Conheça a Comunidade Feminista Menino Chorão

por Carmen Souza, liderança na Comunidade Feminista Menino Chorão.

Publicado em 8 de março de 2021.

Leia o texto completo no site da Teia dos Povos em conjunto com o articulação Pertim.


O início

Eu fui a primeira a entrar na comunidade. Tem dez anos que a gente tá na comunidade, vai fazer onze anos.

Eu morei lá sozinha um bom tempo. Até as outras virem. A gente tinha sido despejada de uma outra ocupação. E dessa ocupação a gente foi prá uma outra ocupação. A gente ocupou umas casas do conjunto habitacional “Minha Casa, Minha Vida”. A gente ocupou 49 casas.

Eu fui a primeira a ser desapropriada. E fui lá prá esse terreno. E fiquei lá. Avisei as meninas onde eu estava. Quem quisesse ir pra lá, tinha espaço. Aí foi todo mundo indo. Quando todo mundo foi sendo despejado, todo mundo foi indo. E eu fui acolhendo todo mundo.

Aí quando começou as mulheres se casando, outras mulheres chegando com o marido, começaram os problemas.

E nós não podíamos contar com os homens. Tudo que a gente pedia prá eles, eles botavam dificuldade prá gente.

Aí eu entendi que nós não precisávamos de homem. Nós sozinhas podíamos se virar. Nós já tínhamos feito tanta coisa sem homem, então nós não necessitávamos mais de homem.

Homem num ia fazer falta pra nós. Nós num íamos sentir falta de homem. Nós não íamos sentir falta, porque nós tínhamos capacidade prá tudo.

Chamei as mulheres, e disse: vamos trabalhar, vamos lutar prá que nós seja independente. Quem já tem marido tudo bem, quem não tem continua independente. E nós não precisa de homem. Você não precisa do seu marido. Vamos prá frente.

Autonomia alimentar

E a ideia da horta era trazer alimento. Prá gente ter um alimento saudável. Porque a nossa horta é orgânica, não tem nenhum tipo de veneno.

Aí eu comecei testando a terra. E primeiro plantei milho, quiabo e maxixe. E abóbora. Aquela abóbora grandona. Aquele jerimum do norte, bem comprido. Faz doce.

Mas era só um teste. O que eu fui arrumando fui botando na horta. Fui plantando sementes que eu fui ganhando.

Fui plantando. E fui vendo como era que tava desenvolvendo.

E gente ía marcando tempo, quantos dias dava prá gente tirar pra comer. E a ideia era a gente ter o alimento saudável prá gente mesmo. Nem esperava se tornar uma coisa tão grande como tá hoje.

Primeiro fizemos os canteirinhos, porque a verdura é muito cara aqui na região. Tem uma feira mas  as coisas são caríssimas. E além de que não é saudável, é tudo produto envenenado.

E eu tive a ideia de que nós ia ter os nossos próprios alimentos sem veneno nenhum.

Tinha muita formiga. As meninas começaram a querer botar veneno prá matar formiga. Eu não aceitei.

Primeiro aquelas formigonas de roça que cortam as folha, eu botei fumo. Misturei fumo com água. E deixei sete dias o fumo dentro da garrafa. Depois botei nos ninhos de formiga.

Matou as formigas que comiam as frutas, as verduras. Matou tudo. Ficou só aquelas outras formiguinhas.

Assim foi e tá indo até hoje.

Chorão

O cantor Chorão [do Charlie Brown Jr.] foi o primeiro homem a nos ajudar e nos reconhecer como mulheres de luta.

Na época a gente nem sabia que ele era cantor, porque nós não tinha energia na comunidade, ninguém tinha celular. Nós não tinha acesso a internet, jornal, não tinha nada. E daí era aquela luz no gato, pouquinha, fraquinha.

Foi quando a gente foi pedir ajuda pros moradores de rua. E ele tinha um trabalho com os moradores rua. Aí o pessoal dele veio aqui atrás dos moradores de rua dele, que estavam aqui com a gente.

Ele veio ver pessoalmente conhecer a situação e começou a nos ajudar. Ele quem trouxe as primeiras marmitas, as primeiras cestas básicas. As primeiras telhas, quando os barracos passaram a ser feitos de madeira, que ainda era tudo de lona.

E foi ajudando a gente a cuidar da comunidade. A área do campo foi ele quem deu a ideia de que a gente tinha que deixar aquela área vazia, prá no futuro ser uma praça, um posto de saúde, um campo de futebol. Algo que servisse prá toda a comunidade. Até hoje a área ainda tá vazia.

Numa das vezes que ele veio, um jovem reconheceu ele. A gente até achou que era a brincadeira do moleque. Ficamos zoando dele.

Mas no dia que ele veio, ele falou assim:

“- Sou cantor sim, mas eu não tôu aqui como cantor. Tôu aqui como amigo de vocês. Porque eu faço trabalho voluntário e vou abraçar a causa de vocês. Tôu aqui pra ajudar vocês, mas não quero que vocês falem que eu tôu aqui dentro, que eu faço trabalho aqui dentro. Prá evitar de alguém tentar se aproveitar disso. Porque tem muito político que se aproveita do trabalho dos outros, prá aparecer. Eu não mexo com política.”

Aí tudo bem, ele ficou vindo. Mas logo, logo ele morreu.

Quando ele morreu, foi a época que ainda não tinha nome a comunidade. E como tinha que dar um nome prá comunidade, a gente botou Comunidade Feminista Menino Chorão.

Em homenagem a ele.

Olho por olho (por Julia Camargo)

Com o passar do tempo, a comunidade foi crescendo, e as mulheres começaram a trazer os companheiros, e assim um novo problema surgiu: a violência contra a mulher.

Carmen conta que ela e mais um grupo de amigas começou a ficar atenta às gritarias e bates bocas.

“No início era eu e mais algumas amigas, depois fomos crescendo e formamos um grupo de defesa enorme, com mais de cem mulheres da comunidade. Procuramos conversar com o agressor e mediar o problema, mas isso não adiantava e a violência continuava a acontecer. A polícia não tomava providências. Então, não tivemos dúvidas: começamos a descer a chibata e demos muita porrada nos agressores”.

Outra tática antiviolência adotada pela Comunidade foi a lei do apito. “Aqui apito não é brincadeira de criança, é pedido de socorro”, diz.

A ação consiste na comunidade sempre estar atenta a indícios de violência e usar o apito para alertar sobre o ato. Mesmo assim, os casos de violência contra as mulheres ainda aconteciam.

Segundo Carmem, o que de fato resolveu a situação foi greve de sexo, uma ideia que Carmen trouxe de uma Marcha Mundial das Mulheres da qual havia participado.

“Nesse encontro falavam que o homem transar com mulher a força era estupro. Cheguei e passei a informação para o grupo de mulheres: vamos usar isso contra eles. Isso se espalhou pela comunidade e em pouco tempo, todas estavam usando essa tática em qualquer ato de violência contra elas. Os homens ficaram muito bravos comigo e até hoje têm medo da greve do sexo”.

Foi assim que os casos de violência contra a mulher zeraram durante dois anos.

Pamonha

A idéia da pamonha foi do pessoal da Pertim. Porque temos uma cozinha comunitária, que é um sonho nosso de dez anos.

A gente conseguiu fazer essa cozinha o ano passado. Ela não foi nem inaugurada ainda. Nem batizada.

Eu falei prá eles que a ideia era fazer alimentos que saiam da nossa horta, do nosso quintal. Aí como eu tava na ideia de plantar milho, eles deram a idéia de com o próprio milho fazer as pamonhas. E serem vendidas prá gerar renda prás mulheres.

Foi quando o Rafael Minhoca teve a idéia de trazer o pessoal da Fazenda Malabares, e o outro Rafael, o Lama que é biólogo, dar um curso de biologia e plantar milho com as mulheres. E através desse milho fazer as pamonhas.

E mostrar prás mulheres que dava pra tirar renda daqui mesmo. E assim rolou.

A gente plantou o milho, colheu o milho daqui. E aqui elas fizeram a pamonha. E deu certo. Cada uma ganhou diária de R$ 100.

A Pertim trouxe os milho deles, que o nosso milho era pouco.

Tivemos uma encomenda grande de pamonha. Foi duzentas pamonhas por dia.

Foi uma satisfação muito grande. As mulheres estão bem satisfeitas, porque elas ganharam dinheiro sem sair de casa, aqui mesmo, perto dos seus filhos, né? Foi um grande exemplo e ficou pro aprendizado delas.

A gente vai plantar mais milho, prá no próximo a gente já ter mais milho plantado.

Daqui uns tempo vai ter milho. Os milhos já estão saindo as bonequinhas. Daqui uns dois meses já temos outro milho, né? Daqui mesmo.

Foi muito gratificante, foi uma satisfação imensa. E foi o primeiro trabalho na cozinha.

Vai ser chamada de A Cozinha das Pretas. O barracão chama-se Oficina Cultural da Mulher. A cozinha fica do lado. Já foi decidido o nome: A Cozinha das Pretas.

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