Amanda Palha – O movimento LGBT e o Fim da Família

Transcrição da intervenção “O movimento LGBT e o Fim da Família” realizado pela militante Amanda Palha no Seminário “Democracia em Colapso?”, promovido pela Editora Boitempo.

Você pode conferir a intervenção em vídeo clicando aqui.

Transcrição e adaptação para texto por Andrey Santiago.


Na minha concepção, não existe forma revolucionária de fazer família.

Quando dizem para a gente: “O movimento LGBT que acabar com a família! O movimento LGBT é um movimento promíscuo que defende o sexo desregrado”, entramos numa viagem dos anos 90 para cá de se colocar numa posição defensiva, de dizer: “Não! A gente não quer destruir família nenhuma, não. A gente só quer amar. Não! A gente não tem nada a ver com promiscuidade, não. A gente até casa, a gente até tem filhos, a gente até constitui família.”

E isso é de um retrocesso político violento, que violenta inclusive a história de constituição do movimento LGBT na América Latina, violenta a história dos ganhos e lutas feministas na América Latina. Cabe a radicalização nossa também de afirmar com todas as letras o que é uma estratégia política crítica anti-sistêmica. “Vocês querem destruir a família?” Sim!

Queremos, não é? E se a gente não quer, não vai ser ameaça. E se a gente não é capaz de perceber isso, a direita faz questão de corrigir nossa burrice, porque eles falam isso pra gente.

Essa retórica da direita é a direita dizendo: “Vocês só são ameaça se quiserem mexer na família. Vocês só são ameaça se quiserem desregrar o sexo. Se quiserem desnormatizar o desejo. Vocês só são ameaça, se mexem nisso daqui.” E a gente vai dizer o que? A gente não quer ser ameaça? Não! Se a gente quiser ser ameaça. Existe todo um caminho traçado. É ali que a gente vai mexer, é ali que a gente tem que mexer. Isso tem outras implicações, no detalhamento da estratégia política de interlocução entre movimentos que podemos debater em outro momento.

A postura de escamotear a nossa estratégia, a nossa intencionalidade, não funcionou. Essa coisa de: “não pode dizer que a gente quer o fim da família porque isso assusta, vamos dizer de outro jeito” não fez um feminismo mais crítico em relação à família, na verdade, fez um feminismo retraído em relação à família. E retraído em relação à família significa retraído em relação às relações racializadas, retraído em relação às relações LGBT, retraído em relação às questões da prostituição, por exemplo. Retraído em tudo o que diz respeito a esse polo externo à instituição família. Negativo à instituição família.

Outra questão é não romantizar o que é popular. Uma estratégia anti-sistêmica quando ela assume o lugar da fala, ela é incômoda e não tem como não ser, porque ela mexe com o nosso brio, ela mexe com as nossas naturalizações, com o nosso senso comum. Ela é incômoda.

Agora, como trabalhar o processo de fazer, de tornar nítido, por exemplo, que essas vinculações de cumplicidade e apoio mútuo não são sinônimo de família? Família é outra coisa. Dizer que a gente quer o fim da família não quer dizer que a gente quer o fim do afeto ou das vinculações de autocuidado. A discussão é outra. Construir esse caminho é um outro processo. Só que construir esse caminho é um processo mais complexo do que passos iniciais que a gente não dá.

Existem três consequências da concepção de família que queria pontuar.

Uma é a dimensão racial, quando eu falo do pressuposto de humanidade, da racialização como pressuposto da constituição familiar, isso significa entender que a relação do homem e da mulher brancos e do homem e da mulher racializados – sejam negros, sejam indígenas – com a família não é a mesma.

Independente da classe, seja da mesma classe, uma mulher branca da classe trabalhadora e uma mulher negra da classe trabalhadora não tem as mesmas relações. A relação com família não é a mesma, porque a família é uma instituição racializada. Isso remete, por exemplo, ao que Federici dizia ontem: “O pressuposto de qualificar a discussão sobre aborto é compreender a contribuição que advém da experiência das mulheres negras organizadas sobre o direito à maternidade como complementar à discussão do direito ao aborto.” Isto é, a imanência de uma necessidade concreta a partir de uma relação específica com o mundo que é racializada.

Isso tem outro sentido quando a gente entende que o processo político econômico internacional, inclusive que a gente vive hoje, é de reorganização da relação da divisão internacional do trabalho, onde o Brasil ocupa cada vez mais um papel de produtor agropecuário para exportação. O que é uma retomada mais intensa das relações coloniais.

E a forma política desse movimento econômico também implica na intensificação das relações coloniais, o que significa que a racialização se intensifica como vem se intensificando. Algo que nunca desapareceu, mas que ganha uma forma ainda mais caricata, violenta e explícita. Isso tem um efeito nas relações para a família.

Isso tem a ver por exemplo, com prostituição. Isso tem a ver com travestis e mulheres transexuais. Porque discutir família, afeto e parentesco a partir desses lugares que não são o da mulher da família, que é uma mulher branca, heterossexual e cisgênero significa discutir a partir do papel oposto ao da esposa, que é o papel da puta. O lugar social da mulher não-esposa, que é o lugar da puta, é o lugar de onde emana essas experiências específicas com relação ao afeto, sexo, desejo, parentalidade, ainda que inseridos numa relação familiar formalmente.

Eu sou noiva, vou casar, tenho o meu companheiro, mas a relação que eu e que ele, inclusive como homem transexual, temos com a família, não é comparável com o que é a instituição família na sua forma ótima.

Quando a gente fala de desejo, entender que essa organização familiar diz respeito à manutenção da ordem social significa que a gente vai olhar para um desejo subsumido às relações sociais mais macro, seria o que a gente está olhando para um desejo e para um corpo subsumido, no sentido de que eles deixam de existir para nós.

O nosso desejo não existe para nós. Ele não é constituído para gozo pessoal. Nosso desejo é constituído para a manutenção de uma ordem social, para sermos esposas e maridos, para sermos produtoras e reprodutoras da força de trabalho. Nosso desejo existe para isso. A discussão é sobre a heterossexualidade compulsória, mas é sobre a própria existência da heterossexualidade. A sistematização do desejo nesses parâmetros de mesmo sexo, sexo oposto, mesmo gênero, gênero oposto, só se justifica porque existe uma pertinência na heterossexualidade que é sistêmica.

Entender que as relações sociais, nesse processo de constituição capitalista, a organização reprodutiva é parte constitutiva da reorganização social e das relações interpessoais significa entender que o trabalho reprodutivo não é só a procriação no sentido biológico. A reprodução biológica da força de trabalho significa dizer que essa distinção entre trabalho reprodutivo, trabalho produtivo, pessoas sistematizadas a partir da sua genitália – notem que eu não estou usando a palavra sexo ainda para descrever isso – extrapola para os demais trabalhos reprodutivos não-reprodutivos biologicamente. Essa distinção genitalizada passa a ser parâmetro para toda e qualquer relação social e identificadora dos trabalhos.

Se ela é identificadora dos trabalhos, significa que ela é inscrita diretamente na mercadoria força de trabalho. Ela é um caráter indissociável da mercadoria força de trabalho. Produzir força de trabalho na forma mercadoria, sujeitos-mercadoria-força de trabalho significa produzir gênero. Um gênero que é produzido na sua forma dimensão de mercadoria pelos trabalhos sociais individuais que produzem o gênero.

Qual é o dilema disso para nós e para essa discussão? Quando se fala de fetiche na teoria marxista, tem uma definição que eu gosto, onde se diz que a teoria do fetiche é uma teoria setorial da positividade do capitalismo.

O que a positividade do capitalismo? É uma teoria que diz respeito a como ele se mostra como algo que existe por si só, que se afirma como natural, como universal.

Sexo é o fetiche dessa relação. Sexo como um conhecimento sobre o corpo humano, como uma sistematização das diferenças biológicas da nossa espécie. É um conhecimento que se constrói no escopo da ciência moderna, calcado nessa divisão do trabalho reprodutivo. Essas relações práticas sociais decorrentes da organização do trabalho reprodutivo, fundam e parametrizam como a gente enxerga e sistematiza as diferenças entre os nossos corpos.

Esse conhecimento, o sexo biológico, aparece na forma fetiche – porque diz respeito a uma relação da mercadoria -, aparece na forma fetiche, ocultando as relações e determinações históricas e materiais da divisão reprodutiva do trabalho do gênero, se apresentando como algo natural. Por que isso é relevante? Porque isso não é uma discussão nova. Isso é uma discussão antiga do feminismo, o caráter social do sexo, mas é uma discussão que se dissolve com muita facilidade, porque ela não é necessariamente produto das necessidades imediatas de um movimento feminista genérico.

O cotidiano da luta feminista não impõe essa questão do caráter social do sexo como um pressuposto de discussão teórica, porque essa não é uma questão que está colocada. Da mesma forma, o desejo. Onde é que essas relações estão localizadas? No movimento LGBT. Quando se fala de desejo, a desnaturalização, a retomada do desejo para si, o desejo para gozo pessoal, o desejo para a realização erótica. É um pressuposto do movimento LGBT levado às últimas consequências, porque diz respeito a retirar o desejo do escopo da organização familiar.

E a questão do sexo, da ação política transfeminista. A ação política transfeminista ou mesmo movimento de pessoas trans, independente do seu discurso, mesmo na sua forma mais liberal, ela tem um pressuposto para se afirmar como legítima: a identidade de uma pessoa trans é questionar a naturalidade do sexo. O que é uma discussão imprescindível para desvelar as determinações históricas e materiais do sistema de gênero.

Então, esse discurso que é cada vez mais frequente de: “Ah, porque a gente precisa organizar as mulheres, as LGBTs, as travestis, as pessoas trans, as pessoas negras. Porque a nossa classe trabalhadora tem essas pessoas.” Por isso que precisa organizar? Precisa organizar porra nenhuma, vai usar outra pessoa, vai se fuder, não vai usar o nosso movimento, porque isso é utilitário.

“Precisamos organizar porque existe na classe trabalhadora” significa que você quer pagar de politicamente correto, mas não entendeu a qualidade da discussão e a pertinência da discussão numa postura que é muito comum da forma identitarista que o marxismo assume muitas vezes hoje, identitarismo em relação à identidade marxista mesmo, do paternalismo marxista.

O que o marxismo tem para contribuir para organizar essas lutas? Agora é o momento de afirmar o contrário. E eu me entendo como marxista. Nos temos termos de base teórica, de base metodológica. Digo que agora é o contrário. É hora de baixar a cabeça e os movimentos da esquerda revolucionária entenderem o que os movimentos negros, LGBT, de pessoas trans têm para contribuir para sua constituição teórica e para seu horizonte estratégico, porque se não aprender, vai continuar não conseguindo atingir a radicalidade necessária para construir uma alternativa sistêmica.

A gente precisa não perder o olhar de onde está localizado as nossas questões. Não na retórica, não na figura da pessoa que está aqui, mas na base epistemológica das construções e das respostas estratégicas onde isso está colocado, nas coisas que a gente faz. E se a gente não faz essa pergunta porque está assumindo o risco de ser incômoda, assumindo risco de ser tachada como liberal, não importa, porque não tem que ser nossa prioridade mais proteger as nossas identidades revolucionárias. Vai dizer que eu não sou uma revolucionária. Foda-se, não sou. Mas vai ouvir o que eu tenho pra dizer e ouvir o que a gente tem pra dizer. Porque a tarefa que a gente tem pra cumprir como classe trabalhadora, como povos subalternos, é muito mais importante do que a nossa defesa egóica das identidades pessoais.

Na minha concepção, não existe forma revolucionária de fazer família. Ponto. Por quê? Eu entendo a necessidade de mediar no discurso com o senso comum e com a experiência cotidiana. Mas quando estou falando de questionar e defender o fim da família, eu não estou falando de assumir a mesma postura que eu critiquei e ir pregar o fim da família por aí.

Não é disso que eu estou falando. O que estou dizendo é que compreender que a família tem esse papel estruturante e esse sentido geneticamente violento significa compreender que quem está no polo de violência da família vai ter essa violência se expressando nas suas necessidades concretas. Tem a ver com quer fazer Federici apontou sobre a luta das mulheres negras nos Estados Unidos.

Foi a luta das mulheres negras nos EUA, mães lutando para que o Estado pagasse pelo trabalho reprodutivo da maternidade delas, que afirmaram pela primeira vez que o trabalho reprodutivo é trabalho, numa perspectiva política que aponta pra superação da família como instituição.

É a ação política do movimento trans, de pessoas travestis e transexuais, que reinsere o caráter social do sexo como uma discussão inerente. Inclusive na sua forma mais liberal, porque não se discute transexualidade, travestilidade sem discutir o caráter social do sexo e que impõe, por exemplo, para o sistema de saúde, uma nova forma de organizar atenção e cuidado, centrada não na técnica, mas na necessidade humana subjetiva.

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