Teoria e Revolução – Acerca da ruptura da continuidade ideológica

Texto de Brian Becker, dirigente do Partido pelo Socialismo e Libertação, dos EUA, originalmente disponível no site Liberation School.

Tradução por Luca Quitete

Nota do editor: Este documento inicialmente circulou internamente em nosso partido tendo em vista nosso 3º Congresso em abril de 2016 – e lançado publicamente em setembro de 2016. Ele aborda a relação histórica e contemporânea entre teoria e prática revolucionárias, uma combinação ao qual é referida dentro da tradição comunista enquanto “práxis.” A tese primária deste documento é a que houve uma ruptura na continuidade ideológica dos movimentos populares dos EUA; nomeadamente, que o Marxismo e o comunismo tenham caído em descrédito.

Os movimentos radicais dos anos 1960 e 1970 foram marcados – ou pelo menos influenciados – pelo Marxismo revolucionário. Eles compreendiam que a política é uma luta por poder. Hoje, por outro lado, a questão do poder foi substituída pela demanda do reconhecimento baseado em identidade e autodeterminação sobre espaços. Mesmo que a palavra “socialismo” tenha se popularizado recentemente, ainda é preciso que a teoria revolucionária do socialismo seja popularizada. O documento discute as origens da ruptura na continuidade ideológica e como nós devemos trata-la para promover a práxis comunista.

Introdução

A teoria Marxista não se sustenta. Se relegada à academia, ela perde sua vitalidade revolucionária. Conceitos marxistas elementares, no sentido que eles foram aceitos pelas forças da classe trabalhadora através do mundo por muitas décadas, hoje são virtualmente desconhecidos. A ligação e o legado da teoria Marxista foram rompidos, quebrados, e uma nova geração de ativistas e lutadores não possuem familiaridade com elementos centrais da teoria.

De acordo com Lênin, o sucesso do Bolchevismo foi baseado em dois elementos: (1) a assimilação da teoria Marxista como a “pedra fundamental” e (2) que o partido e seus quadros “passaram por quinze anos de história prática (1903-1917) inigualável em qualquer local do mundo em termos de riqueza de experiência.” (retirado de Esquerdismo, doença infantil do comunismo, citado em maior extensão abaixo)

Nós não podemos estalar nossos dedos e criar a variada sucessão de diferentes formas do movimento, como foi experienciado pelos Bolcheviques durante estes 15 anos. Os estágios e circunstâncias da luta foram criados não por uma organização de vanguarda, mas por condições objetivas fora do controle de qualquer organização política. Nossos camaradas estão passando por experiências diversas. Eles estão aprendendo. Eles não estão simplesmente envolvidos em agitação e propaganda, mas estão de fato acumulando criticamente as habilidades e experiências de organização necessárias. Porém o período em que temos vivido nos Estados Unidos não se aproxima à intensidade a qual os Bolcheviques experienciaram entre 1903 e 1917. Novamente, isso está fora do controle de qualquer de qualquer organização.

O que está em nosso controle é a nossa capacidade de reavaliar, aprender, entender compreensivelmente e promover a teoria Marxista tal qual ela se aplica às lutas que vêm tomando lugar nos Estados Unidos e ao redor do mundo. Muitas pessoas subestimaram a importância central da teoria ou pensam que questões teóricas deveriam ser deixadas nas mãos de um pequeno grupo de pessoas, mas na concepção Leninista, e de acordo com os princípios organizativos do Leninismo, o papel desempenhado pela teoria é central.

Sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário. Este é o pilar da estratégia Leninista. A maior parte dos intelectuais em 1903 foram para o campo dos Mencheviques e reformistas. O aspecto genial de Lenin incluiu trazer a teoria Marxista revolucionária para os trabalhadores e educando os organizadores-chave da classe no marxismo. Ele pontuou que o esforço para assimilar a teoria Marxista revolucionária foi uma tarefa primária e não secundária. Foi um ponto de prioridade e luta:

“A Rússia chegou ao Marxismo – a única teoria revolucionária correta – através da agonia que havia experienciado no curso de meio século de tormentos e sacrifícios sem paralelos, de heroísmo revolucionário sem paralelos, energia incrível, pesquisa dedicada, estudo, testes práticos, desapontamentos, verificações, e comparações com a experiência Europeia.” (Esquerdismo, doença infantil do comunismo)

Enquanto a campanha de Bernie Sanders e, mais importante, o movimento ao redor dela, tenha ajudado a popularizar o termo “socialismo”, ela não popularizou o socialismo e a teoria Marxista. Isso é uma tarefa primordial para os comunistas no período vindouro.

A essência da teoria Marxista

A teoria Marxista, ao contrário do programa de Sanders, é a doutrina para a libertação da classe trabalhadora oprimida. A essência da teoria Marxista, aquilo que a torna distinta, nova e revolucionária, é o fato que ela afirma que a ditadura da burguesia será substituída pela ditadura do proletariado enquanto uma precondição para a abolição das classes e da divisão de classes da sociedade. Isto é crucialmente importante para nossos membros perceberem. Marx escreveu O Capital; O Manifesto Comunista; A Crítica da Economia Política; A Filosofia da Miséria; A Ideologia Alemã; Trabalho assalariado e Capital; Salário, Preço e Lucro, O 18 do Brumário de Luís Bonaparte; e muitos outros títulos centrais para a política, economia e sociologia. Os escritos prolíficos de Marx e seu principal colaborador, Friedrich Engels, constitui uma literatura sem paralelos. Todos estes trabalhos vêm sendo estudados e utilizados pelo movimento operário para educar a classe operária e suas lideranças ao mesmo tempo que eles foram alvo de crítica, ridicularização e denúncia por exércitos de intelectuais burgueses.

Em razão dos trabalhos de Marx e Engels terem tantos desdobramentos e tocarem tantos assuntos, há muitas tentativas de caracterizar a essência do Marxismo.

Porém, não é preciso ir muito além do próprio Karl Marx para encontrar esta definição da essência daquilo que ficou conhecido posteriormente como Marxismo (O próprio Marx nunca se descreveu enquanto um “marxista”):

“Quanto a mim, não é nenhum crédito necessário por ter descoberto a existência de classes na sociedade moderna ou a luta entre elas. Muito antes de mim historiadores burgueses haviam descrito o desenvolvimento histórico dessa luta de classes, e economistas burgueses a anatomia econômica das classes. O que eu fiz que foi realmente novo foi provar: (1) que a existência de classes é somente atrelado com momentos particulares, as fases históricas no desenvolvimento da produção, (2) que a luta de classes necessariamente leva à ditadura do proletariado, (3) que essa ditadura em si mesma apenas constitui a transição para a abolição de todas as classes e a uma sociedade sem classes.” (Carta de Marx para J. Weydemeyer, 1852)

Essa passagem crucial descrita nas palavras do próprio Marx é a essência de sua teoria. É digno de nota que foi Lenin quem resgatou esta definição de Marxismo, restaurando o Marxismo para seu papel revolucionário em um momento em que as principais tendências do movimento socialista europeu haviam reduzido o Marxismo a uma doutrina gradualista de reformas sociais. Foi Lênin que enfatizou esta passagem em sua obra O Estado e a Revolução.

Nosso partido realizou novas tiragens de O Estado e a Revolução em nosso livro mais recente, Manifesto Revolucionário[1]. Além da obra de Lênin, nosso livro também incluiu diversos outros artigos chave para delimitar e explicar como a teoria de Marx e Lênin foi válida e fundamental de ser estudada por militantes revolucionários do século XXI. Nosso livro também atualizou as teses de Lênin, levando em conta as profundas mudanças ocorridas no último século (o panfleto foi escrito em 1917).

O PSL também realizou novas tiragens da obra Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo de Lênin em um livro anterior chamado Imperialismo no Século XXI[2]. Também consideramos essa uma característica essencial da teoria Marxista atual. Ela possui uma contribuição central de Lênin ao Marxismo. Ao contrário do conceito de ditadura do proletariado enquanto um momento precursor da abolição de classes, um conceito completamente desenvolvido por Karl Marx e tomando base nas experiências da luta de classes na Europa ao curso das revoluções burguesas de 1848-1849 que acabaram em derrota, a tese de Lênin acerca do Imperialismo foi completamente original. Marx não poderia analisar o Imperialismo enquanto um sistema global baseado nos monopólios, na dominação do capital financeiro e a divisão de todo o mundo em colônias e semicolônias devido a este sistema global só surgir após sua morte.

Nós estamos plenamente justificados em utilizar a formulação do “Marxismo e Leninismo” pois Lênin trouxe algo novo para o Marxismo (novamente, tal qual a modéstia do próprio Marx, Lênin haveria rejeitado qualquer designação como “Leninismo”). Lênin sempre pontuou que sua orientação revolucionária tinha como principal cerne preservar os ensinamentos do Marxismo Ortodoxo. Ele se descreveria enquanto marxista – ponto. Contudo, o fato reside em que é impossível ser um marxista que é um revolucionário socialista em nosso tempo histórico sem um conhecimento pleno do leninismo e as contribuições de Lênin para o Marxismo de maneira a compreender seu pertencimento ao período moderno, ao qual é o período do capitalismo monopolista, da dominação do capital financeiro sobre o capital industrial, militarismo, e guerras sem fim. Para deixar claro: é fundamentalmente importante para nosso partido enquanto uma organização leninista ter uma compreensão completa daquilo que é o Leninismo, mas isso não significa que nós devemos apenas estudar e rever os escritos de Lênin. Existem centenas de outras lideranças e pensadores revolucionários que fizeram contribuições à teoria Marxista com seus trabalhos.

O programa de Bernie Sanders e o programa da social-democracia, o radicalismo anticapitalista não marxista e o anarquismo não constituem de forma alguma um desafio para a dominação da sociedade pelos círculos das classes dominantes imperialistas, nem se constituem enquanto uma ameaça à dominação monstruosa sobre a sociedade do estado capitalista. O poder estatal se tornou completamente conectado de maneira a manter o poder dos capitalistas. A centralidade do poder do estado é observável em todas as características da sociedade capitalista moderna. Foi a dominação da burguesia sobre o poder estatal que tornou possível para ela utilizar do governo para salvar os maiores setores do capital financeiro. Igualmente, é o poder do estado que garante que corporações transnacionais de propriedade dos EUA tenham uma posição privilegiada ao redor do globo. É o poder do estado que provêm a infraestrutura militar para as intervenções econômicas dos EUA na maior parte dos países do mundo. É o poder do estado que protege os capitalistas estadunidenses em suas interações com o restante do mundo capitalista, vis-à-vis [3] os assim chamados pactos comerciais como o NAFTA[4], KorUS FTA[5], TPP[6], CAFTA[7] e outros. É o poder do estado que permite à burguesia suprimir, reprimir e controlar a classe operária em seus empregos, e em comunidades operárias e oprimidas.

O Papel do Poder do Estado e o Socialismo

Marx escreve sobre o poder do estado no Manifesto Comunista: “O executivo do estado moderno não é nada mais que um comitê para administrar os interesses comuns de toda a burguesia.”

Mais à frente no Manifesto, ele pontua:

“(…) o primeiro passo na revolução da classe operária é elevar o proletariado à posição de classe dominante e vencer a batalha da democracia.” E, “O proletariado irá usar sua supremacia política para expropriar, gradualmente, todo o capital da burguesia, e centralizar todos os meios de produção nas mãos do estado, isto é, nas mãos do proletariado organizado enquanto a classe dominante; e aumentar as forças produtivas totais o mais rápido possível.”

Como podemos observar, O Manifesto Comunista introduz a ideia da classe operária tomando o poder político ou o poder do estado e utilizando o estado para começar a implementação gradual de medidas socialistas, porém ele não é claro de qual maneira essa supremacia política será atingida. Como Lenin aponta em O Estado e a Revolução, foi apenas posteriormente – após as experiências de derrota das revoluções de 1848-1849 e, ainda mais importante, a ascensão da Comuna de Paris e sua eventual derrota em 1871 – que a questão foi respondida para Marx e Engels. O poder estatal existente não poderia ser utilizado sob a liderança de comunistas ou socialistas revolucionários enquanto um veículo para a reorganização socialista da sociedade. O poder do estado deveria ser esmagado e um novo estado, um estado dos trabalhadores, deveria ser construído. As antigas forças da sociedade – o exército liderado pela burguesia; as forças policiais existentes; os juízes, cortes e prisões; e partes do antigo aparato burocrático de governança – deveriam ser esmagados e substituídos por um novo exército liderado pela classe trabalhadora, polícia e cortes.

Novamente, sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário. O Marxismo é essa teoria. Não é um brinquedo de intelectuais burgueses. A teoria Marxista é um guia para a ação. Sua aplicação se torna uma bússola enquanto a luta por libertação passa por diferentes estágios. A teoria Marxista do estado, a parte do Marxismo que é rejeitada pela social-democracia, é fundamental para o sucesso do projeto socialista.

Por exemplo, podemos ver em experiências políticas recentes na América Latina, especialmente na Venezuela, que a inabilidade de esmagar o antigo poder estatal, expropriar os expropriadores e criar um poder estatal completamente novo, significa que o processo revolucionário é especialmente vulnerável à desestabilização pelas antigas elites capitalistas, as classes abastadas que trabalham de mãos dadas com o imperialismo global para destruir o projeto socialista.

Para o PSL ou qualquer organização socialista atingir seus objetivos, ela deve ter uma avaliação política acertada dos novos desenvolvimentos e ser capaz de utilizar da flexibilidade e a capacidade de suplementar suas táticas, mas deve manter suas bases na teoria Marxista.

A flexibilidade e a capacidade de suplementar suas táticas permitem a nós intervir em movimentos e ações de massas. Isso é necessário, mas se nós enxergarmos esse trabalho simplesmente enquanto ativistas sem promover uma distinta teoria revolucionária do Marxismo, ela não poderia avançar o movimento. Nossa visão da campanha de Sanders e a nova aceitação do “socialismo” significa que agora nós podemos falar para uma maior parte da população, e o ponto de partida para esse diálogo deve ser a partir de onde as pessoas estão agora, não onde esperam chegar futuramente. Mas se nós nos mantermos de maneira acrítica absorvidos dentro do trabalho no movimento de massas sem promover a teoria Marxista, nós teremos falhado no papel de um partido socialista revolucionário.

A parte mais interessante da campanha de Bernie Sanders é a revitalização massiva da agitação contra os banqueiros capitalistas e o espaço criado para falar sobre o que é socialismo. É completamente natural que quando as massas populares despertam para a atividade política em um primeiro momento elas gravitem para formas organizacionais que são mais fáceis ou o que pode ser chamado o caminho de menor resistência. Uma campanha eleitoral burguesa é um caminho conhecido. Ela é legal, considerada legítima e um aspecto reverenciado da democracia burguesa. Ela é legitima em um sentido burguês e é segura – ninguém será preso, linchado ou demitido de seu trabalho por apoiar um candidato em uma campanha presidencial do Partido Democrata. Isso é o que queremos dizer enquanto caminho de menor resistência. É de maior tolice para revolucionários condenar ou criticar as massas populares por participarem ou tomar um caminho de menor resistência quando eles primeiramente entram na arena política. As organizações complicadas, difíceis e revolucionárias se tornam uma opção para as massas populares somente quando caminhos mais fáceis parecem levar a lugar algum ou quando eles são forçadamente fechados em razão da repressão burguesa.

A tarefa do PSL no próximo período é dupla: promover ampla e popularmente as ideias básicas do socialismo, realizar agitação socialista que é focada às massas populares, e tornar deste trabalho uma prioridade, e estabelecer o polo Marxista e Leninista dentro do espectro mais amplo do renascimento do socialismo. A segunda tarefa significa que nós precisamos enfatizar o papel da teoria revolucionária, estudar e aprender nós mesmos, e promover a propaganda comunista. Por propaganda nós entendemos apresentar um grupo maior de ideias Marxistas focadas em um menor grupo da população. Em contraste, quando falamos de agitação, nós nos referimos a promover uma ou outra ideia tendo em mente um público de milhões de pessoas.

A definição popular de socialismo

Já é possível discutir socialismo no debate público hoje, mas o termo em si é carente de significado. A definição de socialismo de Sanders não é nada mais que a social democracia, que, novamente, seria um grande passo à frente para a classe trabalhadora interna, mas não alteraria de nenhuma maneira, forma ou conteúdo, o caráter Imperialista dos Estados Unidos da América.

Mas a Social Democracia não é Socialismo. É uma forma variante da ordem Capitalista.

Nós propomos o seguinte como uma definição popular de socialismo:

Socialismo é uma sociedade onde o poder político e econômico está nas mãos da classe trabalhadora e dos oprimidos. Socialismo é uma sociedade onde as necessidades básicas da população e do planeta são planejadas e garantidas.

Dessa definição surge o problema do poder. Ela não fala sobre a revolução ou das tarefas dos revolucionários em relação ao poder estatal. Ela não fala em “derrubar o estado” e “construir um estado proletário no lugar”.

Essa definição, por mais limitada que seja, apresenta uma fórmula muito boa para a popularização da teoria revolucionária socialista. Para ter o poder político e econômico nas mãos da classe trabalhadora se implica que tal poder deve ser tirado das mãos da classe capitalista. A segunda parte da formulação de que “as necessidades básicas da população e do planeta são planejadas e garantidas” também é suficiente nesse momento para nossa agitação e popularização do socialismo.

Se faz imprescindível, enquanto um tema de prioridade política e organizacional, que façamos tudo dentro de nossas viabilidades, utilizando a mídia disponível, plataformas de redes sociais e boca-a-boca, para trazer essa definição popular de socialismo para todo o nosso trabalho e no trabalho que fazemos no interior de movimentos populares, organizações de massas e ao público em geral.

Se nos ausentarmos do esforço conjunto de agitar esta definição de socialismo, os não-revolucionários e os socialistas sociais democratas serão aqueles a definir o socialismo. Suas visões levam a lugar algum. É apenas uma versão requentada de liberalismo e pensamento positivo.

Essa definição também bota em campo a disputa dentro dos parâmetros da luta de classes. Sem a classe trabalhadora tomar o poder político e econômico, que claramente é o ponto alto da luta de classes, nada mais é realmente possível.

Direitos legais e formais para a população oprimida e para a classe trabalhadora geralmente têm batido no muro nessa nossa fase do capitalismo monopolista neoliberal. Direitos democráticos legais dentro dos parâmetros desta ordem social e econômica em sua atual fase não podem levar a reformas significativas ou progresso; na realidade, tipicamente levam a retrocessos.

Por exemplo, a centralidade dos movimentos de libertação negra na luta de classe dos EUA é uma constante mesmo quando o movimento de libertação negra entrou em um momento de declínio. O capitalismo estadunidense foi construído sobre a base da escravidão de povos africanos e penetrou com suas raízes através de todo continente se fundando com o genocídio e a desapropriação de terras dos povos nativos.

Com a aprovação da Lei dos Direitos Civis de 1964 e a Lei de Voto de 1965, os direitos legais e formais para a população afro-americana se tornaram consagrados por lei. Isso levou mais de 350 anos desde que a nascente classe capitalista norte americana tomou forma enquanto classe escravocrata. Passado um século inteiro após as Emendas de Reconstrução em seguida da Guerra Civil foi estabelecida a cidadania da população negra.

A população africana na América do Norte, que como consequência de sua distinta e especial opressão dentro do capitalismo Americano, eventualmente emergiu enquanto uma distinta e oprimida nação localizada internamente aos limites geográficos da república estadunidense.

O movimento de libertação negra tem, em muitas maneiras, sido a força motor e mais consistente da luta de classes nos EUA. Como todas as lutas, ela passou por períodos de altos e baixos, mas em todo período de avanço da luta, o movimento de libertação negra se tornou o imã e a vanguarda para todas as outras lutas.

Em razão de ser ao mesmo tempo um movimento de libertação nacional, um movimento contra o racismo e uma parte integral da luta de classes nos EUA, será necessário “tomar o poder político e econômico para as mãos da classe trabalhadora e oprimidos” para que se realize a libertação negra.

Igualmente, as mulheres no século XX alcançaram direitos legais formais. As mulheres conquistaram o direito de votar e mudar seus status enquanto propriedades dos homens. Mas a parte destas vitórias, o status das mulheres em muitas formas têm estado sob ataque e revertido em muitas áreas.

Lutando pelo Marxismo vs. Políticas identitárias pós-modernas: qual a diferença central?

Para a agitação acerca dessa definição de Socialismo se tornar popular, nós temos de ser capazes de usar informações muito básicas para demonstrar como o poder na sociedade é concentrado nas mãos da classe dominante capitalista. As cortes são dominadas pelos juízes que são advogados corporativos e promotores. Não existem trabalhadores na Câmara dos Deputados ou Senado estadunidenses. A decisão de fechar fábricas, lojas e outros negócios está completamente nas mãos dos capitalistas. Os dois partidos políticos que dominam a política são partidos da classe dominante controlados pelo Capital.

A questão do poder nunca é realmente discutida. É apenas admitido que o poder é tal qual ele deve ser e que a classe trabalhadora e os setores oprimidos da sociedade têm de gritar e espernear ao seu limite esperando que os ricos e poderosos farão “algo bom” ou “algo não tão ruim” enquanto eles fazem as decisões sobre tudo que tem a ver com política e economia.

Para que esta definição seja aceita e entendida se fazem necessárias intervenções sem fim, explicação e repetição. Nós temos que escrever sobre ela. Nós devemos estudá-la. Nós temos que possuir uma agitação persuasiva no sentido do problema do poder e quem o controla. A questão de deter o poder para o Marxismo é uma perspectiva diferencial em contraste com outras modas, tendências e facções políticas progressistas e radicais.

O PSL deve ser entendido como um esforço de manter a continuidade teórica, política e organizacional do Marxismo e do Leninismo que foi rompida em movimentos por mudanças sociais mais amplos.

Depois dessa ruptura de duas gerações, a vanguarda do movimento de libertação negra era um movimento essencialmente comunista e uma força de vanguarda não só para a luta negra, mas para todas as demais lutas também.

Por 35 anos entre 1980 e hoje, a classe dominante se moveu dramaticamente para a direita, e tomou cabo em ataques neoliberais contra a classe trabalhadoras, negros, latinos, nativos e outras comunidades oprimidas. Na ausência de um movimento de libertação negra robusto liderado por comunistas, e paralelamente com a destruição do movimento comunista internacional após o colapso da União Soviética e do bloco de nações socialistas (1988-1991), o comunismo e o socialismo foram essencialmente desintegrados enquanto uma força política e intelectual. Sob essas circunstâncias, políticas identitárias pós-modernas se tornaram um substituto intelectual da moda para o Marxismo nos EUA e em diversos países ocidentais, enquanto partidos islâmicos de direita ocuparam o espaço intelectual de muitos países do Oriente Médio que sofriam não apenas da destruição dos partidos comunistas, mas de ataques perpetrados pelo imperialismo contra regimes social democráticos no Iraque, Líbia e Síria.

Construções da política baseada no identitarismo pós-moderno não colocam a problemática do poder – isso é, a tomada do poder econômico e político da classe dominante e a concentração de poder na classe trabalhadora e povos oprimidos – enquanto um problema central. Na real, o problema do poder é substituído por uma demanda por reconhecimento baseado em identidade e autodeterminação sobre espaços do que a tomada de poder com o propósito de reorganizar a sociedade para ter uma “sociedade que as necessidades básicas da população e do planeta são planejados e garantidos”.

O Marxismo (e certamente o Marxismo revolucionário) tem existido desde sua introdução enquanto uma polêmica, uma discussão, contra outras modas políticas e correntes. O centro da teoria Marxista está em completo contraste com os pressupostos da política identitária pós-moderna.

O contraste entre o Marxismo e a política identitária pós-moderna não é sobre o problema da identidade per se ou a importância da identidade na sociedade. O Marxismo não diz, por exemplo, e ele foi caricaturado, que classe é sempre mais importante que outras formas de opressão. Isso não é verdade de forma alguma. Isso é uma vulgarização do Marxismo.

O ponto central que distingue o Marxismo é que ele articula o conceito de que o único caminho para a libertação das classes oprimidas e dos povos oprimidos é tomar o poder da classe dominante capitalista e que o povo, a maior parte da população trabalhadora, pode dar outra forma ao mundo para ir de acordo com suas necessidades.

A classe trabalhadora, enquanto classe, apenas pode acabar com sua exploração e liberar a si mesma da exploração pela coletivização dos meios de produção. A classe trabalhadora não possui propriedade. Ela apenas vive vendendo seu trabalho por salários. Ela não pode liberar a si própria exceto pela socialização e a coletivização de bancos, fábricas, lojas e outros negócios. Nem mesmo o flagelo de guerras sem fim pode terminar de qualquer maneira senão a tomada de poder econômico e político da sociedade pelo povo trabalhador. Corporações e bancos necessitam de políticas internacionais imperialistas. O povo trabalhador quer a paz.

A continuidade ideológica e o nosso papel

O maior perigo para um processo revolucionária não é a experiência de um período de refluxo político, como o que viemos experimentando nas últimas décadas. Na verdade, não é incomum para o movimento operário experimentar momentos de declínio, revés e recuo. Se alguém examinar a história das lutas de classe, os períodos de refluxo e reação são mais comuns que os períodos de avanços revolucionários.

Enquanto uma classe oprimida, os trabalhadores – ou, pra ser mais preciso, as classes laborais, que incluem aqueles que trabalham no campo, trabalhadores domésticos, e todos envolvidos com a produção e realização do valor – sempre resistiram à sua opressão. Sempre houveram milhares de levantes e rebeliões. Com raras exceções, eles terminaram em derrota, após às quais as classes opressoras reprimiram e suprimiram o movimento, e tentaram banir ideias que fomentavam a rebelião.

Precisamente por que a classe dominante tem mais poder e mais ferramentas a sua disposição que as classes oprimidas, ela é normalmente capaz de suprimir e derrotar a resistência daqueles de baixo.

As rebeliões da classe trabalhadora de 1848 e 1849 foram derrotadas. As grandes esperanças e aspirações dos jovens revolucionários foram cortadas. Karl Marx e Friedrich Engels, que escreveram O Manifesto Comunista nas vésperas da revolução de 1848, avaliaram a derrota pelo fim de 1849. Foi neste momento que Marx decidiu recuar da atividade política prática e ele passou os 15 anos seguintes na biblioteca escrevendo sua monumental tese, O Capital.

As próximas movimentações do movimento operário não ocorreram até a metade de 1860, tempo ao qual Marx entrou novamente na política prática e se tornou a liderança de fato da Primeira Internacional. Marx e Engels sempre falaram sobre seus camaradas, que eram poucos em número, como “o partido”. Mas, na realidade, o movimento não era forte o suficiente para criar um partido comunista.

A Comuna de Paris de 1871 marcou outro ponto alto do movimento operário. A classe trabalhadora de Paris, em circunstância de uma guerra com a Alemanha e a derrota da França, se sentiu compelida a tomar o poder na cidade. A Comuna de Paris, também, como a revolução de 1848 e 1849, foi eventualmente terminada em um banho de sangue. Dezenas de milhares de trabalhadores foram assassinados enquanto a burguesia retomava Paris.

Agosto de 1914 marcou outra enorme derrota. Quando as potências imperialistas foram à guerra contra umas às outras na Europa, a grande influência da Segunda Internacional, o movimento socialista, pareceu se estatelar. Ao invés de alçar a bandeira “trabalhadores do mundo, uni-vos” como haviam jurado fazer, a maior parte dos partidos da Segunda Internacional acabaram apoiando as suas burguesias internas. Ao invés da solidariedade, a classe trabalhadora – incluindo os socialistas – foram ao campo de batalha sob a bandeira do patriotismo e honra à pátria-mãe e assassinaram uns aos outros. Isso foi uma catástrofe para o movimento socialista.

O que era verdade na Europa também era verdadeiro na Ásia, América latina e África. Rebeliões feitas por camponeses oprimidos eram geralmente derrotadas com alguma frequência.

Na América do Norte também, o mesmo fenômeno era claramente visível. Povos Indígenas resistiram, mas ao passar do tempo foram destruídos. Contra todas as possibilidades, povos de origem africana escravizados tomaram parte em atos de resistência, grandes ou pequenos, contra o sistema. Inspirados pela revolução de escravos vitoriosa no Haiti, revoltas e rebeliões de povos escravizados aconteceram nos EUA. Todos eles foram derrotados, seus líderes executados, e seu legado e palavras não foram apenas demonizados, mas se tornaram, caso expressas por outros, crimes passíveis de pena.

O ponto aqui é que revezes e derrotas não são incomuns. Elas não são a exceção à regra. Ao contrário, as vitórias da classe oprimida são a exceção.

O problema que o movimento operário enfrenta hoje não pode ser caracterizado simplesmente como a experiência de apenas outra derrota. O problema é diferente e é maior em algumas maneiras. O problema hoje é que a teoria do Marxismo revolucionário e toda a visão do poder operário vem sendo descreditada e isolada das lutas populares. A própria memória da revolução vem sendo eliminada e distorcida nas mentes dos militantes de hoje. As lições organizacionais de lutas das gerações passadas foram suprimidas. Se alguns criticaram o idealismo das gerações de 1960 e 1970 – por acreditarem prematuramente que a revolução era iminente – o problema de hoje é o oposto e muito mais desafiador: o juízo de que a revolução socialista jamais ocorrerá, e que as massas serão sempre oprimidas.

A vitória da Revolução Russa constituiu pela primeira vez na história da raça humana onde os oprimidos e as classes sem propriedade tomaram o poder e o mantiveram. Isso é o que fez a Revolução Russa tão única. As classes oprimidas sempre resistiram, mas dessa vez elas tomaram o poder, o mantiveram e reorganizaram a sociedade em um base socialista, isso é, coletiva. Foi a primeira vez que a classe dominante era baseada na coletivização da propriedade representando os interesses e as necessidades da maioria ao invés de um pequeno círculo de detentores de propriedade.

A derrubada do governo Soviético e seu impacto na teoria Marxista

Se a União Soviética tivesse desaparecido enquanto como consequência, digamos, da Invasão Nazista de 1940, ela seria lembrada na história por todos os demais trabalhadores enquanto um glorioso e inspirador esforço para construir um novo mundo.

Mas a União Soviética não foi derrotada pela classe opressora, não diretamente ao menos. Ela não desapareceu no campo de batalha tal qual a Comuna de paris, onde os trabalhadores resistiram até a última gota de sangue.

A União Soviética foi derrotada e destruída por setores internos ao Partido Comunista da União Soviética, pois ela foi derrubada sem uma luta real, a derrota não ofereceu um longo legado para inspiração. Se ela tivesse sido derrotada pela luta, então a experiência Soviética e a teoria comunista que foi fundamental a ela seria o foco de análise e avaliações pela próxima geração de lutadores das classes oprimidas. Se tivesse sido derrotada na luta, o comunismo em si mesmo não teria sido tão amplamente descreditado e descartado. Mas isso não foi o que aconteceu. Não apenas o governo Soviético e o sistema socialista foram derrubados na URSS e nos países do Leste e Centro da Europa, ao qual seus sistemas foram criação da União Soviética, mas todo o movimento comunista internacional ancorado em Moscou foi dispersado quase imediatamente. A natureza da derrota foi tão amplamente desmoralizante que partidos comunistas de larga escala que não detinham o poder racharam, milhões de pessoas deixaram o movimento, e as classes opressoras tiveram um passeio no campo enquanto eles limpavam o mundo intelectual de pensamentos agora desacreditados, ideias e filosofias que eram sustentáculos do comunismo.

Preservando conquistas teóricas

Quando fundamos o Partido pelo Socialismo e Liberdade em 2004, nós o fizemos com a ideia de que deveria haver um esforço para reconstruir a continuidade política ou teórica que havia sido suspensa após à vergonhosa derrubada da União Soviética por elementos presentes na liderança do Partido Comunista da União Soviética.

Novamente, para enfatizar: se o movimento operário ou o movimento comunista sofre uma derrota em consequência de intensa batalha, haverá um período seguinte de reação política. O movimento pode se recuperar disto, sempre se recuperou, contanto que as lições aprendidas anteriormente são retidas como guias teóricos para o movimento operário. De fato, houveram períodos que fazer avanços práticos era quase impossível. Como foi aludido acima, isso foi a conclusão que Marx e Engels tiraram após a derrota da revolução de 1848-1849. Eles não poderiam forçar os eventos. Eles decidiram então usar o período de reação para esclarecer elementos da teoria comunista que eram absolutamente necessários para os avanços futuros do movimento.

Havia uma quebra na continuidade em termos de políticas práticas, mas não havia alguma quebra de continuidade nos campos teórico e ideológico. Na verdade, eles avançaram significativamente a teoria comunista durante os anos intermediários, e quando o movimento operário se tornou verdadeiramente um movimento de massas no fim do século XIX na Europa, as classes oprimidas foram capazes de rápida e completamente assimilar, abraçar e utilizar a teoria Marxista enquanto um guia para a ação. Contudo, esse abraçar do Marxismo enquanto um guia pra ação ao invés de uma doutrina abstrata pelos líderes do movimento socialista não preveniu outras distorções extremas do Marxismo de tomar lugar sob as políticas desorientadas destas lideranças. Quando Lênin rachou da Segunda Internacional e da maior parte do movimento socialista internacional em 1914, ele argumentou que o Marxismo sob a tutela da liderança da Segunda Internacional foi transformada de uma doutrina revolucionária à uma crença reformista.

Manter a teoria comunista sob as circunstâncias do colapso da União Soviética e do movimento comunista internacional apenas poderia ser feito com a criação de uma nova organização comunista. Escritos acadêmicos e literários não seriam credíveis. O movimento comunista teve que ser reconstruindo do chão. Seria necessária a educação de uma nova geração de lideranças revolucionárias. As antigas organizações de esquerda ou foram destruídas através de rachas ou deserção, ou tinham perdido toda a sua vitalidade. Recomeçar era, em muitas maneiras, a tarefa mais complicada, e nós sabíamos que esse processo iria ocorrer em diferentes estágios.


[1] Nota do tradutor: No original, Revolution Manifesto.

[2] Nota do tradutor: No original, Imperialism in the 21st Century.

[3] Nota do tradutor: Do francês, tendo em vista

[4] Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio

[5] Acordo de Livre-Comércio EUA-Coréia

[6] Acordo de Associação Transpacífico

[7] Tratado de Livre-Comércio entre EUA, América Central e República Dominicana.

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