Leôncio Basbaum – “Os primeiros anos da Juventude Comunista do PCB”

Trechos extraídos da autobiografia de Leôncio Basbaum (1907 – 1969) intitulada “Uma vida em seis tempos (memórias)”, lançada pela editora Alfa-Ômega em 1976.


Cheguei ao Rio num dia ensolarado e quente de abril e fui para a Pensão Jarina, onde sempre havia um lugar para mim. E imediatamente fui procurar Astrogildo.

Havia muitas novidades. A primeira delas fora a extinção do Estado de Sítio, em que o País vivia desde 1922. Washington Luís, o novo Presidente da República, que substituía Artur Bernardes, deixara o sítio extinguir-se a 31 de dezembro de 1926. Havia, pois, agora, uma relativa liberdade e o Partido Comunista começava a aparecer abertamente pela primeira vez. Já estava formado o Bloco Operário e Camponês, do qual eu apenas ouvira falar, antes de minha viagem a Recife, como um simples projeto. Já tínhamos mesmo um deputado, o Azevedo Lima, médico muito conhecido e S. Cristovão, antigo deputado federal pelo Rio e que agora se iria reeleger pelo BOC através de um pacto com o Partido. Outra novidade era o aparecimento do jornal diário A Nação, depois de entendimentos com o seu antigo proprietário, o professor de Direito Leônidas Rezende, um positivista que tentava conciliar sua doutrina com o marxismo. Todavia deixara ao Partido inteira liberdade para a direção do jornal.

Mas a novidade mais importante, pelo para mim, era outra. Astrogildo me convidou comparecer a uma reunião da CCE, onde eu deveria fazer um relatório das minhas atividades em Recife e Salvador. Era uma honra muito grande para mim, esse convite. Mas a verdade é que eu não me senti muito intimidado ou inibido, pelo fato de estar no meio de tão importantes personalidades, a maioria dos quais eu já conhecia dos pontos de encontro e bate-papo, os botequins da Rua Larga. Quando acabei a exposição, decidiram que eu seria, a partir de então, o encarregado do setor juvenil do Partido, com o objetivo de criar uma organização juvenil de caráter nacional, e que, daquele momento em diante, eu seria membro da CCE, com direito a voz e voto, como representante da Juventude Comunista, que na realidade não existia ainda.

Isso significava para mim, não apenas uma honra inesperada, mas, sobretudo, mais tarefas, mais trabalho, mais responsabilidade. E – louco de mim! – era exatamente o que eu queria.

Enquanto me procurava entrosar novamente nos estudos da Faculdade, pois já estava no 4º ano, e as matérias se complicavam cada vez mais, resolvi dedicar as tardes às tarefas que me haviam sido confiadas. Para isso aproveitei a existência do Jornal A Nação.

Comecei a escrever pequenos artigos sobre a juventude operária, e a necessidade de sua organização. Criamos uma direção provisória com a ajuda de alguns estudantes, principalmente o Manuel, o Francisco Mangabeira, estudante de Direito que acabava de se filiar à organização e mais alguns que não demoraram muito em nosso movimento. Por sugestão nossa, A Nação publicava papeletas para inscrição para a JC em branco, a fim de que os desejosos de ingressas na organização que se criava os preenchessem, enviando-os ao jornal, em meu nome. Em poucos meses já havíamos recebido mais de cem inscrições, não somente no Rio, mas de outros estados, principalmente Ceará, Rio Grande do Norte, Espírito Santo e São Paulo. Dessa cidade me lembro de duas: Salvador Pintaúde e Coripheu de Azevedo Marques. Do Rio Grande do Norte, vários Raymundo Nonato, um nome muito comum por aquelas bandas.

No dia 1º de maio desse ano de 1927, a juventude, melhor dizendo, os jovens comunistas apareceram com destaque, não somente carregando largas faixas com inscrições próprias, como também com um orador que se não me engano foi Schecheter. Foi uma demonstração magnífica, porque a polícia não interveio, os sindicatos apareceram incorporados com suas bandeiras, quase todas vermelhas, e muitas mulheres, algumas com crianças de colo. Os operários apareciam com suas roupas de domingo, de chapéu, como se fossem a uma festa. E os jovens vibravam.

Esses êxitos iniciais nos animaram a apressar a fundação da JC, que foi marcada para 1º de Agosto, chamado o Dia Internacional da Juventude e, ao mesmo tempo, o Dia Internacional da Luta contra a Guerra. No dia marcado, na sede da UTG (União dos Trabalhadores Gráficos) na Rua Frei Caneca, esquina com a Praça da República, houve uma bela festa com discursos, nos quais o que mais se destacou foi o de um jovem metalúrgico, de uns 17 anos, Jaime Ferreira, que não sabia como acabar o seu discurso. Ao fim de quase meia hora, tive de puxá-lo pela manga, para que sentasse. Murmurei-lhe ao ouvido: diga apenas “Tenho dito”. Foi o que fez, em meio a uma frase qualquer. Não obstante foi muito aplaudido.

No dia seguinte escolhemos alguns companheiros jovens para constituir um Comitê Central e fui eleito por esse Comitê Secretário Geral, cargo em que permaneci até princípios de 1929, quando, tendo atingido 21 anos, passei ao Partido, de onde, aliás, eu vivera.

Posso afirmar que cerca de 90% dos membros da juventude comunista da época, se constituía de jovens operários de 15 a 19 anos, os quais, pelos estatutos aprovados, aos 21 anos, deveriam ingressar no Partido. (Lembro que em 1946, quando novamente se organizou a Juventude Comunista, ela se constituía em 100% de jovens estudantes.)

Embora por vezes ultrapassássemos nosso campo de atuação, procurando tomar atitudes políticas, na verdade tínhamos de seguir a linha traçada pelo Partido. Nossa ação se limitava a recrutar jovens nas fábricas e nas empresas, ou no comércio, e mesmo nas escolas superiores, naquela faixa de idade, mantê-los unidos em torno de atrações de toda ordem, como esportes, teatro, festinhas, piqueniques, fazer propaganda de nossas ideias marxistas e prepará-los para serem bons comunistas. A tarefa não era fácil pois tínhamos jovens de todos os graus de cultura, desde semi-analfabetos até estudantes de curso superior, estes em pequena minoria. Adotamos a mesma organização do Partido, com células e Comitês Regionais, nos Estados. Pelos meados de 1928 já tínhamos organizações regionais no Rio, São Paulo, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Espírito Santo e Estado do Rio.

A primeira “direção nacional” possuía sete membros e creio que me lembro dos nomes de alguns deles: Jaime Ferreira, Elísio, Altamiro, Brasilino, Pedro Magalhães, todos operários, e mais, Artur, Manuel e eu, estudantes. Naturalmente, no decorrer dos meses houve algumas modificações de nomes, mas salvo engano, esse quadro, e mais o Arlindo Pinho, vigorou até fins de 1928, ou princípios de 1929, quando, no seu primeiro Congresso Nacional, foi eleita uma nova direção.

Já então, todavia, menos do que nos anos seguintes, eu havia mergulhado de corpo inteiro no mar da atividade política. As manhas eu dedicava à Faculdade, onde eu assistia a cada vez menos aulas, não podendo, todavia, faltar às aulas práticas, pois havia um mínimo de frequência exigido para poder fazer exame. Havia uma cadeira Anatomia Patológica, que o professor Leitão da Cunha tornava difícil pelas suas exigências e sempre reprovava pelo menos metade da turma, cada ano. Mas, ia levando. Desde o ano anterior eu somente me dedicava seriamente ao estudo quando faltavam dois meses para o exame.

As “tarefas” me enchiam o tempo. A tarde eu já estava na redação do jornal, onde escrevia frequentemente sobre os problemas da juventude operária, mas tinha, além disso, uma seção permanente, a de “Correspondência”. Eu tinha de dar “forma” as muitas cartas que o jornal recebia de operários das fábricas e de quase todos os Estados, pois eram quase sempre ilegíveis, quer pela letra, quer pela sintaxe. E, a seguir, dar-lhes resposta pelo jornal. Começamos a editar um jornalzinho mimeografado, semanal, O Jovem Proletário. Este jornal, a partir do quinto ou sexto número começou a ser impresso nas oficinas da Cooperativa Gráfica, na Rua dos Andadas, a qual pertencia ao Partido. Nos meses de legalidade do Partido, o Classe Operária era também lá impresso. Lá imprimíamos ainda nossos “manifestos”, volantes, falando sobre diferentes assuntos juvenis, reivindicações dos trabalhadores jovens (menos horas de trabalho, salário igual para trabalho igual), proclamações contra a visita que nos fizeram navios de guerra americanos, contra o imperialismo e contra uma porção de coisas a que éramos contra. Uma vez fizemos um volante escrito em língua inglesa, contra o imperialismo, que distribuímos entre os marinheiros americanos, o que causou certo escândalo na imprensa, a qual protestou contra a “Nossa ousadia”. Uma vez substituímos os “programas” de um circo pelos nossos volantes e os que entravam sempre apanhavam um, certos de que se tratava de um programa, mas na realidade era um manifesto nosso!

Quase todas as noites havia uma reunião e alguma espécie Quase todas as noites havia uma reunião de alguma espécie: da CCE, do CC, da JC ou de alguma célula nova a que eu devia assistir, ou mesmo do Sindicato a cuja direção eu pertencia, a UTG. Em casa, de volta das reuniões eu tinha de ler: sobre Marx, sobre o leninismo, toda espécie de obra ou documento novo da IC sobre o movimento comunista internacional, além dos assuntos de minha simpatia particular: Psicanálise, metapsiquica, biologia, tudo dependendo de minha disposição de espírito no momento.

Essas reuniões se realizavam frequentemente em sedes de sindicatos em cuja direção tivéssemos membros do Partido ou simpatizantes. Mas, quase sempre em casas de companheiros. As da CCE, muitas vezes em casa de Joaquim Barbosa, de Otávio Brandão, que morava em Santa Tereza, ou de outros companheiros. Até mesmo na de Pedro Mota Lima que na ocasião era uma espécie de “membro secreto” do Partido. Nunca na casa de Astrogildo, que morava em Niterói e tinha sob sua guarda, nosso pequeno arquivo. O mesmo acontecia com as reuniões da JC. Mas em virtude dessas reuniões nesse ano de 1927 e nos anos seguintes, vim a conhecer, praticamente todo o Rio de Janeiro. Não havia subúrbio, da Central, Leopoldina, ou Linha Auxiliar, que eu não conhecesse.

Momentos agradáveis eu passava na redação de A Nação, onde sempre havia tempo para um bate-papo. Lá comparecia sempre, além de alguns membros da CCE, o Cabello — que se tornou figura importante na “Revolução de 30”, o Paulo Mota Lima, irmão do Pedro, e ainda o Aporelly — Aparício Torelli —, um gaúcho que não pensava ainda que um dia passaria à nobreza com o título de Barão de Itararé. Mas já era muito conhecido como Aporelly pela sua seção no jornal de Mario Rodrigues A Manhã e que tinha o título de A Manhã. A Manhã depois se tornaria um jornal independente, “quinta-feirino” e o Aporelly um grande amigo. Ele colaborava assiduamente em A Nação. A redação ficava na Rua 13 de Maio, bem no centro e era ali um bom ponto de encontro. Outro local de encontro era a sede do Bloco Operário e Camponês, na Rua da Constituição. Os cafés em que nos costumávamos encontrar, estavam ficando abandonados. Agora tínhamos sedes, o que se constituía, sem dúvida em um grande progresso. Havia agora um Partido organizado funcionando.

Nossas condições financeiras, minha e do Artur, não eram das melhores. Continuávamos recebendo mesada, mas não era suficiente, pois além da pensão, tínhamos despesas de várias ordens, condução, livros, jornais, cafezinhos e, uma vez por outra, cinema. No dia em que chegava a mesada, já estávamos andando a pé. Mas também nesse dia festejávamos almoçando no Reis, um restaurante popular perto da Galeria Cruzeiro. Por isso nos mudamos da Pensão Jarina para uma outra mais barata, onde podíamos alugar um quarto com duas camas. Era ali na Rua Clarisse índio do Brasil, ao fim da Marquez de Abrantes. Nunca me esquecerei dos meses que passamos nessa pensão de estudantes —havia poucos, a pensão era pequena — por causa de uns paraibanos que ali moravam e adoravam fazer discursos, para o que aproveitavam todos os pretextos. Havia sempre alguém que fazia anos, desde a dona da pensão aos filhos que também lá moravam, aos colegas, à arrumadeira. Além disso, sobravam feriados nacionais. Eram discursos sérios. Um deles se levantava, geralmente à hora do jantar, punha as mãos sobre o encosto da cadeira, arrumava a garganta e começava. E nós tínhamos de ouvir. E sempre havia no meio citações sobre a Pátria, os seus destinos grandiosos, o futuro brilhante e, frequentemente, sobre “essa mocidade que vibra de entusiasmo” dito com a voz trêmula, o braço erguido vibrando. Todos ouviam comovidos, os olhos voltados para o futuro da Pátria. Só eu e Artur ouvíamos com os olhos voltados para o que ainda restava nos pratos capaz de ser comido.

Já foram confeccionados, em segredo, naturalmente, pois tínhamos um mimeógrafo escondido, muitos números do Jovem Proletário.

Quando passei pela Bahia, o José, que era amigo do Deputado João Mangabeira, me deu uma carta de apresentação para o mesmo, a fim de que me arranjasse um emprego. Quase todos os estudantes tinham um e eu precisava dele. Um dia fui procurá-lo em sua residência com a carta na mão. Recebeu-me com certa frieza e explicou que não me podia atender pois meu nome havia sido citado na Câmara, quando se discutiu a famosa Lei Celerada, como um dos quatro ou cinco perigosos comunistas da época, ao lado de Astrogildo, Paulo, Otávio e João Pimenta.

Fiquei surpreso e fui correndo procurar o Diário Oficial que trazia o discurso para ver meu nome impresso. Isso deve ter acontecido por volta do mês de julho. Pouco depois, a Lei Celerada foi aprovada, uma lei contra “o anarquismo e a subversão” e, antes que fosse fechado pela polícia, a direção do Partido resolveu fechar A Nação, por conta própria. E o Partido passava novamente à clandestinidade. E todo nosso esquema de trabalho tinha de ser mudado, desde os locais habituais de reunião até o de confecção de nossos materiais de propaganda.

No mês de agosto, em que foi fechado A Nação, escrevemos para Moscou, sede do KIM (Internacional Comunista da juventude) comunicando a fundação da JCB e solicitando adesão à mesma, da nossa organização. Um dia chega a resposta e, ao mesmo tempo, ofereciam uma bolsa de estudos para a Escola Leninista, que então fora fundada, a um jovem operário, pertencente, é claro, à JCB. Depois de muitos debates nossa escolha recaiu sobre um jovem alfaiate chamado Heitor Ferreira Lima, de 21 anos, por nos parecer inteligente e sério, ser um militante ativo no seu sindicato, o que era, para nos, ponto de honra e decisivo. É verdade que alfaiate não era uma profissão das que os comunistas mais apreciavam, por não ser a alfaiataria uma “indústria básica”. Sempre havíamos preferido metalúrgico, ferroviário, marítimos, e outras dessa ordem. Mas assim mesmo mandamos o Heitor, com boas recomendações. Na verdade, ele não nos desiludiu, ao contrário de muitos que mandamos depois, os quais voltavam com a cabeça entupida de conhecimentos não assimilados, olhando os demais com superioridade e querendo escolher tarefas.

Nesse ano de sua fundação perdeu a JCB alguns bons elementos, em consequência da cisão que se verificara no Partido, aliás na CCE, narrada por Astrogildo em seu livro A Formação do PCB.

Nos últimos meses desse ano começara na CCE um debate sobre a conveniência de entrarmos em contato com a Coluna Prestes, que se havia internado na Bolívia. Pensávamos que a Coluna tinha em seu seio elementos revolucionários que, aliados aos comunistas, ao movimento comunista operário das cidades, seria capaz de dar um grande impulso as forças de nosso próprio movimento revolucionário. O assunto foi, em duas ou três reuniões sucessivas, muito debatido. E afinal, aprovamos uma proposta concreta de Astrogildo: procurar Prestes e tentar unir nossas forças a base de uma formula que seria discutida com o próprio chefe da Coluna. Participaram dessa última reunido, realizada em casa de Joaquim Barbosa, dentre os que recordo, além do Astrogildo e do joaquim Barbosa, mais os seguintes camaradas: Otavio Brandao, Paulo Lacerda, Joao Pimenta, Cendon, Hermogenes Silva, Freitas, Rodolfo Coutinho (jornalista e professor pernambucano, recém-chegado de uma viagem a Moscou). A proposta de Astrogildo foi, afinal aprovada, contra os votos de Joaquim Barbosa, alfaiate de profissão, e Rodolfo Coutinho. Estes não se conformaram com a derrota do seu ponto de vista: alegavam que, unir-se a Coluna, que representava “um movimento pequeno-burguês”, seria trair o proletariado e “todos os ensinamentos de Marx e Engels” dos quais parecia ser grande conhecedor, citando sempre grandes trechos de livros dos mesmos. No dia seguinte, pediram demissão do Partido.

Todas essas discussões se realizaram, paralelamente, no Comitê Central da JC, por meu intermédio. Em consequência, também na JC repercutiu a cisão. Os irmãos Antunes se retiraram da organização acompanhando Rodolfo Coutinho, pelo qual tinham grande admiração. Outros intelectuais abandonaram o Partido: lembro-me de Mario Pedrosa e Lívio Xavier, os quais, já naquele tempo tinham tendências trotskistas, pois os prenúncios da luta que se verificava no União Soviética entre Stalin e Trotsky, já começaram a chegar ao Brasil através da imprensa comunista francesa, principalmente o L’Humanite.

Não obstante, ao findar o ano de 1927, o Partido e a JC estavam mais fortes, pelo menos numericamente. E também politicamente, pois a discussão em todo do problema Prestes despertara nossa consciência política, e agora estávamos em busca de um caminho e de uma definição: a revolução proletária.

[…]

Por essa época, abril ou maio de 1928, recebíamos carta de Moscou, do Komintern, com um convite para que o PCB se fizesse representar no VI Congresso da Internacional Comunista. E, ao mesmo tempo, a JC recebia igual convite para que se fizesse representar no seu V Congresso, da IJC ou KIM (Internacional Juvenil Comunista) que se realizaria a seguir. As despesas da estadia, bem como as de regresso, eles garantiam, mas a ida tinha de ser por conta do PCB. Tínhamos então dois problemas: escolher os delegados e… arranjar dinheiro para as passagens, até Berlim. De lá a Moscou, o Komintern tomaria conta dos delegados.

O CC da JC me designou para ser seu delegado ao Congresso. E a CCE decidiu designar três delegados, a que tinha direito: Paulo Lacerda, que seria o chefe da delegação, Molares, um espanhol, garção de profissão, elemento muito ativo e dedicado, o qual seria também delegado ao Congresso Internacional Sindical que se realizaria a seguir, e eu, que ficaria ainda para o Congresso da KIM. Programamos, então uma campanha para arranjar dinheiro para a viagem. Fizemos rifas, festivais, doações dos que tinham mais, e por fim, quando faltavam apenas poucas semanas para a viagem, consegui que meu pai me mandasse uns 500 mil réis, alegando eu que iria aperfeiçoar meus estudos. Eu estava no 5° ano. E não se se meu pai acreditou ou não, mas mandou o dinheiro. Somente o José ficou sabendo que eu ia a Moscou. Os outros souberam depois.

Eu ia deixar o Brasil em uma época de grande atividade e preocupação para nós. Estávamos planejando o III Congresso do Partido, que se deveria realizar no fim do ano, logo após a nossa volta de Moscou. Desejávamos participar, através do Bloco Operário e Camponês, das eleições municipais que se realizariam em outubro desse ano, e nas quais pensávamos apresentar dois candidatos: Otávio Brandão e Minervino de Oliveira, este um operário marmorista.

Mas esse não era o problema maior. Era necessário que tomássemos uma decisão a respeito do que pensávamos sobre a revolução no Brasil, de como ela se processaria no nosso entender, e que era preciso para consegui-la. Falávamos em Sovietes, em Ditadura do Proletariado e nos indagávamos se essas seriam soluções para o Brasil ou se estávamos simplesmente imitando os russos.

Por outro lado havíamos, quase todos, na CCE, lido documentos sobre a história da Revolução Russa, em que se falava de Revolução Democrático-Burguesa, que não chegávamos a entender. Como e porque deveria o proletariado fazer uma revolução burguesa? Por outro lado, víamos como o governo era forte, como tinha armas e soldados, polícia e exército, e nós não tínhamos nada disto, nem armas, nem homens para empunhá-las. O próprio movimento sindical era débil, os sindicatos numericamente fracos (não obstante mais fortes do que hoje), embora houvesse, no meu entender, em muitos setores do proletariado uma forte consciência de classe, mais do que hoje, mas que vinha eivada de sentimentos confusos, anarquistas, cheios de pensamentos e Bakunin, Kroptkin, e outros líderes do anarquismo. E não obstante, conscientes de que o mundo estava dividido em classes e que a classe operária deveria sobrepujar a classe burguesa e tomar o poder, para estabelecer a “justiça social”. Essa confusão no proletariado se estendia ao próprio Partido, penetrava nele, que era parte e consequência desse proletariado, do qual nascera. E que dizer dos próprios dirigentes, Astrogildo, Paulo Otávio, e tantos outros, provenientes do anarquismo? Na CCE só Rodolfo Coutinho e Manuel Cendon não vinha do anarquismo, mas do socialismo, de influência europeia, mas se o primeiro se afastara do anarquismo, pois quando comecei a me interessar pelo movimento revolucionário, o anarquismo já estava sendo abandonado e só ouvi falar dele, como ideologia política, quando já me considerava marxista-leninista.

Todas essas coisas nos confundiam e não sabíamos que caminho tomar. Acreditávamos que, estando presentes ao Congressos da IC, muito poderíamos aprender. Não sabíamos, entretanto, que os marxistas europeus, conhecendo muito bem o marxismo, nada sabiam da América Latina. Menos ainda do que nós próprios, conheciam a nossa realidade. Para eles, tudo era semi-colonial e os problemas asiáticos eram transportados para a América Latina como se fosse tudo a mesma coisa. Mas isso somente saberíamos muito depois, e muito tarde.

[…]

Nós, delegados brasileiros, e também de outros países latino-americanos, com os quais tínhamos mais afinidades, estávamos um pouco confusos e, não obstante, aprovamos todas as teses apresentadas, inclusive uma condenação a Trotsky, como “instrumento do imperialismo americano e inglês” e as críticas a Burkharin. Aprovamos ainda as teses que prenunciavam uma nova guerra mundial ao fim de um período de “estabilização do capitalismo”, que estávamos vivendo ainda. Sobre o que realmente nos interessava, a América Latina, nada houve, porém, de concreto.

Uma resolução importante foi referente à Alemanha, pela qual se considerava que “o maior inimigo” era a social-democracia e não o nazismo, que estava então nascendo.

Ao terminar o Congresso, apesar do meu otimismo e entusiasmo, não me pareceu que tivéssemos progredido muito em relação ao principal problema que enfrentávamos no Brasil: o caráter da revolução brasileira. Sobre isso ainda iríamos discutir muito no Brasil.

Por fim, encerrado o Congresso, os delegados foram convidados a passear pelo país, de acordo com vários roteiros, a escolher. Mas eu não podia escolher nenhum, pois tinha pela frente o Congresso da JC (KIM), que se realizou pouco depois e durou mais ou menos uns 15 dias. Uma das resoluções do Congresso foi admitir no KIM o ingresso da JCB. Como único delegado, tive oportunidade de falar (com o nome de Pereira). Fiz um pequeno relatório (em francês) da situação da juventude operária no Brasil, da situação da JCB, que tinha na ocasião cerca de cem membros inscritos, mas já editava seu jornalzinho, do qual eu trazia alguns exemplares, e que foram expostos, juntamente com dezenas de outros, da Juventude Comunista de todo o mundo, em uma sala especial. No meu pequeno discurso, lamentei que todo o material de propaganda e educação marxista para jovens, enviado ao Brasil, fosse escrito em língua espanhola, e que os operários brasileiros não entendiam espanhol. Nessa ocasião ouvi que diziam atrás de mim (alguém sentado na grande mesa que presidia a sessão), algo assim:

– Que raio de língua vocês falam no Brasil?

– O português, disse eu calmamente, para surpresa geral.

Também tivemos nossas reuniões extras, fora das sessões do Congresso, sobre o trabalho juvenil. Em uma dessas sessões falara Jacques Doriot, líder da Juventude Comunista da França, o qual, alguns anos depois, se passaria para o Fascismo, inclusive apoiando Hitler!

[…]

O Congresso da JCB se realizou a seguir (janeiro de 1929), no mesmo local [do III Congresso do PCB], e reuniu cerca de 15 delegados, do Rio, S. Paulo, Campos, Niterói, Vitória, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. É pelo menos o que me lembro, pois os documentos desse I Congresso se acham desaparecidos, provavelmente nas mãos da polícia.

Devo lembrar um fato curioso: pouco depois de chegar ao Brasil Astrogildo recebeu um telegrama de Moscou, a mim dirigido, indagando da ordem do dia do Congresso da JC. Respondi, igualmente por telegrama. E poucos dias depois tornei a receber outro, dizendo que deveria incluir na ordem do dia o “trabalho antimil”, o que significava “antimilitarista”, ou seja, propaganda entre a juventude das forças armadas. O curioso é que o Brasil não tinha relações com a URSS e, não obstante, os telegramas foram trocados abertamente, e… nada aconteceu. O “trabalho antimil” foi colocado na ordem do dia e fui encarregado de dirigi-lo pessoalmente, por ser altamente secreto.

Esse Congresso da juventude resolveu ainda intensificar nossa atividade nos setores recreativos e culturais, dando maior atenção ao Centro de Jovens Proletários, já fundado e que congregava jovens de todas as tendências, com fins esportivos e culturais. Ele já nos havia trazido excelentes rapazes e moças para a JC. Também havíamos decidido esforçar-nos junto aos sindicatos para a criação de departamentos juvenis, a fim de atrair para eles os operários mais jovens. (Mais tarde, depois da Revolução de 30, os menores de 18 anos foram proibidos de participar dos sindicatos).

No novo Comitê Central que se formava, entraram alguns novos elementos eleitos pelo Congresso. Eu participava do CC (antiga CCE), desde 1927, mas fora cooptado, como se dizia quando alguém era convidado a participar do mesmo sem haver sido eleito, mas agora eu fora eleito, o que tinha uma significação mais honrosa.

Também foram eleitos, entre outros. cujo nome não mais recordo, Fernando Lacerda, irmão de Paulo, médico e funcionário público (trabalhava em um hospital da Prefeitura), em cujas ideias se misturavam um pouco de teosofia e um pouco de anarquismo, e depois se passou para o marxismo sem abandonar as primitivas ideologias. Entrou também Mário Grazini, operário linotipista e grande líder e ativista do meio sindical, um excelente companheiro, muito inteligente, embora, na sua condição de operário, não tivesse muita instrução. Mas isso era quase um quadro geral do Comitê Central do Partido. Recordo também José Casini, operário metalúrgico, que depois foi eleito secretário geral do Comitê Regional do Rio. Havia ainda o Vilanova, guarda-livros Espírito Santo, aliás um dos fundadores do Partido, mas que nunca se pudera dedicar inteiramente ao movimento.

Também da JC ingressaram novos elementos no CC, quase todos jovens operários. Manuel Karacik e Artur, foram alguns deles, embora não operários. Dentre estes destacavam-se sobretudo, um rapaz bem escuro, que fora lavrador em Pernambuco, o Justino Lourenço, grande elemento, inteligente e combativo, embora fosse quase analfabeto. Praticamente aprendeu a ler dentro da Juventude. Outro membro novo era Russildo Magalhães, operário pintor, da Construção Civil, assim como Brasilino, ambos negros. (Era para nós uma questão de honra ter no CC não apenas operários, mas também negros, o que era uma forma de lutar pela sua elevação cultural e social e sua integração nas lutas políticas). Russildo seria um pouco mais tarde mandado para a Escola Leninista, como bolsista, em Moscou. Lembro ainda Pedro Magalhães, operário metalúrgico, Arlindo Pinho, que trabalhava na ocasião na prefeitura.

Na verdade, depois do Congresso, o movimento juvenil havia crescido muito, assim como o Partido, que criara vários sindicatos, entre os quais, o dos gráficos, já mencionado, e o dos marceneiros e carpinteiros (ATIM), entre os quais se destacava Roberto Morena, que ainda não havia ingressado no Partido, pois vinha do movimento anarquista. Não devo esquecer um casal de jovens, ambos com 18 anos, e que acabavam de chegar da Romenia como imigrantes e que desempenharam grande atividade na JC e posteriormente no Partido: N. G. e L. G., excelentes companheiros e tremendamente ativos. já tinham um filhinho de meses, nascido no Brasil, que depois se tomaria também militante ativo da JC. Seus nomes voltarão a estas páginas por várias vezes. Mas não foram membros do CC por serem estrangeiros.

Ao encerrarmos o Congresso fizemos uma pequena festa no próprio local, em regozijo, e o que é mais, tiramos uma fotografia na qual aparece a maioria dos delegados da JC e alguns membros do Partido. Essa famosa fotografia, hoje em mãos da polícia, serviu posteriormente para prender muita gente que ali figurava, eu inclusive. Mas isso foi muito tempo depois.

Minha situação mudara. Em vez de ser representante da JC no CC do Partido, eu era agora representante do Partido no CC da JC. Isso significava que eu não me desprendera completamente do movimento juvenil. Além disso, eu havia sido encarregado do “movimento antimil”, que era uma tarefa da JC.

Começava o ano de 1929 e estávamos animados, em grande atividade, com todas as aparências de um Partido verdadeiramente organizado, e com grande número de camaradas transformados em “revolucionários profissionais”, como queria Lenine. Não sei como viviam, pois o PC e a JC pouco tinham para lhes dar. Mas esses companheiros viviam para o movimento e pelo movimento e, nessas condições, comer e vestir eram coisas secundárias. Comia-se no china, quando havia dinheiro, ou na casa de algum companheiro, hoje aqui, amanhã ali, dormia-se onde era possível, na casa de um ou de outro, às vezes no próprio local da reunião, quando esta acabava tarde.

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