Capítulo do livro “Não Trocaria Minha Jornada por Nada” de Maya Angelou, originalmente lançado em 1993. Publicado em português pela Editora Nova Fronteira.
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Tradução por Julia Romeu.
Nós muitas vezes pensamos que os nossos problemas, tanto os pequenos quanto os grandes, terão de ser resolvidos de maneira contínua e detalhada, ou o nosso mundo vai se desintegrar e nós perderemos nosso lugar no universo. Isso não é verdade, ou, se for verdade, nossas situações eram tão temporárias que iriam entrar em colapso de qualquer maneira.
Cerca de uma vez por ano, eu me dou um dia longe. Na véspera do meu dia de ausência, começo a desfazer os laços que me prendem. Informo meus companheiros de casa, minha família e meus amigos próximos que eles não poderão entrar em contato comigo durante 24 horas. Depois, tiro o telefone do gancho. Coloco o rádio em uma estação que só toque música, de preferência uma que toque as preciosas e reconfortantes canções de outrora. Tomo um banho bem quente de banheira durante pelo menos uma hora. Escolho minhas roupas para me preparar para a escapulida da manhã seguinte e, sabendo que nada vai me perturbar, durmo o sono dos justos.
De manhã, acordo naturalmente, pois não uso nenhum despertador nem informo o relógio do meu corpo acerca de que horas ele deve se alarmar. Coloco sapatos confortáveis e roupas casuais e saio da minha casa, rumo a lugar algum. Se estiver vivendo numa cidade, vagueio pelas ruas, olho as vitrines ou observo os prédios. Entro e saio de parques, bibliotecas, saguões de arranha-céus e salas de cinema. Não permaneço em nenhum lugar durante muito tempo.
No dia da fuga, eu busco a amnésia. Não quero saber meu nome, onde moro, ou quantas responsabilidades sérias tenho sobre os ombros. Não suporto nem a ideia de encontrar até mesmo o amigo mais querido, pois então me lembro de quem sou e das circunstâncias da minha vida, que desejo esquecer durante algum tempo.
Toda pessoa deve passar um dia longe. Um dia em que vai separar conscientemente o passado do futuro. Empregos, amantes, parentes, patrões e amigos conseguem existir por um dia sem qualquer um de nós e, se nosso ego nos permitir confessá-lo, poderiam existir eternamente na nossa ausência.
Cada pessoa merece um dia no qual nenhum problema é enfrentado, nenhuma solução é procurada. Cada um de nós precisa se afastar das inquietações que não se afastam de nós. Precisamos de horas para vagar sem rumo, ou períodos de tempo sentados em bancos de parques, observando o mundo misterioso das formigas e o dossel formado pelas copas das árvores.
Se nos afastarmos por algum tempo, não estaremos, como muitos talvez pensem e alguns dirão, sendo irresponsáveis, mas nos preparando para cumprir melhor os nossos deveres e as nossas obrigações.
Quando eu volto para casa, sempre fico surpresa ao descobrir que algumas perguntas das quais procurei me evadir foram respondidas e que alguns embaraços dos quais esperei fugir tinham se desemaranhado na minha ausência.
Um dia longe age como um tônico de ervas da primavera. Consegue dissipar o rancor, transformar a indecisão e renovar o espírito.

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Que excelente reflexão. Obrigada por partilharem conteúdos como esse.
terei que provar de um dia longe. me permitir a beleza de abraçar a insignificância das coisas por um dia inteiro ser ter que dar satisfação de nada a ninguém.