A Condição da Filha Mais Velha

Texto escrito por Sarah Sloat originalmente disponível no site The Atlantic.

Tradução por Andrey Santiago.


Ser a filha mais velha significa frequentemente sentir que você não está fazendo o suficiente, como se estivesse lutando para manter uma fachada de controle, como se toda a casa dependesse de sua diligência.

Pelo menos, é isso que um grupo de irmãs mais velhas tem dito online. Em várias plataformas de redes sociais, elas descrevem o estresse de se sentirem responsáveis pela felicidade da família, a pressão para ter sucesso e a impressão de que não são cuidadas da mesma forma que cuidam dos outros. Algumas ainda são adolescentes; outras cresceram e saíram de casa, mas ainda se sentem excessivamente envolvidas e sobrecarregadas. Como um tweet viral colocou: “você é feliz ou é a irmã mais velha e também uma menina?” As pessoas até cunharam um termo para isso: “síndrome da filha mais velha”.

Essa “síndrome” realmente reflete um fenômeno social real, disse Yang Hu, professor de sociologia global da Universidade de Lancaster, na Inglaterra. Em muitas culturas, os irmãos mais velhos, bem como as filhas de todas as idades, tendem a enfrentar altas expectativas por parte dos familiares — então, quem desempenha ambos os papéis é especialmente propenso a assumir uma grande parte das responsabilidades domésticas e pode lidar com mais estresse como resultado. Mas essa tendência de cuidar não é uma qualidade inevitável das filhas mais velhas; pelo contrário, pesquisadores me disseram que isso tende a ser imposto pelos membros da família que fazem parte de uma sociedade que presume que os filhos mais velhos devem agir de determinada maneira. E o desabafo online revela o quão frustrantes e inflexíveis podem ser as suposições sobre os papéis familiares.

Pesquisas sugerem algumas diferenças marcantes nas experiências de primogênitos e segundogênitos. Susan McHale, professora emérita de estudos familiares na Universidade Estadual da Pensilvânia, me disse que os pais tendem a se “focar em acertar com o primeiro”, levando-os a se fixar no desenvolvimento do primogênito enquanto cresce — suas notas, sua saúde, os amigos que escolhe. Com os filhos subsequentes, eles podem estar menos ansiosos e sentir menos necessidade de microgerenciar, o que pode levar a menos tensão na dinâmica entre pais e filhos. Em média, pais americanos experimentam menos conflitos com seus segundogênitos do que com seus primogênitos. McHale descobriu que quando os primogênitos saem de casa, a relação deles com a família tende a melhorar — e o conflito então costuma aumentar entre os pais e os filhos mais novos, porque o foco se volta para eles. A ordem de nascimento também pode criar uma hierarquia: irmãs mais velhas são frequentemente solicitadas a servir como babás, modelos e conselheiras para seus irmãos mais novos.

Para ser clara, a ordem de nascimento não influencia a personalidade em si — mas pode influenciar como sua família a vê, disse Brent Roberts, professor de psicologia da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. Filhas mais velhas, por exemplo, não são necessariamente mais responsáveis do que seus irmãos; em vez disso, tendem a receber mais responsabilidades porque são mais velhas. Esse papel pode afetar como você se entende. Corinna Tucker, professora emérita da Universidade de New Hampshire, que estuda relações entre irmãos, me disse que os pais frequentemente comparam seus filhos — “‘Este é meu atleta’; ‘este é meu rato de biblioteca’;… ‘fulano vai cuidar de mim quando eu envelhecer’” — e as crianças internalizam essas afirmações. Mas o papel atribuído a você pode não estar alinhado com sua disposição, disse Roberts. As pessoas podem ficar frustradas com as características que lhes são esperadas — ou de seus irmãos. Quando Roberts pergunta a seus alunos quais qualidades eles associam aos primogênitos, os alunos que são primogênitos tendem a listar aspectos positivos como “responsável” e “liderança”; aqueles que não são primogênitos, disse ele, apontam “mandão” e “controlador”.

O gênero introduz sua própria influência na dinâmica familiar. As mulheres costumam ser as “guardadoras de laços familiares”, ou seja, desempenham o trabalho invisível de “garantir que todos estejam felizes, que os conflitos sejam resolvidos e que todos se sintam cuidados”, disse McHale. Além dessa ajuda emocional, sua pesquisa mostra que, em média, as filhas passam mais tempo do que os filhos fazendo tarefas domésticas; os trabalhos comumente dados aos meninos, como tirar a neve ou cortar a grama, são irregulares e não tão urgentes.

Daughtering (filhagem em tradução livre) é o termo que Allison Alford, professora de comunicação da Universidade Baylor, que pesquisa filhas adultas, usa para descrever o trabalho familiar que meninas e mulheres tendem a assumir. Isso pode significar pegar receitas, planejar uma festa de aniversário ou reservar dinheiro para o futuro de seus pais; também pode envolver ações mais sutis, como guardar o que se pensa para evitar uma discussão ou ouvir as preocupações de seus pais. A filhagem pode ser satisfatória, até mesmo alegre. Mas também pode significar cuidar de irmãos e às vezes dos pais de uma forma que vai além do que crianças, especialmente as jovens, deveriam precisar fazer, me disse Alford.

Pesquisas específicas sobre filhas mais velhas são limitadas, mas os especialistas me disseram que, considerando as pressões impostas aos irmãos mais velhos e às meninas e mulheres, ocupar ambos os papéis provavelmente não é fácil. Tucker colocou da seguinte maneira: espera-se que as mulheres sejam cuidadoras. Espera-se que os primogênitos sejam exemplos. Tentar ser tudo para todos provavelmente leva à culpa quando algumas obrigações inevitavelmente ficam por cumprir.

Claro, essas conclusões não se aplicam a todas as famílias. Mas assim é com as filhas mais velhas: embora nem todas sejam naturalmente dedicadas ou ávidas por manter os laços familiares, nossa compreensão cultural dos papéis familiares acaba moldando as expectativas que muitas sentem necessidade de atender. As pessoas que descrevem a “síndrome da filha mais velha” provavelmente são profundamente diferentes entre si, mas falar sobre o que elas compartilham pode tornar suas cargas um pouco mais leves. E o melhor cenário possível, me disse Alford, é que as famílias comecem a renegociar o que é ser a filhagem — o que também deve levar em conta o que as filhas mais velhas querem para si mesmas.

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