Capítulo do livro “Refusing to be a Man: Essays on Sex and Justice” (Recusando ser um Homem: Ensaios sobre Sexo e Justiça em tradução livre) de John Stoltenberg, lançado em 1989 pela Breitenbush Books, sem publicação em português.
Tradução por Andrey Santiago.
Ilustração da capa “Suzana e os Anciões” de Artemisia Gentileschi.
Quando um homem olha para o corpo de uma pessoa como se quisesse que aquele corpo pertencesse a ele, ou como se o corpo de fato pertencesse a ele — não como se a pessoa fosse alguém, uma pessoa independente, autônoma, cujo corpo pertence apenas a si mesma — e quando um homem olha para aquele corpo como se fosse um objeto, uma coisa, e isso o excita sexualmente, o que isso significa?
O que significa que um homem fique sexualmente excitado ao olhar para um corpo dessa maneira, e o que significa que ele olhe para um corpo dessa maneira com o propósito de se excitar sexualmente?
Quando um homem está em um lugar público e vê uma pessoa à distância, uma pessoa que ele nunca viu antes, e concentra sua atenção no corpo dessa pessoa, examinando-o com uma intensidade particular, com uma curiosidade deliberada, com uma intenção inequívoca, e dentro de seu próprio corpo começa um pulsar, um acelerar do sangue, um desejo, e o que ele deseja é fazer sexo com aquela pessoa estranha, o que isso significa?
O que significa quando um homem está em um cinema escuro, assistindo a um filme, e observa as imagens de uma pessoa atuando que tem uma certa aparência e se comporta de uma certa maneira, e ele estuda aquele corpo através das roupas da pessoa que atua, e a imagem daquele corpo — sua forma, sua maciez e solidez, a definição do seu sexo — é mais real, mais presente para ele naquele momento do que qualquer outro aspecto de sua vida consciente, e ao olhar para aquela imagem ele se sente mais urgentemente viril, mais intensamente conectado à sua masculinidade do que se sente em relação a qualquer pessoa real, o que isso significa?
Quando, com uma mão, um homem folheia uma revista que contém fotografias de corpos nus e quase nus — corpos posando com seus órgãos genitais escondidos, corpos posando com seus órgãos genitais à mostra, corpos posando com adereços e com outros corpos, corpos posando com seus rostos olhando para a câmera e sem olhar para a câmera, corpos posando de forma a parecer disponíveis, acessíveis, tomáveis, em cores e em preto e branco — e com a outra mão ele se masturba, e ele busca de imagem em imagem, de corpo em corpo, de parte do corpo em parte do corpo, de pose em pose, acariciando e apertando ritmicamente, tensionando, tentando fundir o que vê com as sensações do seu próprio corpo, imaginando seu corpo e um daqueles corpos conectados, unidos, ternamente ou com força, e ele se masturba até terminar, e quando termina, termina também de olhar, e guarda tudo até a próxima vez — as revistas, as imagens, os corpos, as partes dos corpos — o que isso significa?
Quando um homem está diante de uma prateleira de revistas e seus olhos vagueiam de imagem em imagem, de fotografia em fotografia, pausando sobre os corpos que mais o fazem palpitar, os corpos que fazem seu interior se acender, como um susto grande e repentino, como um estrondo sônico, os corpos que o assombram, que o sacodem, que o fazem tremer de desejo sexual, intensificando um desejo, uma congestão pélvica que nunca parece abandoná-lo, corpos nos quais ele pode confiar para sentir isso, corpos que estarão lá para proporcionar isso quando ele precisar, e ele abre as revistas que não estão envoltas em plástico, folheia até encontrar as que são eficazes, as que deseja levar para casa, e ele leva algumas, compra algumas, o que isso significa?
Quando, para sentir vontade de fazer sexo, um homem precisa de parceiros sexuais que tenham uma certa aparência, um certo porte, e à medida que esses parceiros envelhecem ele os descarta, e à medida que ele próprio envelhece ele se torna cada vez mais obcecado em obter parceiros sexuais que correspondam exatamente ao tipo de corpo, à cor, à idade que ele exige, e ele os obtém da forma que pode — comprando-os, comprando imagens deles, possuindo-os de alguma forma — o que isso significa?
Quando um homem está em um lugar público e observa uma determinada pessoa, alguém que ele nunca viu antes ou alguém que vê regularmente, alguém cujo corpo desperta sua curiosidade sexual, e ele busca oportunidades para observá-lo melhor, de forma evidente ou discreta, para olhar alguma parte do corpo com mais detalhes, ou várias partes, ou para ver a pessoa com menos roupa, ou para se aproximar dela de forma a tocar, roçar, pressionar-se contra, ou segurar, e ele memoriza o corpo que viu, grava seus detalhes, as formas específicas de suas partes sexuais, e essa memória permanece viva dentro dele, em sua imaginação, durante seus episódios subsequentes de excitação sexual, sozinho ou com outra pessoa, e ele carrega consigo essa imagem, essa e outras que armazenou mentalmente de corpos de estranhos, e essas imagens ficam com ele, são suas, e ele as revisita mentalmente, e revisitar essas imagens o ajuda a gozar, o que isso significa?
O que significa quando um homem evoca imagens em sua mente ao fazer sexo com o corpo de alguém, para imaginar um corpo diferente, um corpo que não está ali, imagens de um corpo que ele precisa imaginar para sentir vontade de fazer sexo?
Quando um homem está tenso, ou zangado, ou ansioso, ou retraído e isolado e irritado e infeliz consigo mesmo, e então, para se sentir melhor, ele faz sexo consigo mesmo, com imagens de corpos de outras pessoas em sua mente, com fotografias de corpos de outras pessoas em sua mão, imagens de partes e poses específicas, e enquanto se masturba ele usa as imagens mentais ou fotográficas para ajudá-lo a imaginar um corpo ali com ele, um corpo específico com o qual ele possa parecer estar, tocar e sentir, um corpo com o qual ele possa fazer coisas, um corpo ao qual possa se conectar, um corpo imaginário mais real do que o seu próprio, e quanto mais vividamente ele imagina aquele corpo, mais excitado ele se torna, até gozar, tendo sexo em sua mente com um corpo em uma imagem, e então sente um momento de relaxamento e resolução, uma breve consolação, e depois, gradualmente ou subitamente, ele volta a sentir inquietação, desolação, incompletude e isolamento, e o corpo que ele havia imaginado desaparece, não há mais ninguém ali, e ele não quer mais ninguém ali, quer estar completamente sozinho agora muito mais do que quis estar com alguém antes, o que isso significa?
O que significa que as experiências eróticas mais rotineiras, mais repetidas, mais confiáveis, talvez até mais intensamente “pessoais” de um homem são aquelas que acontecem em relação a coisas — a corpos percebidos e tratados como coisas, a imagens que retratam corpos como coisas, a memórias de imagens de corpos como coisas? O que significa que ele responde sexualmente a corpos como coisas e a imagens de corpos como coisas de maneira mais ou menos constante, independentemente de haver um ser humano real com ele? O que significa quando a vida interior de um homem é obsessivamente devotada à sua objetificação sexual? O que significa quando um homem organiza grande parte de sua vida em torno de sua objetificação sexual, para garantir que periodicamente e com frequência ele possa estar em situações onde possa se excitar em relação a corpos que imagina como coisas? O que significa que seus apetites, sua atenção, suas opiniões e seus hábitos de consumo tornaram-se quase completamente manipuláveis simplesmente pelo acionamento de seu hábito de objetificação sexual? O que significa que, em sua resposta sexual à sua própria objetificação, tal homem seja absolutamente comum? O que significa que tal homem seja “normal”?
Objetificação Sexual como um Ato
É claro que nem todas as escolhas de homens quanto a objetos sexuais são consideradas normais. Há grande discordância psiquiátrica, religiosa e jurídica sobre quais partes ou tipos de corpo um homem tem o direito de objetificar sexualmente. De diferentes pontos de vista, vários objetos sexuais são tabus: dependendo do gênero; da idade; da cor, credo ou classe; da quantidade de força ou violência que o homem deseja usar contra eles, seja na fantasia ou na realidade; dos atos sexuais que ele quer realizar, quais genitais e orifícios deseja conjugar; de se outro homem já reivindicou posse exclusiva sobre o objeto sexual; e assim por diante. Mas a objetificação sexual, por si só, é considerada a norma da sexualidade masculina. A objetificação sexual feita por homens é vista como um dado, um mandamento biológico, tendo a mesma relação pré-ordenada com a resposta sexual masculina que, por exemplo, o cheiro da comida tem com a salivação de uma pessoa faminta. A objetificação sexual masculina — excetuando-se discussões minuciosas sobre quais objetos sexuais são inapropriados — é vista como uma forma “natural” e “saudável” de olhar para outras pessoas. Na verdade, a objetificação sexual é considerada tão natural quanto o próprio sentido da visão: tipicamente, os homens acreditam que, sempre que se responde sexualmente a um estímulo visual, isso significa, por definição, que se está objetificando sexualmente, apesar do fato óbvio de que a visão não é essencial para que a objetificação sexual ocorra (afinal, isso pode acontecer no escuro; além disso, uma pessoa cega de nascença pode considerar outra pessoa como um objeto sexual, como uma coisa). Uma sexualidade masculina sem objetificação sexual é impensável. A sexualidade masculina sem ela não seria sexualidade masculina. Por isso, nunca há uma investigação sobre a própria atividade, o ato real que é a objetificação sexual. O que exatamente é feito e como é feito — e quais são as suas consequências? Se tudo o que sabemos sobre a objetificação sexual é que, quando um homem a pratica, ele se excita sexualmente, talvez chegando ao clímax, então não sabemos muito, porque ainda não sabemos nada sobre o processo, a dinâmica, o evento, o sentido em que “objetificar sexualmente” é um verbo. Indo além, ainda não sabemos nada sobre o significado ético do ato: em que sentido ele é intransitivo — meramente um evento mental privado e talvez inconsequente — ou em que sentido é transitivo — uma transação na qual há um agente, um ato, alguém a quem o ato é dirigido e certas consequências, que deveriam e poderiam ser avaliadas.
Não é preciso dizer que tentar delinear o significado ético da objetificação sexual é muito difícil. Por um lado, não há uma tradição de discurso público e verdadeiro sobre a resposta sexual masculina à sua percepção e tratamento das pessoas como objetos. Mal existe um vocabulário para isso. E, por outro lado, tentar refletir sobre a objetificação sexual de forma consciente pode fazer a mente querer desistir, ficar em branco e se fechar. Tentar destravar e desbloquear a função da objetificação sexual na vida de um homem e rastrear seus efeitos, especialmente na vida das mulheres, pode significar o risco de reconhecer coisas demais que são profundamente perturbadoras. Pensar sobre a realidade e a experiência da objetificação sexual pode ser como tentar desatar um nó que foi puxado com força demais ao longo de muitos anos por muitas mãos — e como ter os seus próprios dedos presos em alguma parte desse nó.
Há formas muito mais fáceis de discutir a objetificação sexual — tipos de discurso nos quais questões incômodas de responsabilidade ética não precisam surgir. Por exemplo, um cientista natural pode falar sobre evolução e genética em termos que fornecem aos cientistas sociais um vocabulário para tornar a função da objetificação sexual eticamente neutra. Um zoólogo pode afirmar que a objetificação sexual serve a um propósito evolucionário na ordem natural, na seleção de parceiros de acasalamento que melhorarão a espécie. Um antropólogo pode dizer que a objetificação sexual nos seres humanos é análoga à maneira como os animais respondem aos odores uns dos outros, especialmente aos feromônios liberados durante o cio. E um sociobiólogo pode afirmar que há uma base genética para a objetificação sexual: ela é uma expressão do nosso DNA e de seu impulso implacável para estar presente na concepção do pool genético da próxima geração. Dessa forma, é possível discursar com facilidade e evitar completamente as questões éticas.
A avaliação das questões éticas no comportamento sexual dos homens caiu em desuso. Atualmente, é moda presumir que um ato está, mais ou menos, fora do alcance da análise ética se, em algum momento de seu curso, houver uma ereção ou uma ejaculação. Também está na moda descrever o comportamento humano em uma linguagem que obscurece o fato dos atos, o fato de que os atos têm consequências e o fato de que se está conectado aos próprios atos, quer se reconheça isso ou não. Além disso, tornou-se comum chamar os atos de “reações”, como se o verdadeiro agente responsável pelo ato fosse outra pessoa ou outra coisa. Assim, quando se trata do comportamento sexual dos homens, fala-se de “sentimentos”, “reações emocionais”, “expressão” e “fantasias” em situações em que seria mais preciso falar de ações que são, de fato, ações — ou seja, passíveis de interpretação e avaliação ética: quem está fazendo exatamente o quê e com quem? O ato é justo ou injusto? Qual é a consequência do ato para a pessoa a quem ele é dirigido? E a pessoa que está praticando o ato está prestando atenção ao ato, à sua consequência e ao seu impacto sobre outra pessoa? Esse tipo de interpretação ética não é sinônimo de atribuir “pecaminosidade” ou “retidão” ou “condenação” ou “bem-aventurança”. Essas categorias elevadas — que pendem por um fio de cosmologias extremamente duvidosas — raramente são formas claras de articular questões concretas de justiça entre seres humanos. Em vez disso, investigar o significado ético da objetificação sexual é tentar identificar aquele aspecto da objetificação que constitui uma ação transitiva — um ato que alguém pratica, um ato que alguém pratica contra outra pessoa como se essa pessoa fosse uma coisa. Só porque o ato trata outra pessoa como se ela não fosse uma pessoa real não significa que não exista uma pessoa real a quem o ato seja dirigido.
Certamente, a tecnologia hoje pode alterar significativamente a continuidade de tempo e espaço na qual os atos de objetificação sexual e suas consequências normalmente seriam considerados conectados. Por exemplo, o ato de objetificar sexualmente o corpo de alguém que está de fato “ali”, vivo e presente para quem está praticando a objetificação sexual, pode ter um significado ético um pouco diferente do ato de objetificar sexualmente alguém cujo corpo agora está representado em uma fotografia ou filme (o que existe como prova documental de que um ato de objetificação sexual foi praticado contra uma pessoa específica em algum outro tempo e lugar por outra pessoa). Ainda assim, ambos os atos possuem um significado ético. Alguém — aquele que está objetificando — está fazendo algo, e o que ele está fazendo é um ato — ele não está simplesmente reagindo, ele não está simplesmente vivenciando um estado emocional, ele não está simplesmente expressando sua sexualidade, ele não está simplesmente tendo uma fantasia. E quaisquer que sejam seus sentimentos, reações, expressões ou imaginações, eles não desconectam seu ato do impacto que ele tem sobre outras pessoas.
Quando um homem objetifica sexualmente alguém — ou seja, quando ele encara o corpo de outra pessoa como uma coisa, e não como outro ser dotado de subjetividade, para fins de sua própria estimulação sexual — é muito improvável que ele perceba o que está acontecendo com qualquer pessoa que não ele mesmo. Na verdade, é provável que o homem esteja completamente alheio ao que está acontecendo com a pessoa que está objetificando, porque, uma vez que ele objetifica essa pessoa — uma vez que a reduz, em sua mente, ao objeto de seu desejo — então essa pessoa, para ele, por definição, já não é um sujeito real como ele mesmo. Se ele considera que sua objetificação tem algum efeito, pode projetar na pessoa uma espécie de regozijo idiota com o que ele está fazendo; e, de fato, a pessoa objetificada pode ser enganada a ponto de se sentir “lisonjeada” por ter sido escolhida como alvo da despersonalização por parte de um homem — uma distinção duvidosa que frequentemente se confunde com ser “desejada”. Mas, para ele, essa pessoa não merece qualquer empatia real, porque ela simplesmente não existe como alguém que poderia ter uma experiência válida distinta da sua, muito menos contrária à sua. “O que está acontecendo” é apenas sua própria excitação sexual. Ponto. Dada a sua auto-absorção subjetiva nesse momento, em sua mente, literalmente não há outro ser real presente a quem algo possa estar acontecendo.
Objetificar sexualmente uma pessoa faz com que ela pareça ausente, não realmente “ali” como um eu igualmente real, esteja ou não fisicamente presente. Dessa forma, quem está objetificando sexualmente cria uma distância entre si e a pessoa objetificada; é um abismo entre alguém que se vivencia como real e alguém que ele experiencia como irreal. Então, se durante esse processo ele parte para o ato sexual, seja sozinho ou “com alguém”, ele experiencia a realidade de sua excitação e liberação sexual como um mediador, uma ponte sensorial, que produz uma sensação transitória do que lhe parece intimidade sexual pessoal. Mas trata-se essencialmente de um evento solipsista, uma experiência sexual totalmente autorreferente.
A predisposição masculina para objetificar sexualmente, combinada com as tecnologias modernas de produção de imagem, criou um vasto comércio de documentos fotográficos de pessoas transformadas em coisas. A câmera tornou-se tanto meio quanto metáfora da objetificação sexual masculina: pode ser usada para tirar uma foto de uma pessoa real sendo objetificada sexualmente, e essa imagem pode ser reproduzida e vendida a milhões de homens, para que possam estar sexualmente “presentes”, por procuração, ao corpo da pessoa tornada “ausente” na imagem. Dessa forma, o consumidor está conectado — visceral e eticamente — ao ato de objetificação sexual que ocorreu diante da câmera. A foto é feita da forma como é feita para que possa ser vendida da forma como é vendida, para que possa ser usada da forma como é usada. Cada consumidor, cada comprador de uma documentação reproduzida da objetificação original, é cúmplice nesse comércio, um elo na cadeia de lucro, e, portanto, carrega alguma responsabilidade, ainda que amplamente compartilhada, pelo ato de objetificação sexual que aconteceu originalmente diante da câmera, mesmo que tenha ocorrido antes de ele pagar por aquilo. O ato não foi feito por ele, mas assim que ele compra sua documentação, torna-se alguém para quem o ato foi feito, alguém cuja intenção — junto com a de muitos outros — foi coletivamente expressa e concretizada no ato original e específico. Saber que compartilha essa intenção com outros homens — uma classe de consumidores que ocupam posição semelhante, tanto visceral quanto eticamente, em relação à pessoa retratada — é, de fato, um elemento significativo no “prazer” que recebe; e sua identificação com a subjetividade desses outros homens é o grau até o qual suas percepções se aproximam, ainda que minimamente, da empatia.
Quando homens — individual e coletivamente — fazem sexo olhando para um objeto sexual fotografado, eles estão literalmente fazendo sexo com uma coisa, a fotografia, e figurativamente fazendo sexo com aquilo em que o fotógrafo transformou alguém. O objetivo todo de consumir documentações de objetificação sexual não é empatizar com a pessoa objetificada. Chamar isso de necrofilia em massa não é grande exagero; em graus variados, homens que objetificam sexualmente por meio de imagens tendem a responder a imagens de “êxtase”, “devassidão” e acessibilidade sexual que são, na verdade, sinais fotográficos de ausência de vida. Certas expressões faciais drogadas e sonolentas, posturas de languidez que beiram a paralisia, olhos apagados que olham para o nada — todos esses são símbolos populares — ou, talvez mais precisamente, sintomas comuns — de uma consciência anulada, uma ausência de autodeterminação, uma falta de vontade independente, uma espécie de morte cerebral.
Supremacia Masculina e Identidade Masculina
Como começa a história de um homem com a objetificação sexual? Para quem? Em que contexto? E por quê? Sem dúvida, há tantos detalhes diferentes quanto há homens no mundo, mas todas as histórias psicosexuais dos homens compartilham um conjunto de temas comuns, porque todas ocorrem dentro da supremacia masculina.
Supremacia masculina é o termo honesto para o que às vezes é chamado de forma evasiva de patriarcado. Trata-se do sistema social de dicotomização rígida por gênero, por meio do qual pessoas nascidas com pênis mantêm o poder na cultura, em oposição à casta sexual das pessoas nascidas sem pênis. A supremacia masculina não está enraizada em nenhuma ordem natural; pelo contrário, foi socialmente construída, criada especialmente por meio de uma crença socialmente construída sobre o que é o sexo, quantos existem e quem pertence a qual.
A objetificação sexual tem uma relação crucial com a supremacia masculina. A objetificação sexual também não está enraizada na ordem natural das coisas; ela é, antes, um hábito que se desenvolve porque desempenha uma função importante na criação, manutenção e expressão da supremacia masculina. A relação entre objetificação sexual e supremacia masculina funciona de duas maneiras mutuamente reforçadoras: (1) o hábito masculino de objetificar sexualmente contribui em parte para construir a supremacia masculina na cultura, e (2) a supremacia masculina na cultura pressiona os homens a se adaptarem adotando o hábito da objetificação sexual. Esse hábito torna-se tão forte ao longo da vida de um homem precisamente porque ele serve, com força máxima, para localizar seu senso de si mesmo como par em relação à supremacia que percebe nos outros homens. Uma vez que ele sente essa localização de forma palpável, ele conhece o que se pode chamar de identidade sexual masculina — um senso de si mesmo como alguém que se dissociou suficientemente do status inferior das mulheres.
É assim que o hábito emerge: primeiro, chega um momento na vida da criança com pênis em que ele percebe que seu mundo está organizado em duas categorias distintas de pessoas — masculino e feminino, ou quaisquer que sejam os termos que ele compreenda na época. Um pouco depois, ele percebe, por meio de pistas sociais de intensidades variadas, que é melhor se identificar com uma (masculino) e se desidentificar da outra (Mãe). Também chega um momento em que ele experimenta esse estado de coisas — e sua própria relação precária com ele — com uma dose considerável de confusão, estresse, ansiedade e medo. Podemos chamar isso de ansiedade de identidade de gênero — seu terror específico de não se identificar completamente como homem. (Claro que meninos não deixam registros diretos sobre isso, mas é uma inferência razoável com base em memória e observação.)
Depois, chega um momento no crescimento do corpo em que diversas condições de risco, perigo, ameaça e susto fazem com que seu pênis fique ereto — sem que ele entenda o porquê e sem, ainda, qualquer conteúdo sexual específico. (Isto não é especulação; foi documentado em entrevistas com meninos pré-púberes.) Entre os eventos ou experiências que meninos relatam como associados a ereções estão: acidentes, raiva, susto, estar em perigo, grandes incêndios, andar de bicicleta rápido, descer de trenó rápido, ouvir um tiro, jogar ou assistir a jogos empolgantes, boxe e luta, medo de punição, ser chamado para recitar na sala de aula etc. Podemos chamar isso de reflexo básico de luta ou fuga, expresso involuntariamente nessa idade como ereção. A questão é que esse modesto frenesi anatômico acontece no contexto de uma sociedade que valoriza o pênis não apenas como o lugar da identidade sexual masculina, mas também como o determinante fundamental de todo o poder sagrado e secular. Podemos chamar isso, portanto, de feedback do corpo do menino carregado de presságios supremacistas masculinos, para dizer o mínimo.
Nos primeiros anos, as ereções “não sexuais” involuntárias de um jovem (aquelas causadas por perigo, por exemplo, e não por toque ou calor) podem ser tão distrativas e desconcertantes que provocam ainda mais pânico e ansiedade, o que, por sua vez, pode tornar a perda da ereção praticamente impossível. Em algum momento da vida, se estiver se desenvolvendo “normalmente”, ele aprende uma associação física e emocional entre esse medo e seu “desejo”; esse é o momento em que, talvez de forma irreversível, sua ansiedade de gênero e suas ereções reflexas tornam-se ligadas: em relação aos corpos de outras pessoas, ele sente agudamente sua ansiedade sobre se identificar com a masculinidade autêntica — particularmente em relação a detalhes dos corpos alheios que ele percebe como específicos de gênero. Em algum ponto da percepção do que ele considera como a sexualidade inequívoca de outro corpo, ele experimenta um choque, um instante de pânico, uma sinapse de medo — como se fosse lembrado de que sua própria autenticidade como homem está em risco. O pânico, a agitação fisiológica, produz uma ereção automática. Ele eventualmente aprende a desejar essas ereções porque as vivencia como uma resolução temporária da sua ansiedade de gênero — porque, enquanto as sente, ele sente de forma intensa uma afiliação sensorial com o que infere ser a sexualidade de outros homens. No entanto, ele continua a depender da ansiedade de gênero como fonte da agitação física e emocional que sabe poder ser estimulada para fazer seu pênis endurecer. *
A Promessa da Violência
A objetificação sexual em pessoas nascidas com pênis é uma resposta aprendida dentro de um contexto social de supremacia masculina. A objetificação sexual masculina não é biologicamente ordenada, nem geneticamente determinada. Em vez disso, é a supremacia masculina da cultura que determina como as sensações penianas serão interpretadas. O significado dessas sensações é codificado e impresso ao longo do tempo, de modo que um homem desenvolve o hábito característico de responder com uma ereção à percepção da especificidade de gênero em outros corpos. Em sua busca por repetições mais confiáveis dessas ereções, ele pode cultivar uma iconografia privada de corpos e partes do corpo específicos de gênero — emblemas particulares da dicotomia de gênero que revivem sua ansiedade enterrada sobre se ele realmente pertence ao sexo ao qual supostamente pertence.
Essa iconografia pode variar amplamente de homem para homem — por exemplo, as imagens corporais emblemáticas podem ser predominantemente femininas (nesse caso, sua objetificação é considerada heterossexual) ou predominantemente masculinas (nesse caso, sua objetificação é considerada homossexual). Em qualquer caso, toda objetificação sexual masculina se origina do dilema comum de como se identificar e se sentir real como homem em uma cultura supremacista masculina. Esse dilema pode ser resolvido ou por meio da diferenciação em relação a um objeto feminino, ou pela assimilação de um objeto masculino. De qualquer forma, a resolução buscada é uma ligação corporal com os homens.
A objetificação sexual masculina não é simplesmente uma resposta à supremacia masculina; ela também funciona para reforçá-la. Em toda parte — seja na cultura de massa ou na cultura erudita — há expressões codificadas de objetificação sexual masculina, principalmente apresentações de mulheres e meninas como objetos, exibidas como marcas territoriais que definem o espaço como um mundo a ser visto apenas pelos olhos dos homens. Há algumas restrições à objetificação sexual masculina de outros homens; a maioria dos homens não quer que se faça com eles o que se supõe que eles façam com as mulheres. Enquanto isso, a maioria das mulheres vê suas circunstâncias econômicas determinadas, em grande parte, por se — e por quantos anos — sua aparência física atende aos padrões definidos pelos homens — padrões que tanto homens heterossexuais quanto homossexuais conspiram para estabelecer. E, para muitas mulheres, a objetificação sexual masculina é um prelúdio para a violência sexual.
Às vezes, apenas considerar o corpo de outra pessoa como um objeto não é suficiente; não satisfaz a necessidade habituada de um homem de experimentar agitação física e emocional suficiente para provocar um retorno sensorial sobre sua sexualidade. Nessas ocasiões, um homem aprende que pode reproduzir o resultado erétil de sentir ameaça, terror e perigo, como quando era criança, simplesmente sendo ameaçador, aterrorizante e perigoso para o objeto sexual escolhido. Isso funciona ainda melhor agora, porque agora ele está no controle. Ele pode fazer isso com sucesso em sua imaginação, depois em sua vida, depois novamente em sua memória, depois novamente em sua vida… Funciona ainda melhor agora; quanto mais pavor ele provoca, mais “desejo” ele sente.
Antes que um homem cometa um assédio sexual ou um ato sexual forçado, esse homem realiza um ato de objetificação sexual: ele transforma uma pessoa em um objeto, algo menos real do que ele mesmo, algo com um sexo; ele vê esse objeto como presa sexual, alvo sexual, alienígena sexual — para que possa sentir completamente sua própria realidade como homem. Nem toda objetificação sexual necessariamente precede a violência sexual, e nem todos os homens se satisfazem apenas com a objetificação; mas há um sentido perceptível em que cada ato de objetificação sexual ocorre em um continuum de desumanização que promete violência sexual masculina em sua extremidade final. A despersonalização que começa na objetificação sexual é o que torna a violência possível; pois, uma vez que você transformou uma pessoa em uma coisa, você pode fazer com ela o que quiser.
Por fim, o segredo sujo sobre a objetificação sexual é que ela é um ato que não pode ser realizado com atenção ao seu significado ético. Do ponto de vista da experiência — da perspectiva de um homem que está objetificando sexualmente — objetificação sexual e autoconsciência ética são mutuamente excludentes: um homem não pode refletir sobre o que está fazendo e sobre as consequências reais para pessoas reais e, ao mesmo tempo, realizar plenamente o ato de objetificação sexual. Isso é impossível, porque sua própria realidade subjetiva depende da irrealidade de outra pessoa. Tudo o que pode ser deixado “lá fora”, no seu campo de consciência, é a sexualidade do outro — uma representação abstrata de um gênero — em comparação com a qual sua própria sexualidade pode florescer e se intensificar. Assim é que um homem desativa sua capacidade de empatia ética — qualquer que tenha sido essa capacidade — para cometer um ato de despersonalização que é “gratificante” essencialmente porque cumpre sua sensação de uma identidade que é autenticamente masculina.
Se algum dia houver possibilidade de igualdade sexual na vida de alguém, isso requer, no mínimo, tanto a capacidade quanto o compromisso de considerar outra pessoa como um ser completo, como alguém que possui uma integridade de experiência independente e autônoma, como alguém que é, simplesmente, tão real quanto nós mesmos. Mas, como sociedade, estamos tão longe de realizar esse requisito nas questões da sexualidade privada quanto estamos nas políticas públicas. Quando a excitação sexual privada passa a depender da imaginação de que uma pessoa específica não é real, não está ali, não habita seu próprio corpo como sujeito igualmente ativo; quando a maior parte do sexo que os homens praticam ocorre entre sua própria realidade imaginada e a irrealidade imaginada de sua “parceira”; quando uma liberação orgástica completamente autorreferencial pode ser confundida com “um relacionamento sexual significativo”; quando a objetificação sexual privada se torna política pública tácita, nosso critério aceito de sexualidade “libertada”; quando o mercado consumidor está saturado de documentações visuais de objetificação sexual feitas especificamente para o uso masturbatório dos homens, para o condicionamento repetitivo de sua sexualidade à alienação das vidas reais de outras pessoas… isso significa que todos nós estamos em sérios apuros.
As questões éticas em qualquer relação sexual são complexas e variadas. Talvez não haja nenhuma maneira de se ter absoluta certeza de que se está agindo de forma completamente justa ou responsável em qualquer encontro sexual. Somos, como se diz, “apenas humanos”. Mas nossa humanidade compartilhada não elimina nossa obrigação de tentar; ao contrário, é o que cria essa obrigação: porque todos nós somos humanos. Na objetificação sexual, suspendemos nossa crença de que isso é verdade e violamos nossos direitos mútuos à realidade. Mas há também um sentido em que nos desconectamos de nossa própria individualidade humana, porque nos desconectamos da responsabilidade por nossos atos. Responsabilidade é algo pessoal; é quem somos. Desaparecemos uns para os outros como pessoas quando cancelamos nossa responsabilidade pessoal; nos desconectamos, perdemos a sustentação, deixamos de interagir como sujeito e sujeito. A saída de nossa insularidade não é como sujeito e objeto, nem como quem toma e quem é tomado, nem como eu-real e brinquedo sexual. Isso não é intimidade; é apenas adjacência. O que nos conecta, o que nos relaciona, é nossa certeza de que cada um de nós é real — e como levamos esse fato profundo em consideração em tudo o que, juntos, fazemos.
Nota de Rodapé
* A “proibição” eletiva dos encontros homossexuais — como, por exemplo, em locais públicos — e o perigo físico objetivo de muitas práticas sexuais sádicas também podem ser vistos como formas de preservar o papel do risco, do perigo, da ameaça e da exposição ao risco como elementos eficazes para induzir ereções.
