Discurso proferido por Antonio Candido por ocasião da inauguração da Biblioteca do MST na cidade de Guararema/SP, em 10 de agosto de 2006.
Trechos retirados da reportagem de Verena Glass para o Portal Carta Maior, disponibilizada no site Gestão Universitária.
“Humanização é o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante.”
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“O livro o que é? Uma vez um motorista de táxi disse ao grande [crítico de cinema] Paulo Emilio Sales Gomes: ‘livro é muito bom porque mata a fome da cabeça’. E é exatamente isso: não ter um livro é estar privado da alimentação fundamental da cabeça. A literatura tem uma força humanizadora extraordinária, seja no enredo de um conto, de um romance, o sentimento expresso em um poema…”
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“Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamim Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo; esse tempo pertence a meus afetos, é para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis: isso é o tempo. E justamente a luta pela instrução do trabalhador é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: ‘eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize’. As bibliotecas, os livros, são uma grande necessidade de nossa vida humanizada. Portanto, parabéns ao MST pela abertura desta biblioteca, porque o amor pelo livro nos refina e nos liberta de muitas servidões.”
