Ensaio de Dani Offline.
Publicado originalmente em seu Substack.
Tradução por Andrey Santiago.

Isto não é um ensaio sobre vida noturna, não exclusivamente.
Quando eu tinha 15 anos, costumava sair de casa escondida para ir a festas. Escapando pela janela do meu quarto, rastejando até meu carro, prendendo a respiração enquanto girava a chave na ignição, depois partindo devagar na quietude azulada de uma noite de quinta-feira, eu tinha a sensação de estar participando de algo sagrado. No vácuo sacralizado do meu carro, apenas o cheiro quase terroso que saia do ar-condicionado podia testemunhar meus sonhos de transgressão e independência. Eu ainda não sabia, mas estava me tornando uma artista.
Apresento este exemplo para marcar um paradoxo que atravessa o título deste ensaio. A participação pura, anônima, em algo estranho e belo é, muitas vezes, o que nos atrai para o centro de tudo. Os melhores escritores que conheço são leitores devotos. Os melhores músicos que conheço ouvem música o tempo todo. Será realmente um problema que todo mundo queira ser artista hoje em dia?
Talvez a questão não seja um impulso herdado de ser criativo, mas principalmente um exercício de atribuição de valor. Participar das criações dos outros, para muitos de nós, passou a parecer um meio para um fim. Lemos livros para nos tornarmos melhores escritores, ou para parecermos bem-informados. Ouvimos música para afinar nossas influências e encontrar nosso “público-alvo”. Sei que não estou sozinha nesse exercício vulnerável e aterrorizante — estudando as coisas que gosto e espantando inseguranças até que minha própria inspiração surja. Essa comovida busca não é nova. Quer gostemos ou não, a vida estética sob o capitalismo acaba dominada pela forma-mercadoria. A prática artística, com todas as suas possibilidades etéreas e sublimes, começa a parecer um clube exclusivo para membros.
Primeiro: por que desejamos tanto esse acesso? Por que tantas pessoas querem “ser DJs”? Num ensaio de 2015 para a The Atlantic, Debbie Chachra escreve que a primazia cultural de criar é moldada pela “história de gênero de quem criava as coisas”. Historicamente, entendemos que produzir coisas de valor é intrinsecamente superior a não produzir. Reparar, analisar, cuidar, compartilhar, tocar, sentir… não paga as contas nem garante uma página na Wikipédia.
Há também, é claro, o título sedutor de “artista”. Uma aura de mistério, genialidade e importância envolve a palavra. Numa cultura onde obras de arte, presença online e habilidades tangíveis se achatam de modo tão delicioso em mercadorias, ser um “creator” no centro da cultura gera moeda social e moeda real. Um artista hoje é, por necessidade, também um empreendedor.
Outra razão evidente pela qual tantas pessoas buscam o problemático status social de “criativo” atualmente é porque é mais fácil do que nunca se tornar um. A democratização dessa busca é, de um lado, algo belo. Mas também é incrivelmente lucrativa para aqueles que fornecem os meios de produção. À medida que criação e empreendedorismo se confundem, fazer arte se torna uma experiência, um estilo de vida a ser comprado e vendido. A sutil obrigação para que façamos networking, curadorias e nos fetichizemos (e gastemos o máximo que pudermos nesse processo) não pode ser boa para nós.
O problema não é que todos queiram ser artistas, é que o simples e amoroso prazer de desfrutar da arte com outras pessoas se tornou algo desvalorizado. Se for assim, para que estamos fazendo tudo isso? Por que ser artista se não conseguimos desfrutar das coisas que criamos?
Penso frequentemente em uma entrevista que vi certa vez com Fran Lebowitz, onde a autora e crítica fala sobre o efeito da crise da AIDS na cultura americana. É fácil entender quantos artistas foram perdidos, ela diz, mas não se fala o suficiente sobre a comunidade que se perdeu. “Por que o balé da cidade de Nova York era tão bom?”, ela pergunta. Bem, havia George Balanchine e Jerome Robbins. Claro. Mas também havia aquele público.
“Havia um nível tão alto de conhecimento, de tudo. Isso tornava a cultura melhor. Um público muito exigente… é tão importante para a cultura quanto os artistas. É exatamente tão importante.”
Se todo mundo é DJ, mas ninguém dança ou se importa sinceramente com a música, tudo precisa ser mais genérico, mais chamativo. Os artistas são pressionados a fazer de tudo para serem vistos e ouvidos, não seu melhor trabalho por amor.
Sabemos que toda arte é resultado de milhares de fontes; entendemos o fetiche ilusório da autoria que reveste nossos conceitos de arte, ofício, técnica e expertise. Então por que continuamos a colocar tanta primazia cultural nos criadores como indivíduos, e não como parte de um tecido maior da vida artística?
Roland Barthes escreve em A Morte do Autor que, quando lemos uma frase em um livro, nenhuma pessoa real a pronuncia: a voz não pode ser localizada, “e ainda assim é perfeitamente lida… porque o verdadeiro locus da escrita é a leitura”. A multiplicidade da arte está inscrita em seu destino, não em sua origem. No interesse de distinguir este ensaio de mais um texto de lamentação sobre algum problema cultural, quero me alongar nas possibilidades que nos aguardam quando retornarmos àquela magia — o verdadeiro propósito da arte, a razão de estarmos todos aqui.
Confesso isso como artista.
Como minha vida mudaria se eu dançasse mais? Se eu ouvisse mais, em vez de falar? Walter Benjamin escreve que “a massa distraída absorve a obra de arte”. Não quero absorver arte para alimentar meu próprio ego, quero experimentar maneiras de ser absorvida por tudo isso. O caminho está justamente em valorizar as coisas que aprendi a evitar: compartilhar, desacelerar, assistir a mim mesmo desaparecer.
Quando costumava sair de casa escondida para ir a festas, eu era sempre estranhamente cumpridora de regras nessa busca. Não bebia e dirigia, fazia meu dever de casa antes de sair, não ficava em corredores com homens que não conhecia, nem permanecia tempo demais em salas cheias de fumaça. O objetivo era aprender e explorar, vivenciar estar dentro do que estava fora. Eu queria proteger a magia.
Sou mais feliz quando sinto que existo além de qualquer identidade ou papel fixo. Sou mais feliz quando me sinto perdida nas coisas que crio e amo. Já não sou eu, mas parte de algo grande e imparável. O poder dessa perda é sempre impressionante quando acontece, e acontece repetidas vezes quando paro de pensar tanto em mim mesma e simplesmente aproveito.
E talvez Yeats diga isso da melhor forma:
“O trabalho floresce ou dança onde
O corpo não se machuca para dar prazer à alma,
Nem a beleza nasce do próprio desespero,
Nem a sabedoria de olhos turvos do óleo da meia-noite.
Ó castanheira, grande florescedora enraizada,
És tu a folha, a flor ou o tronco?
Ó corpo entregue pela música, ó olhar que se ilumina,
Como podemos distinguir o dançarino da dança?“

Já fazia um tempo que eu não visitava a página e hoje ao entrar me deparei com esse texto, que era exatamente o que eu precisava ler. A magia da escrita realmente nos encontra, meus mais sinceros cumprimentos ao autor!!