Declaração do PSL: Governo Afegão respaldado pelos Estados Unidos se rende diante do Talibã

15 de agosto de 2021.

Texto originalmente publicado pelo Partido pelo Socialismo e Libertação em seu site oficial, disponível neste link em inglês e espanhol.

Tradução por Andrey Santiago.


A entrada sem oposição das forças talibãs em Cabul marca uma amarga conclusão de uma aventura militar de 20 anos do imperialismo estadunidense que infligiu sem sentido a morte e sofrimento em uma enorme escala. O fato de que o governo afegão respaldado pelos Estados Unidos se rendeu sem lutar é a indicação mais clara de que este não era mais do que uma extensão do poder imperialista estadunidense. A cruel realidade se mostrou: A ocupação imperialista estadunidense que começou há 20 anos se manteria literalmente para sempre, ou este governo colapsaria com a saída das forças militares estadunidenses. A chegada ao poder do Talibã em meados da década de 1990 foi consequência da guerra da CIA contra o governo socialista do Afeganistão que havia chegado ao poder em 1978 durante a Revolução de Saur. Os Estados Unidos estavam perfeitamente dispostos a fazer negócios com o Talibã antes do 11 de setembro apesar de suas odiosas políticas, inclusive a sua proibição da educação de meninas. A esperança e a promessa do período socialista foram destruídas pela intervenção dos Estados Unidos e o posterior colapso da União Soviética. Desde então, o povo do Afeganistão tem vivido abaixo de um governo reacionário atrás do outro.

Ronald Reagan com guerrilheiros Mujahideen em 1983, financiados pelos EUA para lutar contra o governo socialista do Afeganistão e contra a União Soviética.

O completo colapso militar e político e quase instantâneo do governo afegão tem levado a uma situação onde o Talibã preside a evacuação em pânico de seus oponentes do interior da capital. Desde a invasão estadunidense no Afeganistão em outubro de 2001, centenas de milhares de afegãos morreram, milhões foram forçados a fugir de suas residências, dezenas de milhares de soldados estadunidenses da classe trabalhadora alistados morreram ou foram feridos – e no fim a situação política do país está retornando à situação onde o Talibã domina o país.

A invasão estadunidense/OTAN do Afeganistão começou em 7 de outubro de 2001 em represália aos ataques terroristas do 11 de setembro contra o World Trade Center e o Pentágono. A administração Bush rechaçou a oferta do governo Talibã de entregar Osama Bin Laden para que fosse julgado em um país muçulmano se os Estados Unidos apresentassem provas de que a Al-Qaeda fosse a responsável pelo ataque. Em troca, Bush declarou “não negociar com terroristas” e lançou a invasão. A administração Bush utilizou o ataque do 11 de setembro como pretexto para lançar um assalto radical contra o Iraque e outros governos do Oriente Médio. A invasão do Afeganistão foi concebida como um esforço de justificação por parte do governo neoconservador para empreender uma nova rodada de agressão sob a bandeira da “guerra ao terror”. Esta onda imperialista de agressão derrocou os governos do Iraque e Líbia e esperava derrocar os governos de Síria e Irã também. Tem sido um desastre para o povo do Oriente Médio e do Sul da Ásia.

O ritmo do avanço do Talibã foi assombroso. Em apenas nove dias, o grupo se apoderou de todas as cidades importantes do país e logo marchou para Cabul sem disparar um único tiro. Isto foi possível porque as forças do governo afegão na maioria dos casos praticamente não exerceram nenhuma resistência. Quando se produziam combates, com frequência se levavam a cabo forças especiais de elite e milícias locais. Quando chegou o momento da verdade e se tornou claro que o exército estadunidense estava se retirando do país, o Exercito Nacional Afegão não lutou.

Depois da invasão de 2001, os Estados Unidos gastaram centenas de milhares de milhões de dólares na criação e apoio às forças armadas do governo afegão. Mas este exército servia a um governo que não tinha legitimidade política. Sua fonte de autoridade foi a ocupação estrangeira liderada pelos Estados Unidos, a corrupção foi desenfreada e fracassou em desenvolver uma apreciável base de apoio entre o povo do país. Estava claro que o governo não poderia resistir muito tempo ao Talibã, então em vez de lutar e morrer para prolongar o inevitável, a maioria das forças de segurança apenas se colocou ao lado.

A administração Biden optou por não levar a cabo uma escalada militar, como uma escalada dramática da guerra aérea, que poderia ter detido o avanço do Talibã. A opinião predominante parece haver sido que a guerra era impossível de ganhar e que seria melhor abandonar o governo que instalaram, terminar a retirada agora e concentrar-se em problemas mais importantes para o império estadunidense. Mas certamente a administração Biden esperava levar a capo uma retirada ordenada em seus próprios termos. Agora está sofrendo a humilhação de ter que entregar diretamente o controle do país ao Talibã, um grande golpe a imagem do poderio militar estadunidense em todo o mundo. Isto poderia causar implicações duradouras para a política externa e militar de Biden no futuro.

Antecedentes à invasão de 2001

O papel dos Estados Unidos no Afeganistão sempre foi insidioso. Os próprios talibãs surgiram da insurgência contrarrevolucionária organizada e financiada pela CIA nas décadas de 1970 e 1980 que buscava derrocar o governo socialista do país. Este governo socialista, a República Democrática do Afeganistão, estava comprometido com o empoderamento dos trabalhadores e agricultores, a plena igualdade das mulheres em todos os âmbitos da sociedade, o fornecimento de serviços sociais gratuitos como a educação e atenção médica, e outros objetivos progressistas. O governo dos Estados Unidos respaldou grupos armados de extrema-direita para liderar uma insurgência mortal contra o governo e seus aliados soviéticos.

Uma facção de combatentes, o Talibã, venceram após a queda do governo socialista afegão e se estabeleceram como governantes do país e impuseram um sistema político opressivo baseado em princípios teocráticos reacionários. Qualquer afirmação de funcionários estadunidenses estarem preocupados com o destino do direito das mulheres, ou da democracia, ou da liberdade religiosa no Afeganistão é o pior tipo de hipocrisia.

Os políticos e generais estadunidenses responsáveis por organizar esta guerra sem sentido de duas décadas devem ser levados à justiça. São, em última instância, responsáveis pela enorme perda de vidas que destroçou a sociedade afegã. A justificação da guerra era uma grande mentira: não havia afegãos a bordo dos aviões que se chocaram contra as Torres Gêmeas em 11 de setembro e o Talibã estava disposto a negociar a entrega de Osama Bin Laden. O estabelecimento militar e político dos Estados Unidos poderia ter terminado com o derramamento de sangue a qualquer momento e o resultado teria sido o mesmo. Em troca, afirmaram que ano após ano era essencial que a ocupação se prolongasse. Devem prestar contas pelo crime de iniciar uma guerra de agressão.

Um comentário em “Declaração do PSL: Governo Afegão respaldado pelos Estados Unidos se rende diante do Talibã

  1. Sobre “… era uma grande mentira”, conte-me, por favor, uma novidade.

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