O Vaporwave pode estar Morto, mas seu Fantasma continua Vivo

Se você acredita que o gênero já morreu ou continua a florescer, o vaporwave continua a influenciar artistas como Billie Eilish, Ariana Grande e Tyler, the Creator.

O vaporwave é um gênero musical que não deveria existir. Ele não aparece nas rádios. Não vende produtos. O vaporwave está mais em casa em canais do Youtube com playlists de 24h e músicas do Bandcamp questionáveis do que em avenidas lotadas de pessoas.

De fato, poucas pessoas fora do mundo acelerado da cultura de memes online consegue mencionar este nome. Ele está, pela admissão dos fãs mais fiéis, morto como o disco. Entretanto, nada disso importa. A cena do pop moderno está possuída pelo fantasma digital do vaporwave, e não parece que ele vai ir embora tão cedo.

Paradoxalmente, para um gênero intencionalmente eclético, a história do vaporwave é razoavelmente bem documentada pela sua comunidade. Existem poucas opiniões dissidentes ou histórias alternativas. No final da década de 2000, uma coleção de artistas “chillwave” – nominalmente James Ferraro e Ariel Pink – cunharam um novo estilo de pop, o pop hypnagógico. Eles procuravam evocar emoções por meio de paisagens musicais cuidadosamente escolhidas e mixadas em vez de usar melodias tradicionais.

Sua mixagem etérea e as vibes intencionalmente retro deram a base para a estética vaporwave, mas de todos os modos, eles ainda eram convencionais na sua instrumentalização e letras.

Ferraro quis levar essa ideia além, e em 2011, ele lançou o lendário “Far Side Virtual”. Diferente de seus últimos trabalhos, “Far Side Virtual” era completamente digital, e era inspirado pelos sons de antigos ringtones, animações infantis da década de 90 e os tons angelicais do tema de início do Windows 95. Ferraro descreveu o álbum como uma paisagem estática da vida no século 21, uma “sinfonia plástica para o aquecimento global, dedicada ao Grande Depósito de Lixo do Pacífico.”

A grande sátira política e os sons focados na nostalgia do álbum iriam definir fortemente o vaporwave enquanto conceito, e é considerado amplamente como o grande progenitor do gênero.

Porém, mesmo com a grande influência de “Far Side Virtual” para o vaporwave, Ferraro não foi único responsável pelo fenômeno. Em 2010, Daniel Lopatin, lançou o álbum “Chuck Person’s Eccojams Vol. 1”, que teve discutivelmente um maior impacto no método de produção do que viria a se tornar o vaporwave.

Lopatin rejeitava a composição convencional. Ao contrário, ele se voltou aos “plunderphonics”, a remixagem de músicas já gravadas, como um meio de criar uma paisagem sonora. Como Ferraro, Lopatin foi fortemente inspirado pelo papel da nostalgia e do consumismo.

Em relação a base de suas músicas, ele usava afinações alteradas, samples cortados ou desacelerados de musicas dos anos 80, colocando musicas da banda Heart, Africa de Toto, uma coleção de músicas bregas de salas de espera e muitos outros extratos musicais diversos. Para acentuar esses sons nostálgicos, Lopatin tirou uma foto de um jogo de infância, Ecco the Dolphin, e transformou numa versão contorcida para sua capa de álbum, dando ao álbum o nome de “Eccojams”.

Ambos os álbuns fizeram ondas pela cena de produtores musicais de quarto; um gênero que nasceu quase que de um dia para o outro. A explosão da popularidade tomou forma quase inteiramente em fóruns e sites de torrentes, e com o espírito da anonimato online e seu humor, artistas começaram a tradição de propositalmente esconder seu trabalho próprio por meio de convenção sem sentidos de nomes e fontes curiosas. Por exemplo, alguém poderia clicar num álbum chamado “新しい日の誕生”, apenas para encontrar um artista chamado 2814.

Durante esse período, o gênero era conhecido apenas para poucas pessoas, e os métodos de produção e os temas de discussão eram relegados aos threads solitários de Reddit e alguns blogs. Foi em um desses blogs que o entusiasta Jakub Adamek cunhou o termo “vaporwave”, a referencia para ambas as “ondas/waves” de estilos musicais e ao vaporware, produtos e serviços propagandeados por corporações que não existem ainda ou nunca vão existir.

Enquanto os meses passavam, o vaporwave se tornou mais político e menos irônico do que antes. Álbuns como “virtualresort” deram um profundo mergulho nos conceitos centrais do coração do vaporwave. Ele fazia loops das musicas tropicais de salas de espera com ocasionais vozes robóticas, anunciando que “virtualresort traz a você experiências totalmente novas nas viagens pelos ecossistemas virtuais, pelas praias em 3D e que há wi-fi de graça para todos.”

Fica tudo bastante a vista, exalando um humor distópico similar aquele que é encontrado em filmes como “Brazil”, dirigido por Terry Gilliam e lançado em 1985. Outros artistas, como o já mencionado 2814, tem uma aproximação mais melancólica, usando sintetizadores em camadas e sons de cidade para criar uma atmosfera de fútil pacificidade.

Apesar da incrível diversidade e anonimato dos artistas e seus conceitos, o vaporwave manteve uma identidade sonora, temática e visual coerente. Isso se concentrou no conceito central de “estética/aesthetic”. Essa estética (muitas vezes estilizada como a e s t h e t i c s) faz parte da identidade central do gênero assim como de sua filosofia geral.

A característica chave da estética vaporwave é a representação hyper-real da cultura passada – principalmente a cultura corporativa dos anos 80 e 90, assim como a cultura do boom consumista americano e japonês. Elementos visuais comuns incluem estátuas, ambientes minimalistas e estranhamente limpos e combos de cores “retro”, como azul, rosa e verde.

Shoppings vazios, animes dos anos 90 e pinturas de antes paradisíacas ilhas tropicais de antigos computadores Mac também são fascinantes para aqueles que fazem parte da cena vaporwave. Vaporwave, assim como seu nome de inspiração, vaporware, tem como pressuposição a insuficiência da realização de uma promessa – a promessa de uma vida luxuosa que antes foi sonhada e vendida para o público no período tardio do século XX. Por esta mesma natureza, a estética do vaporwave é nostálgica, não por algo real, mas por algo que nunca foi.

Isso acaba por adulterar a fundamental e celebrada hipocrisia que estava no coração do inicio do vaporwave. O fato é que, por trás da ironia e do cinismo, existia um amor genuíno pela musica e estética da cultura consumista pop que o vaporwave ridicularizava. Entretanto, aquele amor está encoberto de amargura por uma promessa que não foi cumprida. Para os artistas vaporwave, o objetivo final sempre foi tentar alcançar esse senso estético e passar para a audiência por meio de um sentimento – a coesão visual, letra e melodia se tornam irrelevantes.

Essa é uma visão artística com vários nuances e surpreendente para um coletivo de artistas e músicos, amadores e decentralizados, mas não demorou muito para que o vaporwave morresse. No final de 2012, o álbum “Floral Shoppe” de Macintosh Plus (da artista Vektroid) e seu som viral “Lisa Frank 420”, se tornaram um meme. “Floral Shoppe” foi o primeiro álbum vaporwave que chegou a popularidade grande, e sua impactante capa de um busto escultural na frente de um fundo xadrez rosa se torno um exemplo icônico da estética vaporwave.

Entre 2014 e 2016, o vaporwave tinha mais downloads que gêneros musicais estabelecidos como house, hip hop e rock, graças ao seu recente adquirido status memético. Novos micro-generos começaram a surgir, como o futurefunk, synthwavee e vaportrap, enquanto youtubers experimentais começaram a combinar as estéticas vaporwave com antigos desenhos para criar vídeos nostálgicos e as vezes perturbadores, o mais proeminente deles sendo os vídeos conhecidos como Simpsonswave.

Essa fragmentação e percebida mimetização do gênero levou a popular frase “o vaporwave está morto”, cunhado pelo artista Sandtimer depois que ele lançou seu álbum de mesmo nome. Ele e outros como o mesmo sentiram que o gênero se tornou apenas uma piada, e que as imagens e o som perderam a pegada crítica que fez o gênero tão único.

Como tudo na comunidade, essa afirmação foi tomada com um grau de ironia e se tornou algo como uma palavra de protesto para a nova geração de artistas vaporwave que se tornaram menos conhecidos ou foram para outros projetos e estilos musicais.

A estética vaporwave sem intenção acabou se misturando ao mainstream, especialmente seus visuais. Desde os reconhecíveis neons do vídeo de 7 rings da cantora Ariana Grande, os visualizers das músicas de Lil Nas X, até produção lo-fi de Tyler, the Creator e sua linha de roupas, a também o minimalismo colorido de Billie Eillish em “Don’t Smile at Me”, o sentido visual e estético do vaporwave há muito tempo saiu dos fóruns de internet e foi abraçado por um grande público, mesmo que ele não o reconheça.

A paixão do vaporwave pela estética da cultura pop e seu consumo fez o vaporwave perfeito para ser uma subcultura apropriada por essa estética, especialmente durante essa volta ao retro da década de 2010. O que continua do vaporwave na cultura popular pode não ser a antes ácida crítica ou um ideal particularmente coeso, mas existe ainda vestígios de sua paixão criativa e seu olhar estético. O vaporwave está morto. Vida longa ao vaporwave.


Texto originalmente escrito por Ian Nordin, da Universidade de Texas.

Originalmente publicado no site Study Breaks, disponível neste link.

Tradução por Andrey Santiago

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