Escrito por Brian Becker e publicado em 20 de julho de 2018 na Liberation School.
Tradução por Daniel Aquino.
Este artigo fornece uma visão geral e análise das mudanças significativas no imperialismo que ocorreram desde que Lenin publicou seu famoso texto em 1916, e como estas se relacionam com a luta pelo socialismo. Nos concentramos, em particular, no período que seguiu à Segunda Guerra Mundial, quando a grande onda de revoluções socialistas e nacionalistas varreu o globo. Este artigo cobre as mudanças no imperialismo de 1990 a 2015.
O marxismo utiliza de métodos científicos para investigar e extrair conclusões sobre a sociedade, mas ele também representa uma visão geral de mundo profundamente partidária. Está enraizado nas lutas das classes exploradas e dos povos oprimidos pela reorganização da sociedade sob o interesse da maioria, e não das elites privilegiadas que dominam todos os centros de poder econômico, político e militar nas sociedades capitalistas.
Marxistas estudam os principais escritos teóricos de pensadores revolucionários diferente do modo como religiosos estudam os textos sagrados fundantes como verdades atemporais e universais.
As obras centrais do marxismo devem ser encaradas e estudadas com firme entendimento sobre seus tempos e contextos. Sua universalidade, por assim dizer, provém apenas da sua capacidade de generalizar a partir de – e de se relacionar com as – experiências históricas reais. Dado que o marxismo também abarca o conceito da mudança dialética, ele reconhece que todos os fenômenos – sejam em sociedade ou na natureza – estão sujeitos a uma interminável série de mudanças.
O “Imperialismo: Etapa Superior do Capitalismo” de Lenin foi uma obra de economia política escrita como parte de uma polêmica contra aqueles socialistas que apoiavam – de uma forma ou de outra – o esforço de guerra de “seu próprio governo” durante a Primeira Guerra Mundial.
O ponto central de Lenin nesse período foi que a era do imperialismo seria também a “véspera da revolução socialista”. Todos os socialistas reais deveriam se opor intransigentemente a traições oportunistas à sua causa e aproveitar o momento para trabalhar pela derrota da “sua própria classe dominante”.
Lenin argumentou que todos os governos lutavam por objetivos predatórios, expansionistas e coloniais. Ele demonstrou que o capitalismo havia emergido como um sistema mundial condenado a ser tragado por guerras e mais guerras na medida em que os imperialistas repartiam o planeta para fins de exploração.
Por isso, ele argumentou que a guerra era agora “inevitável” e que o único caminho para a paz seria derrubar a ordem capitalista e substituí-la pelo socialismo.
Neste artigo iremos mostrar que o mundo passou por uma mudança fundamental após a Segunda Guerra Mundial e que, ao menos durante um determinado período, o mecanismo da guerra foi profundamente distinto daquele descrito pelo panfleto de Lenin de 1916.
Guerras sem fim e militarismo na era moderna
Qualquer um vivendo nos Estados Unidos que tenha nascido depois de 1990 tem sido testemunha do fato que o “seu” governo esteve em guerra por mais do que a metade de suas vidas. Os Estados Unidos invadiram o Afeganistão em outubro de 2001 e estão até hoje em guerra. Os Estados Unidos invadiram o Iraque em março de 2003 e ainda estão realizando bombardeios e operações militares nesse país. Os Estados Unidos lideraram a aliança da OTAN para realizar uma guerra de bombardeios massivos na Líbia em 2011. Os Estados Unidos realizaram ataques contínuos via drones e outros meios no Paquistão, Iêmen e Somália.
Os líderes dos dois maiores partidos aceitaram o conceito da “longa guerra” que perdurará por décadas. O estímulo, ou justificativa, da guerra sem fim por parte dos Estados Unidos é diferente das muitas outras guerras, invasões e ocupações que foram realizadas pelo Pentágono e pela máquina militar dos Estados Unidos da América. A “guerra sem fim” não é contra um Estado particular, embora tenha e venha a ter múltiplos governos como alvos. A guerra sem fim deve ser conduzida contra qualquer entidade – organização, movimento ou governo – tida como um alvo pelo amplíssimo tema da “guerra ao terror”.
O Pentágono mantém mais de 1,000 bases e instalações militares em países do mundo todo. O Pentágono também mantém centros de comandos estratégicos para cada região do globo.
Em certo sentido, é dispensável provar, seja por argumentos políticos ou teóricos, que o principal governo capitalista do mundo inevitavelmente irá à guerra. De fato, a história tem mostrado que os líderes políticos e militares dos Estados Unidos proclamam abertamente que permanecerão em guerra por um período indeterminado.
Tal como previsto pelas lideranças capitalistas estadunidenses, essas guerras sem fim serão limitadas por diversos fatores. Serão guerras unilaterais e as bombas só vão cair no território dos outros povos. Aqueles que morrerem não serão dos Estados Unidos, com exceção talvez de alguns desafortunados pilotes ou comandantes.
Apesar de suas visões, isso não elimina a possibilidade muito real de que grandes guerras, mesmo com grandes Estados, possam surgir. A expansão da OTAN para o leste, com todas as inerentes ameaças contra a Rússia, assim como a orientação dos Estados Unidos contra a Ásia, estão nitidamente preparando terreno para a possibilidade de uma guerra em grande escala contra ambas Rússia e a China. Embora a perspectiva de tal conflito global pareça insana – e de um ponto de vista humano, é óbvio que seria – assim também foram a primeira e segunda guerras mundiais.
O debate sobre guerra e militarismo
Embora pareça óbvio agora que a guerra imperialista é inevitável e interminável, especialmente porque as lideranças dos países imperialistas mais fortes assim o proclamam, o problema da inevitabilidade da guerra tem sido assunto de grandes debates e controvérsias dentro dos movimentos socialistas e comunistas. Por baixo desses debates, na raiz das polémicas, estiveram diferentes orientações políticas quanto ao imperialismo e o militarismo, sendo elas fundamentadas por distintas tendências, facções e organizações.
Os acirrados debates políticos acerca do problema da “inevitabilidade da guerra” foram um ponto de divisão durante a primeira guerra mundial, cindindo o movimento comunista à época existente em dois campos conflituosos: um grupo em torno da Segunda Internacional (socialistas) e outro grupo em torno da Terceira Internacional (comunistas).
Também se tornou um importante ponto de contenda nas polémicas entre o Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e o Partido Comunista da China (PCCh). Ambos o Partido Comunista Chines e o Partido Comunista Soviético usaram a tese de Lênin sobre imperialismo e guerra como ponto de referência para as suas posições conflitantes em 1960.
O que tornou a guerra inevitável sob capitalismo
A tese de Lenin exposta em “Imperialismo” argumenta que a guerra é um traço inevitável e dominante no capitalismo atual. O cerne do argumento de Lenin é que a evolução do capitalismo para sua fase monopolista resultou na quase completa divisão do planeta entre um punhado de países imperialistas concorrendo por esferas de influência e colônias. Essa situação obrigaria os imperialistas a entrarem em guerra uns contra os outros num esforço para adquirir novos mercados e matérias primas. Lenin utilizou os dados econômicos disponíveis para demonstrar que cada um dos monopólios capitalistas, oligarquias financeiras dominantes e maiores bancos, iriam procurar implacavelmente novas áreas onde pudessem exportar seu excedente de capital. Dado que nenhuma região do planeta estava disponível, e visto que um ou outro dos imperialistas já detinha domínio sobre cada uma das áreas, então as entidades imperialistas concorrentes, representadas por seus próprios governos, seriam eventualmente obrigadas a resolver a questão através da força das armas.
Lenin argumentou que essa última fase – ou “fase superior” – do capitalismo sugou todos os países capitalistas avançados para dentro do turbilhão do expansionismo militar. Alguns lideraram o caminho, outros foram arrastados para a disputa, mas nenhum poderia evitar o fenômeno. Não havia nenhuma estrada rumo à paz ou alguma possibilidade de paz prolongada. A guerra era, então, um traço sistemático e inevitável da ordem socioeconômica global que passou a dominar o planeta.
A conclusão teórica disso foi bem clara: A única estrada para paz, para uma paz sustentável, era através da liquidação do próprio sistema capitalista. E a implicação política dessa conclusão foi que os partidos comunistas e socialistas de cada um dos respectivos países deveriam utilizar da guerra – e da crise e perturbação que dela advém – como trampolim para a derrubada da classe capitalista dominante em seus países.
Outros socialistas – na verdade, a maioria dos socialistas daquele tempo (1916) – adotaram a posição segundo a qual a guerra seria uma política, e não um traço fundamental e inevitável do capitalismo atual.
O Partido pelo Socialismo e Libertação (PSL) estuda o panfleto de Lenin e utiliza seus argumentos fundamentais como sustentáculos de nossa posição sobre o imperialismo e a guerra. Porém, a natureza do imperialismo, algumas de suas principais características e alguns traços importantes da economia e política imperialista passaram por mudanças dramáticas desde 1916, quando Lenin escreveu seu panfleto.
Se Lenin fosse escrever seu panfleto hoje, ele indubitavelmente iria avaliar e analisar as mudanças que ocorreram. Embora mantenha a sua validade fundamental, certas partes do panfleto são hoje em dia antiquadas devido às mudanças dramáticas na ordem social e econômica mundial.
A mais dramática das mudanças é que a grande parcela do mundo que foi colonizada pelas potências imperialistas da Europa e dos Estados Unidos é hoje independente.
A centralidade do colonialismo para a tese de Lenin
Antes de examinar os traços contemporâneos do imperialismo no mundo pós-colonial – um mundo que surge apenas após a Segunda Guerra Mundial (1945-1980) – é importante compreender o quão central foi o crescimento tempestuoso do colonialismo na segunda metade do século 19 e primeiras décadas do século 20 para a tese original de Lenin em “Imperialismo”. Lenin escreveu:
Para a Inglaterra, o período de enorme intensificação das conquistas coloniais corresponde aos anos de 1860 a 1890 e foi muito considerável também durante os últimos vinte anos do século XIX. Para a França e para a Alemanha corresponde exatamente a esses vinte anos. Vimos acima que o período de desenvolvimento máximo do capitalismo pré-monopolista, o capitalismo em que predomina a livre concorrência, vai de 1860 a 1870. Agora vemos que é exatamente depois desse período que começa o enorme ascenso de conquistas coloniais, que exacerba até um grau extraordinário a luta pela partilha territorial do mundo. É indubitável, por conseguinte, que a passagem do capitalismo à fase do capitalismo monopolista, ao capital financeiro, se encontra relacionada com a exacerbação da luta pela partilha do mundo.
Antes desse avançp da expansão colonial, as classes dominantes da Europa debateram seriamente o problema de prosseguir ou não com uma política colonial. Muitos argumentaram que o domínio colonial era um fardo desnecessário. Lenin escreveu:
Na época de maior florescimento da livre concorrência na Inglaterra, entre 1840 e 1860, os dirigentes políticos burgueses deste país eram adversários da política colonial, e consideravam útil e inevitável a emancipação das colônias e a sua separação completa da Inglaterra. M. Beer diz, num artigo publicado em 1898 sobre o “imperialismo inglês contemporâneo”, que em 1852 um estadista britânico como Disraeli, tão favorável em geral ao imperialismo, declarava que “as colônias são uma mó que trazemos atada ao pescoço”. Em contrapartida, no final do século XIX os heróis do dia na Inglaterra eram Cecil Rhodes e Joseph Chamberlain, que preconizavam abertamente o imperialismo e aplicavam uma política imperialista com o maior cinismo!
Cecil Rhodes foi um fervoroso racista e arqui-imperialista cujas opiniões políticas correspondiam à óbvia necessidade de exportar capital, adquirir novos territórios e acessar matérias primas, não apenas para a Grã Bretanha, mas para cada uma das potências imperialistas. Rhodes declarou, em 1895:
Ontem estive na zona leste de Londres (um bairro operário) e assisti a uma assembleia de desempregados. Ao ouvir ali discursos exaltados cuja nota dominante era: pão! pão!, e ao refletir, de regresso à casa, sobre o que tinha ouvido, convenci-me, mais do que nunca, da importância do imperialismo… A idéia que acalento representa a solução do problema social: para salvar os 40 milhões de habitantes do Reino Unido de uma mortífera guerra civil, nós, os políticos coloniais, devemos apoderar-nos de novos territórios; para eles enviaremos o excedente de população e neles encontraremos novos mercados para os produtos das nossas fábricas e das nossas minas. O império, sempre o tenho dito, é uma questão de estômago. Se quereis evitar a guerra civil, deveis tornar-vos imperialistas.
Imperialismo: de política a sistema
Enfatizando a centralidade da transformação do colonialismo, de “política” para “sistema”, Lênin cita o livro “Problemas Políticos e Sociais de Fins do Século XIX”, do historiador burguês francês E. Driault, no capítulo VI de “Imperialismo”:
Nestes últimos anos, todos os territórios livres do globo, com exceção da China, foram ocupados pelas potências da Europa ou pela América do Norte … As nações que não se abasteceram correm o risco de não o conseguirem nunca e de não tomarem parte na exploração gigantesca do globo, que será um dos fatos mais essenciais do próximo século. Eis porque toda a Europa e a América se viram recentemente presas da febre de expansão colonial, do “imperialismo”.
A luta entre os imperialistas para redividir e repartir as possessões coloniais era evidente em todo lugar. A classe dominante estadunidense, que se focava primordialmente em sua própria expansão rumo ao oeste através dos vastos territórios da América do Norte, com seus concomitantes roubos das terras mexicanas e das terras e territórios das populações nativas, também aderiu, naquela mesma época [século XIX], ao vagão das conquistas coloniais estrangeiras.
Em 1898, sob pretexto de ajudar Cuba a ganhar independência, o imperialismo estadunidense invadiu e usurpou o controle da Espanha sob Cuba. Ele também usurpou, por uma mesma ofensiva, outras colônias espanholas, incluindo Porto Rico, Guame e as Filipinas.
No caso da China, suas terras e cidades foram divididas entre as potências do imperialismo europeu.Apesar da China não ter sido colonizada por uma única força, foi submetida à humilhante dominação estrangeira.
Em 1905, Rússia e Japão foram à guerra para disputar conquistas coloniais e territoriais, dessa vez na Ásia.
Lenin argumentou que a Primeira Guerra Mundial, ao tempo uma guerra sem precedente nos anais da história, teve causa na compulsão das várias potências imperialistas por redividir colônias, semi colônias e esferas de influência.
Lenin afirmou que seria a incontrolável e compulsória luta entre os imperialistas que levaria à primeira guerra mundial e às subsequentes guerras. Ele afirmou no seu panfleto que tal fenômeno era uma característica inexorável do capitalismo moderno, ou do que poderia ser chamado de imperialismo moderno.
Essa essencial e fundamental conclusão foi posteriormente validada com o estouro da segunda guerra mundial em 1939. O mesmo fenômeno de rivalidade interimperialista ceifou mais de 60 milhões de vidas.
União soviética altera a equação
A segunda guerra mundial não foi exatamente igual a primeira. A diferença mais notável foi a participação da União Soviética. A URSS não existia na época da primeira guerra mundial. Ela não tinha nenhuma ambição imperial ou colonial. Ela tentou evitar o conflito, começando por procurar alianças de segurança coletiva com alguns dos países capitalistas ocidentais que se opunham a Hitler. Mais tarde, quando o ocidente se recusou, os soviéticos assinaram um pacto de não agressão com a Alemanha. Esse tratado expirou quando Hitler ordenou a invasão surpresa à União Soviética em junho de 1941.
Vinte e sete milhões de soviéticos morreram durante os quatro anos seguintes. O primeiro governo socialista do mundo resistiu ao ataque de 80 por cento das divisões do exército de Hitler, derrotando aquele exército dentro da URSS. Lançou uma contra ofensiva militar sem precedentes na história, a qual libertou a Europa central e oiriental do jugo nazista e destruiu os centros de governo capitalista existentes nessas áreas.
Apesar das terríveis perdas, a posição da União Soviética em nível mundial restou muito mais fortalecida com o resultado da segunda guerra mundial. Isso foi um grande choque para os líderes imperialistas estadunidenses e britânicos que, em 1941, tinham antecipado que a União Soviética sucumbiria rapidamente à máquina de guerra alemã. Embora funcionassem como aliados militares da União Soviética, fornecendo equipamentos e fundos, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha recusaram aquilo de que os soviéticos mais precisavam: a abertura de uma frente militar na Europa Ocidental, que teria forçado Hitler a desviar e dividir suas tropas, tanques e aviões. Ao contrário, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha abriram uma ofensiva na África e na Ásia (onde as colônias estavam).
Porém, os soviéticos não sucumbiram sequer à pressão de terem de enfrentar a grande maioria da máquina militar alemã. Em 1942 e 1943, Franklin Roosevelt e Winston Churchill, muito embora os soviéticos tivessem provado a sua teimosa resiliência, calcularam cinicamente que a União Soviética e a Alemanha, caso ambas continuassem a lutar, seriam mutuamente exauridas e enfraquecidas pelas surpreendentes perdas que estavam sofrendo. Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha poderiam entrar e juntar os cacos depois.
Em vez disso, o Exército Vermelho Soviético e o povo soviético derrotaram a invasão alemã e, então, contra-atacaram com a maior ofensiva militar da história. Foi apenas com o rápido movimento do Exército Vermelho Soviético pela Europa através do oeste (1944-45) que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha decidiram abrir a frente ocidental com a invasão apressada da Normandia. Seu real objetivo era correr em direção à Alemanha para impedir que a União Soviética fosse a libertadora de toda a Europa Ocidental.
No final, a Segunda Guerra Mundial remodelou o mundo de várias formas. Primeiro, os Estados Unidos foram a única das grandes potências capitalistas a sair ilesa, tornando-se o líder supremo do capitalismo mundial. Eram representantes de 60 por cento do Produto Interno Bruto mundial no final da guerra, tendo apenas 6 por cento da população do planeta! Segundo, a União Soviética tornou-se a segunda maior potência mundial. Terceiro, as chamas da revolução esquerdista e dos movimentos de libertação nacional varreram a Ásia, a África e o Oriente Médio na medida em que as redes coloniais britânicas e francesas se desintegravam. O prestígio do socialismo estava em alta por todo o mundo, especialmente entre aqueles que procuravam se libertar dos legados do subdesenvolvimento e do colonialismo. A Rússia czarista tinha sido um dos países mais subdesenvolvidos da Europa. Na União Soviética, o socialismo alcançou, num quarto de século, um nível de desenvolvimento industrial que a Europa Ocidental levou um século para alcançar. O Estado dos trabalhadores proporcionou garantia de emprego, educação gratuita, cuidados universais de saúde e habitação para todos – direitos sociais com os quais os trabalhadores do Ocidente capitalista só podiam sonhar.
Guerra mundial de classes limita o conflito interimperialista
Desde a Segunda Guerra Mundial não houve uma repetição da guerra interimperialista, ao menos não entre os países que se enfrentaram na primeira e segunda guerras. Não houve uma terceira guerra mundial. Também o mundo não está estritamente dividido em colônias e semi coloniais em favor dos países imperialistas. Embora a rivalidade interimperialista não tenha deixado de existir, o fim da luta frenética pela redivisão das colônias removeu esta rivalidade do centro motriz que conduzia à guerra.
O fenômeno da guerra contínua e sem fim continua; porém, depois da segunda guerra mundial, não entre os imperialistas. O locus da guerra se deslocou. O espectro das revoluções agora assombrava cada uma das classes dominantes capitalistas e cada um dos seus respectivos governos ainda mais do que ao tempo em que Marx e Engels escreveram aquelas palavras no Manifesto Comunista. Os imperialistas, é claro, sempre desejaram usurpar o Estado socialista. Desde a Revolução de Outubro de 1917, os imperialistas tentaram, nas palavras de Churchill, “matar o bebé Bolchevique no seu berço”. Porém, os imperialistas, agora, consideravam a União Soviética e o sistema socialista como uma ameaça existencial, e com razão.
O que se seguiu à Segunda Guerra Mundial foi a reorganização da política mundial. De um lado estava o campo imperialista, liderado pelos Estados Unidos. Do outro lado estava o campo dos trabalhadores e dos povos oprimidos, firmado na ascensão da União Soviética como uma potência global e no empoderamento radical de forças revolucionárias na Europa e na Ásia. Nas décadas seguintes, forças revolucionárias também varreram a América Latina e a África.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, o Exército Vermelho libertou a Polônia, Estônia, Lituânia, Letônia, Ucrânia, Tchecoslováquia, Bulgária, Roménia, Áustria, Hungria, Albânia e a metade oriental da Alemanha. Os comunistas Iugoslavos, liderados por Josip Broz Tito, libertaram a Iugoslávia. Na Grécia, as forças lideradas pelos comunistas expulsaram os ocupantes nazi e lutaram pelo poder. O Partido Comunista na França era o mais forte dos partidos políticos desse país, resultado do seu papel na luta armada para derrotar os ocupantes nazi.
A Ásia se tornou o centro da vanguarda comunista revolucionária no período pós segunda guerra. Forças comunistas tomaram controle no norte da Coreia e no norte do Vietnã. Na China, uma guerra civil em larga escala eclodiu entre os comunistas liderados por Mao Zedong e o Partido Nacionalista, apoiado pelo Ocidente e liderado por Chiang Kai-Shek. Entre 1946 e 1949, dezenas de milhares de soldados do norte coreano se juntaram aos seus camaradas da China pela luta armada. Quando os comunistas chineses tomaram o poder em Outubro de 1949, dois quintos da população mundial vivia, agora, em países governados por partidos comunistas.
Inimigos imperialistas se tornam amigos
Querendo se prevenir quanto à repetição das ruínas decorrentes das rivalidades e das guerras interimperialistas, os Estados Unidos, enquanto nova superpotência singular entre os países imperialistas, procuraram reavivar o mundo capitalista sob a sua própria liderança hegemônica. Os Estados Unidos decidiram criar uma frente única imperialista mundial para derrotar as forças do comunismo e do socialismo que haviam tomado o poder estatal em numerosos países. Esses Estados onde a classe trabalhadora tomou poder provinham uma aliança estratégica com movimentos e países que estavam lutando pela libertação nacional ou independência, muitos dos quais tinham uma orientação nacionalista burguesa.
Em vez de punir os seus inimigos que foram derrotados – Japão e Alemanha – os Estados Unidos planejaram o reavivamento de suas econômicas e restauraram o poder político das elites derrotadas de ambos os países. Os Estados Unidos ocuparam militarmente o Japão e a Alemanha, transformando-os em baluartes da frente mundial anticomunista e antisoviética.
Isso marcou toda uma nova era onde o perigo da guerra imperialista foi deslocada da competição interimperialista para ser canalizada no confronto global dos imperialistas contra a União Soviética, o comunismo e o bloco de governos socialistas.
Nenhuma terceira guerra, mas alguns flertes, mas por um fio
Esse confronto global do imperialismo contra a União Soviética e outros governos socialistas ficou conhecido como Guerra Fria. Na realidade, a guerra foi bem “quente” na medida em que resultou nas extremamente destrutivas guerras da Coréia e do Vietnã, dentre outros confrontos. Não resultou, porém, numa nova guerra mundial da magnitude da Segunda Guerra Mundial. O perigo real de uma guerra mundial, com armas nucleares, tornou-se, entretanto, um importante fator para a criação de um movimento pela paz global que se entendeu por várias décadas. Em se tratando de tal guerra, houveram vários princípios de acidentes.
Em 20 de Maio de 1953, o presidente Dwight Eisenhower autorizou o lançamento de bombardeios nucleares ao norte da Coréia e na China, com objetivo de pôr fim ao impasse na Guerra da Coréia, que se prolongava desde junho de 1950. O plano não era de ataques nucleares isolados, mas uma grande escalada de bombardeios estratégicos em ambos os países. Se os soviéticos interviessem pela salvaguarda de seus aliados, então o Pentágono planejava lançar um plano de guerra secreto denominado SHAKEDOWN, um “massivo primeiro ataque preventivo contra a própria União Soviética, com mais de 600 bombas de plutônio Mark VI lançadas por meio de centenas de B-36 e B-52”.
Durante a Crise dos Mísseis Cubanos de Outubro de 1962, a guerra termonuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética foi evitada, por pouco, quando Nikita Khrushchev capitulou perante um ultimato estadunidense pela retirada dos mísseis nucleares de Cuba.
No início da década de 1980, a ameaça de uma guerra nuclear global ressurgiu por causa da colocação, por Ronald Reagan, de mísseis nucleares de alcance intermediário que visavam gabinetes de políticos e lideranças soviéticas e que poderiam atingir os seus alvos seis minutos após o lançamento.
Armas nucleares e a origem da guerra fria
Os Estados Unidos introduziram as armas nucleares à guerra moderna ao incinerar dramaticamente as duas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em 7 e 11 de Agosto de 1945. O Japão, que efetivamente já estava derrotado e cujas cidades haviam sido destruídas por bombardeiros convencionais não nucleares, se rendeu incondicionalmente aos Estados Unidos em 15 de Agosto de 1945. Os bombardeios nucleares no Japão demonstraram ao mundo – à ambos amigos e inimigos – que os Estados Unidos possuíam agora uma arma de tal magnitude destrutiva que uma única ogiva sua seria capaz de matar centenas de milhares de seres humanos e destruir cidades inteiras instantaneamente.
Ao tempo dos ataques nucleares, a União Soviética era aliada dos Estados Unidos e da Grã Bretanha na guerra mundial para derrotar a Alemanha e o Japão.
Os Estados Unidos, porém, não lançaram os dois ataques nucleares para assegurar a rendição incondicional do Japão, mas para fazer uma demonstração de poder ao seu aliado Soviético. Naquele tempo nem a União Soviética nem qualquer outra nação possuíam armas nucleares.
Como aliados se tornam amigos: conjuntura para a nova confrontação mundial
Semanas após o ataque nuclear norte americano no Japão, os três aliados militares – Estados Unidos, Grã-Bretanha e União Soviética – realizaram uma reunião de cúpula em Potsdam, na Alemanha. Recentemente a região de Potsdam havia sido ocupada pelo Exército Vermelho na sua contraofensiva à oeste contra os nazista.
Naquela reunião eles acordaram que a capital alemã de Berlim, localizada na parte leste da Alemanha e ocupada pelo Exército Vermelho, seria dividida em quatro zonas de ocupação, assim como o resto da Alemanha, sendo cada parte controlada pelos Estados Unidos, pela Grã-Bretanha, pela França e pela União das Repúblicas Soviéticas.
Na medida que a Guerra Fria se desenrolava, o destino de Berlim virou o marco essencial para uma crise global e possível confronto nuclear. Em 1961, o Muro de Berlim foi construído no centro da cidade pela Alemanha Ocidental socialista como resposta à atividade contrarrevolucionária dirigida pelo imperialismo norte americano contra o leste alemão e o bloco soviético.
Entre 1945 e 1948, a disputa da União Soviética contra os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estava concentrada nos países da Europa central e oriental, os quais haviam sido libertados pelo Exército Vermelho Soviético.
Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha demandaram que o Exército Vermelho – que se constituía como a base do poder estatal após a derrota dos nazistas – deixasse aqueles territórios e que as elites políticas burguesas que antes da guerra governavam voltassem ao poder. Estas mesmas elites, porém, eram hostis à União Soviética e haviam perseguido os seus próprios movimentos comunistas. Muitos eram fascistas ou tinham laços com o fascismo.
O governo soviético liderado por Stalin provavelmente teria ficado satisfeito de ter governos não comunistas assumindo o controle naqueles países, se eles tivessem sido integralmente “neutros” ao em vez de terem agido como vanguarda anti-soviética nos países das fronteiras da União Soviética, assim como em territórios que haviam sido utilizados pelos fascistas para invadir a URSS em 1940. Por exemplo, o Exército Vermelho saiu da Áustria sendo capaz de consumar um acordo de neutralidade com as autoridades capitalistas de lá.
Os Estados Unidos, no entanto, tinham um monopólio sobre arsenais nucleares e criaram uma aliança militar anti-Soviética, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN); o que demonstrou nitidamente às lideranças soviéticas que, novamente, um novo perigo de guerra ameaçava as suas fronteiras ocidentais.
Sobre estas tensões, a União Soviética cooperou com partidos comunistas na Europa oriental e central para tomada do poder governamental. Em poder, nacionalizaram os meios de produção e reorganizaram suas economias através da planificação centralizada e da coordenação com as estruturas econômicas soviéticas.
Com exceção da Iugoslávia e, em certo grau, da Tchecoslováquia, esses governos na Europa oriental e central se tornaram socialistas não pela obra de uma revolução dos trabalhadores da base, mas por decisões administrativas e militares.
A Iugoslávia foi libertada do fascismo pelos esforços de seus próprios exércitos guerrilheiros de vanguarda comunista, não pelo Exército Vermelho Soviético. E os comunistas da Tchecoslováquia foram fortes e ajudaram a liderar uma insurreição da classe trabalhadora Tcheca em 1948.
Embora a socialização da Europa oriental tenha sido empreendida pela União Soviética por razões em grande partes defensivas, ela foi tratada pelos países imperialistas ocidentais como prova da agressão soviética, a qual descaradamente chamavam de “imperialismo Soviético” com objetivo de justificar as suas políticas de Guerra Fria.
Embora um estudo sistemático das relações internacionais soviéticas esteja fora do escopo deste capítulo: a União Soviética não saqueou sistematicamente os países aos quais era aliada. Na verdade, ela ofereceu um ambiente de intercâmbio e economia a outros países socialistas; os quais todos – com exceção da Tchecoslováquia e da Alemanha Oriental – haviam sido países subdesenvolvidos e com necessidade de muita assistência. A União Soviética também oferecia assistência e comércio em termos gerais favoráveis a muitos países não socialistas independentes que haviam surgido da luta anti-colonial.
A guerra da coréia: uma guerra de classes disfarçada de guerra de nações
Por meio de acordos, os Aliados também dividiram a Península Coreana, que esteve sob o comando colonial Japonês pelos últimos 35 anos. Antecipando-se a derrota Japonesa, foi estabelecido que a Coréia seria temporariamente dividida através do paralelo 38 em uma zona de controle soviética ao norte e uma zona de controle estadunidense ao sul.
Embora a maioria da classe dominante coreana tenha colaborado com o colonialismo japonês, os comunistas coreanos, operando a partir da China ou em células clandestinas, eram conhecidos pela sua firme resistência anticolonial e pelo seu compromisso com os pobres. A maioria dos quadros do partido durante a guerra estavam, na verdade, no Sul.
Os imperialistas estadunidenses estavam aterrorizados com a possibilidade de toda a península se tornar socialista com a ajuda soviética caso as forças de ocupação japonesas simplesmente partissem em retirada. Quando o governo japonês se rendeu incondicionalmente aos Estados Unidos, em 15 de agosto de 1945, o governo estadunidense insistiu que as forças de ocupação japonesa no sul coreano guarnecessem suas posições e mantivessem a Coréia subjugada até que as suas próprias forças militares pudessem chegar e assumir o controle, o que fizeram depois de quase três semanas, em 8 de setembro.
Em certo sentido, a subsequente Guerra Coreana foi uma guerra civil travada entre o governo dos trabalhadores e camponeses no norte da Coréia e seus aliados trabalhadores e camponeses ao sul da Coréia contra o regime ao sul da Coréia, que era então formado pelas elites, dentre os quais muitos que haviam funcionado como representantes do colonialismo japonês contra o seu próprio povo. A guerra civil, porém, se tornou um ponto de inflamação internacional porque representou a vasta luta social entre dois campos globais com interesses de classe antagônicos. Todos os governos socialistas apoiavam o norte da Coréia enquanto o imperialismo estadunidense e todos os outros países imperialistas, incluindo o Japão e a Alemanha ocidental, apoiavam o governo sul coreano.
A Guerra Coreana demonstrou quão fundamentalmente diferente a situação política e militar mundial havia se tornado em questão de apenas alguns anos. Na Guerra Coreana, todos os imperialistas se uniram sob o comando dos Estados Unidos. Em vez de lutarem uns contra os outros, eles lutaram contra o campo socialista com base em interesses de classe antagônicos.
Nessa guerra, o exército da Coréia do Norte foi apoiado em batalha por centenas de milhares de soldados da República Popular da China, que acabara de concluir com sucesso uma revolução socialista. Apesar dos soviéticos não terem entrado na guerra coreana, foram da sua indústria os armamentos e demais produtos que abasteciam as tropas coreanas e chinesas. Do lado imperialista, forças militares de 26 países capitalistas lutaram ao lado das forças estadunidenses.
Quando as lideranças militares estadunidenses entraram decisivamente na guerra, eles acreditavam que poderiam reunir a península coreana sob a liderança do regime fantoche patrocinado pelos Estados Unidos no sul. Em vez disso, a contra-ofensiva combinada dos soldados norte-coreanos e seus correligionários chineses recuaram os Estados Unidos e seus aliados de volta ao sul do paralelo 38. Lá, a guerra estava essencialmente em um impasse e, depois de mais três anos mortais de bombardeamentos estadunidenses, foi assinado um acordo de armistício que pôs fim aos combates. O armistício jamais foi revogado por um tratado de paz e os dois lados permanecem tecnicamente em guerra a mais de seis décadas.
Churchill favorecia a aniquilação nuclear, os estadunidenses favoreciam a ‘contenção’
Winston Churchill, o primeiro ministro britânico durante a Segunda Guerra Mundial, é apresentado na mídia capitalista estadunidense como um sábio e maravilhoso aliado dos Estados Unidos, assim como um dos principais porta-vozes da Guerra Fria.
Churchill era favorável à aniquilação da União Soviética via arsenais nucleares a não ser que ela se retirasse da Europa oriental e central e permitisse que aqueles países fossem retomados pelas suas antigas elites políticas, os capitalistas nativos, que eram os aliados do imperialismo Estadunidense, Britânico e Francês. Churchill queria avançar rápido antes que a União Soviética, conforme ele previa, também desenvolvesse tecnologia nuclear e arsenal atômico. “Ninguém em seu juízo pode acreditar que temos um período de tempo ilimitado à nossa frente. Nós deveríamos levar a questão à sério e chegar a uma solução definitiva”.
O presidente Harry Truman e o estamento da política externa estadunidense compartilhavam os objetivos de Churchill, mas pensavam que as consequências de um confronto direto com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas era muito arriscado; o que significa que poderia causar o fim do capitalismo mundial. Em vez disso, os Estados Unidos formaram alianças militares anticomunistas em todo o mundo.
Em 1949, os Estados Unidos criaram a OTAN, reunindo todos os países imperialistas da Europa sob a liderança do Pentágono. Os Estados Unidos expandiram esse sistema de alianças anticomunistas durante a administração de Eisenhower (1953-1961) com a criação da Organização do Tratado do Sudeste Asiático (1954) e o Pacto de Bagdá (CENTO) para o Oriente Médio (1955)
‘Contenção’ era a guerra contra os povos oprimidos que lutam pela liberdade
Uma vez que a União Soviética conseguiu desenvolver com sucesso o seu próprio programa de armas nucleares e – sob grandes custos socioeconômicos à sua própria económica socialista – alcançou certo grau de equivalência militar para com os Estados Unidos, estes, então, optaram por uma estratégia alternativa, a qual rotularam “contenção”.
Embora “contenção” implicasse numa estratégia defensiva, essa guerra, na verdade, foi uma autêntica guerra contínua contra os movimentos de libertação nacional e uma política de subversão interna aos países socialistas. Os Estados Unidos trataram todo movimento genuíno de libertação nacional como um potencial aliado da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Realizaram guerras dissimuladas e execuções seletivas desde o Congo ao Vietnã, ao Irã, à Guatemala; em todo lugar. Orquestraram golpes fascistas no Chile, no Brasil, e em outros lugares da América Latina. Trabalhando com generais indonésios, Washington realizou uma contrarrevolução em 1965 que ceifou mais de 1 milhão de vidas.
Embora o combate principal da Guerra Coreana tenha cessado em 1953, no início dos anos de 1960 os Estados Unidos e seus aliados novamente se engajaram em guerras de grande escala no Vietnã, no Laos e no Camboja.
Até o colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1990, haviam outros vários confrontos entre o imperialismo, de um lado, e governos socialistas, de outro. Eram conflitos menores, mas foram emblemáticos no que se refere ao caráter do novo confronto mundial. Na verdade, em quase todos os lugares do mundo o novo eixo de luta se desenvolveu repetidamente tendo o imperialismo capitalista se confrontando com o socialismo e os seus aliados na disputa pela libertação nacional e a independência. Nenhum movimento político ou tendência podia operar fora dessa realidade global.
Na África do Sul, o imperialismo apoiou o governo racista de apartheid, enquanto a União Soviética e os países do bloco socialista apoiaram o Congresso Nacional Africano. O mesmo alinhamento de forças ocorreu em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Washington apoiou os senhores coloniais portugueses, enquanto o campo socialista forneceu armas, ajuda financeira, apoio diplomático e, em alguns casos, tropas para os movimentos de libertação nacional.
No Oriente Médio, o imperialismo patrocinou o regime israelense e as monarquias feudais, enquanto a União Soviética e o bloco socialista forneceram apoio e ajuda à causa arabe. A União Soviética também estendeu apoio diplomático e militar aos regimes nacionalistas burgueses que se desenvolveram no Egito, na Síria, no Iraque e na Líbia. (Por razões pragmáticas – e com desastrosas consequências para a causa do comunismo no mundo árabe – a União Soviética tentou inicialmente uma política de amizade com Israel quando em sua fundação, em 1948, política que foi rompida após poucos anos).
O mesmo ocorreu na América Latina – a qual Washington considerava, a muito, como seu “quintal”. Quando os revolucionários cubanos derrubaram a ditadura de Batista em 1959 e tentaram manter uma posição de genuína independência, conseguiram garantir o apoio da União Soviética e das nações do bloco socialista. O imperialismo estadunidense e seus aliados, em um esforço para derrubar a revolução, invadiram e bloquearam a ilha, cuja orientação socialista havia se tornado cada vez mais clara entre 1959 e 1961.
Por sua vez, Cuba e o bloco socialista forneceram apoio político aos revolucionários que lutavam contra as ditaduras patrocinadas pelo imperialismo na Nicarágua, El Salvador, Guatemala, República Dominicana, Haiti, Colômbia, e noutros lugares. O mesmo ocorreu com o movimento de independência de Porto Rico, que lutava contra uma forma de colonialismo direto estadunidense.
O impulso de guerra imperialista se perpetua sob novas formas
A objetividade histórica comprova abundantemente que o impulso de guerra do qual Lênin falava em 1916 nunca desapareceu; antes, se transformou. O imperialismo tem estado em guerra de forma contínua, seja aberta ou secretamente, tendo como alvo forças revolucionárias ou comunistas ao invés de outras entidades imperialistas.
Nessa vastidão da Guerra de Classes Mundial, houveram vitórias e derrotas em ambos os lados. No geral, porém, a principal tendência no mundo – a maré histórica global – parecia estar a favor da revolução pela classe trabalhadora e forças de libertação nacional de 1945 até a década de 1970.
Ao final, foi a divisão entre a União Soviética e a República Popular da China dentro do bloco das nações socialista – um cisma que começou como um debate ideológico e político, mas que depois se degenerou em uma disputa entre Estados – que mudou essa relação de forças. Ao em vez de direcionar seu arsenal contra todo o bloco de países socialistas, os Estados Unidos utilizou do cisma Sino-Soviético ao conquistar a liderança da República Popular da China para uma aliança anti-soviética. Isso se consumou totalmente no final da década de 1970, continuando até o final da década de 1980. Em outros materiais examinaremos em mais detalhes o cisma Sino-Soviético e o seu vasto impacto sobre a luta de classes global e sobre o destino da própria União Soviética.
Apenas como um sinal da degeneração do Partido Comunista da União Soviética: o partido, sob a liderança de Mikhail Gorbachev, formulou uma política exterior para acabar com a Guerra Fria baseada em uma concepção completamente equivocada sobre o imperialismo. Gorbachev e outros na direção acreditavam que as tensões com os Estados Unidos poderiam ser eliminadas ao se permitir a reintegração da Europa Oriental no campo do imperialismo. Uma retirada ágil do apoio aos movimentos de libertação nacional ajudaria a economia soviética, e, seguindo o raciocínio, os Estados Unidos iriam retribuir e o mundo tornar-se-ia um lugar pacífico. Enquanto Washington se preparava para começar uma guerra de bombardeios massivos contra o Iraque, a liderança de Gorbachev nas Nações Unidas virou as costas para um antigo aliado e capitulou à campanha militar.
Contudo, mesmo sem o benefício da análise de Lênin, uma simples observação da história deveria ter mostrado a falsidade das ilusões de Gorbachev. Em 1983, apenas dois anos antes da ascensão de Gorbachev, os Estados Unidos invadiram Granada através do que se chamou “Operação Fúria Urgente”. Em dezembro de 1989, enquanto Gorbachev estava implementando as políticas que iriam levar ao desmantelamento do estado e do exército soviético, os Estados Unidos invadiram o Panamá na “Operação Justa Causa”. Com a sua promessa de derrotar o “Império do Mal” soviético, Reagan formulou uma agressiva estratégia militar baseada na “guerra nuclear limitada”, e não deu qualquer indicação daquela tal reciprocidade.
Longe de responder às concessões da União Soviética com concessões próprias, os Estados Unidos simplesmente demandaram mais e mais. Estas pressões do imperialismo aumentaram consideravelmente as tensões e o caos que levaram à derrubada do Estado – embora este assunto exija um exame completo, que iremos abordar em futuros textos.
Assim como o imperialismo não pôde ser satisfeito com as concessões feitas pelo campo socialista, a derrubada da União Soviética em 1991 não trouxe a paz. Ela acelerou um novo estágio de agressão e guerras imperialistas.
Conforme a medida que o mundo mudou, a conclusão central de Lênin segundo a qual a guerra é intrínseca à fase imperialista do capitalismo permanece inteiramente válida. Essa compreensão tem sido fundamental para as perspectivas estratégicas do movimento socialista mundial. Ela sublinha a necessidade fundamental da luta anti-imperialista para superar a opressão capitalista e criar um novo mundo baseado na cooperação humana. Um mundo sem guerras!
Esse ensaio (que aparece no livro do Partido para o Socialismo e a Libertação, Imperialismo no século XXI: Atualizando a teoria de Lênin um século depois) foi originalmente publicado em 2015.
