Subcapítulo do livro “Towards a Gay Communism”, da editora Pluto Press, lançado originalmente como Elementi di critica omosessuale em 2002, pela editora Giangiacomo Feltrinelli.
O livro foi lançado em português brasileiro pela Editora Boitempo em 2023, com o título “Por um comunismo transexual”, você pode comprar o livro aqui.
Tradução por Leonardo Gabriel.
Os esquerdistas, especialmente o PCI, mas igualmente todas as organizações que se autoproclamam revolucionárias, foram lentos em adotar uma atitude semelhante de “proteção” em seus encontros conosco, gays (e apenas agora as coisas estão “mudando”…): eles sempre negaram a homossexualidade sem mediação, rejeitaram-na enquanto exaltavam a figura forte e viril do trabalhador produtivo – e evidentemente reprodutivo. Eles zombaram dos homossexuais, definindo-os em termos de corrupção e decadência da sociedade burguesa, enquanto eles próprios, a esquerda, contribuíam para tachar os gays de qualunquistas[1] contrarrevolucionário. Ao mesmo tempo, sustentam uma imagem da revolução grotescamente preconceituosa e repressiva, fundada em sacrifício e na infernal família proletária, e caricaturalmente viril, baseada no trabalho produtivo-reprodutivo e na brutal violência militarizada, enquanto saúdam o modelo de países que se definem como socialistas, mas que liquidam os homossexuais em campos de concentração ou em “institutos de reeducação”, como em Cuba ou na China, por exemplo. Não é surpreendente, então, que as pessoas gays vissem apenas o próprio sistema como sua “salvação”.
Quando o movimento de libertação homossexual começou na Itália, a esquerda fez o possível para abafá-lo e desencorajá-lo. Lembro-me de uma vez em que Luca Cafiero, à frente de um punhado de katanghesi[2] do Movimento Studentesco, veio nos impedir de distribuir panfletos do Fuori![3] na entrada da Universidade de Milão. Cada um de nós pode listar a interminável série de insultos, provocações e, às vezes, ataques físicos que suportamos dos militantes de esquerda. Aqueles de nós que temporariamente fizeram parte de tais grupos conhecem muito bem a quantidade de humilhação e frustração que compõe o ativismo de um transviado na esquerda heterossexual. Os esquerdistas fizeram de tudo para extinguir nosso movimento: eles foram obstinados em nos rotular como “qualunquistas pequeno-burgueses” precisamente no momento em que, ao contrário, começamos a nos assumir de maneira revolucionária. Já em 1971, Joe Fallisi podia escrever que a esquerda servia, acima de tudo, “para modernizar a política reformista e impor (sob os céus do Espetáculo) as novas imagens ideológicas do ‘manifestante’, do ‘durão’, do ‘extra-parlamentar’, do ‘novo guerrilheiro'”. E se a política reformista da esquerda é falocêntrica e heterossexual, seu manifestante ideal é o “cara durão com um pênis grande e músculos de aço”, que bota até os valentões fascistas pra correr.
“[Esses grupos extra-parlamentares] se formam a partir dos destroços de um antigo naufrágio, um naufrágio que eles mesmos remendaram. Eles ressurgiram apenas porque é o movimento real, o movimento revolucionário, que lentamente, mas inexoravelmente, retornou. Mas se eles reaparecem na esteira desse Novo Proletariado que hoje está apenas começando a se manifestar – e que, portanto, ainda não tem uma consciência de classe clara – é porque são o refluxo de um refluxo, e o fazem apenas para recuperá-lo.” [Joe Fallisi, ‘Lettera a Irene, in Comune Futura, n. 2 (Novembro de 1976)
Não é por acaso que os grupos extra-parlamentares de ontem estão hoje sentados no Parlamento.
Hoje, o verdadeiro movimento revolucionário inclui, acima de tudo, o movimento de mulheres e homossexuais que lutam contra o sistema e contra o falocentrismo heterossexual que o sustenta e acorrenta o próprio proletariado (masculino). Por outro lado, as organizações de esquerda, fundamentalmente masculinas, machistas, heterossexuais e anti-homossexuais, fazem apologias à Norma capitalista pública e privada, e, portanto, ao sistema em si.
Fallisi nos lembra que
“a primeira fase do movimento operário foi a fase sectária. E essas associações e seitas do século XIX (owenistas, fourieristas, icarianas, saint-simonianas, etc.) foram efetivamente o ‘fermento’ do movimento operário em seu início. No entanto, assim que foram deixadas para trás, tornaram-se obstáculos que logo se tornaram reacionários. Em resumo, foram a infância do movimento operário […]. Mas porque possibilitaram a fundação da Primeira Internacional, era necessário para o proletariado superar essa fase. Agora, assim como no último século, precisamos superar o estágio das seitas; o proletariado deve superar verdadeiramente o estágio dos grupúsculos. Embora com a diferença, em comparação com a situação de cem anos atrás, de que hoje os pequenos grupos oficiais (stalinistas, ‘anarquistas’, trotskistas, etc.) são produtos acríticos de uma derrota anterior, que ocorreu durante os anos 20, então eles nem mesmo têm a função de um ‘fermento’ revolucionário que as seitas tinham antes, e não podem ser os polarizadores de situações radicais, apenas aqueles que vêm depois, arrastando-se, com todo o peso estultificante das mistificações ideológicas. E porque eles não conseguem compreender o Novo Proletariado […], só podem esperar recuperá-lo, oferecendo seu ouro dos tolos da Política, e, em última instância, serão descartados. Quando o movimento real amadurece, quando está consciente de si mesmo e reunificado, ele julgará rapidamente todos os seus chamados ‘representantes’.” (Ibid.)
Em resumo, de 1971 até hoje, os tempos mudaram. Se os extra-parlamentares acabaram no parlamento, é verdade que o movimento das mulheres revolucionárias abalou a sociedade como um todo e colocou em crise até mesmo os grupos que se declaram revolucionários, mas que ainda são, até hoje, redutos de machismo. O mesmo movimento de homossexuais conscientes, revolucionários ou pelo menos abertos a uma visão de mundo diferente da tradicional, não pode mais ser ignorado pelos políticos de esquerda. Para os partidos, grandes e pequenos, agora é necessário recuperar também os homossexuais. Acredito que nem mesmo Stalin, a essa altura, se reviraria em seu túmulo.
A esquerda heterossexual tenta uma recuperação semelhante em suas interações com a questão homossexual, embora em menor escala do que em seus confrontos com o feminismo. Até muito recentemente, para os esquerdistas extra-parlamentares, o ministro ladrão e “fascista” era obviamente também “viado”. (“Chega, chega, do clero pederasta!”, gritavam nas ruas durante as manifestações de 68 e 69.) Hoje, no entanto, pode acontecer que um homossexual se mostre um “bom camarada”, um “ativista inestimável a serviço do proletariado”, enquanto é oportuno que todos os “bons camaradas” mantenham em mente as contradições inerentes à esfera sexual. O contraste é inconfundível. De um lado, o termo “invertido” é usado como insulto. Do outro, o lobo se veste de pele de cordeiro, pregando aceitação e compreensão para os camaradas homossexuais, aqueles “cães selvagens” que muitas vezes não se sentem parte desses grupos ditos revolucionários que rotulam Rumor e Colombo como gays, assim como chamam Andreotti de corcunda e Fanfani[4] de anão, enquanto Fanfani, aquele fanfarrão arquetípico, mantém a moral nacional, depreciando o divórcio como portador de vício: adultério, prostituição, aborto, delinquência juvenil, homossexualidade feminina, jovens drogados e pederastas…
Em essência: se o antifascismo reúne em um único grupo a Democracia Cristã, o Partido Comunista, os socialistas, etc., e os ex-extra-parlamentares da esquerda, a frente unida contra a homossexualidade (a Sagrada Aliança Hétero) realmente reconcilia “extremos opostos” e rivais ao longo do “arco democrático”. E se a Democracia Cristã, em um clima de conspiração com o fascismo, faz um grande show de seu próprio antifascismo, os grupos ultra-esquerdistas muitas vezes se comportam como verdadeiras gangues fascistas em suas interações com os homossexuais, mesmo enquanto também dão um pequeno aceno de solidariedade e tolerância.
Para quase todos os militantes nos grupos, a questão homossexual é de importância secundária e “superestrutural”, que diz respeito apenas a uma minoria: “devemos tolerar os homossexuais, para que eles não nos encham o saco, fazendo-nos discutir nossa heterossexualidade e agindo como se também déssemos o rabo”. Podemos citar, por exemplo, um artigo que apareceu no Il Manifesto comentando sobre os dias do “festival proletário” em Licola durante setembro de 1975:
“Um momento em que todos ficaram atentos aos alto-falantes tocando no rádio por todo o bosque foi quando um camarada do coletivo Fuori! de Milão estava falando. Já havia ocorrido muita agitação em torno do estande deste coletivo no início da tarde […]. Os milaneses do Fuori! escolhem uma vida de provocação. Vestidos de maneira violenta e exagerada, com lantejoulas e ouro reluzente, vendem seu jornal, abordando as pessoas de maneira acusatória, dizendo a elas: ‘Você nega sua própria homossexualidade’. As reações foram, apenas em pequena escala, de pânico e intolerância (em geral, embora esta seja outra maneira de ignorar o problema), mas na maioria das vezes os camaradas reagiam dizendo: ‘Olha, não me importo com o que você faz ou o que você quer de mim, tudo bem, desde que pare de me incomodar.’”
Essa última reação nos permite compreender, por trás da aparência de uma atitude nova e mais aberta, a mentalidade realmente fechada dos “camaradas” heterossexuais. E, como regra geral, eu responderia: Querido camarada, você já se perguntou por que se fecha quando alguém questiona a repressão de seu desejo homossexual? Sua homossexualidade desvanecida? E não me diga: “Você pode fazer o que quiser entre vocês, mas não interfira comigo”, quando você não é livre para desejar-me, fazer amor comigo, desfrutar de comunicação sensual entre seu corpo e o meu; quando você descarta a possibilidade de ter uma relação sexual comigo. Se você não é livre, como posso ser livre? A liberdade revolucionária não é algo individual, mas uma relação de reciprocidade: minha homossexualidade é sua homossexualidade. E quanto às lantejoulas, elas não são exageradas nem violentas, pelo menos não mais do que meu desejo de aproveitar a sua homossexualidade, nossa homossexualidade, querido camarada…
“Incrível, inefável e bastante divertida” foi, no entanto, a “contribuição teórica” do jornal do Lotta Continua (ainda referindo-se aos dias em Licola):
“Uma festa sempre revela as contradições dentro do povo. Podemos dar alguns exemplos: o imenso acampamento estava animado o dia todo, com pessoas debaixo das tendas e abaixo dos pinheiros tocando música e jogando cartas, passando um baseado ou bebendo vinho, com trabalhadores indo até o estande das feministas para pedir informações, com grandes aglomerações no estande dos camaradas do Fuori!. No debate sobre as lutas proletárias em Nápoles, um trabalhador do PCI começou a criticar o festival porque havia muitas placas e escritos sobre música e homossexualidade; e ele foi interrompido por um dos desempregados organizados: ‘Você não pode dizer isso, porque em nosso comitê há um viado que luta mais do que todos.’”
Pelo contrário: acredito que os homossexuais são revolucionários hoje na medida em que superamos a política. A revolução pela qual estamos lutando é, entre outras coisas, a negação de todas as gangues políticas supremacistas masculinas (baseadas, entre outras coisas, na homossexualidade sublimada), pois é a negação e superação do capital e de sua política, que encontram seu caminho em todos os grupos da esquerda, os caracterizam, os sustentam e os tornam contrarrevolucionários.
Por outro lado, a minha raba não quer ser política, porque não está à venda para nenhuma gangue da esquerda em troca de um pouco de oportunismo putrefato e “proteção” política. Enquanto isso, a bunda dos “camaradas” nos grupos será revolucionária apenas quando conseguirem desfrutá-la com os outros e quando pararem de cobri-la com a ideologia de tolerância para com os gays. Enquanto se esconderem atrás do escudo da política, os “camaradas” heterossexuais não saberão o que está escondido atrás de suas coxas. ‘Politique d’abord’, escreveu Cavour para a condessa de Castiglione…[5]
Como sempre, é apenas bastante tarde, em comparação com a burguesia “esclarecida”, que os grupos de esquerda começaram a jogar o jogo da tolerância capitalista. De carrascos declarados, mil vezes mais repugnantes do que os agressores e fascistas, dadas todas as suas declarações (ideológicas) de revolução, os militantes desses grupos se transformaram em interlocutores “abertos” dos homossexuais. Em suas mentes, eles fantasiam sobre se tornarem protetores bem-intencionados e tolerantes dos “desviantes” e, assim, gratificam sua própria imagem viril, já em declínio, em um momento em que até as paróquias da ultra-esquerda têm que improvisar oradores “feministas” para “suas” mulheres. Além disso, a fantasia de serem protetores os ajuda a exorcizar o problema da repressão de seu desejo homoerótico. No fundo, os ativistas da esquerda aspiram, como sempre, a se tornarem bons policiais. Mas eles não sabem que os verdadeiros policiais muitas vezes se envolvem mais do que eles e que, quando isso acontece, fazem amor conosco, gays. Quando haverá um espaço homossexual livre para os militantes da extrema esquerda?
Como bons policiais para o sistema, os pequenos grupos estão fazendo o máximo para construir um gueto “alternativo” para nós “desviantes”, e como não querem poluir suas organizações sérias e militaristas com algo gay, preferem nos conceder acesso livre ao lixão da contracultura. No entanto, por enquanto, a esquerda é mais estúpida e trapalhona do que a máfia tradicional do sistema, e não está em posição de criar para nós, homossexuais, guetos atraentes comparáveis àqueles construídos pela indústria da “perversão” capitalista.
Novamente, no entanto, até para essa contracultura nossa, é um pouco demais aceitar a presença de viados, e nos festivais para o “jovem proletariado”, há provocações e ataques contra mulheres e nós. A atmosfera masculinista, agressiva, fatalmente quebrada e heteromaníaca desses festivais é seriamente pesada para nós: e quem diz que somos “paranoicos” simplesmente quer dizer que somos rápidos em perceber a intolerabilidade de um ambiente criado por pessoas que mal podem nos tolerar, pela agressão oculta de “camaradas” falocêntricos, e pela negação da homossexualidade que – na forma típica de união masculina – os une e os divide ao mesmo tempo, e certamente os divide de nós.
Mas os tempos finalmente estão mudando. Os grupos agora nos estão dando um certo espaço próprio: uma transmissão semanal na rádio “livre” e duas ou três páginas regulares na imprensa alternativa. Este é um espaço bem guardado pelos policiais da esquerda, cuja função é reforçar a falta de confiança que os gays têm em si mesmos e convencê-los da necessidade de se alinharem (e ficarem à mercê) desse ou daquele poderoso protetor, especialmente porque “se não fosse pela esquerda, teríamos o fascismo” – um novo espantalho para substituir o da revolução, para que todos, inclusive os homossexuais, permaneçam bem alinhados, separados e arrumados nos bancos parlamentares democráticos e antifascistas.
Aqueles homossexuais que apelam para a esquerda estão apenas preparando uma nova prisão para si mesmos, fornecendo nova energia para manter vivas essas organizações e a ideologia supremacista masculina, anti-mulher e desumana que elas propõem.
Aos militantes entusiasmados da ultra-esquerda, só se pode pedir que abandonem suas fixações e ilusões: abandonem, isto é, a manifestação estereotipada, opressiva e fechada de seus desejos eróticos e abandonem ao mesmo tempo todas as organizações políticas existentes, que só podem continuar a sobreviver canalizando as necessidades revolucionárias de seus componentes para um delírio familiar “novo”. Libertado em si mesmo, e não apenas abstratamente da sociedade, o desejo gay real significa liberar a paixão revolucionária real das correntes repressivas do político. Não mais políticos, os verdadeiros revolucionários serão amantes.
Nós, homossexuais conscientes, só podemos encontrar a força para nos defender e viver nesta sociedade homicida e homocida apenas em nós mesmos. Nenhum tipo de delegação é mais possível. O paternalismo e o apelo às pretensões democráticas dos grupos só podem construir um novo gueto. Apenas uma intransigência que nos leva a falar das coisas como elas são e a agir juntos de maneira coerente sem renunciar a nenhum aspecto do mundo comunista que levamos dentro de nós – só isso pode colocar em crise, em crise gay, os homens das organizações políticas, forçando-os a abandonar seu papel e, assim, abandonar essas organizações.
Apenas a força, determinação e charme dos oprimidos podem levar seu opressor a se reconhecer nele e a reconhecer nele seu próprio desejo, podem direcionar a violência dos gays (até agora quase sempre voltada contra nós mesmos) e a violência dos jovens que são anti-homossexuais mas homossexuais por baixo (até agora voltada contra os gays assumidos), contra o sistema que oprime tanto a vítima quanto o assassino, o sistema que é o verdadeiro assassino, sempre impune e sempre pronto para se defender contra suas vítimas. Somente nós, homossexuais, podemos descobrir e expressar essa força gay.
[1] Nota do tradutor em Towards a Gay Communism: Elements of a Homosexual Critique: Qualunquismo refere-se, inicialmente, a um movimento político italiano efêmero, “L’Uomo Qualunque” (que poderíamos traduzir como “o homem comum”), que tentou remover a influência da política partidária. No entanto, a expressão passou a designar mais genericamente uma indiferença à política (frequentemente usada pejorativamente pela esquerda para descrever aqueles preocupados apenas com seus próprios meios de subsistência ou família).
[2] Forças organizadas do Movimento Studentesco
[3] Fronte Unitario Omosessuale Rivoluzionario Italiano, coletivo militante gay que Mario Mieli integrou até a federação do grupo ao reformista Partito Radicale.
[4] Mariano Rumor, Emilio Colombo, Giulio Andreotti e Amintore Fanfani, primeiros-ministros italianos.
[5] Nota do tradutor em Towards a Gay Communism: Elements of a Homosexual Critique: Mieli utiliza a expressão francesa, que se traduz para “política em primeiro lugar” (ou “política acima de tudo”). A referência aqui é a Virginia Oldoini, enviada a Paris em 1856 na esperança de obter o apoio de Napoleão III para a unificação italiana. Seu primo, o Conde Cavour, instou-a a conseguir esse apoio por quaisquer meios necessários, o que, neste caso, significava tornar-se amante do imperador por algum tempo.
