Trecho retirado do capítulo “Universidade sem vestibular” do livro “O socialismo na terra de Marx – RDA hoje”, escrito pelo jornalista brasileiro Ivan Godoy e publicado em 1986 pela Editora Alfa-Omega.
Transcrito por João Pedro Drey.
Depois visita ao Ministério do Comércio Exterior, almoço com o sr. Horneburg, do Ministério da Educação. Na verdade, só ele almoçou, pois eu estava me sentindo mal. Tinha exagerado no café da manhã e a gorduras e salames alemães fizeram seu efeito, agravado pelos refrigerantes e o café com creme que me ofereceram depois. Horneburg, que fala o espanhol perfeitamente, lembrou as dificuldades do período posterior à guerra. Foi necessário transformar o sistema educacional, um dos pilares do nazismo; a maioria dos professores era composta de elementos fascistas, que foram afastados do ensino, passando a trabalhar na produção e, ao serem reabertas as escolas, em setembro/outubro de 1945, iniciaram suas atividades quinze mil novos professores.
Tornou-se prioritário desenvolver o ensino nas áreas rurais, completamente atrasado. Deu-se, também, grande atenção para possibilitar o acesso de operários e camponeses às universidades. Ante de 1945, somente três por cento dos universitários eram de origem operária; em 1950, os filhos de trabalhadores fabris já constituíam 38,6 por cento dos estudantes do ensino superior. Atualmente, a composição social do corpo discente acompanha amplamente a da população do país, ou seja, todas as classes sociais têm as mesmas possibilidades de acesso à universidade.
Como é o sistema educacional hoje em dia a RDA? De acordo com Horneburg, todos os cidadãos, pela lei, têm que terminar os dez anos de ensino básico, correspondentes aos nossos 1º e 2º graus. Depois, vários caminhos se abrem: o aluno pode receber uma formação profissional de dois anos, que o transforma em operário qualificado, ou entrar no ensino pré-universitário, também de dois anos, para depois estudar na universidade. Pode fazer, também, um curso de três anos que une a formação como operário especializado com o ensino pré-universitário, o que lhe permite, posteriormente, continuar os estudos numa universidade, mas numa carreira científica ou técnica. Por último, há a opção de estudar certas profissões de nível superior, mas que não requerem ir à universidade, da qual o aluno tem que sair sempre com mestrado.
O vestibular não existe na RDA. O assunto me interessou e pedi uma explicação detalhada a Horneburg. Em resumo, a questão é a seguinte: evidentemente, não há vagas ilimitadas nas universidades, tendo que haver uma seleção. Esta se baseia no histórico escolar dos alunos, na vocação que o acompanharam nos primeiros dez anos de estudo. Os selecionados passam ao nível pré-universitário e, dois anos depois, entram no ensino superior. O fato de não passar por essa primeira seleção não é definitivo, pois o aluno pode pedir uma reavaliação do caso.
Quanto à escolha da carreira que vai seguir, procura-se satisfazer o desejo do estudante, mas nem sempre isso ocorre, pois não é possível que haja uma quantidade de médicos, por exemplo, superior às necessidades do país. Se o número de interessados numa carreira for superior ao de vagas, é feita uma seleção baseada nos méritos dos candidatos e os excedentes devem escolher outras carreiras. Segundo as estatísticas, 85 por cento dos alunos conseguem estudar nas carreiras que haviam solicitado inicialmente.
Segundo Horneburg, ao mesmo tempo que toda a população tem acesso à educação, há também uma atenção individual aos estudantes. Ou seja, nenhum indivíduo que tenha uma inteligência superior ou dotes excepcionais para determinadas atividades deixará de ter a oportunidade de desenvolver essas qualidades que o diferenciam dos demais. Por outro lado, nem todos terminam os dez anos de estudos obrigatórios. Há uma pequena minoria que só consegue chegar à oitava série. Nesse caso, o aluno poderá escolher entre 66 ofícios simples, que lhe permitirão ser útil à sociedade. Quando a criança sofre de problemas mentais ou físicos, estuda em escolas especializadas, que lhe possibilitarão uma integração posterior às atividades produtivas, assim como a sua realização como ser humano.
Um aspecto importante é que o ensino na RDA é absolutamente gratuito, em todos os níveis, da educação básica até a universitária. Meu interlocutor também chamou a atenção para o fato de que um operário especializado ou um técnico médio podem ter um nível de vida praticamente semelhante ao de um profissional de nível universitário, pois as diferenças sociais são menores na RDA do que nos países capitalistas. Assim, não existe a preocupação de ter uma carreira universitária como única forma de ascensão social. Perguntei se os formados nas universidades não enfrentavam problemas para entrar no mercado de trabalho. Ele esclareceu que o desemprego é inexistente, tanto entre os profissionais de nível universitário, como em geral entre toda a população do país.
A condição de religioso poderia pesar desfavoravelmente na hora da seleção para a universidade? Horneburg diz que isso não é levado em conta e que tanto entre alunos como entre professores, em todos os níveis de ensino, existem pessoas religiosas.
As pessoas cegas ou com fortes dificuldades visuais têm amplas possibilidades de se integrarem às atividades produtivas na RDA. Uma rede de centros especializados atende as crianças e jovens que enfrentam problemas desse tipo, sem ônus algum para os pais, inclusive nos casos de internato. Nessas escolas são ensinadas as mesmas matérias que nos demais centros educacionais correspondentes às dez séries de ensino básico.
Na quarta série as crianças aprendem taquigrafia para cegos. E da sexta à décima série, aprendem a escrever à máquina. Os alunos estudam o idioma alemão e línguas estrangeiras, assim como matemática, física, química e música, através do Braille, essencial para que possam adquirir os conhecimentos gerais exigidos nos programas escolares.
Essas escolas dispõem dos mesmos meios didáticos que as outras, além de aparelhagens especiais, como máquinas para a escrita Braille e máquinas de escrever para cegos. Ao terminarem o curso básico (1º e 2º graus), os alunos podem escolher entre dez ofícios, para se formarem como operários qualificados. Têm, também, a opção de ingressar numa escola técnica. Os que mostrarem aptidões podem fazer um curso pré-universitário e depois estudar numa universidade.
Um dos principais centros de reabilitação para cegos é a Escola Dr. Salvador Allende, de Karl Marx-Stadt (capital da província do mesmo nome), onde são formados operários qualificados para manejar máquinas-ferramentas. Aparelhos especiais ajudam os aprendizes a adquirir mais rapidamente os conhecimentos necessários.
Já adultos, os cegos contam com outras facilidades, com o objetivo de contribuir para sua participação ativa na vida nacional. Existe uma associação que atende 32 mil cegos e seis mil pessoas com cegueira parcial. Ela coordena, por exemplo, a venda de mais de duzentos artigos fabricados especialmente para essas pessoas, de máquinas de escrever até objetos de uso cotidiano, como termômetros, fitas métricas, diversos tipos de relógio, balanças, jogos de mesa, produtos para cães-guias e muitas outras coisas, que dão maior independência e liberdade de movimentos.
Todo tipo de livro é editado em Braille. Se preferir, o cego pode ouvir as grandes obras da literatura mundial em fitas-cassetes gravadas pelos melhores locutores do país.
A RDA fabrica atlas para cegos. São mapas em relevo que permitem determinar, pelo tato, os países e suas fronteiras, as principais cidades, rios e montanhas. Milhares de exemplares desses atlas que, por sua exatidão, não se diferenciam em nada dos mapas para videntes, são enviados para numerosas nações do mundo.
Todas essas medidas facilitam a existência dos cegos e sua integração à sociedade. Por exemplo, nessa mesma província de Karl-Marx-Stadt, 82,5 por cento de todos os cegos em idade ativa – uns novecentos homens e mulheres – exercem uma profissão, ocupando funções de responsabilidade.
Quem espera encontrar na RDA uma juventude vestida com roupas sóbrias tipo “Revolução Cultural” e somente dedicada ao estudo e ao trabalho, tem certamente uma grande surpresa. Pude constatar que o jeans é a roupa preferida dos jovens, que se vestem da mesma forma que no Ocidente. Os cabelos à moda punk são vistos nas ruas de Berlim e das outras cidades que visitei. Geralmente as estações de rádio e os programas musicais da TV transmitem rock. No entanto, nota-se que os jovens na RDA estão muito mais integrados à sociedade do que no mundo capitalista. E o seu nível cultural é francamente superior. Por exemplo, eles constituem sessenta por cento do público de teatro. Setenta por cento dos rapazes e moças são leitores constantes nas bibliotecas públicas. Cada um desses jovens pede emprestado vinte livros, em média, anualmente.
