Perspectivas do Movimento de Massas no Chile por Ruy Mauro Marini

Fonte: O Reformismo e a Contrarrevolução. Estudos sobre o Chile. Edições Era. Série Popular, México 1976.

Publicado originalmente na revista Chile Hoy nº 64, Santiago de Chile, 31 de agosto a 6 de Setembro de 1973. [PDF original]. Publicado na internet graças a Editora Era.


Ao iniciar o atual período da luta de classes no Chile, na década de 70, se colocaram imediatamente duas teses no seio da esquerda. Uma identificava praticamente a chegada da Unidade Popular ao governo com a tomada do poder e propagandeava, em sua consequência, como tarefas centrais, as relacionadas com a construção do socialismo. A outra considerava que a entrada da esquerda ao governo criava condições privilegiadas para desenvolver a luta de massas e a tarefa principal era, nesta perspectiva, trabalho junto das massas a fim de criar com elas as condições ideológicas, políticas e orgânicas para lograr esse objetivo.

A história tem mostrado a justeza desta segunda tese. A vida todos os dias está marcada por uma aguda luta entre a burguesia e os trabalhadores entorno do problema do poder. Entre a burguesia, que aspira o restabelecimento da dominação plena do capital, e da classe trabalhadora, que se esforça para suprimi-la, dá-se um enfrentamento que acaba em muitos mortos, se expressa em danos consideráveis a infraestrutura econômica do país e aos bens de particulares, e tem afetado seriamente o funcionamento da velha economia capitalista.

O governo e as massas

A importância do governo nesse processo tem sido percebida tanto pelas massas como pelos patrões. Não surpreende, portanto que – aprovados e muitas vezes orientados pelo imperialismo norte-americano – estes [os patrões] se lançaram com todas as suas forças contra o governo, enquanto os trabalhadores se impunham com a tarefa de garantir bases sólidas de ação, por meio de sua mobilização combativa e geração de seu próprio poder. Para isso, a classe trabalhadora e o povo tiveram que superar os obstáculos que surgiram do próprio seio da esquerda, onde os mesmos setores que haviam dado ontem o problema do poder como resolvido, tendem a identificar o movimento de massas com o curso do processo político-institucional que estamos vivendo.

O certo é que, embora o que acontece ao governo interesse diretamente o movimento de massas, ambas as coisas não devem ser confundidas: o governo é, antes, fruto do desenvolvimento do movimento de massas que existia antes dele e continuará a existir depois dele. Por outro lado, os fenômenos verificados no nível político-institucional – a cristalização de tendências, as relações entre forças políticas, avanços e retrocessos – não correspondem diretamente ao movimento de massas. Foi visto, por exemplo, como – em circunstâncias nas quais o governo parecia fraco e hesitante – o movimento de massas veio reforçá-lo com um impulso de energia.

Sem que isso implique em nada ignorar a importância de conter o ataque reacionário ao governo, vale a pena preocupar-se com a determinação dos elementos específicos do movimento de massas que, devido à sua durabilidade, são capazes de orientar a ação das forças revolucionárias. Vamos encontrar fatos antigos e novos, tendências que se desenvolveram antes de 1970 e outras que surgiram no período atual. Estes incluem: o novo caráter assumido pela luta de massas, a maneira como ela é afetada pelo problema do investimento público, a questão da modificação das formas de gestão de negócios, o problema agrário, as relações entre a classe trabalhadora e os militares, e a própria questão do poder popular.

A luta reinvidicativa

Não cabe aqui analisar todo os aspectos das lutas reivindicativas dos trabalhadores. Vamos apenas salientar que ele adquiriu um aspecto diferente em relação ao fornecimento de bens de consumo essenciais com a criação e desenvolvimento de organizações de massa dedicadas a esse fim. Independentemente das tendências predominantes no nível do governo, não será possível por muito tempo resolver problemas de suprimento sem apelar para a cooperação de organizações de massa; é ainda previsível que sua importância aumentará à medida que o recurso de racionamento for imposto. A margem de ação do governo não pode, nesse campo, ir além de favorecer esse ou aquele tipo de organização popular, que só levará à oposição que existe hoje entre o JAP e os conselhos de bairro, por exemplo: mover para o interior do qual passou a predominar. Por outro lado, a perda de posição dos setores populares em termos de distribuição de renda, devido à inflação e à especulação dos empregadores, eleva a revitalização da luta salarial como instrumento de acesso ao consumo (que havia perdido relativa importância em o último período).

A alocação de recursos públicos ao investimento tende a ganhar relevância nunca vista no Chile. A notável expansão do capitalismo de estado, verificada nos últimos três anos, aumenta muito sua capacidade de ação econômica. Isso levará a burguesia a redobrar suas pressões sobre o aparato estatal, capturar uma parte crescente dos recursos disponíveis e, ao mesmo tempo, afiar as contradições entre frações e grupos burgueses em torno da disputa dos despojos. Mas, no que diz respeito aos recursos públicos, o problema não será indiferente às massas, particularmente aos núcleos operários da área estadual. Desse modo, existem condições objetivas para a luta de massas para manter um caráter político marcado, na medida em que ela será amplamente combatida dentro do próprio Estado.

Dos problemas chaves

A gestão empresarial começou a ser discutida desde antes de 1964, uma discussão que teve uma primeira reflexão sobre a fórmula democrática-cristã de “empresas de trabalhadores”. No último período, o Acordo CUT-Governo marcou uma nova etapa, bem como o princípio da discussão, o qual foi assistido no ano passado sobre a autogestão. É claro, no entanto, que o problema não foi resolvido e que todas as tendências políticas escolheram suas cartas, incluindo a direita fascista com sua ainda imprecisa “empresa integrada”. A classe trabalhadora, por sua vez, começou a assimilar na prática a propaganda da esquerda revolucionária em favor da liderança e controle dos trabalhadores. O fracasso da fórmula propiciada pelo Acordo CUT-Governo reabriu a questão, ao mesmo tempo em que ganha mais amplitude, devido à extensão das empresas adotadas ou interpostas desde junho. Tudo isso indica que, embora condicionada pela situação política, a participação dos trabalhadores na gestão das empresas continuará mobilizando a classe trabalhadora. Além disso, deve-se notar que o problema também se coloca, de uma maneira ou de outra, em outros países da América Latina, particularmente no Peru.

A reforma da propriedade da terra e a reorganização da estrutura produtiva da agricultura não são apresentadas de maneira muito diferente. Surgido no início da última década, elas receberam um primeiro rascunho de uma solução com a lei democrata-cristã. Foi nesses três anos que sua aplicação se aprofundou, graças à implantação de um poderoso movimento camponês. As transformações feitas na estrutura agrária já são consideráveis e ainda não chegaram ao fundo. Resta, acima de tudo, definir os princípios que guiarão sua etapa subsequente. Por mais que o governo possa influenciar a solução do problema, ele precisará necessariamente da presença de um movimento camponês combativo, com um alto grau de conscientização e organização.

Militares e poder popular

Um dos fatos mais importantes deste período é o novo tipo de relações que foram estabelecidas entre a classe trabalhadora e o povo, por um lado, e os membros das forças armadas do Estado, por outro. Os trabalhadores aprenderam a discernir seus irmãos e aliados de classe lá, e o recíproco é verdadeiro. Esta é uma experiência que não pode deixar de ter repercussões futuras. Sob outro ponto de vista, as relações dos militares com o Estado também sofreram modificações, que não podem ser subestimadas no nível governamental. Isso não implica apenas a atribuição de novas responsabilidades a oficiais de alta patente, mas também uma participação mais direta dos militares, em todos os níveis, na vida do país. Nesse mesmo periódico (Chile Hoy, n º 55), foram publicadas informações oficiais de que todos os membros das instituições armadas terão direito a voto. Além disso, para dar apenas um exemplo, se os problemas de suprimento não puderem ser resolvidos sem atrair diretamente as organizações populares, é difícil admitir que os militares e suas famílias sejam excluídos deles.

Resta ser considerado o poder popular nascente. Entre os aspectos mencionados, esse certamente é o que, por sua própria natureza, se relaciona às diretrizes que prevalecem no governo. É óbvio que a solução mais favorável para as massas implica que estas se apoiem fortemente nas organizações do poder popular. Parece fora de dúvidas, contudo, que os cordões industriais, como expressão de uma ampla democracia sindical, constituem uma conquista que a classe trabalhadora dificilmente desistirá. Esses mesmos cordões, como as organizações de poder e os comandos comunitários em formação, representam formas de organização que não serão mais apagadas nas memórias dos trabalhadores. Na pior das hipóteses, eles poderiam passar por períodos de recesso, para ressurgir com força redobrada ao primeiro sinal de mobilização em massa do povo.

Há muita coisa que a classe trabalhadora e o povo avançaram nesse período, e eles não podem ser empurrados de volta à posições primitivas. É útil ter isso em mente e entender que é na medida em que esse progresso continua e que novas posições estão sendo conquistadas à medida que serão estabelecidas bases mais favoráveis para garantir uma orientação correta do governo. Embora às vezes o turbilhão da política cotidiana oculte esse fato, o curso do processo é realmente decidido pelas massas trabalhadoras, na luta por seus interesses imediatos e pelos objetivos políticos que são dados na própria luta.

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Imagens dos protestos chilenos de 2019. Por Suzana Hidalgo e Gabriel Giorgi.

Tradução por Andrey Santiago. Todos os grifos são próprios da tradução.

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