Imaginando o Regresso: Uma Prática de Memória e Resistência

Texto de Nooran Alhamdan

Originalmente publicado no site Institute for Palestine Studies.

Tradução por Felipe Andrei.


Estou abrindo caminho entre os corpos. O aeroporto está lotado e a fila para os táxis é longa. Vozes ressoam pelo terminal, gritando à procura de familiares perdidos no caos jubilante. Eu passo de carro em carro em meio ao tráfego e ando pela rodovia até localizar o carro do meu tio.

Estamos indo para Amã. Ao longo da estrada há filas intermináveis de bandeiras palestinas. Na casa da minha família, nós todos nos aglomeramos na sala de estar dos meus avós. Meu sido e minha teta se sentam no centro da sala, e meus tios, tias e primos ficam ao redor deles. Alguns membros da família querem ficar, mas meus avós queriam regressar.

Nós pegamos todos os documentos da família. As páginas estão amareladas pelo tempo, as letras estão desbotadas: a escritura de nossa casa na Palestina, documentos de refugiado, vários passaportes, a árvore genealógica. Preparamos esses documentos meticulosamente. Meus avós insistem em vestir suas melhores roupas.

Estamos na estrada. Quanto mais nos aproximamos da fronteira, mais intenso fica o tráfego. Abandonamos o carro. Meu pai ajuda o sido a subir na cadeira de rodas; meus primos seguram a mão da minha avó para ajudá-la enquanto começamos nossa marcha.

O que uma vez foi um posto de fronteira controlado por soldados, agora é uma porta de retorno guardada pelo nosso povo. As filas são longas, mas os voluntários dão o seu melhor. Eles não expulsam ninguém. Cada pessoa apresenta seus documentos e eles dizem: “Bem-vindos ao lar”. Jovens facilitam a divisão dos refugiados por região: “Vocês de Tiberíades, fiquem com os nortistas! Vocês de Gaza, com os de Ramla!”. Comboios de ônibus e carros conduzidos por pessoas que ficaram na terra natal buscam os antigos refugiados para levá-los para suas cidades e vilarejos.

O ônibus para Ramla parece um casamento: idosas cantam canções de vitória, rapazes jovens nos conduzem com cânticos. Ouvimos vários idiomas ecoando entre os assentos: Sueco falado por uma garota jovem, espanhol falado por uma família voltando do Chile. Dialetos do árabe saúdam o novo e o velho, vindos do mundo árabe e da diáspora. Quando o ônibus para, somos recebidos por uma multidão de voluntários, prontos para nos mostrar o caminho de volta até nossos vilarejos.

Subimos as colinas. Eu empurro a cadeira de rodas do meu avô. A estrada é esburacada, mas as rodas giram com rapidez, como se a terra estivesse nos empurrando, sentindo a empolgação do meu avô.

Um portão de metal foi derrubado. O que um dia havia sido uma zona militar fechada, agora era novamente um lar. Os prédios haviam sido reduzidos a pilhas de escombros. Mas estavam lá. Nós nos abraçamos e choramos lágrimas de alegria, e lágrimas de tristeza por aqueles que não podem estar aqui conosco. Então, o trabalho começa.

Na cidade, convivemos com famílias generosas que nos permitem morar com eles enquanto nosso vilarejo é reconstruído. As pessoas mais jovens ajudam na remoção de ervas daninhas, cavar fundações e encontrar pedras velhas. Os idosos se juntam a nós e bebem chá, sussurrando orações pelo nosso sucesso.

A primeira casa é reconstruída, depois outra, depois outra. Voluntários de outras aldeias se juntam a nós. Quando o trabalho termina, sabemos que não só terminamos de reconstruir nossas casas, ou mesmo o vilarejo – nós reconstruímos nossa terra natal.

Muitas vezes, eu imagino minha família voltando para a Palestina. Assim como a história do deslocamento de meus avós definiu a vida de meus pais e a minha, espero que a história de nosso regresso defina a vida de meus filhos e netos. Está na hora de começarmos a viver todos os dias como se nosso regresso fosse iminente em nosso tempo de vida. É possível. A libertação é possível. O regresso é possível. Reconstruir as vidas que foram tomadas violentamente de nossos avós é possível.

Historicamente, desejar o retorno tem sido vital para manter a identidade dos refugiados palestinos, sendo a Nakba o acontecimento violento vivido pelo nosso povo que acabou definindo nossa experiência nacional. Manter o direito ao regresso como relevante preservou vivas entre as gerações mais jovens do nosso povo as memórias das cidades e vilarejos perdidos em 1948. Eu proponho que ir além disso. Imaginar nosso regresso não é apenas uma fantasia, mas um exercício estratégico de preparação para o que um dia será realidade. E vamos ser tão radicais a ponto de imaginar nosso papel nessa preparação. Como organizaremos esse regresso físico? Quem vai facilitar esse regresso? Quem vai voltar? O que vai acontecer depois que voltarmos? Imaginar a libertação e o regresso é uma estruturação que permite aos palestinos se organizarem para isso. Imaginar o regresso é o primeiro passo para realizá-lo.

Isso já foi praticado no passado. O poeta e mártir palestino Ghassan Kanafani nos conduziu a esse intenso exercício de pensamento com seu conto “Retorno à Haifa”. Mesmo não se tratando do contexto de uma Palestina liberta, o casal de refugiados volta para casa. Sua experiência de regresso os faz chegar à conclusões políticas, eles voltam do exílio com um apreço renovado pelos esforços feitos pela resistência palestina para realizar o regresso. E o próprio Kanafani, participando desse exercício imaginativo radical, garantiu que sua escrita fosse um catalisador da sua própria resistência.

Imaginar o regresso é crucial para honrar nosso passado e resistir no presente. Uma das principais críticas à Autoridade Palestina e com a insistência no paradigma de Oslo é como os refugiados e seus direitos foram intencionalmente marginalizados. Imaginar o regresso é em si um pós-paradigma de Oslo. Uma rejeição do compromisso e uma adoção de uma estrutura política e humana que centraliza nosso passado, presente e futuro. Obsevar pelas lentes do regresso a colonização de povoamento que está em curso em Gaza, Akka, Jerusalém, Masafer Yatta e outras cidades e vilarejos palestinos deixa claro exatamente quais devem ser nossos objetivos como povo: a totalidade do nosso território e a dignidade do nosso povo. Ver esses eventos através dos acordos de Oslo, que exclui refugiados, o regresso e a Nakba, ainda não interrompeu a ocupação de Israel.

Vamos imaginar o regresso e vamos trabalhar para realizá-lo.

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