O Autor tem uma Vida Social: Roland Barthes e Evangelion

Ao contrária da maioria dos autores vivos, em algum momento eu estive morto. Não quero dizer que em algum momento eu era composto de poeira estrelar sem vida flutuando no ar em vez de partes orgânicas de carne humana. Quero dizer que por um período considerável eu estava morto no céu dos tigres, depois no inferno com fantasmas famintos. Claro, se alguém for argumentar pela “morte do autor”, que seja por essa morte realmente. Eu escrevi os meus melhores trabalhos enquanto estava morto, na verdade, eu encontrei o meu querido companheiro Sr. Harold Zo enquanto estava tecnicamente sem vida. Tudo enquanto, eu percebo que a maioria das pessoas compões suas obras literárias enquanto estão vivas. As pessoas mortas normalmente não têm tempo ou energia para ter um blog, ou aquela faísca criativa que você necessita para se jogar o mundo literário. Eu acredito que uma pessoa morta poderia ser um crítico, mas ninguém iria querer ler uma pilha de sedentários murmúrios subterrâneos, não é? Ainda menos se fosse apenas uma pilha de cinzas ou vários vermes escrevendo algo.

Pode ser trivial argumentar de modo contrário a popular teoria da “morte do autor” ao simplesmente afirmar o obscuro fato de que todos as nossas grandes obras da literatura foram compostas pelos vivos. Fique tranquilo, se pareço superficial é apenas porque tenho uma dor de dente incômoda no canino frontal esquerdo e não vejo Roland Barthes me fazendo bem algum nesse aspecto.

Com essa tagarelice introdutória feita em segurança, permita-me voltar e falar sobre o vídeo que você pode ou não ter assistido. O PBS Idea Channel é um portal de vídeo no Youtube que funciona como uma espécie de Intelectualismo para Bobos, um alimento perfeito para debates de quem quer mergulhar o pé em questões complicadas como semiótica e teoria literária sem ter que ler nada. Seus valores de produção e edição são mais profissionais do que a média normal do Youtube, e o seu conteúdo é escrito e entregue com efeitos sonoros enérgicos e gráficos de computador destinados a fornecer alguma leveza. Quando o Idea Channel lançou este vídeo sobre Neon Genesis Evangelion e a morte do autor, fiquei inicialmente trepidante, por motivos que espero que vocês entendam. É difícil entender Derrida em uma vida humana – muito menos na vida de um tigre – e eu tendo a pensar, depois de ler alguns de seus trabalhos, que não vale o esforço para ninguém, exceto para os acadêmicos. Ainda assim, em cinco minutos, o vídeo consegue fazer um trabalho competente ao apresentar um texto, no caso o anime mencionado, e apresentar um argumento decente do por que ele pode apoiar as perspectivas de Barthes e Derrida, se é que deveriam ser chamadas assim.

Ao mesmo tempo, eu sou bastante cético em relação a chamada morte do autor, como você pode ter visto. Logo chegará a hora de expandir o que quero dizer ao falar que sou cético em relação à teoria sobre o porque os autores têm que escrever quando estão vivos. Em primeiro lugar, no entanto, vale a pena olhar para a apresentação original de Barthes da ideia em seu ensaio intitulado, habilmente, “A morte do autor“, publicado em 1967. Embora eu acredite que esta não seja uma teoria que nos dê ferramentas poderosas para a compreensão do significado e importância de uma obra em um contexto social e material (mais sobre esses dois aspectos mais tarde), há uma boa razão para Barthes argumentar que é necessário afirmar a morte do autor. A última linha do ensaio é uma das passagens mais famosas: “sabemos que, para devolver à escrita o seu devir, é preciso inverter o seu mito: o nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor.” ¹ O objetivo é o de reafirmar o lugar do leitor, consumidor do texto, e não de seu produtor, como criador primário de sentido para o texto. No início do ensaio, Barthes deixa o significado religioso e político de seu pronunciamento mais claro:

Por isso mesmo, a literatura (mais valia dizer, a partir de agora, a escrita), ao recusar consignar ao texto (e ao mundo como texto) um «segredo», quer dizer, um sentido último, liberta uma atividade a que poderíamos chamar contra-ideológica, propriamente revolucionária, pois recusar parar o sentido é afinal recusar Deus e as suas hipóstases, a razão, a ciência, a lei.

Este texto dá um certo trabalho para ser compreendido. Barthes afirma que a crença em um Autor transcendente que confere um significado eternamente fixo em um texto a partir de cima é semelhante à crença em Deus. Levando o projeto modernista e ateu a novos limites, ele não apenas acredita que rejeitar o mito de um criador divino é necessário para libertar a humanidade (note que ele chama a libertação dos leitores do significado fixo de “revolucionário”), mas que também é necessário rejeitar o sujeito humano criativo. Afinal, o sujeito humano criativo e produtivo é aquele que o modernismo tem o dever de emancipar. Razão, ciência e lei são aqui agrupadas com Deus e, em nome de dar à luz ao leitor, são jogadas fora. Esse projeto antitotalizante, descendente de Nietzsche com a ajuda da semiótica e de outros discursos sociológicos sobre linguagem e cultura que surgiram na década de 1960, é obviamente hostil a quaisquer teorias que possam enredar um determinado texto em um tempo e lugar, reconhecer um texto como inserido em uma realidade material viva. Em vez disso, o que Barthes faz é arrancar o texto das mãos mortas de Deus/Autor, plantá-lo com firmeza e lançá-lo na estratosfera. Os textos, nesta análise, vivem em um plano flutuante e idealista, onde seu único significado é aquele que o leitor ou crítico individual privilegiado o encontra. É um reino sem história, sem qualquer material real. É, curiosamente, flutuante e firmemente ancorado em um presente eterno.

Em uma nota lateral rápida, acho curioso que, com toda a sua retórica altiva sobre restaurar o lugar do leitor, mesmo usando imagens de nascimento muito visceral, ele também consegue argumentar: “mas este destino [do leitor] já não pode ser pessoal: o leitor é um homem sem história, sem biografia, sem psicologia; é apenas esse alguém que tem reunidos num mesmo campo todos os traços que constituem o escrito.” Em outras palavras, não apenas o autor está morto, mas o leitor, para todos os efeitos e propósitos, também está.

Embora essa ideia pretenda evitar que o arrogante Crítico descubra algum “significado secreto” metafísico dentro de um texto e o transmita aos leigos como autoritário, acredito que acaba colocando o crítico em uma posição ainda mais invejável do que antes. Agora, o crítico não precisa nem mesmo tentar analisar as camadas de um texto, entendendo a biografia e a história e como a classe social e a ideologia do autor condicionam nossa recepção do texto. Para os infernos com isso! Em vez disso, o crítico é capaz de encontrar praticamente qualquer significado que faça sentido gramatical e possa ser apoiado pelas próprias pressuposições teóricas do crítico, sem qualquer análise mais profunda de onde essas pressuposições podem ter se originado e se estão de acordo com a realidade ou não. A literatura é separada da carne, do sangue e da sujeira, o que significa que pode ser facilmente abusada e manipulada por críticos que são mais inteligentes do que disciplinados (veja a terrível crítica de Slavoj Žižek sobre 300 e a crítica de um camarada à Zizek, se você quiser).

Este é o problema de apagar o sujeito produtor, bem como de simplesmente eliminar as categorias universais e manter que tudo é apenas um particular atomizado. Um sujeito apenas é inexplicável para o caráter de classe da realidade, a forma como o contexto social e a história moldam a criação e a recepção de uma obra. Evangelion é um exemplo perfeito. É perfeitamente razoável dizer que Hideaki Anno não é um criador divino de uma obra que expressa perfeitamente suas intenções individuais. Em vez disso, o anime foi condicionado pelo capitalismo global, pela situação econômica no Japão quando foi criado, pela filiação de Anno a uma certa classe social, por sua vocação como artista. No final da recepção, tornou-se um fenômeno cultural massivo porque claramente ressoou com uma certa parte insatisfeita, mas materialmente privilegiada, dos japoneses, e foi explorado ao máximo pelas empresas porque poderia lhes dar lucro rápido. Sua narrativa não tem um significado simples, universal e desbloqueável; na verdade, provavelmente tem várias contradições. Embora prisioneiro de uma ideologia capitalista por ter sido produzido em uma sociedade burguesa, ele, no entanto, traz uma advertência clara sobre como transformar seres humanos em ferramentas descartáveis. Ao mesmo tempo, seu sentido sombrio de apocalipse nunca transcende o indivíduo, torna a psique individual o centro de sua narrativa e entende nossa atual situação oprimida não como resultado de um modo de produção capitalista historicamente contingente que pode ser transcendida por meio da atividade revolucionária. Em vez disso, a solução é simplesmente assumir o controle de nossas próprias vidas, parar de depender de outros para definir nossas preciosas identidades e reconhecer que não devemos ser tão egoístas e covardes porque ferimos os outros.

Quando digo que o autor não pode estar morto porque as pessoas escrevem quando estão vivas, quero dizer que uma pessoa viva é um corpo aprisionado em certas relações de produção, condicionado pela ideologia, forçada a escrever ou fazer arte para se sustentar e assim forçada a mercantilizar seu trabalho. Uma pessoa vive em uma determinada situação social. Não é como se os autores fossem capazes de impor um significado unificado. Mas toda arte reflete uma realidade social e material definida, ao mesmo tempo que ajuda a reproduzir ou é contra ideologias hegemônicas que ajudam a reforçar essa realidade material. Assim, uma teoria marxista da literatura pode certamente concordar com o ensaio de Barthes de que o autor não é algum Deus criando significado a partir de ouro fino e conferindo-o aos humanos. O que posso e devo rejeitar, entretanto, é a noção de que não precisamos criar uma crítica responsável, que podemos imaginar que todo o mundo é texto, em vez de compreender que o texto é parte de um mundo real. Quando vemos contradições em um texto, isso não é indicativo de que ele apoia qualquer leitura, mas que está refletindo contradições reais no mundo.

A arte, como argumentei cruamente no passado, deve estar a serviço da emancipação humana, participando da luta de classes em nome das massas oprimidas e não dando à classe dominante munição para mistificar e oprimir ainda mais. Para isso, precisamos saber a quem somos responsáveis, ou seja, seres humanos reais. Ambos os autores e leitores têm histórias, biografias, psicologias e culturas. Esses são os fatos inevitáveis ​​de viver como seres sociais. É totalizante porque a classe dominante é unificada e total. As opressões são totais e, portanto, nossa arte e literatura contra-hegemônicas também precisam ser totais. O que precisamos é não abandonar a unidade ou universalidade por uma nevasca de flocos de neve separados e especiais. É o que é necessário para uma crítica que não seja apenas inteligente e auto-engrandecedora, mas também uma crítica que esteja a serviço dos artistas, humilde perante o povo e colocada a serviço da revolução, em vez de suspensa no ar, argumentando sobre minúcias teóricas sem sentido sem consideração para as verdadeiras lutas acontecendo abaixo.

Notas.

1. Roland Barthes, “A morte do auto”, 1967.

2. Ibid


Texto originalmente publicado no site Evvycology, por evvyram, disponível neste link.

Tradução por Andrey Santiago

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