Zhou Enlai – Discurso na Conferência de Bandung

Discurso proferido na Conferência Afro-Asiática de Países Não-Alinhados realizada em Bandung, Indonésia, entre 18 e 24 de abril de 1955.

Versão digital em castelhano disponível em China Radio International (CRI), 2006.

Tradução por Pátria Grande y Libre, disponível aqui.


Senhor Presidente e Senhores Delegados:

Foi dado o início à Conferência Afro-Asiática que tem sido aguardada por todo o mundo. A delegação da República Popular da China se sente muito satisfeita de poder abordar aqui, junto com as delegações de outros países, os assuntos comuns que preocupam nossos países afro-asiáticos. Antes de tudo queremos agradecer à Birmânia, Ceilão, à Índia, Indonésia e Paquistão, os cinco países patrocinadores desta conferência, sua iniciativa e seus esforços para que pudéssemos nos reunir. Também queremos expressar nosso agradecimento ao governo da República da Indonésia, anfitriã desta conferência, pelos excelentes preparativos.

É a primeira vez na História que tantos países de Ásia e África se reúnem em uma conferência como essa. Em ambos os continentes vive mais da metade da população mundial. Os povos afro-asiáticos criaram esplêndidas culturas milenares que contribuíram enormemente para o desenvolvimento da Humanidade. Na era moderna, a maioria dos países de Ásia e África tem sido vítimas em diferentes graus do saque e da opressão do colonialismo, de modo que se veem obrigados a viver em uma situação de pobreza e atraso. Nossos clamores foram silenciados, nossos desejos atropelados e nossos destinos manipulados pelos outros, de modo que não temos outro remédio a não ser levantar-nos contra o colonialismo. Nossos sofrimentos e nossa luta são as mesmas pelas quais passaram diversos povos afro-asiáticos, e por isso compreendemos facilmente, simpatizamos e nos solidarizamos uns com os outros há muito tempo.

Ultimamente a fisionomia das regiões de Ásia e África tem sofrido enormes mudanças. São cada vez mais os países afro-asiáticos que se libertaram ou estão se libertando das amarras do colonialismo. Os países colonizadores já não podem seguir saqueando e oprimindo com os métodos do passado. A Ásia e a África de hoje não são as mesmas de ontem. Muitos países de ambos os continentes são donos de seus destinos por conta de seus esforços prolongados. Nossa conferência reflete essas mudanças históricas determinantes.

Apesar disto, a dominação do colonialismo nestes continentes ainda não terminou e novos colonizadores tentar substituir seus antecessores. Não são poucos os povos afro-asiáticos que seguem levando uma vida de escravizados colonizados, sofrendo discriminação racial e vendo como seus direitos humanos são atropelados.

Nossos países afro-asiáticos escolhem diferentes caminhos para alcançarem a liberdade e a independência, mas é unânime nossa vontade de consegui-las e consolidá-las. Independentemente das condições concretas de cada um de nossos países, a maioria de nós precisa superar a situação de atraso que é produto da colonização e alcançar cada um nosso desenvolvimento segundo a vontade de nossos povos e sem interferência estrangeira.

Os povos afro-asiáticos têm sido vítimas de agressões e guerras durante muito tempo. Muitos deles foram obrigados pelos colonizadores a ser bucha de canhão nas guerras de agressão, o que faz com que sintam ódio por tais guerras. São conscientes de que a ameaça de novas guerras não somente prejudica sua independência e desenvolvimento, mas também reforça sua subjugação ao colonialismo. Por essa razão, nós, os povos afro-asiáticos, compreendemos profundamente o valor da paz mundial e da independência nacional. Nestas circunstâncias, garantir a paz no mundo, conseguir e salvaguardar a independência nacional e promover a cooperação devem ser desejos comuns de todos os países afro-asiáticos.

Após o armistício na República Popular Democrática da Coreia, a Conferência de Genebra contou com o apoio de cinco países da Conferência de Colombo e sobre a base do respeito à independência nacional alcançou um cessar-fogo na Indochina. Naquele momento, então, se aliviou relativamente a tensão internacional e deu-se um sopro de esperança para os povos do mundo, particularmente os asiáticos. Contudo, os acontecimentos internacionais que se seguiram jogaram contra a vontade dos povos. As crises bélicas aumentam no Oriente e no Ocidente. As aspirações tanto do povo coreano como alemão foram suprimidas. O acordo da Conferência de Genebra para a restauração da paz na Indonésia corre o risco de ser violado. Os Estados Unidos da América seguem criando estrangulamentos na região de Taiwan. São cada vez mais as bases militares de países ocidentais assentadas na Ásia e na África. Estes países dizem abertamente que as armas atômicas são convencionais e se preparam para uma guerra atômica. Os povos asiáticos não podem se esquecer que a primeira bomba atômica caiu em seu território nem que a primeira vítima dos testes da bomba de hidrogênio foi asiática. Os povos afro-asiáticos, assim como de outras regiões do mundo, não podem não estar preocupados pela crescente ameaça de guerra.

De todo modo, os países agressores que se preparam para uma guerra são minoria. A maioria dos povos do mundo, independentemente do sistema social sob o qual vivam, aspiram a paz e se opõe à guerra. O movimento pela paz nos diferentes países do mundo alcançou um profundo e amplo desenvolvimento. Exige-se o fim da corrida armamentista e pede-se que os países grandes sejam os primeiros a alcançar um acordo para o desarmamento. Solicita a proibição de armas atômicas e das demais armas de destruição em massa. O movimento pela paz pede que a energia atômica seja utilizada com fins pacíficos em benefício da Humanidade.

Estes clamores já não podem seguir sendo menosprezados; a política de agressão e guerra conta cada vez com menos apoio. Os conspiradores da guerra fizeram das ameaças bélicas um instrumento de uso frequente para promover sua política de agressão. Ainda assim, estas ameaças não poderão intimidar aqueles que estão determinados a resistir; e eles farão os agressores e suas ameaças afundarem no isolamento e no caos. Estamos convencidos de que junto a todos os povos e dos países amantes da paz, ela será salvaguardada sempre que estivemos dedicados e resolutos para isso.

A maioria dos países afro-asiáticos, incluindo a China, estão muito atrasados economicamente devido à prolongada colonização. Por isso, não somente pedimos a independência política mas também a econômica. Evidentemente, a independência política que exigimos não implica em uma política de exclusão para os países afro-asiáticos. Mas a época em que os países ocidentais dominavam nosso destino acabou, e nosso destino será dirigido por nós mesmos. Devemos trabalhar para alcançar a independência econômica de cada um de nossos países e isso não significa rejeitar a cooperação econômica com as nações de outros continentes. Contudo, exigimos a mudança da situação de exploração em que nós, os países orientais atrasados, nos encontramos diante dos colonizadores ocidentais e queremos desenvolver uma economia independente e de autodeterminação. Conquistar a independência total é o objetivo pelo qual lutam por tanto tempo a maioria dos países e povos afro-asiáticos.

Na China, desde que o povo se tornou dono do seu próprio país, todos nossos esforços estão direcionados a eliminar o atraso herdado da longeva sociedade semicolonial e a converter nosso país em um país industrializado. Nos últimos cinco anos, temos recuperado a economia nacional devastada pelas guerras prolongadas e em 1953 começamos o primeiro plano quinquenal de construção econômica. Graças a estes esforços, o volume de produção nos principais setores industriais, como a siderurgia, o algodão e os cereais, alcançaram recordes históricos. Ainda assim, estes êxitos são insignificantes comparados com nossas necessidades reais já que estamos muito atrasados em comparação com os países industrializados altamente desenvolvidos. Assim como em outros países asiáticos, necessitamos urgentemente de paz internacional que facilite o desenvolvimento de nossa economia independente e de autodeterminação.

Os países afro-asiáticos contrários ao colonialismo e zelosos de sua independência nacional apreciam mais seus direitos. Todos os países, sejam grandes ou pequenos, fortes ou fracos, devem gozar de igualdade de direitos nas relações internacionais. Sua soberania e sua integridade territorial devem ser respeitadas, nunca violadas. Os povos de todos os países dependentes devem gozar do direito de autodeterminação nacional ao invés de serem perseguidos e dizimados. Todos os povos, independentemente de sua raça ou cor, devem gozar dos direitos humanos básicos ao invés de serem maltratados e discriminados. Contudo, é fácil constatar que ainda não acabaram as repressões violentas contra os povos de Marrocos, Tunes, Argélia e outros países que buscam sua independência; ainda não foram cessaram a discriminação e a opressão racial na Federação Sul-Africana e em outras regiões; e ainda não se chegou a uma resolução dos problemas dos refugiados árabes na Palestina.

Agora podemos dizer que o rechaço à discriminação racial, a exigência dos direitos humanos básicos, a oposição ao colonialismo, a demanda da independência nacional e a salvaguarda resultante da soberania e integridade territorial são a demanda comum dos países afro-asiáticos e seus povos que se levantaram. A luta do povo egípcio para recuperar a soberania da zona do Canal de Suez, a dos povos iranianos para recuperar a soberania dos recursos petrolíferos, a demanda do povo hindu para recuperar os direitos territoriais de Goa, e a do povo indonésio por recuperar seus direitos territoriais de Irian Ocidental ganharam a simpatia de muitos países afro-asiáticos. Igualmente, a demanda da China de libertar seu território de Taiwan também ganhou apoio de todos os povos de Ásia e África. Isto demonstra que os povos afro-asiáticos se compreendem, simpatizam uns com os outros e se solidarizam entre si.

A paz só será garantida com o respeito mútuo à soberania e à integridade territorial. A violação da soberania e integridade territorial e a intervenção nos assuntos internos de qualquer país prejudicarão inevitavelmente a paz. Se todos os países se comprometem à não agressão mútua poderão criar-se as condições de coexistência pacífica nas relações interestatais. Se todos os países se comprometem à não intervenção nos assuntos internos de outro, os povos dos diversos países poderão eleger, segundo sua própria vontade, seu sistema político e seu modo de vida. O acordo sobre a restauração da paz na Indochina foi alcançado pelas diversas partes na Conferência de Genebra sobre a base de um compromisso de respeito à independência, à soberania e à integridade territorial dos países indochineses e a não intervenção em seus assuntos internos. Por isto, a Conferência de Genebra estabelece que os países da Indochina não participarão em alianças militares e não abrigarão bases militares de países estrangeiros, criando assim as condições favoráveis para estabelecer uma zona de paz. Contudo, temos visto depois da Conferência de Genebra uma tendência de desenvolvimento contrária e desfavorável para os interesses dos povos indochineses e para a paz. Consideramos que o acordo de Genebra sobre a restauração da paz na Indochina deve ser cumprido de forma estrita e ao pé-da-letra sem nenhuma intervenção nem obstrução. E o problema da reunificação da República Popular Democrática da Coréia também deve ser solucionado segundo os mesmos princípios.

Nós, os países afro-asiáticos, necessitamos da cooperação econômica e cultural para nos ajudar a modificar nossa fisionomia atrasada pelo saque e pela opressão prolongada do colonialismo. A cooperação entre os países afro-asiáticos deve basear-se na igualdade e em benefício mútuo sem nenhuma condição de privilégio adicional. Os intercâmbios comerciais e a cooperação econômica entre nós devem ter como meta promover o desenvolvimento econômico independente de cada um de nossos países sem que nenhum se converta em simples produtor de matérias primas ou num simples mercado de produtos de consumo. Os intercâmbios culturais devem respeitar o desenvolvimento de nossas culturas nacionais sem menosprezar as vantagens e pontos fortes de cada um de nossos países para que possamos conhecer-nos e nos assimilarmos mutuamente.

Hoje em dia, quando os povos de Ásia e África assumem seu próprio destino, a magnitude de nossa cooperação econômica e cultural não pode ser tão grande. Apesar disto podemos afirmar que essa cooperação estabelecida sobre a base da igualdade e em benefício mútuo tem grandes perspectivas de desenvolvimento. Estamos firmemente convencidos de que com o desenvolvimento industrial de nossos países afro-asiáticos e com o aumento da qualidade de vida de nossos povos, e com a eliminação dos obstáculos estrangeiros artificialmente infiltrados nas relações comerciais internacionais, aumentarão gradualmente os intercâmbios comerciais e a cooperação econômica entre os diversos países afro-asiáticos e serão cada vez mais frequentes os intercâmbios culturais.

Conforme os princípios de respeito mútuo à soberania e integridade territorial, de não-agressão mútua, não-intervenção nos assuntos internos do outro, igualdade e benefício mútuo, os países com diferentes sistemas sociais podem coexistir pacificamente. Partindo do compromisso de cumprir estes princípios, não há motivo para não poder resolver as disputas internacionais mediante diálogo.

Para salvaguardar a paz mundial, os países afro-asiáticos com situações semelhantes devem tomar a dianteira em cooperação e convivência pacífica. Não deveria prolongar-se a existência de discórdias e distanciamentos entre os países afro-asiáticos provocados pela colonização. Devemos nos respeitar mutuamente e dissipar possíveis suspeitas ou temores entre nós.

O governo da República Popular da China está totalmente de acordo com o objetivo da Conferência Afro-Asiática estabelecido pelos Primeiros Ministros dos cinco países do sul da Ásia no comunicado conjunto da Conferência de Bogor. Somos da opinião de que com a finalidade de contribuir ao impulso da paz e da cooperação mundial, os diversos países afro-asiáticos devem buscar primeiro a boa vontade e cooperação entre eles e estabelecerem relações de amizade e boa vizinhança conforme os interesses em comum. A Índia, a Birmânia e a China definiram os cinco princípios da coexistência pacífica como princípios que regem as relações bilaterais. Baseando-se nestes princípios as primeiras negociações entre China e Indonésia sobre a nacionalidade de seus cidadãos residentes no outro país, alcançamos resultados. Quando se celebrou a Conferência de Genebra, a China também manifestou que desejava desenvolver relações amistosas com os diversos países indochineses com base nestes cinco princípios. De acordo com eles, não há motivo justificado para não poder melhorar as relações entre China e países vizinhos como a Tailândia e as Filipinas. A China está disposta a cumprir estritamente estes princípios sobre os que estabeleçam relações de normalidade com os demais países afro-asiáticos e desejam promover a normalização das relações sino-japonesas. Para aumentar a compreensão mútua e a cooperação entre os países afro-asiáticos, propomos visitar amistosas entre os governos, parlamentos e organizações populares de diversos países.

Senhor presidente e senhores delegamos:

Já passou para sempre a época em que o destino dos povos afro-asiáticos se deixava manipular deliberadamente pelos outros. Estamos convencidos que ninguém poderá nos arrastar a uma guerra se estamos decididos a salvaguardar a paz mundial; ninguém poderá continuar subjugando-nos se estamos determinados a alcançar e salvaguardar a independência nacional; ninguém poderá separar-nos se estamos decididos a cooperar amistosamente.

O que necessitamos nos países afro-asiáticos é paz e independência, não queremos ver confrontação entre países afro-asiáticos e países de outras regiões já que também necessitamos ter relações de paz e cooperação com os países das demais regiões.

Nosso encontro foi extraordinário. Apesar das muitas divergências entre nós, estas não devem afetar a nossa vontade comum. Nossa conferência deve refletir de algum modo nossa vontade comum para que se converta em uma valiosa página na história de Ásia e África. Ao mesmo tempo, temos que continuar mantendo os vínculos que estabelecemos durante esta conferência para que possamos fazer contribuições ainda maiores para a paz mundial.

Como bem disse sua majestade o Presidente da República da Indonésia, nós, os povos afro-asiáticos, devemos nos unir.

Formulemos votos para o êxito da conferência!

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