prêmios para a obtenção de seus orçamentos de trabalho e produção, com o objetivo de garantir que os cidadãos apreciassem o Estado e não acreditassem que sua cooperação com o Partido fosse forçada. Em 1990, o jornal Jenish Jolu publicou uma reportagem sobre duas famílias que haviam recebido prêmios por ganhar o título de “melhor agricultor”. O Partido premiou à primeira família com onze ovelhas e à segunda com um trator. 3,4 Embora estes prêmios possam inicialmente parecer benevolentes e gratificantes, eles também podem ser vistos como uma estratégia política para vincular as pessoas ao Estado e evitar revoltas contra condições de trabalho insuficientes.

Por meio de uma entrevista que realizei em 2019, explorei as percepções humanas construídas por tais mecanismos políticos, que afetaram o cotidiano de milhões de pessoas que trabalhavam sob o regime soviético. Minha entrevistada, uma mulher local, indicou que desfrutava de um salário mensal seguro no sistema econômico baseado no câmbio: “Sob o governo soviético, ganhei 100 com. Isso foi o suficiente para alimentar toda a família. Um quilo de farinha custava 14 com e um quilo de açúcar 7 com.” 5 Vale ressaltar que o salário mensal que minha entrevistada mencionou era generoso. O salário fornecido era mais do que ela poderia ter pedido. Esta demonstração de generosidade pode ser um exemplo dos esforços do Estado socialista para criar uma imagem de relações familiares com o povo. Além disso, isso destaca um aspecto da política soviética que sugere que a sociabilidade precisa apresentar as pessoas como independentes e não devendo nada a ninguém, como enfatiza Dubin (2015). Na realidade, políticas tão generosas deram origem à dependência social do sistema, como observado por Emerson (1962).

Podemos ver mais claramente a intenção por trás de presentes como um trator ou onze ovelhas: embora ostensivamente dados para permitir que os destinatários atinjam seus objetivos, tais presentes foram na verdade instrumentalizados para vincular a população local a uma dependência invisível, reconhecendo o trabalho árduo que eles investiram para atingir as quotas de produção do Partido.

Sonhos que falharam e Punição

O poder legitimado do Partido foi incorporado nas estruturas sociais da vida cotidiana, incorporado em tudo, desde infraestrutura de água encanada até presentes motivacionais. O Partido coagiu os habitantes locais a trabalhar mais e mais rápido, com o único objetivo de cumprir o plano do Partido. Por meio de um sistema de espionagem, vigilância e quadros, o Estado monitorava de perto as pessoas aparentemente preguiçosas ou que representavam um perigo para o regime soviético. Uma raiva coletiva por ter que lutar contra a política opressora do Partido acabou levando o povo a começar a se recusar a cumprir as cotas de produção irreais. Eventualmente, o sistema soviético de planejamento da produção se caracterizou por uma perda de eficiência, na medida em que o gasto de materiais, energia e mão de obra aumentava constantemente, incompatível com as cotas econômicas esperadas.

A partir de 1991, ampliou-se a total falta de direção econômica, social e pessoal. A União Soviética fez muitos investimentos no acesso à água, mas ainda havia muito a fazer após sua dissolução (McKee et al. 2006). Além disso, havia falta de investimento na modernização da infraestrutura hídrica nas áreas rurais. Como tal, os moradores estavam lidando com reparos na infraestrutura hídrica, particularmente as muitas bombas de água inativas que exigiam realinhamentos técnicos. Além disso, o trabalho de agricultor foi efetivamente abolido, deixando a população local sem apoio governamental no cultivo e irrigação de seus campos e na criação de animais em áreas montanhosas. Aqueles indivíduos entre a geração mais jovem que estão interessados ​​em seguir carreiras como agricultores lutam com condições insatisfatórias e renda incerta e potencialmente irregular.

Conclusão

Neste pequeno ensaio, avaliei o sistema social de infraestrutura hídrica através das lentes da percepção humana e das memórias dos sistemas de água encanada. Mostrei que, embora a política hídrica soviética fosse capaz de construir sistemas de água encanada, ela falhava em fornecer manutenção e reparos contínuos. A realidade, combinada com as lutas econômicas desde que os Estados da Ásia Central se tornaram independentes da União Soviética em 1991, deixou um legado misto.

Neste projeto, compartilho minha experiência de trabalho de campo ao acessar memórias da era soviética por meio de moradores locais. Explorar a vila de Orlovka me permitiu perceber o ambiente local e entender a política hídrica cotidiana como uma responsabilidade política necessária para o bom funcionamento de um sistema local de água encanada. Gostaria de expressar minha profunda gratidão a população local que me confiaram suas informações e me forneceram valiosos conhecimentos sobre suas vidas diárias.

Referências

Connerton, P. (1989). How societies remember. Chicago: University of Chicago Press.

Dubin, D. (2015). Das unmögliche Leben: Studien, Essays, Erinnerungen. Berlin: Osteuropa 1.

Emerson, R. M. (1962). Power-dependence relations. American Sociological Review, 27(1), 31-41.

Halbwachs, M. (1985). Das kollektive Gedächtnis. Stuttgart: Enke.

McKee, M., Blabanova, D., Akingbade, K., Pomerleau, J., Stickley, A., Rose, R. & Haerpfer, C. (2006). Access to water in the countries of the former Soviet Union. Public Health, 120, 364-372.

1. Jailloo é um pasto nas montanhas onde os pastores levam os rebanhos para pastar.

2. Entrevista e trabalho de campo conduzido por Katerina Zäch, Kyzyl-Tuu, 2019.

3. Jenish Jolu 135 (5706), 21 de Novembro, 1990, 3.

4. Jenish Jolu, 142 (5713), 27 de Novembro, 1990, 3.

5. Entrevista e trabalho de campo conduzido por Katerina Zäch, Kyzyl-Tuu, 2019.

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