A imagem de Stálin entre a História e Mitologia por Domenico Losurdo

As diversas fontes históricas da atual imagem de Stálin

No entanto, a historiografia atual tem dificuldade de tomar distância da imagem de Stálin como “enorme, sombrio, caprichoso, degenerado monstro humano” — ademais, desprovido de capacidades intelectuais e políticas — que o torna ridículo. Também para a mitologia é preciso buscar a origem na história. Convém partir do estudioso (Deutscher) que se acabou de citar, que em outra circunstância e num período de tempo diferente observa: “De modo diferente dos jacobinos, os bolcheviques não justiçaram as seus girondinos”, isto é, os mencheviques, os quais foram “autorizados” e até “encorajados a deixar a Rússia e estabelecer no exterior o seu centro político”. A partir daí se desenvolve uma forte campanha contra o país dirigido primeiro por Lênin e, depois, por um período de tempo mais longo, por Stálin. Deutscher prossegue assim:

É certo que Stálin meditou longamente sobre o terrível precedente francês c que por alguns anos isso o dissuadiu de recorrer aos meios de repressão mais drásticos. Mais de uma vez Stálin se expressou nesse sentido […]. Em 1929 decidiu exilar Trotski da Rússia. Não se podia então imaginar que Trotski fosse preso, e muito menos que fosse colocado diante de um pelotão de execução. [2]

Com a chegada do líder da oposição em Constantinopla se forma um novo centro político mais comprometido, desta vez dedicado exclusivamente ao desmascaramento e à denúncia de todo aspecto da personalidade e da atividade de Stálin. Nesse mesmo contexto podem ser colocados os fugitivos, como o general Orlov, que, tendo chegado ao Ocidente, se dedica à revelação dos “segredos do Kremlin”, ganhando um “enorme honorário” e, presumivelmente, um honorário tanto mais elevado quanto mais sensacionais são os segredos revelados. Recebidos com avidez na própria União Soviética a partir dos anos de Gorbatchov e ainda hoje “uma das fontes mais importantes” da sovietologia ocidental, essas revelações estão, no entanto, consteladas de “mentiras”. [3]

Obviamente, é preciso não perder de vista o centro político propriamente ocidental de agitação antistaliniana. As suas motivações tinham sido antecipadamente esclarecidas por Lloyd George, o qual, no verão de 1919, observara que uma Rússia unida, fosse bolchevique ou não, constituía uma fonte de perigo para o Império Britânico. [4] Ou seja, uma ampla opinião pública (primeiro inglesa e depois estadunidense) identifica em Stálin a encarnação de uma dupla ameaça, aquela representada pela agitação comunista na metrópole capitalista e, sobretudo, nas colônias, e aquela representada por uma grande potência, agora tanto mais perigosa e tanto mais expansionista pelo fato de inspirar e dirigir um movimento político presente em todas as partes do mundo.

Qual dos diferentes centros políticos era o mais implacável? Às vezes se tem a impressão de assistir a um jogo de apostas. Logo depois do pacto de não-agressão entre o III Reich e a União Soviética, Trotski lança uma espécie de grito de triunfo: agora finalmente entenderam também “os apologetas de profissão do Kremlin” e de Stalin, “os otários ‘pró-soviéticos’ de todo tipo”, aqueles que estavam com a ilusão de poder contar com o apoio de Moscou para conter o expansionismo da Alemanha nazista. Especialmente visado é Neville Chamberlain. Sim, o primeiro ministro inglês, já acusado nesse momento por Churchill por causa da política de appeasement perseguida por ele em relação a Hitler, é asperamente críticado por Trotski por ter alimentado ilusões para com… Stálin! “Apesar de toda a sua aversão pelo regime soviético”, o líder conservador inglês “tentara com todos os meios fazer uma aliança com Stálin”: uma colossal prova de ingenuidade! Ele, Trotski, até à chegada do III Reich tinha repetidamente esclarecido que, apesar de toda a tagarelice nas frentes populares antifascistas, “o verdadeiro objetivo da política externa de Stálin era a conclusão de um acordo com Hitler”; agora todos são obrigados a reconhecer que o ditador do Kremlin é “o mordomo de Hitler”. [5]

Este jogo de apostas, colocado em séria dificuldade pela resistência épica da União Soviética ao III Reich, volta com força depois do XX Congresso do PCUS e do Relatório Secreto. Kruschov acusa Stálin de ter-se desviado de Lênin? Na realidade — Orlov aumenta imediatamente a dose, publicando em Life um artigo que já no título anuncia um “segredo sensacional” — quem dirigiu por três décadas a União Soviética foi um agente da polícia secreta czarista, obviamente pronto a tudo para liquidar os infelizes que chegassem ao conhecimento do seu passado inconfessável. Ainda hoje um estudioso russo (Rogowin), fervoroso seguidor de Trotski, parece ater-se a essa revelação. [6]

O jogo de apostas pode tomar as formas mais singulares. Em 1965, Deutscher reflete sobre a evolução do líder menchevique Dan, que, patrioticamente ofuscado pela imagem da Rússia “que tinha saído triunfante de uma guerra catastrófica, com o III Reich prostrado aos seus pés”, tinha acabado reconhecendo as razões históricas da Revolução de Outubro, sim, mas também, infelizmente, do “stalinismo, com todas as suas prevaricações ideológicas e as suas violências”. Há só uma atenuante para essa tolerância em relação a um bolchevismo “degenerado” e “corrompido”, a saber, o fato é que “quando Dan escrevia uma parte dessas páginas, a onda de filo-stalinismo nos países aliados, e sobretudo nos Estados Unidos do pós-guerra imediato, era fortíssima!”‘ Felizmente, as informações provenientes exatamente da capital da União Soviética e de dentro do próprio partido comunista daquele país refutaram e ridicularizaram de uma vez para sempre os ingênuos e despreparados, que de algum modo tinham mordido o anzol da propaganda de Moscou.

Somente em virtude dessa convergência de interesses heterogêneos se pode explicar o paradoxo de uma historiografia que, enquanto não se cansava de denunciar o caráter de farsa dos processos realizados por Stálin em Moscou, tomava tranquilamente como ouro depurado o processo tentado, primeiro por Trotski e depois por Kruschov, contra Stálin com modalidades e finalidades diferentes!

As vicissitudes alternadas da imagem de Stalin

É tão difundida hoje em dia a imagem do “enorme, sombrio, caprichoso, degenerado monstro humano” que nos esquecemos da história contraditória que precede a afirmação de tal imagem. Vimos os reconhecimentos tributados a Stálin por ilustres estadistas, diplomatas e intelectuais. Também as páginas do seu trintênio de governo hoje consideradas simplesmente monstruosas foram lidas no passado de modo bem diferente.

Hoje em dia é lugar comum distinguir a revolução do alto que muda de modo radical o aspecto da agricultura na União Soviética como um produto exclusivo do furor ideológico. Mas em 1944, mesmo mostrando os seus terríveis custos humanos, De Gasperi exprimia um juízo fundamentalmente positivo também sobre a “grande empresa econômica” da coletivização da zona rural e da industrialização, tornada necessária pelo perigo de guerra e pela “ameaça revelada pelo Mein Kampf‘. [8]

Hoje em dia bem poucos ousam pôr em discussão a tese segundo a qual a repressão sangrenta e em larga escala realizada por Stálin teria sido apenas e exclusivamente o produto da sua libido dominandi ou da sua paranoia. No entanto, entre o final da década de 1920 e início dos anos 1930, Malaparte falava tranquilamente dos preparativos para um golpe de Estado em Moscou e da hesitação de Stálin em contra-atacar (supra, cap. 2, § 7). Um autorizado órgão de imprensa alemão ia mais longe ainda, e ironizava a ingenuidade mostrada pelo ditador do Kremlin ao “não mandar para o além Trotski e todo o seu corrilho”. [9] Há cerca de vinte anos de distância, Churchill em pessoa avalizou indiretamente pelo menos os processos contra Tukatchevski e outros líderes militares (tratara-se de “um cruel, mas talvez não inútil expurgo político-militar”, que tinha eliminado “todos os elementos filo-alemães”) e, em certa medida, até os processos de Moscou enquanto tais (no banco dos réus estavam sentados dirigentes soviéticos “cheios de ciúme contra Stálin que os tinha desapossado”). [10] Essa tomada de posição do estadista inglês, campeão da luta até o fim contra a Alemanha hitleriana, é mais significativa ainda porque é formulada em polêmica com Chamberlain, o protagonista da política do appeasement. Mais radical ou mais explícito que Churchill era embaixador estadunidense na URSS, Joseph Davies, que “continuou sempre a afirmar que houvera realmente um complô, que os processos se tinham realizado segundo a justiça, e que, por conseguinte, o poder soviético saía reforçado dele”. [11] Presumivelmente nessa onda, na Itália também De Gasperi sublinhava em 1944 que a veracidade das acusações dirigidas à oposição antistaliniana era confirmada por “informações estadunidenses objetivas”. [12]

Houve depois uma mudança radical, mas a fragilidade e a inconsistência da imagem de Stálin que nos foi transmitida antes da Guerra Fria e depois do Relatório Secreto começam a emergir das pesquisas de um número crescente de estudiosos. Em alguns aspectos se assiste até a uma reviravolta gritante. Tomemos o Grande Terror. Junto com as personalidades políticas de primeiro plano já vistas, também um fervoroso admirador de Trotski, isto é, Deutscher, acha mais ou menos fidedignos os processos de Moscou em 1948. Em sua opinião, o assassinato de Kirov não foi absolutamente uma encenação do regime. A longa tradição que na Rússia czarista tinha “ousado atacar a autocracia com bombas e pistolas” tinha voltado a influenciar os jovens comunistas. “Entre os conspiradores que tinham tentado matar o czar Alexandre III não estava, por acaso, também o irmão de Lênin? Os livros de texto envolviam aqueles martírios e aqueles heróis com uma auréola romântica: e assim as sagradas sombras do passado pareciam agora armar a mão dos mais impacientes komsomoltsy antistalinistas”. As “ideias de terrorismo revolucionário” tinham se expandido chegando a constituir “um estado de espírito amplamente difundido entre os jovens” e a armar a mão do assassino de Kirov. [13] Sempre em 1948, Deutscher reconhecia certa “verdade psicológica” aos processos de Moscou em geral e uma verdade também factual no que diz respeito à execução de Tukatchevski em particular. A propósito deste último acontecimento, se certas fontes falam de uma maquinação dos serviços secretos hitlerianos, “numerosas fontes antistalinianas sustentam, porém, que os generais projetaram de fato um golpe de Estado” [14]; num caso e no outro, a paranoia ou a libido dominandi de Stalin não desempenhara nenhum papel.

Deve-se acrescentar que alguns anos depois, sem se deixar impressionar com as revelações do Relatório Secreto, um historiador estadunidense, que não deixava de ter simpatias pela oposição antistaliniana, definida por ele como “a consciência da revolução”, escrevia: “A escolha feita por Bukharin nas suas confissões de culpa, e o que se sabe por outras fontes, torna plausível boa parte daquilo que foi revelado no processo, apesar das suspeitas provocadas pela natureza daqueles processos”. [15]

Hoje em dia são os próprios estudiosos de orientação trotskista que dia chamam a atenção para a guerra civil desencadeada dentro do grupo dirigente soviético e reivindicam o mérito da oposição por ter promovido com todos os meios a derrubada do regime termidoriano imposto pelos traidores da revolução. É significativo que a virada atinja também o campo dos seguidores de Trotski, que na sua época se tinha comprometido talvez mais do que qualquer outro em denunciar os processos de Moscou como pura e simples farsa.

Em relação à direção da URSS na véspera e durante o segundo conflito mundial, particularmente sofrida e significativa é a evolução de Deutscher. Já conhecemos o quadro bastante lisonjeiro de Stálin como líder de guerra traçado por ele em 1948 (supra, Prefácio, 1). Em 1956, escrevendo sob a impressão imediata do Relatório Secreto, Deutscher acredita sem dificuldade nas “revelações” segundo as quais nos dias imediatamente posteriores ao desencadeamento da operação Barbarossa Stálin teria se retirado inerte, “sombrio e amuado à sua tenda”, para depois, cedendo às solicitações e aos pedidos dos seus colaboradores, voltar a dirigir o país e a conduzir a guerra “traçando frentes e linhas de ataque num mapa-múndi de mesa”. A única crítica que Deutscher faz a Kruschov e ao seu círculo é não ter seguido a recomendação formulada por Trotski já em 1927, ou seja, de não ter percebido “o dever de derrubar Stálin, para poder travar a guerra de maneira mais eficiente e garantir a vitória final”! [16] Dez anos mais tarde, voltando a este assunto, Deutscher escreve: “Não estou disposto a aceitar sem reservas as chamadas ‘revelações’ de Kruschov, em particular a sua afirmação de que na II Guerra Mundial [e na vitória sobre o III Reich] Stálin teve apenas uma parte praticamente insignificante”.” É apenas o caso de dizer que a mais recente pesquisa histórica vai muito além deste repensamento parcial e tímido.

Depois, quanto à tese da opressão das nações, já conhecemos a novidade radical e positiva da affirmative action posta em prática na URSS a favor das minorias nacionais (supra, cap. 4, § 9). Mas agora convém ler o balanço recentemente feito por outro historiador estadunidense:

Está surgindo um novo consenso, com base no qual, bem longe de ser o “assassino das nações” familiar à história ocidental e nacionalista anterior, o governo soviético empreende um esforço ambicioso, complexo e prolongado para construir nações etnicamente definidas dentro de um Estado tolitário no plano político e econômico. A fim de estimular essa “primavera das nações soviéticas”, o Estado soviético concedeu igualdade jurídica e política com os russos aos povos do ex-Império […]. Nesses novos territórios nacionais ele reservou um lugar privilegiado para as línguas das minorias nacionais, mesmo quando os etnógrafos soviéticos tiveram necessidade de criar um alfabeto para os dialetos locais, porque eles nunca tinham tomado uma forma escrita. Essa política de promoção de uma cultura nacional autônoma chegou ao ponto de tentar uma assimilação dos russos; os funcionários e os administradores soviéticos deviam aprender a língua das nações onde trabalhavam. [18]

Às mesmas conclusões chega um estudioso francês da Ásia central, Olivier Roy, citado calorosamente num ensaio publicado em The New York Review of Books, que assim sintetiza as atuais perspectivas daquela área: Estados sólidos e funcionando bem poderão afirmar-se caso se souber aproveitar “de modo inteligente” a “herança” soviética. “Os artífices moscovitas da política das nacionalidades […] codificaram as línguas (às vezes criando para elas novos alfabetos), edificaram parlamentos nacionais, bibliotecas nacionais e instituíram políticas de affirmative action a favor dos ‘quadros locais’. Quem se distinguiu entre os protagonistas dessa política iluminada foi “em primeiro lugar e sobretudo Stálin”. Como estamos longe da tese do tempo da Guerra Fria formulada por Arendt, segundo a qual Stálin teria deliberadamente desorganizado e desarticulado as “nacionalidades” a fim de criar as condições favoráveis para o triunfo do totalitarismo! No reconhecimento tributado à União Soviética (e a Stálin) pela política das nacionalidades em termos decididamente enfáticos se exprime um autor, que foi líder da “dissidência” antissoviética: “Nas décadas do poder soviético, para a solução da questão nacional os elementos positivos foram tantos que fica difícil encontrar um exemplo comparável na história da humanidade”. [19]

No conjunto, o retrato caricatural de Stálin feito primeiro por Trotski e depois por Kruschov não goza mais de muito crédito. Das pesquisas de estudiosos eminentes e insuspeitos de indulgência para com o “culto da personalidade” surge hoje em dia o retrato de um político que se ergue e se afirma no cume da URSS em primeiro lugar pelo fato de que, enquanto compreensão das modalidades de funcionamento do sistema soviético, “supera em muito os seus companheiros de luta””; de um líder de “talento político excepcional” e “enormemente dotado” [21]; de um estadista que salva a nação russa da dizimação e da escravização à qual está destinada pelo III Reich graças não só à sua atinada estratégia militar, mas também a discursos de guerra “magistrais”, às vezes verdadeiras “peças de bravura”, que em momentos trágicos e decisivos conseguem estimular a resistência nacional [22]; de uma personalidade não privada de qualidades tampouco no plano teórico, como demonstram, entre outras, a “perspicácia” com que ele trata a questão nacional no escrito de 1913 e o “efeito positivo” da sua “contribuição” para a linguística.”

Certamente, se sublinha ao mesmo tempo e com razão que tal reconhecimento não é um juízo moral absolutório; no entanto fica claro agora a completa inconfiabilidade do Relatório Secreto. Não há detalhe contido nele que não seja hoje contestado. Tome-se o relato do suposto colapso psicológico de Stálin nos dias imediatamente seguintes ao início da operação Barbarossa: segundo a análise já vista de dois historiadores russos (de orientação antistalinista segura), trata-se de um “episódio” que é “totalmente inventado” (supra, cap. 1, § 2) e que — insiste um historiador francês — está em “plena contradição” com os testemunhos e os documentos que aparecem sempre mais.” Mas não se trata apenas de um “episódio”, por significativo que seja. Também a propósito do chamado complô dos médicos: “Kruschov distorceu grosseira e deliberadamente os fatos”. Sim, ele “tomou não pouca liberdade com a verdade.” Tem um valor de caráter geral a observação (feita desta vez pelo historiador inglês mais vezes citado) a propósito da “liderança de guerra de Stalin”: “Para captar a verdade é necessário olhar além tanto das polêmicas ocidentais da Guerra Fria como das circunstâncias da desestalinização na União Soviética”. [27]

Motivos contraditórios na demonização de Stalin

Durante muito tempo dominou no Ocidente de modo incontestável e foi repetida de modo acrítico a tese formulada por Arendt que preetende demonstrar a irresistível atração que, apesar de tudo, se faz entre “totalitarismo” comunista e “totalitarismo” nazista com estas palavras: “o único homem pelo qual Hitler teve um ‘respeito incondicional’ foi o ‘genial Stálin”‘; por outro lado, “sabemos pelo discurso de Kruschov ao XX Congresso do partido que Stálin confiava apenas num homem, que era Hitler”. Tanto é verdade que, apesar de todos os avisos, até o fim “ele se recusou a crer que Hitler tivesse violado o tratado”. Para confirmar isso, Arendt cita de novo o Relatório Secreto ou, mais precisamente, “o discurso de Kruschov no texto difundido pelo departamento de Estado americano”. [28] A esta afirmação, que se baseia num discurso imediatamente político e certamente não preocupado com o rigor histórico, se poderia opor a análise bem documentada segundo a qual na Hungria e na Europa oriental do segundo pós-guerra Stalin “confiava apenas” nos quadros de origem judia, que de fato são chamados a constituir a ossatura do novo aparelho estatal (supra, cap. 5, § 10). Como se vê, a antítese com respeito a Hitler não poderia ser mais nítida.

Detenhamo-nos, porém, na fragilidade do tema ideológico caro a Arendt e à ideologia dominante. Nos últimos tempos se assiste a uma inversão de posições. Há alguns anos, estudiosos autorizados e ideólogos anticomunistas infatigáveis insistem em pintar Stálin como um expansionista insaciável, pronto a atacar no momento oportuno a própria Alemanha com a qual está ligado por um pacto de não agressão. A propósito disso, cita-se em particular o discurso de Stálin aos formandos da Academia militar e que aqui, por razão de brevidade, cito na síntese contida no diário de Dimitrov: “A nossa política de paz e de segurança é ao mesmo tempo uma política de preparação para a guerra. Não há defesa sem ataque. É preciso educar o exército no espirito do ataque. É preciso preparar-se para a guerra”. [29] É 5 de maio de 1941, o mesmo dia em que Stálin reúne na sua pessoa os cargos máximos do partido e do Estado, em previsão, evidentemente, do choque frontal com o III Reich. O imponente desenvolvimento já visto da indústria bélica soviética teria sido promovido por Stálin em previsão de uma guerra ofensiva, contra a qual Hitler procura se defender. [30] Essa tese, hoje incessantemente agitada pelo revisionismo histórico, pode ser facilmente refutada fazendo intervir o que refere um autor que, embora entre os expoentes de ponta dessa corrente historiográfica e ideológica, diz: já no início de maio de 1941, o general Antonescu, que acabara de assumir o poder na Romênia, informa aos seus aliados alemães que “as fábricas dos arredores de Moscou tinham recebido a ordem de transferir o seu maquinário para o interior do país”. [31] Por outro lado, os nazistas estavam desesperadamente em busca de um casus belli. O chefe da espionagem, o almirante Canaris, anota no seu diário: “O general Jodi revelou-me que estão muito preocupados com o comportamento doentio e indulgente das soviéticos em relação a nós, e E… acrescentou, em parte brincando: ‘Se aqueles indivíduos (os soviéticos) continuarem a ser tão convenientes e deixar tudo correr, será o senhor que deverá organizar um incidente que dê início à guerra.” [32] No entanto, desmontando os historiadores revisionistas do seu novo cavalo de batalha, esses testemunhos evidenciam de modo inequívoco quem é o agressor. Em segundo lugar, esclarecem que era exatamente o comportamento de Stálin reprovado por Kruschov que deixava o III Reich nervoso.

É verdade que a nova acusação contra Stálin encontrou imediatamente a sua consagração nos grandes meios de informação que, a fim de dar mais valor a ele, não hesitaram em ressuscitar o discurso de 19 de agosto de 1939, comentado com sábia indignação por um ilustre eslavista; pois, enquanto se preparava para enviar o fiel Molotov a Berlim para fazer o pacto de não-agressão, Stálin já tinha elaborado, com cinismo repugnante, um plano para a agressão e a sovietização, no momento oportuno, da Europa inteira, inclusive a Alemanha. [33] Na realidade, trata-se de um grosseiro falso historiador (supra, cap. 1, 3). Mas o ponto importante não é este. A revelação de nova infâmia de Stálin poderia ter sido a ocasião para rediscutir a tese desenvolvida por Arendt, graças também ao Relatório Kruschov, da relação teimosa entre as duas encarnações máximas do “totalitarismo”. Mas nada disso aconteceu! Os historiadores do universo concentracionário denunciam com razão o ulterior endurecimento conhecido do Gulag e “a superexploração dos detidos”, que atinge o seu horrível ápice após o “vertiginoso crescimento dos planos econômicos de 1940-1941” (portanto, nos meses do pacto de não-agressão), quando a direção soviética, em previsão da guerra, atropela qualquer outra consideração para acelerar ao máximo a realização de planos “de grande importância estratégica e econômica”, como, por exemplo, a construção de aeroportos, fábricas de aviões e de indústrias essenciais para o esforço bélico. [34] À luz dessa acusação grotesca a mais não poder segue-se o lugar-comum avalizado por Arendt, que continua a ser martelado de modo obsessivo: é preciso sempre demonstrar que Stálin confiava cegamente em Hitler! A ideologia dominante agita tranquilamente as afirmações e as acusações mais contraditórias: o importante é que sejam caluniados. É clara a tendência a resvalar da história para a mitologia política.

A exigência da demonização, motivada seja como for, se manifesta também em outros campos. Hoje em dia é incontestada a lenda negra do antissemitismo de Stalin. Mas não falta o ponto de vista diametralmente oposto. É a pesquisa de um jornalista, estadunidense e judeu, que fala da “propensão (fondness) de Stálin pelos judeus”, aos quais ele confia a direção dos campos de concentração onde estão encerrados os alemães destinados a serem expulsos da Polônia. Assim, os que escaparam da “solução final” podem se vingar de maneira terrível e se tornar os carrascos dos seus carrascos, tudo graças à astúcia e à perfídia do ditador soviético. [35] Este último é acusado — num livro escrito por um autor próximo dos ambientes militares da República Federal Alemã — de ter posto em circulação a “propaganda de guerra” das câmaras de gás e do plano do extermínio total da população judia por obra do III Reich, a fim de desacreditar os seus inimigos. [36] Evidente e total é o contraste com a visão de um Stálin antissemita, a qual, no entanto, continua a gozar de grandíssimo sucesso.

Vale, enfim, a pena observar como também o tema da “paranoia” de Stálin muitas vezes foi declinado de maneira contraditória. Distingue-se na presunção com que diagnostica essa doença um historiador que, ao mesmo tempo, sublinha o papel que Beria teria tido na morte do líder soviético. [37] Certamente se poderia dizer que ele acaba sendo a vítima do clima criado por ele mesmo; restaria o fato que, pelo menos a partir de certo momento, o perigo era real e não mais o produto de uma fantasia doentia. Ou então: quem acusa Stálin de paranóia são, às vezes, personalidades e autores que, sem aduzir qualquer prova, o classificam de responsável pela morte dos seus colaboradores próximos, como Kirov e Jdanov. Não se recorre aqui ao mesmíssimo comportamento censurado ao ditador? Mas, essas perguntas e esses problemas nem sequer surgem; o importante é acentuar, seja como for, a infâmia do déspota comunista e oriental.

Luta política e mitologia entre Revolução Francesa e Revolução de Outubro

Em junho de 1956, sob a impressão imediata da leitura do Relatório Kruschov, Deutscher observa: “os comunistas se tinham prostrado por mais de: “um quarto de século” diante de um tirano monstruoso e repugnante tanto no plano moral como no plano intelectual; como pôde acontecer tudo isso? [38] Prosseguido nessa linha, ele teria podido acrescentar: o que teria levado filósofos e estadistas ocidentais ilustres a tributar àquele monstro declarações de estima e de respeito e, em certos casos, até de admiração? Estas perguntas são legítimas e até inevitáveis, mas talvez devessem ser completadas por outra: como pôde acontecer que o próprio Deutscher se tenha deixado contagiar por aquele comportamento que ele denuncia tão asperamente em 1956? Sim, depois do fim da II Guerra Mundial e por ocasião da morte de Sálin ele prestara homenagem ao estadista que tinha contribuído de modo decisivo para a derrota do III Reich e tinha construído o socialismo na URSS. Naquela época, o monstro de abjeção e de imbecilidade ainda não tinha entrado em cena, e, portanto, ainda não surgira a pergunta sobre o enorme crédito que ele, apesar de tudo, por tanto tempo teve. Talvez, em 1956, ao ler o Relatório Kruschiov, Deutscher tivesse agido melhor se houvesse feito uma pergunta bem diferente: guiada por um “generalíssimo” e por um dirigente político tão ridículo, como a União Soviética pôde denotar a terrível máquina de guerra nazista, que tinha rapidamente subjugado o resto de Europa continental? E como pôde a União Soviética, partindo de uma posição de extrema fraqueza, tornar-se uma superpotência militar e industrial?

Sim, olhando bem, a meio século de distância da morte de Stálin e da clamorosa desestalinização, é oportuno retomar a pergunta feita por Deutscher para invertê-la de modo radical: como um retrato tão grotesco e caricatural como aquele feito por Kruschov pôde chegar à dignidade de dogma historiográfico e político? Esse dogma foi até se enriquecendo com novos detalhes, sempre mais fantasiosos, a partir das “revelações” do Relatório Secreto, que atribuem a Stálin uma confiança cega no respeito do pacto de não agressão por parte de Hitler. Arendt, nas sucessivas edições de As origens do totalitarismo, construiu o teorema da afinidade eletiva entre os dois ditadores, e esse teorema identificou cada vez mais novos pontos de contato e novas simetrias, até que os dois monstros se tornaram perfeitamente equivalentes em todo aspecto da sua ação política e da sua ideologia, inclusive a consumação de um holocausto e o ódio antissemita.

A chave de explicação desse fenômeno singular pode ser encontrada na história das mitologias políticas. Depois do Termidor, os jacobinos são entregues à guilhotina também no plano moral. Eles se tornam “aqueles sultões”, “aqueles sátiros” que um pouco por toda parte tinham preparado “lugares de prazer” e “lugares de orgias”, nos quais “se entregavam a todos os excessos”.39 Junto e além da libido sexual, o que devorava Robespierre era sobretudo a libido dominante: preparava-se para “desposar a filha de Capeto” de modo a poder subir ao trono da França. [40] A acusação era, sem dúvida, sensacional, mas as provas não faltavam, antes eram abundantes: “o contrato de matrimônio” já estava assinado; por outro lado, na casa do tirano recém justiçado fora encontrado o “selo com o lis de França”, o selo da dinastia burbônica. [41] Aparecia assim numa luz nova a execução ou o assassinato de Luis XVI: o responsável por tal ato talvez se propusesse apenas a se desembaraçar de um rival, queria eliminar o obstáculo que o impedia de subir ao trono.

Com a decapitação moral de Robespierre estava ligada a decapitação mais propriamente intelectual. Durante o período jacobino verificaram-se episódios populares, não promovidos do alto, de vandalismo e de iconoclasmo revolucionário, que tinham atingido os símbolos do antigo regime. Tais episódios continuaram a manifestar-se durante o Termidor, levando dessa vez em consideração tudo o que recordava o Terror. Mas os novos governantes acusam assim os jacobinos: por ódio à cultura da qual estavam totalmente privados, eles tinham projetado incendiar as bibliotecas, tinham até colocado já em ação aquele projeto louco. Através de várias passagens, a acusação se amplia sempre mais e se transforma num fato ainda mais incontrovertido à medida que perde todo contato com a realidade. Boissy d’Anglas pode assim apontar os jacobinos para o escarno público.

Esses ferozes inimigos da humanidade, sem dúvida, permitiam deixar momentaneamente iluminar os seus malefícios apenas com a luz das bibliotecas incendiadas, pois esperavam que as trevas da ignorância se tornassem ainda mais es. passas. Bárbaros! Fizeram o espírito regredir em muitos séculos. [42]

Os jacobinos tinham introduzido a escola obrigatória, e contra eles e contra a revolução francesa enquanto tal a publicística contrarrevolucionária não se cansava de denunciar a hybris da razão e celebrar em oposição a função benéfica do “preconceito”; mas, no clima ideológico e político do Termidor, Robespierre e seus colaboradores são acusados de ter querido difundir as “trevas da ignorância”. E a nova acusação é feita sem que haja esforços para repensar a anterior: a coerência lógica é a última das preocupações.

Também no que diz respeito ao número das vítimas do Terror se assiste a um processo análogo ao já visto para as bibliotecas. Damos sempre a palavra ao eminente estudioso que estamos seguindo aqui: “Sobre números não se discute: dezenas de milhares, centenas de milhares, fala-se até de milhões”. Em suma, trata-se de um genocídio, como denuncia a jeunesse dorée, que na sua contra-Marselhesa grita contra os “bebedores de sangue humano”, “essa horda antropófaga”, “esses horrendos canibais” [43]. É uma acusação retomada e radicalizada pela esquerda. Logo após o Termidor, Babeuf fala de um “sistema de despovoação” (dépopulation) realizado em Vendeia por Robespierre, que perseguia exatamente a “infame, inaudita meta política” de “extirpar a raça humana” [44]. Assim se assiste a uma convergência entre direita e extrema esquerda da formação política, concordando ambas em fazer um retrato de Robespierre como monstro genocida. No entanto, esse paradoxo dura pouco. Babeuf não tarda a captar o real significado do Termidor: diante dos juízes que se preparam para condená-lo à morte, ao denunciar a situação desesperada à qual estão agora condenadas as massas populares, por um lado, apela para Saint-Just e para a sua ideia de “felicidade” e de salvação da miséria para todos, por outro lado, exprime o seu desdém pelo “sistema da fome” posto em prática pelos novos governantes e classifica como “genocida” (populicide) o termidoriano Boissy d’Anglas» Assim a acusação de genocídio conhece uma radical reviravolta: ela atinge não mais Robespierre, mas os seus inimigos vitoriosos.

Seria interessante fazer uma análise comparada das mitologias que surgiram a partir das grandes revoluções. Depois de outubro de 1917, os jacobinos “bebedores de sangue humano” são substituídos pelos bolcheviques que, como relatam nos EUA refugiados provenientes da Rússia soviética, teriam inventado e empregado freneticamente uma guilhotina elétrica em condições de matar quinhentos homens por hora. Vimos os jacobinos rotulados como frequentadores de “lugares de prazer” e organizadores de “orgias”; no outono de 1919, o líder comunista húngaro, Bela Kun, é acusado de ter erigido “um harém esplendidamente abastecido”, onde o judeu pérfido e insaciável podia “violentar e desonrar às dúzias as castas virgens cristãs”. [46] Quem chama a atenção para essa calúnia é um jornal que mais tarde se tornará o órgão do partido hitleriano, mas que nesse momento, ao exprimir o seu horror pelos acontecimentos na Europa oriental, partilha de uma orientação amplamente difundida na opinião pública ocidental nas duas margens do Atlântico. Também na América os bolcheviques são sinônimo de dissolução e depravação moral: na Rússia, eles teriam introduzido a nacionalização das mulheres, como acusam documentas publicados com a autorização do presidente Wilson e como esclarece com riqueza de detalhes um jornal autorizado que é o New York Times; sim, toda moça que tenha feito dezoito anos de idade é obrigada a registrar-se num “escritório do amor livre”, que depois entrega a infeliz a um homem escolhido arbitrariamente, e ela é obrigada a sofrer no seu corpo e na sua alma a imposição do ente governamental.

Se os jacobinos são ‘bárbaros’, com maior razão o são os protagonistas da Revolução de Outubro, classificados primeiro como agentes da Alemanha imperial (ou dos “hunos” e dos “vândalos”, como as alemães são definidos pela propaganda da Entente durante a I Guerra Mundial), e depois como agentes do judaísmo internacional, duplamente estranho à civilização autêntica tanto pela sua proveniência geográfica, como pela contribuição fornecida à revolta das colônias e dos povos de cor, conforme a propaganda nazista não se cansa de repetir. Enfim, se por algum tempo Robespierre é acusado por Babeuf de ter querido “extirpar a raça humana” no seu conjunto, Conquest se contentasse em atribuir a Stalin o planejamento da morte do povo ucraniano por inanição.

Os temas aqui esboçados são apenas modestas sugestões para o futuro historiador. Em busca da auspiciosa comparação das mitologias políticas convém, de qualquer modo, observar que a Stalin coube uma sorte pior que a Robespierre: sim, na Rússia dos nossos dias não faltam manifestações populares que elevam o seu retrato, e a maioria dos adultos se exprime positivamente sobre Stalin e vê nele o “líder enérgico” do qual o país tinha necessidade em tempos tão calamitosos. Entre os ex-`dissidentes’ vemos Alexandre Zinoviev classificar Yeltsin como o líder de uma “contrarrevolução criminosa” e de uma “democracia colonial” e fazer um balanço surpreendente da história da União Soviética no seu conjunto, incluídas as três décadas da era staliniana: “Exatamente graças ao comunismo a Rússia pôde evitar males ainda piores” e realizar, “em condições históricas dificílimas”, progressos que “apenas uma cínica canalha pode negar.” No Ocidente, porém, também à esquerda, a acusação de “stalinismo” está pronta a atingir quem quer que ouse avançar qualquer dúvida ou fazer alguma pergunta. Eventualmente, é no campo “burguês” que se pode entrever algum sinal tímido de repensa-mento. Já poucos meses depois da derrocada da União Soviética, um autorizado jornal italiano relatava: “Um milhão e meio de pessoas correm o risco de não sobreviver ao inverno, pela falta de alimentos e medicamentos em toda a União Soviética; um relatório da Cruz Vermelha Internacional afirma isso”.’ Algum tempo depois, sempre analisando a Rússia de Yeltsin, um politólogo ilustre, Maurice Duverger, evidenciava a “diminuição da duração da vida média”, cuja responsabilidade recaía sobre os poucos privilegiados que tinham conseguido “acumular enormes riquezas” de origem especulativa e parasitária, quando não abertamente ilegal, e denunciava o “verdadeiro genocídio dos velhos”.” Senão uma reviravolta, pelo menos a acusação de genocídio conhece uma aplicação em todo campo, com a condenação de um herói do Ocidente (Yeltsin), e com ele do Ocidente enquanto tal, considerados responsáveis por uma tragédia que se verifica não já durante uma situação de aguda crise política e econômica, mas depois de acabada a própria Guerra Fria, num período em que, pelo menos nos países mais avançados, a penúria é apenas uma lembrança remota.

Vem à mente o balanço feito por Edgar Quinet a propósito da Revolução Francesa: “O Terror tinha sido a primeira calamidade; a segunda, aquela que arruinou a República, foi o processo feito ao Terror”. [51]


Transcrição do capítulo sete do livro “Stálin: História Crítica de uma Lenda Negra” escrito por Domenico Losurdo.

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