Texto de Nayanika Guha.
Disponível originalmente no site Refinery29.
Tradução por Rodrigo Porciuncula.
Vivemos em um mundo sem botões de desligar, e a nossa exaustão está no limite. A Powered Down irá explorar como o sistema falhou conosco, e o que podemos fazer para escapar desse ciclo – de uma vez por todas.
Ana Lydia Ochoa-Monaco sabe exatamente como é se sentir exausta: uma fadiga esmagadora que parece piorar justamente quando ela deveria ser mais produtiva. Ela sabe, também, com o que se parece: tufos de cabelo no ralo do banheiro, assim como crises de alergia em seu peito e barriga. “O engraçado é que eu reconheço isso como exaustão, e ainda assim eu sigo funcionando naquele mesmo padrão”, ela diz.
Mesmo quando está cara a cara com a exaustão, uma voz persistente em sua cabeça não para de listar todas as razões pelas quais ela não deveria estar se sentindo assim. Como ela pode estar exausta quando ela não trabalha tão duro quanto seus pais, imigrantes de primeira geração, trabalharam para dar a ela as oportunidades que ela tem hoje? Como ela pode se dar o luxo de estar exausta quando seu sucesso como cineasta está tão longe de seus colegas de profissão (sem considerar que ela entrou na indústria tarde)? Enfim, tudo tem a mesma razão: Ela não fez o suficiente. Não de verdade.
O sentimento de que poderia estar fazendo mais está sempre presente, especialmente quando ela tenta descansar. Ela tirou empréstimos quando começou sua segunda carreira em cinema, que hoje está em torno de $120,000. “Você já se sentiu, tipo, ‘Eu preciso dar certo, para que eu consiga ao menos pagar o mínimo, e isso é tão ridículo”, comenta Ochoa-Monaco, que agora trabalha como coordenadora de roteiro em um programa indicado ao Emmy.
“Eu fico dando voltas na minha cabeça. Será que eu já fiz o bastante hoje para ir dormir cedo? Será que eu verifiquei com meus supervisores para ter certeza de que não há nada acontecendo?” Ela sente a necessidade de responder emails imediatamente e sempre estar à disposição; ano passado ela desistiu dos seus planos de aniversário para ir para casa trabalhar. Para ela, seu valor está diretamente ligado à produtividade. “Eu preciso estar ativa e ser produtiva, para provar meu valor e mostrar ao mundo que eu posso fazer coisas com excelência, apesar de ser uma latina gorda com problemas de saúde.”
Por que pode ser tão difícil descansar? Por que sentimos a necessidade de nos justificarmos e nos explicarmos quando damos uma pausa? Por que só parece aceitável quando estamos perigosamente exaustos – um marco que é definido tão vagamente que parece tão inalcançável, mas que ao mesmo tempo é uma realidade exaustiva onipresente?
De certa forma, isso está enraizado em nós. O Sonho Americano que nos foi vendido sempre se baseou em fazermos mais, ainda que a cultura de bicos e start-ups da década passada tenha tornado as coisas muito piores. As atitudes socioculturais americanas valorizam o trabalho duro e fazer além do esperado – independentemente do custo pessoal.
“Na maioria das vezes, trabalhar duro é recompensado, e isso começa quando você é jovem, na escola, tirando boas notas. Seu professor e seus pais te elogiam. Você se sai bem em um time esportivo e, novamente, você é elogiado pelos seus companheiros, técnicos e família.” explica Rachel Cavallaro (PsyD), uma psicóloga licenciada com Thriveworks em Boston. Quando você é consistentemente elogiado por ser bom em algo, ser trabalhador, ser dedicado, você aprende que você precisa ser excelente para ter valor. E para ser excelente você precisa constantemente trabalhar duro.
Billie Katz (PsyD), psicóloga licenciada e professora assistente de psiquiatria na Escola de Medicina Icahn no Monte Sinai, comenta: “Uma vez que o valor próprio é definido a partir de como nós nos valorizamos, e a produção no trabalho e nossas conquistas tem um peso significativo em como nós nos enxergamos, faz sentido que esses dois conceitos estejam interligados.”
E estamos condicionados a darmos duro a todos os custos. “Nós não aprendemos a parar e a estar no momento e verdadeiramente honrar o que conquistamos. Tivemos essa mensagem gravada em nós, de que descansar não é bom. Você precisa ralar para ser produtivo,” diz Erica Cuni, (LMFT), A Professora da Exaustão. Isso ainda nos deixa mais culpados de tirar uma pausa. Quando as pessoas têm tanto a conquistar, como é que podem desacelerar?
Isso pode se estender também às pressões familiares e sociais para performarmos. Pense, por exemplo, em alunos de alto desempenho, que devem sentir-se pressionados a grandes feitos, tanto pelas suas famílias, de si mesmos, ou ambos. Se falharem, estarão decepcionando a todos. Quando o valor próprio é condicional, precisamos constantemente nos esforçar para mantê-lo.
Essas pressões sociais para associarmos o nosso valor próprio com produtividade é um produto do capitalismo. Ela coloca um valor imenso em sempre fazer mais, em sempre estarmos em busca do próximo marco. “No fundo, é um sistema baseado em investimento, pelo propósito de lucrar. E então, quando os lucros aparecem, chega outro ciclo de reinvestimento pelo propósito de lucrar. E esse ciclo não tem fim,” explica Anders Hayden, (PhD), professor associado no departamento de ciência política na Universidade de Dalhousie em Halifax, NS.
“Por que achamos tão difícil descansar? Por que sentimos obrigação de nos explicarmos e justificarmos quando damos uma pausa?“
“É um sistema que não nunca está satisfeito.” Não é como se as pessoas chegassem a certo ponto de riqueza e pensassem “ok, agora que conseguimos, podemos descansar.” A pressão permanece. Pense em todas as pessoas que acham que deveriam ter usado o tempo em casa durante a pandemia para aprender uma nova habilidade, ou para melhorar outras, ainda que houvesse uma pandemia em andamento.
Esse conceito capitalista de “mais” é um conceito elusivo e abstrato. Não importa o que você conquista, há sempre “mais” a ser feito, e é um padrão que constantemente foge do nosso controle. E quando as pessoas têm dificuldade em manter certa quantidade de produtividade, sua autoestima pode diminuir.
Nós vimos isso com muita frequência nesses últimos anos. A exaustão aumentou – uma pesquisa do Indeed descobriu que mais da metade (52%) dos participantes sentem-se exaustos, comparados aos 43% pré-COVID. Pessoas que trabalham de casa descobriram que não possuem os recursos necessários para fazer suas tarefas efetivamente, ou estão caindo na armadilha de não tirar um tempo do trabalho para descansar apropriadamente. Trabalhar de casa também borrou a linha entre trabalho e vida humana, tornando difícil diferenciar entre uma pessoa que está disponível e uma que não está.
E isso está afetando até os dias em que estamos doentes. Um estudo de 2022 publicado no Jornal de Comportamento Organizacional descobriu que mesmo quando as pessoas estão doentes, elas sentem-se culpadas por descansar e por não se recuperar rápido o suficiente.
Enquanto muitas pessoas ficam presas no ciclo do capitalismo internalizado, ele está especialmente presente para aquelas lidando com estressores adicionais, identidades marginalizadas, ou barreiras sociais.
Filhos de imigrantes podem sentir-se extremamente pressionados pelas expectativas dos pais. O estresse de viver à altura desses ideais, junto do alto custo de moradia em várias partes dos Estados Unidos, pode fazer com que muitos sintam que precisam fazer mais. Para Ingrid Cruz, 35, uma imigrante de primeira geração, isso não poderia ser mais verdadeiro. Escritora freelance e comediante, ela perdeu seus principais clientes logo no início da pandemia. Ela precisou reconstruir seu negócio do zero, sem nenhuma rede de segurança para a protegê-la.
“Imigrantes de primeira geração são ensinados a sempre trabalhar”, diz Cruz, que nasceu no meio de uma guerra civil em El Salvador. Vir para os EUA foi como começar tudo de novo, ela diz. “Para imigrantes, e filhos de imigrantes, a ideia de que seus pais fizeram tantos sacrifícios por eles está internalizada desde cedo. É esperado que você cresça “apenas para trabalhar muito, trabalhar muito, trabalhar muito”, explica Cruz. “Você estará em casa, assistindo Netflix, já fez todo seu trabalho, sua casa está limpa, não há lixo para tirar, mas você se sente culpada só por tomar um café, e fazer nada.”
Por conta da intensa exaustão causada pela cultura do trabalho árduo, o custo de vida, e a cultura americana de exploração, Cruz decidiu se mudar para a Argentina, onde ela havia previamente morado por um curto período. “É mais coletivista lá, e as pessoas se importam mais com a comunidade. É um modo realmente diferente de pensar. Para eles, tudo gira em torno do descanso, e não do trabalho.” Lá, ela espera ser capaz de priorizar seu bem estar, e sentir-se encorajada a tirar pausas sem se sentir culpada, em vez de constantemente se forçar a trabalhar mais.
A neurodivergencia é outro fator que pode influenciar a exaustão, assim como sentimentos de culpa sobre descansar. Ashley Hubbard, 35, uma escritora freelance, foi diagnosticada com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) aos 31 anos de idade. Agora ela percebe que grande parte da sua exaustão se deve a isso. “Eu frequentemente me comprometo além da minha capacidade, assumo muitos compromissos, o que leva à fatiga. Quando sou incapaz de cumprir com todas minhas obrigações, isso faz com que eu sinta ainda mais sentimentos de falha, culpa e depressão.”
Mesmo quando ela se programa para descansar, ainda assim ela se sente culpada. Isso faz com que ela se sinta ainda mais sobrecarregada sobre sua incapacidade de fazê-lo. Ela acredita que, por ter crescido com TDAH não diagnosticado enquanto mulher (uma população que frequentemente não é diagnosticada), isso a fez se sentir sempre como uma preguiçosa, ou sem direção na vida.
“Eu acho que isso mexe com meus sentimentos quando eu tento relaxar”, ela diz. Quando um nível de produtividade é exigido no trabalho, e o TDAH é conhecido por causar disfunção excessiva e péssima administração do tempo, a pessoa acaba forçada a compensar de modo a atingir as expectativas. A falha da sociedade em acomodar o TDAH no local de trabalho não deveria ser repassada para o individuo.
Ter que ficar correndo atrás, sempre provando que é tão digno do trabalho quanto o próximo, faz com que tirar uma pausa ou descansar pareça a forma mais fácil de ficar para trás. Parte dessa frustração para Hubbard se dá pelo fato de que ela sabe que sua atitude em relação ao descanso não é lógica. “Eu geralmente preciso chegar em um ponto de pura exaustão, e aí desassocio de todo o resto. Na verdade, eu me importo muito, muito mesmo, mas para sobreviver eu preciso me desprender dessa parte do meu cérebro às vezes.”
A exaustão a longo prazo, quando não tratada com o devido cuidado e descanso, pode reduzir a produtividade e a energia, levando a sentimentos de tristeza, desesperança e desamparo, e fazer com que as pessoas sintam remorso e cinismo a respeito do mundo, explica Dr. Katz. “Uma vez que há evidências de que altos níveis de exaustão podem levar a problemas físicos (fatiga, estresse, aumento de risco de ataque cardíaco, pressão alta) e psicológicos (ansiedade, depressão, irritabilidade), é realmente importante levar a exaustão a sério, e cuidarmos de nós mesmos quando a percebemos se aproximando”, ela diz. Ela sugere que isso deve ser seu sinal para agendar um descanso remunerado, tirar mais pausas durante o trabalho, ou achar maneiras de engajar em atividades que reduzam o estresse.
“E eu acho que é importante frequentarmos locais que evidenciem nosso valor próprio, através das nossas amizades, relações amorosas, do contato com nossas comunidades. Porque essa pressão de tornar o trabalho a nossa identidade pode ser muito intensa”, adiciona Dr. Hayden.
Além dos esforços indivuais para superar a exaustão, há também uma necessidade urgente de mudanças estruturais. Existem coisas que podemos fazer para navegar pela exaustão e a culpa que a acompanha, mas isso é uma questão social. “Uma grande solução para a exaustão é diminuir as longas horas de trabalho que para as quais o capitalismo leva. Os locais de trabalho não devem sobrecarregar as pessoas. Existem vários desses programas de bem estar nos locais de trabalho, mas a maioria das pessoas não tem tempo para aproveitar o que esses programas oferecem”, explica Dr. Hayden.
“O que estamos percebendo através de pesquisas é que a verdadeira produtividade vem de saber quando descansar, quando se mover, quando e como cuidar do seu corpo e da sua mente. E não trabalhar o tempo todo, todos os dias”, diz Cuni. Os locais de trabalho precisam reconhecer isso, e fazer os devidos ajustes.
E todos nós precisamos reconhecer que não há solução de um dia para o outro, e dar uma folga para nós mesmos e para os outros. Ochoa-Monaco ainda luta para se priorizar em vez do trabalho, especialmente durante a pandemia, quando ela estava fazendo de tudo, desde registros diários, afirmações diárias e terapia, para criar agendas e calendários para sentir que estava fazendo algo.
“Olhando para trás, isso não era nada saudável. Eu deveria ter lidado com esse período dessa forma: Se eu consegui fazer algo, ótimo. Se não, ao menos eu continuei viva”, ela diz.
