A Revolução Big Data pode reviver a Economia Planificada

Existem diversas teorias para explicar como aconteceu o colapso da União Soviética: um império que ficou muito grande, ineficiência econômica ou falência ideológica. Escolha um ou misture os três.

Mas no seu livro Homo Deus, o historiador israelense Yuval Noah Harari sugere uma razão mais prosaica: economias planificadas (e regimes autoritários) são ruins no processamento de dados. “O capitalismo venceu a guerra fria porque um processamento de dados distribuído funciona melhor que um processamento de dados centralizado”, é o que ele escreve.

Como poderia qualquer planejador central sentado nos escritórios da Gosplan em Moscou esperar entender todas as partes móveis da economia soviética em 11 fusos horários?

A loucura desse sistema foi melhor explicada por Otto Latsis, o falecido jornalista econômico russo. Ele contou como certa vez visitou uma empresa soviética de fabricação de telhas, que tinha grandes planos de expansão. Ele descobriu que todo o investimento estava sendo afundado em uma usina separada para destruir ladrilhos imperfeitos e descartados para impedir que fossem vendidos no mercado negro pelos trabalhadores da fábrica.

Assim como a maioria das fábricas soviéticas, os planejadores estabeleceram metas exigentes para a nova fábrica, concentrando-se na quantidade e não na qualidade, criando incentivos perversos para esmagar as telhas quase perfeitas. É difícil pensar em um exemplo mais acertado da destruição de valor que acabou com a economia soviética.

Mas a explosão de dados em nosso mundo moderno poderia – pelo menos em teoria – informar decisões gerenciais muito melhores e reduzir os desequilíbrios de informação entre uma economia planejada e uma economia de mercado. Os planejadores centrais estão adquirindo rapidamente as ferramentas para processar dados com mais eficiência.

Todos os nossos dispositivos conectados estão bombeando oceanos de dados sobre nossas atividades, demandas e desejos econômicos em tempo real. Apropriadamente aproveitados, esses dados poderiam imitar o mecanismo de preços como um meio de atender demanda e oferta.

Nas últimas décadas, os economistas do mercado livre têm pisado no túmulo da economia planejada. Poderia ela ressurgir de uma forma radicalmente nova?

Alguns parecem pensar assim na China, que permanece ligada à ideologia comunista – não importa quão vagamente aplicada na prática – e está desenvolvendo um dos mercados de dados mais vibrantes do mundo.

No ano passado, Jack Ma, fundador do Alibaba, a plataforma online com cerca de 500 milhões de usuários, argumentou que as novas tecnologias forneceram os meios para reunir e processar dados em uma escala quase inimaginável.

A aplicação de inteligência artificial a esses conjuntos de dados foi aprofundadora na nossa compreensão em tempo real do mundo. “Assim, o Big Data tornará o mercado mais inteligente e possibilitará o planejamento e a previsão das forças de mercado para que possamos finalmente alcançar uma economia planejada”, disse ele em uma conferência econômica.

Alguns economistas chineses foram mais longe. Em um artigo recente, Binbin Wang e Xiaoyan Li argumentam que uma economia híbrida poderia ser construída em um modelo baseado no mercado e dirigido por planos.

O fluxo mais livre de dados poderia contrariar muitos dos males que desfiguravam as economias planejadas: concentração excessiva de poder, corrupção em busca de renda e tomada de decisão irracional. O detalhe granular fornecido por massas de dados também pode permitir que os planejadores ofereçam aos consumidores opções mais personalizadas.

Os autores argumentam que os monopólios da plataforma online se assemelham a instituições centrais de planejamento. Seria mais “legítimo e racional” que o estado se tornasse uma plataforma de “super monopólio”.

Essas plataformas estatais poderiam operar como um aeroporto direcionando o tráfego voltado para o mercado. O aeroporto gerencia a capacidade, estabelece padrões de aviação, equilibra as demandas de segurança, meio ambiente e movimentação de mercadorias, e atende às necessidades de operadores, passageiros e varejistas.

Não há dúvida de que o Big Data pode melhorar a eficiência dos sistemas gerenciais, tanto corporativos quanto governamentais. Também pode levar a uma alocação de recursos mais racional, seja em termos de planejamento de infraestrutura de longo prazo ou gerenciamento de sistemas de saúde.

Mas enquanto esta economia híbrida pode ser pura na teoria, duas grandes dúvidas pairam sobre sua viabilidade no mundo real.

A primeira é que acumular dados e utilizá-los de maneira sensata são duas proposições muito diferentes, como mostram muitos projetos de TI governamentais fracassados em todo o mundo.

A segunda é quão inovadora essa economia poderia ser. É difícil para os consumidores sinalizarem uma demanda de dados por um produto que ainda não existe. Em alguns aspectos, seria como tentar dirigir para o futuro olhando para o espelho retrovisor.

Como o co-fundador da Apple, Steve Jobs, disse de forma famosa: “Os consumidores não sabem o que querem até que os mostremos”.


Artigo escrito por John Thornhill para o site Financial Times.

Disponível neste link.

Tradução por Andrey Santiago

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