Como os Comunistas foram Derrotados no Afeganistão

Texto de Hugo Albuquerque, membro do Instituto Humanidade, Direitos e Democracia.

Escrito em 17 de agosto de 2021.


Afeganistão em chamas. Mas o que isso nos deixa de lição no distante Brasil? Vamos entender um pouco mais hoje o papel das esquerdas nessa longa viagem. Como os comunistas, tentando modernizar o país, foram os maiores derrotados do conflito?

Primeiramente, tudo leva a crer que os soviéticos foram induzidos a ocupar o país (1980) para, no esforço de salvar a revolução afegã (1978), caíssem numa armadilha geopolítica.

Quem diz isso? O próprio conselheiro de segurança nacional de Jimmy Carter, o glorioso Zbigniew Brzezinski. Fontes? O dito-cujo em pessoa em 1998!

Essa entrevista confere com relatos, também facilmente acessíveis, de que os líderes soviéticos, a princípio, não queriam ocupar o Afeganistão. Isso está nos arquivos soviéticos abertos nos anos 1990, citados em livros como Lenin’s Brain and Other Tales from the Secret Soviet Archives.

O que aconteceu então? Em 78, revolucionários afegãos clamavam pelos soviéticos. Em 79, Carter, movido pelo seu conselheiro Brzezinski, assinou uma ordem de apoio secreta aos insurgentes no Afeganistão. O interesse era claro: induzir uma invasão soviética no Afeganistão.

O líder da revolução e do Khalq, facção comunista e hegemônica do Partido Democrático Popular do Afeganistão, o presidente Taraki, possuía um dúbio rival, seu premiê, Hafizullah Amin. Amin, antes de derrubar e executar o presidente Taraki, encontrou o agente da CIA J. Bruce Amstutz.

O líder afegão Nur Mohammed Taraki em Moscou, em 9 de setembro de 1979, reunindo-se com o ministro soviético das Relações Exteriores Andrei Gromyko e o líder soviético Leonid Brezhnev – dentro de uma semana, Taraki seria prisioneiro de Amin e, em um mês, morto.

A Revolução de Saur ocorreu, em abril de 1978, apenas porque o governo progressista de Daoud Khan se afastava de qualquer esquerda, além de promover reformas lentas demais. O Khalq esteve excluído de seu governo, os moderados do Parcham logo também foram.

Taraki, pouco antes de morrer, foi aconselhado pelos seus aliados e pelos soviéticos a se reunir com o Parcham e demitir Amin – que o depôs e o matou, tendo o mesmo fim, pelas mãos soviéticas, três meses depois.

Enquanto essa batalha palaciana se dava, havia uma revolução de massas ocorrendo e aplicando, contra lideranças tribais, leis de reforma agrária e de igualdade de gênero. As maiores lideranças soviéticas, inclusive, pediam gradualismo e prudência.

Por conta da Tratado da Amizade, firmado em dezembro de 1978, os soviéticos poderiam enviar sim tropas para o Afeganistão. E a narrativa midiática esconde os dedos da CIA na cooptação de lideranças do Khalq, o que gerou a deposição e execução do líder da Revolução.

Fato é que os fatos levaram os soviéticos a armadilha do urso. Se antes, o governo progressista moderado de Daoud Khan fora, sutilmente afastado da URSS, o regime revolucionário tinha sido cooptado por cima. A URSS foi levado pelos fatos a fazer o que não queria: ocupar.

Isso não é apenas sobre interesse soviético x interesse americano. O plano ocidental para o Afeganistão envolvia uma diferença de valores. Os soviéticos defendiam a modernização do país, os americanos, a manutenção do país em termos conservadores.

Brezhnev e Kosygin, com todos os seus erros à frente da URSS, não fomentaram o conflito, mas falharam em serem levados a ele pelo calor do momento. O envio de tropas de 1980, embora moralmente correto e legalmente possível, foi um erro estratégico.

Enquanto isso, os chineses rompidos com os soviéticos, viam a questão afegã com preocupação, por isso significar mais um passo de avanço soviético sobre seu território. É importante frisar que Brezhnev em 69 ajudou a fomentar movimentos secessionistas dentro da China.

No Brasil, pouca gente sabe do Partido Revolucionário do Povo do Turquestão Oriental, uma força separatista comunista soviética anti-chinesa que dá início à contemporânea tensão no Xinjiang.

Enquanto os americanos, habilmente, haviam se colocado ao lado dos chineses contra os soviéticos, os soviéticos foram incapazes de estancar essa sangria — e os chineses agiram movidos por isso no final dos anos 70, seja no Afeganistão ou no Camboja.

A China sofreu uma derrota estratégica horrível no Camboja, onde apoiou o Khmer Vermelho (junto dos EUA!) e “venceu” no Afeganistão, apesar de que isso mostrou uma vitória de pirro, seja pelo avanço do fundamentalismo no Xinjiang ou a traição americana de 1989.

Para concluir, o que isso tudo nos ensina? Primeiro, os comunistas afegãos acertaram na Revolução de Saur, mas erraram na construção do próprio partido, que era instável e dividido, assim como buscaram aplicar o programa revolucionário antes de estabilizar a revolução.

Segundo, os soviéticos sob Brezhnev se deixaram levar pelos fatos, mesmo quando tinham uma análise correta dos fatos concretos. Mas não trabalharam em unificar o campo socialista que, rachado, permitiu a ação dos geopolíticos da geração de ouro americana.

A moral da História é que apenas deter a moral da História não basta. É preciso transformar as nossas razões em ação estratégica eficaz, senão a derrota é certa contra forças anti-civilizacionais – que hoje, como em 1980, são operadas pelo aparato de guerra americano.

Fontes

[1] https://marxists.org/…/brzezinski/1998/interview.htm

[2] https://dgibbs.faculty.arizona.edu/brzezinski_interview.

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