“O Brasil será um novo Vietnã”: Entrevista com Carlos Marighella

Originalmente publicado no site do Editorial Adandé, disponível aqui.

O material publicado pelo Editorial faz parte do livro “Marighella: Estratégia e Revolução“, disponível para compra aqui.

De acordo com o site a entrevista inédita publicada tem como fonte os documentos originais cedidos gentilmente pelo jornalista e biógrafo de Marighella, Mário Magalhães, sendo revisada a partir da tradução do Serviço de Informação do próprio DOPS, dos originais da Revista Front e da versão publicada em francês no livro Pour la libération du Brésil.


“O Brasil será um novo Vietnã”, declarou ao nosso enviado especial, Conrad Detrez, o líder revolucionário brasileiro, Carlos Marighella, na entrevista que concedeu antes da sua morte.

FRONT – Revista mensal de informação política internacional. Nº 3 – França, novembro de 1969.

Em fins de setembro, em certa localidade, de uma grande cidade brasileira, nosso enviado especial se encontrava com Carlos Marighella, o líder da nova vanguarda revolucionária do Brasil. Registrava a primeira entrevista concedida a um jornal europeu. E será a última. Hoje, publicam nos jornais, Carlos Marighella morreu, abatido pela polícia brasileira. A entrevista que publicamos tem, portanto, maior importância ainda. E é propositalmente que a conservamos tal como havia sido inicialmente redigida, apesar do destino trágico que fez caducar algumas das informações iniciais. Marighella é “inatingível” escrevíamos. Era verdade, e no entanto, ele foi capturado – provavelmente porque a tortura fez afrouxar alguns dos seus camaradas. O inimigo, provisoriamente, foi o mais forte. E isso é uma informação essencial, nada mais, mesmo porque “considerando que outra mão se levante e outra voz reentoe o canto de guerra”.

Che Guevara morre assassinado a 8 de outubro de 1967. Antes de decorrido dez dias, em Havana, Carlos Marighella redige um pequeno trabalho de uma quinzena de páginas, no qual define os princípios básicos, que condicionam, conforme seu ponto de vista, o lançamento, o desenvolvimento e o sucesso da luta de guerrilha no Brasil. Dedica-o ao “heroico guerrilheiro” cujo “exemplo permanecerá e frutificará em toda América Latina”. O golpe de partida foi dado; o dirigente que acaba de romper com o Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro preferiu continuar a luta iniciada pelo ex-braço direito de Fidel Castro no coração do continente. Ele vai substituí-lo, mas não o imitará; é preciso sair do impasse aqueles que a essa situação foram levados pela famosa “teoria do foco” sistematizada por Régis Debray, que um pouco, em toda parte, está sendo posta em prática. O avanço do “foquismo” não será realizado dentro de casas ou em gabinetes, mas nas ruas e ao ar livre. Carlos Marighella tem em mente algumas noções claras: guerrilha urbana, guerrilha rural, mobilidade, guerra de movimento. Por volta do final do ano de 1967, ele entra clandestinamente no Brasil para aí fundar, sob o nome de “Ação Libertadora Nacional”, grupos dispostos a desencadear com ele a luta armada. A partir de setembro-outubro de 1968, os ataques contra os bancos, quartéis e estabelecimentos abrigando agentes do imperialismo americanos multiplicam-se no Rio, São Paulo e Belo Horizonte. A guerrilha urbana começou. Golpes espetaculares ocorreram: o assassinato do capitão Chandler, agente da CIA, a ocupação de estações de rádio e a difusão de mensagens revolucionárias, a libertação de um grupo de militantes da prisão central no Rio, o sequestro em pleno dia, no centro da cidade, do embaixador dos Estados Unidos. “E ações ainda mais importantes se seguirão” disse-me o próprio Marighella. Encontrei-o no subúrbio de uma das grandes cidades do país. Há um mês que esperava até que a entrevista foi concedida. Pela primeira vez, desde sua entrada no Brasil, ele aceita responder às perguntas de um jornalista. Mas esse encontro não poderá ser realizado senão quando as condições de segurança forem suficientes; por volta do final de setembro. Todas as polícias o procuram, em colaboração com a CIA e agentes do FBI, chegados no dia seguinte do sequestro do embaixador. Não será fácil encontrá-lo. Guevara foi preciso ser encurralado em um recanto perigoso do solo bolivariano. Marighella encontra-se, um dia no Rio, dois dias após em São Paulo, no quinto dia em Porto Alegre, na semana seguinte em Belo Horizonte, depois em Brasília ou Recife, cidades de mais de um milhão de habitantes. Imaginem um homem que na segunda-feira estivesse em Londres, na quarta em Paris, na sexta em Madri, na semana seguinte em Berlim e, alguns dias depois em Belgrado ou Atenas, uma vez que são essas as dimensões do Brasil e, além do mais, é infinitamente menos organizado que a Europa; um homem que ainda por cima, faz, desde há alguns meses, estadas no campo por tempo prolongado; a guerrilha urbana está bem lançada; agora é preciso preparar a guerrilha rural. Assim é Marighella, inatingível, onipresente, um forte e vivo mulato da Bahia. Tem 57 anos, trinta de Partido Comunista, e uns dez de prisão.

Trazem-nos café. Retiro do bolso a minha lista de perguntas, algumas inspiradas pelo muito agitado mês de setembro que acaba de findar.

Conrad Detrez (Front): O que sua organização traz de novo ao movimento revolucionário brasileiro?

Carlos Marighella: A ação! Para nós tudo nasce da ação: a vanguarda, os dirigentes… formamos grupos de combatentes armados. A vanguarda são eles. A direção conserva os mais sagazes (portanto os mais políticos) e os mais corajosos. A organização vem depois. A maior parte dos outros grupos, mesmo os formados por pessoas oriundas do PC, todos querem, antes de tudo, fundar um partido – um novo PC, com centralismo democrático e tudo – e, em oposição ao PCB. No seu programa consta a luta armada, isto é, a revolução que eles farão mais tarde.

Conrad Detrez (Front): Direção política e direção militar não serão uma só coisa?

Carlos Marighella: Absolutamente.

Conrad Detrez (Front): E entre a direção e a base?

Carlos Marighella: Nada. Não há escalonamentos intermediários. Os grupos de base, desde que sejam dentro da perspectiva da nossa estratégia, podem tomar todas as iniciativas que quiserem, uma vez que se trate de ação. A prática, ela leva ao marxismo ou então não servirá de nada.

Conrad Detrez (Front): Pode haver várias direções político-militares, já que a Ação Libertadora Nacional que você está dirigindo não é a única que defende essas teses. Como então se situa o problema de comando único?

Carlos Marighella: Primeiramente nossa estratégia, – uma estratégia de guerra revolucionária para o Brasil (ele insiste nestas últimas palavras) – não é algo fechado, algo que tem que ser trabalhado de uma vez por todas. Nossas orientações estão claramente definidas: guerrilha urbana, guerrilha rural, mobilidade, guerra de movimento, alianças militares-operários-camponesas, papel tático e complementar da luta na cidade, articulada com a luta no campo, que é a base estratégica da revolução. Além de tudo isso, as organizações que, hoje, lutam com armas na mão, estão de acordo, sem que todas vejam exatamente da mesma maneira o desenvolvimento da luta. Mas elas combatem; é na prática que as coisas se esclarecem, que se fará uma unidade estratégica cada vez maior e que, então, se formará um comando único. O que é certo é que, em volta de uma mesa, nunca se chegará a isto. Um comando único nascido de simples discussões seria artificial; se decomporia logo em seguida.

Conrad Detrez (Front) – Nesta estratégia, você distingue três fases: a preparação da guerra de guerrilha, sua deflagração e a transformação da guerra de guerrilha em guerra de movimento. Onde estamos agora no Brasil?

Carlos Marighella – Entramos na segunda fase. A primeira foi formar grupos de combatentes armados, transformar a crise política permanente em uma situação militar, fazer os generais do governo admitirem que a guerra revolucionária tinha de fato começado. A guerrilha urbana está se instalando; a guerrilha rural será desencadeada este ano. Anunciamos a dispersão do inimigo que está organizando manobras antiguerrilha em várias partes do país. Estas regiões, e só estas regiões, ele as conhece bem. Nós não iremos lá.

Conrad Detrez (Front) – Por que começar com a guerrilha urbana?

Carlos Marighella – Na situação de ditadura que o país está vivendo, o trabalho de propaganda e divulgação só é possível, a priori, nas cidades. Os movimentos de massas, sobretudo os que haviam sido organizados pelos estudantes, pelos intelectuais, por certos grupos de militantes sindicais, criaram, nas principais cidades do país, um clima político favorável à aceitação de uma luta mais dura (as ações armadas). As medidas antidemocráticas tomadas pelo governo (fechamento do congresso, supressão das eleições, cassação do mandato parlamentar de mais de 100 deputados e senadores, censura da imprensa do rádio e da televisão) e inúmeros atos de repressão contra estudantes, muitos professores e jornalistas, criaram um clima de revolta. A cumplicidade da população foi conseguida pelos revolucionários. A imprensa clandestina progride. As emissões piratas são recebidas favoravelmente. A cidade reúne, pois, as condições objetivas e subjetivas requeridas para que se possa desencadear com sucesso a guerrilha. No campo, a situação está evidentemente menos favorável. A guerrilha rural deve, portanto, ser posterior à guerrilha urbana, cujo papel é eminentemente tático. Por outro lado, os combatentes que lutarão nos campos terão sido testados antes, durante a luta urbana. Os mais corajosos entre eles serão enviados aos campos.

Conrad Detrez (Front): Como você planeja continuar a guerrilha urbana?

Carlos Marighella: Podemos fazer muitas coisas: raptar, dinamitar, atirar nos chefes de polícia, especialmente naqueles que torturam ou assassinam nossos camaradas; depois continuar a expropriar armas e dinheiro. Desejamos que as forças armadas adquiram os mais modernos e eficientes armamentos, nós os roubaremos deles. Posso assegurar desde já que sequestraremos outras personalidades importantes e para objetivos mais amplos do que a libertação de 15 prisioneiros políticos, como foi o caso do sequestro do embaixador americano.

Conrad Detrez (Front): Quem serão os guerrilheiros rurais?

Carlos Marighella: Grupos aos quais serão incorporados homens nascidos no campo e que foram para a cidade para trabalhar. Eles foram politizados e treinados lá; agora eles estão voltando para casa. O êxodo rural, que é importante na América Latina, é um fator positivo a este respeito. Aliás, a incorporação dos camponeses à revolução é indispensável se quisermos transformar profundamente a sociedade brasileira. Uma luta que simplesmente opõe a burguesia ao proletariado urbano pode terminar em conciliação, não seria a primeira vez que o proletariado urbano se deixaria integrar neste sistema.

Conrad Detrez (Front): O senhor é maoísta?

Carlos Marighella: Eu sou brasileiro. Eu sou o que a prática revolucionária realizada no contexto brasileiro fez de mim. Nós seguimos nosso próprio caminho e se chegamos à pontos de vista iguais aos de Mao, Ho Chi Minh, Fidel Castro, Guevara, etc., não foi pelo nosso desejo.

Conrad Detrez (Front): O senhor tem naturalmente algumas simpatias particulares?

Carlos Marighella: Estive na China entre 1953 e 54. Foi o partido que me mandou para lá. Eu começava, nesta época, a contestar a sua linha e era o mais forte candidato às eleições internas no Estado de São Paulo. O Partido afastou-me, portanto, por algum tempo. Na China estudei bastante a revolução. Mas, se formos falar de inspiração, a nossa vem especialmente de Cuba e do Vietnã. A experiência cubana, para mim, foi determinante, principalmente no que concerne à organização de um grupo inicial de combatentes.

Conrad Detrez (Front): A sua ideologia?

Carlos Marighella – Marxista-leninista. Mas não “ortodoxa”, como dizem. Nós não seguimos nem seguiremos jamais, mesmo após a tomada do poder, nenhuma ortodoxia. Ortodoxia é negócio de igreja.

Conrad Detrez (Front): O empreendimento revolucionário, o senhor mesmo espera realizá-lo?

Carlos Marighella: A questão não é essa. Sei apenas de uma coisa: a marcha revolucionária foi desencadeada, ninguém poderá detê-la. A revolução não é um negócio de alguns; mas sim de um povo e sua vanguarda. Faço parte, por haver dado, com outros camaradas, o golpe de partida. Mas é claro que a luta será longa e que virá o dia em que pessoas mais jovens que eu deverão me substituir. Aliás, a maior da parte dos militantes que segue nossa orientação é pelo menos vinte cinco anos mais moça do que nós. Chegada a hora, um deles levará minha bandeira ou meu fuzil, se assim preferir.

Conrad Detrez (Front): Será que a guerrilha urbana exclui o movimento das massas, como por exemplo, as greves ou as manifestações estudantis?

Carlos Marighella: Absolutamente. Mas na atual situação de ditadura total, de fascismo absoluto, manifestar, ocupar uma fábrica, sem ser apoiado por grupos armados, seria suicídio. Por ocasião das últimas manifestações no Rio e em São Paulo, alguns estudantes foram mortos. A polícia atirou neles. Para se defender, eles não tinham senão alguns pedaços de pau ou simplesmente nada. Da próxima vez, será diferente; se os operários forem ocupar suas fábricas, eles serão armados previamente. É assim, aliás, que vejo a conjunção da guerrilha urbana e do movimento de massas. Por outro lado, os operários podem muito bem sabotar as máquinas, fabricar armas clandestinamente, destruir o material. Para os homens casados, pais de família, é a única forma de guerrilha possível atualmente.

Conrad Detrez (Front): E o trabalho de massas, isto é, a tomada de consciência, a politização, a organização?

Carlos Marighella: É necessário, mas não necessariamente anterior à luta armada, salvo para a esquerda tradicional. Em termos de guerra revolucionária, trabalho de massas e luta armada são simultâneos e interdependentes; um age sobre o outro e vice-versa.

Conrad Detrez (Front): Pode-se ler em um de seus documentos: “A aliança armada do proletariado, dos camponeses e da classe média urbana é a chave da vitória”. Ora, de acordo com uma revista local, sobre os 150 revolucionários presos ou identificados, 38% são estudantes, 20% militares ou ex-militares, 17% de profissão liberal, 16% funcionários públicos, comerciantes, etc., somente 8% são operários. É representativa a exposição acima? Em caso afirmativo, como equilibrar de novo a balança a favor do proletariado?

Carlos Marighella: Estes números se aplicam apenas à guerrilha urbana e particularmente aos grupos mais comprometidos de combatentes. Aqueles que fazem o trabalho de massa dificilmente foram alcançados, nem aqueles que constituem as redes de apoio logístico. Não deixa de ser verdade que os que mais nos apoiam são, na cidade, a classe média e no campo, os camponeses. Entre as pessoas que foram presas ou identificadas não se encontravam camponeses, simplesmente porque a guerrilha rural ainda não começou. E as bases clandestinas que estamos preparando no campo são ignoradas por todos. É preciso reconhecer que a classe operária ainda está pouco presente na luta, deve-se isso a circunstâncias históricas próprias do Brasil. Entre nós, o movimento sindical que começou por volta de 1930 foi sob impulso do presidente Vargas, chefe do Estado, portanto paternalista. Não houve conquistas operárias, portanto não houve lutas. Houve uma liberalidade por parte de Vargas. Os sindicatos sempre dependeram do Ministério do Trabalho; por conseguinte, sem autonomia. Além disso, nunca houve unidade sindical, o governo tinha o cuidado de fragmentar o movimento do qual, aliás, a base seguia cegamente a direção que por sua vez acompanhava cegamente o governo. Enfim, se nas suas fábricas os operários se mostrassem muito agressivos, havia sempre milhares de emigrantes chegados dos campos para substituí-los. Tudo isto não impediu o desenvolvimento de greves muito duras como, por exemplo, a de Osasco, em um subúrbio de São Paulo. De qualquer maneira, à medida em que a luta se desenvolver, o proletariado se encontrará um dia, todo ele, na encruzilhada dos caminhos e deverá escolher. Escolherá a luta, porque a burguesia é, historicamente, sua inimiga de classe.

Conrad Detrez (Front): A guerrilha rural surgirá simultaneamente em diversos pontos do Brasil?

Carlos Marighella: Sim. Atacaremos os grandes proprietários de terras brasileiros e americanos. Sequestraremos ou mataremos os que exploram e perseguem os camponeses. Tomaremos os rebanhos e os víveres das grandes fazendas para dá-los aos camponeses. Desorganizaremos a economia rural e não defenderemos nenhuma área, nenhum território, nada disso. Defender é acabar por ser vencido. É preciso que, sempre, em toda parte, como para a guerrilha urbana, que tenhamos a iniciativa. A ofensiva é a vitória. Outro ponto importante é a mobilidade. É essencial para escapar ao cerco e à repressão; portanto, manter a iniciativa. Certamente devem ter reparado que anunciamos muitas vezes quais serão nossas próximas ações. É de propósito; faz parte da nossa estratégia. Isso força o inimigo a dispersar suas tropas e a traçar seus planos de ataque ou de defesa, portanto a perder a iniciativa do combate. Ele sabe o que nós faremos, mas não sabe nem onde, nem quando, nem como, nós o faremos. Assim, sempre levamos a vantagem; esse é um dos aspectos mais infernais da guerra revolucionária. Um outro princípio importante é a astúcia e o povo é astucioso.

Conrad Detrez (Front): O senhor é contra as ideias de Régis Debray?

Carlos Marighella: Algumas ideias me foram úteis; no que concerne à teoria do “foco insurrecional” estou em desacordo.

Conrad Detrez (Front): Os camponeses brasileiros aderirão mais facilmente à luta do que os bolivianos, que são índios e que, por razões históricas, desconfiam dos brancos e dos mestiços? Em outras palavras, o camponês brasileiro será mais permeável?

Carlos Marighella: No Brasil, este negócio de permeabilidade é um falso problema. O verdadeiro problema é o da infraestrutura da guerrilha. Há várias regiões do Brasil onde camponeses pretos, brancos, mulatos, mestiços de índios e de negros ou de índios e de brancos, participaram, com o apoio de estudantes ou de intelectuais, de movimentos políticos às vezes muito combativos como, por exemplo, as Ligas Camponesas de Francisco Julião. É com essa gente que é preciso preparar a infraestrutura de que falo; são eles que devem assegurar o transporte de homens e de víveres; são eles que servirão de guias. Posso mesmo dizer desde já que os setores de informação serão formados pelos próprios camponeses. Pode-se também partir dos seus movimentos de reivindicação, que também serão apoiados por grupos armados. E depois, os camponeses perseguidos virão se refugiar na guerrilha o que engrossará nossa coluna.

Conrad Detrez (Front): E o cangaço? Não poderá a guerrilha rural degenerar em banditismo de honra como foi o caso para os cangaceiros?

Carlos Marighella: Se ela for integrada dentro de uma estratégia global e conduzida em termos de luta de classes é impossível. 

Conrad Detrez (Front): A extensão continental do Brasil favorece ou desfavorece sua estratégia? 

Carlos Marighella: Favorece. No Brasil a colonização se fez ao longo do litoral. Foi lá que as forças de repressão do poder burguês (tropas, armas, tribunais, prisões…) se instalaram. Do centro para o oeste elas são muito fracas; nesta região o cerco estratégico a partir do litoral é praticamente impossível; existem grandes obstáculos naturais que separam a faixa costeira (mais ou menos 500km de largura) do centro: rios, montanhas, matagais. E depois, o Brasil confronta deste lado com países onde a guerrilha já foi implantada. As dimensões continentais do Brasil desfavorecem a aplicação da teoria “foquista”, mas favorece nossa estratégia de guerra revolucionária. 

Conrad Detrez (Front): No transcurso deste ano, pôde o Senhor notar uma evolução positiva no modo pelo qual a população considera a guerrilha urbana?

Carlos Marighella: Certos atos, como a leitura de manifestos pelo rádio, o sequestro do embaixador americano, porque esclarecem o povo sobre o sentido político da nossa luta, suscitaram um forte movimento de simpatia. O mesmo acontece em relação aos saques de dinheiro nos bancos; os pobres sabem muito bem que é o dinheiro dos ricos que nós tomamos e que vai servir para lutar contra aqueles que os oprimem.

Conrad Detrez (Front): A estratégia para o Brasil faz parte de uma estratégia revolucionária continental?

Carlos Marighella: Naturalmente, pois é preciso responder ao plano global do imperialismo norte-americano com um plano global latino-americano. Nós estamos ligados à OLAS (Organização Latino-Americana de Solidariedade) como muitas outras organizações revolucionárias do continente, e, em particular, aquelas que, nos países vizinhos, lutam com o mesmo objetivo que nós. Enfim, é um dever face à Cuba libertá-la do cerco imperialista ou aliviá-la da sua pressão, combatendo em toda parte. A revolução cubana é a vanguarda da revolução latino-americana; esta vanguarda deve sobreviver.

Conrad Detrez (Front): Vocês recebem armas ou dinheiro de Cuba?

Carlos Marighella: Não. O Brasil tem muito mais armas e dinheiro do que Fidel Castro. É um imperativo da nossa estratégia tomar armas e dinheiro do inimigo, isto o enfraquece e cria um clima de guerra revolucionária.

Conrad Detrez (Front): Por que acusar o imperialismo americano e nunca o alemão e o japonês?

Carlos Marighella: Porque é fundamentalmente sobre o americano que se apoiam a ditadura e a burguesia. Não morremos de amor pelos outros dois, mas é o imperialismo americano que devemos quebrar. A ruína dos outros se seguirá.

Conrad Detrez (Front): Certos esquerdistas acusam a ALN, que o senhor dirige, de fazer uma luta anti-oligárquica e de libertação nacional e não uma luta pela revolução socialista.

Carlos Marighella: Antes de fazer o socialismo, é preciso liquidar o aparelho burocrático e militar da reação e esvaziar o país do invasor norte-americano. Nisto seguimos, aliás, a declaração geral da OLAS. Como para Cuba, seguindo-se esta orientação chega-se necessariamente ao socialismo.

Conrad Detrez (Front): O senhor acredita que a ditadura militar e a burguesia farão um apelo à intervenção militar americana caso a extensão da guerrilha chegasse a ameaçá-las seriamente?

Carlos Marighella: Creio que as tropas americanas intervirão. A ocupação econômica de agora se tornará também uma ocupação militar, é portanto, evidente aos olhos de todos; o Brasil então se transformará em um novo Vietnã, algumas dezenas de vezes maior.

Conrad Detrez (Front): É possível que surja no Brasil no seio dos setores armados uma corrente nacionalista ou “nasserista”, capaz de tomar o governo e aplicar uma política semelhante à dos generais peruanos? Em caso afirmativo, não precisaria rever a sua estratégia?

Carlos Marighella: Existe uma corrente nacionalista, mas que não tem nenhuma chance de se impor. Aliás, ser apenas anti-imperialista, no ponto que as coisas chegaram no Brasil, seria pura demagogia. A mossa fase de desenvolvimento é superior à do Peru; as relações econômicas entre os Estados Unidos e o Brasil passam por mecanismos mais complexos. De qualquer forma, mesmo se a corrente dita “nasserista” se impusesse, isto não mudaria em nada nossa estratégia, pois um poder “nasserista” continua a ser um poder burguês; as estruturas da sociedade seriam as mesmas. Digo mais, o Brasil de hoje não é o Peru da véspera da tomada de poder pela Junta; há aqui uma situação de guerra revolucionária que não existia lá. Esta situação leva antes à união das forças armadas do que à rivalidade entre suas diversas tendências. Os militares patriotas no Brasil só tem uma escolha: desertar ou sabotar.

Conrad Detrez (Front): Li em um jornal brasileiro que o “Pravda” havia anunciado o sequestro do embaixador Burke Elbrick como: “um ato de um pequeno grupo de desconhecidos”. O que pensa o senhor?

Carlos Marighella: Que o “Pravda” está mal informado, embora disponha dos meios de conhecer a verdade.

Conrad Detrez (Front): A coexistência pacífica?

Carlos Marighella – É problema dos soviéticos. Para nós, povos do Terceiro Mundo, é inviável.

Conrad Detrez (Front):  Muda alguma coisa o restabelecimento da pena de morte?

Carlos Marighella: A ditadura apenas legalizou uma situação de fato. Antes disso, ela já assassinava nossos camaradas. Esta pena de morte, nós também a aplicaremos.

Conrad Detrez (Front): O aparecimento de uma série de grupos revolucionários autônomos é, segundo sua opinião, positivo. Se assim for, como resolver os problemas de coordenação e unidade estratégicas?

Carlos Marighella – É positivo porque enfraquece os golpes da repressão; os pequenos grupos caem, mas a espinha dorsal do movimento revolucionário permanece intacta. A Ação Libertadora Nacional praticamente não foi atingida; ela está presente em todo o Brasil, desde a embocadura do Amazonas até a fronteira do Uruguai. Quanto à unidade e coordenação da luta, é função da identidade das concepções ideológica e estratégica; é a aplicação de uma mesma estratégia que os integra em um só vasto movimento. A direção deste movimento aparecerá e se afirmará no correr da luta. Um grupo de homens e de mulheres que podem vir de diferentes organizações, se destacará necessariamente e se revelará capaz de conduzir o empreendimento revolucionário a termo. Também, a posição da ALN consiste em ajudar, amparar, fornecer armas e treinar os militantes desses grupos autônomos.

Conrad Detrez (Front) – Poderá o eixo Rio-São Paulo representar o papel excepcional que representou o eixo Moscou-Leningrado na revolução de outubro?

Carlos Marighella – O triângulo Rio-São Paulo-Belo Horizonte constitui de hoje em diante a base de sustentação do imperialismo, da burguesia e do latifúndio. É aí que se encontra concentrado todo o poderio do Estado (economia, finanças, forças armadas e policiais, órgãos de propaganda, cultura, etc.). Até pouco tempo, considerava-se que a zona mais propícia para o desencadeamento da revolução era a do Nordeste e esquecia-se de que o setor Rio-São Paulo-Belo Horizonte podia reunir os meios suficientes para sufocar qualquer tentativa revolucionária no Nordeste. Assim, decidimos transferir o centro de gravidade do trabalho revolucionário para o sul do país. A experiência prova que fizemos bem. Conseguimos abalar a referida base de sustentação; obrigamos as forças de repressão a não sair do triângulo onde já tem muito o que fazer e as impedimos, ao mesmo tempo, de ir reprimir as forças revolucionárias em ação no Nordeste e em qualquer outro lugar. Os golpes que desferimos contra as forças reacionárias do triângulo Rio-São Paulo-Belo Horizonte são decisivos; é aí que devem ser desferidos os mais violentos. Comparar o eixo Rio-São Paulo com Moscou-Leningrado não é assim tão válido uma vez que em 1917 o papel dessas cidades não estava incluído, como é o nosso caso, na estratégia de guerra revolucionária. Há, todavia, um ponto em comum, talvez sobre o plano de base da reação.

Ao termino da entrevista, um casal de pessoas simples nos traz sanduíches, leite, café e frutas. “Eles são católicos” – disse-me Marighella; nós nos entendemos bem porque eles sabem que eu sou pela liberdade religiosa. E pela inteira separação da Igreja e do Estado. Aliás, uma das coisas que mais irrita os generais, é que eles não conseguem lançar a igreja contra os revolucionários. E não são só grupos católicos que participam da nossa luta; há espíritas, protestantes e todas essas pessoas do povo que frequentam os centros de cultos africanos.” Pergunto-lhe por que ele esperou a conferência da OLAS, em 1967, para romper com a direção do PCB – “É porque nesta ocasião eu sustentava uma importante luta interna, sobretudo em São Paulo, de onde vieram os primeiros e melhores militantes da ALN. Agora, o partido está muito enfraquecido; Luís Carlos Prestes está velho e prisioneiro de um grupo de burocratas completamente corrompidos pela ideologia burguesa”. Contou-me ainda sobre o escândalo que fez no Rio, em 1964, alguns dias depois do golpe de Estado. Tinha marcado um encontro com um camarada em um cinema. Na saída, agentes da polícia política o esperavam. Logo que percebeu tentou fugir. Os agentes atiraram, ele recebeu três balas em pleno ventre. Ensanguentado, no meio das pessoas que deixavam a sala, começou a gritar: “Estas balas que estão vendo, doravante serão revidadas contra a ditadura.” Eu estava esperando por isso. Depois de dois meses de prisão, foi-me restituída a liberdade, pois a polícia não podia me acusar de outra coisa concreta. Desde então, venho me aprofundando na promessa desta frase”. Quanto à sua origem é assunto reservado. “Nasci na cidade do Salvador, na Bahia: meu pai era um imigrante italiano; minha mãe uma negra. Sou neto de escravos”. Depois da refeição, fomos para um jardim que tinha várias saídas. Deu-me um grande e caloroso abraço e se retirou acompanhado de dois seguranças.

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