Thomas Sankara – Há apenas uma cor: a da Unidade Africana

Sobre o retorno da expedição pela África

Texto originalmente publicado no livro “Thomas Sankara Speaks”, publicado em inglês pela Editora Pathfinder em 2007.

Traduzido do inglês por Pedro Magalhães.

No verão de 1984, Sankara esteve na Etiópia, Angola, Congo (Brazzaville), Moçambique, Gabão e em Madagascar. Referente ao seu retorno, ele deu uma entrevista em Uagadugu, depois da celebração do primeiro aniversário da revolução, durante a qual Alto Volta foi renomeada de Burkina Faso. Abaixo, encontram-se os principais excertos, publicados em 10 de agosto de 1984, numa edição da Carrefour africain.

PERGUNTA: Como são suas relações com a vizinha conservadora, relativamente mais rica – a Costa do Marfim?

THOMAS SANKARA: O que a Costa do Marfim está conservando? Entendi o que quis dizer, mas eu gostaria de saber mais precisamente qual ideologia a Costa do Marfim conserva para melhor julgar o contraste, caso haja algum, entre nossa ideologia e a deles.

Nossas relações são boas desde que o Alto Volta tem relações com a Costa do Marfim. Burkina Faso declarou, como disse em minha primeira mensagem de aniversário, que estaremos abertos para todos e ajudaremos a todos. Nesse contexto, nesse espírito, acredito que nossas relações são boas. Naturalmente, há sempre algo que pode ser feito para melhorar relações. Porém, no que nos diz respeito, a situação atual está boa para nós. E, se nossos irmãos da Costa do Marfim desejarem, podemos continuar assim e ainda fazermos melhor. Porém, não estou ciente de qualquer problema em particular entre a Costa do Marfim e o Burkina Faso.

Claro que temos oponentes na Costa do Marfim. Muitos. Mas, como revolucionários – desde quando começamos a nos entendermos como tal – sabíamos muito bem que o mundo em que vivemos não é revolucionário. Temos que viver com realidades que não são sempre do nosso feitio. Temos que estar prontos para viver com governos que não estão fazendo revolução em nada ou que, talvez, até ataquem a nossa revolução. Esta é uma grande responsabilidade para os revolucionários. Talvez aqueles que venham atrás de nós – os revolucionários – viverão em um mundo melhor e terão uma tarefa muito mais fácil.

Para nós, de todo modo, quanto mais cedo aceitarmos essa realidade – que a Costa do Marfim não fará uma revolução, enquanto nós estamos fazendo uma – então, tudo ficará mais simples. As dificuldades, complicações e preocupações estão somente na mente daqueles que são revolucionários, mas quem, de forma romântica, esperam ou pensam que todo mundo deva agir como revolucionários. Mas, não estamos surpresos. Logo, não estamos incomodados. É uma realidade para qual estamos preparados.

PERGUNTA: Existem relações históricas entre o Burkina Faso e a Costa do Marfim. Podemos ver isso nas visitas periódicas que você fez dentro do quadro de organizações regionais e sub-regionais. Mas, concretamente, Camarada Presidente, desde que o Conselho Nacional da revolução chegou ao poder, como está o eixo Abidjã-Uagadugu? Porque algumas pessoas falam de uma certa frieza, e ainda afirmam que sua ausência na última conferência do Conselho Entente em Yamoussoukro [1] e o cancelamento de uma visita de trabalho à Costa do Marfim foram significativas.

SANKARA: Você perguntou como está o eixo Abidjã-Uagadugu. O eixo fica organizando quando é dirigido pela Air Ivoire e Air Volta (a em breve Air Burkina). O eixo fica problemático quando representado pela ferrovia Abidjã-Uagadugu. O eixo é caótico, bastante controverso, com altos e baixos quando corresponde à estrada Abidjã-Uagadugu – um eixo que passa por regiões com pouca luminosidade, com florestas e savanas, que vão do oceano ao coração do ressacado Sahel [2]. Então, é um conjunto de realidades complexas que cada um de nós precisa entender. Aí está o eixo. Você queria uma descrição, aí está.

Você me fez uma segunda pergunta. Alguns dizem que existe uma frieza. Você não especifica quem disse isso, o que não facilita nossa tarefa. De toda forma, você disse que algumas pessoas ou alguns jornais falam de uma certa frieza entre Abidjã e Uagadugu.

Aqui vivemos no calor da revolução e, aqueles que estão tremendo de frio, deveriam se proteger e tomar as precauções necessárias. Entre a Costa do Marfim e Burkina Faso, há todo tipo de relações – geográficas, históricas, econômicas, sociais, dentre outras. Essas são as relações que não podemos simplesmente suprimir estalando os dedos e nem mesmo a Costa do Marfim não as pode negar.

Hoje, Burkina Faso pegou uma estrada revolucionária para transformar a sua sociedade, para lutar contra um certo número de hostilidades e aflições que conhecemos bem, e acreditamos que somente os inimigos do Burkina Faso estão reclamando disso. Todo marfinense que ama o povo burkinabé deveria aplaudir a Revolução Burkinabé. Todo marfinense que não ama a Revolução Burkinabé não ama o povo burkinabé. É a partir daí que você deve começar a entender onde está frio e quem está ficando com frio.

Isso significa que a Costa do Marfim, que tinha relações excelentes com o revolucionário Alto Volta, está, de repente, esfriando porque o Alto Volta se tornou revolucionário? Esta é uma pergunta que só pode ser perguntada aos marfinenses. Estamos vivendo no calor da revolução, calor que alegremente compartilhando com qualquer um disposto a aceita-lo. Mas não podemos impor a ninguém, e seria muito triste se povos tão fraternos, povos vizinhos, não compartilhassem a mesma alegria ou não se beneficiassem do mesmo calor.

PERGUNTA: Diferentemente da Costa do Marfim, Gana e seu presidente são bem vindos no Burkina Faso. Até vimos tropas ganenses no desfile durante a comemoração da revolução. Onde termina o apoio e começa a intervenção? Em uma palavra, Gana pode se tornar um problema para o nosso jovem país?

SANKARA: Apoio de quem? Intervenção nos assuntos de quem? Uma intervenção começa quando um povo sente que uma traição está sendo cometida contra ele. Enquanto este não seja o caso, nunca haverá apoio suficiente.

Gana chega ao Burkina Faso, aparece aqui quando necessário seja, em ocasiões afortunadas e em não tão afortunadas ocasiões. Porque – e não temos nenhuma dúvida sobre isso, e acho que você também não deve ter – Burkinabés e Ganenses compartilham uma profunda afinidade. Enquanto este sentimento dure, podemos somente lamentar o fato de que não termos feito o suficiente para aumentar o apoio.

Não vemos as coisas de um ponto de vista chauvinista e condenamos o sectarismo. Por conta disso, vemos fronteiras com linhas administrativas, talvez necessárias para limitar a esfera de atividade de cada país e clarear a visão. Porém, o espírito de liberdade e dignidade, de poder contar com os recursos de cada um, de independência e de luta anti-imperialista consistente deve soprar de norte a sul e de sul a norte, transgredindo fronteiras com facilidade. Estamos felizes em dizer que é o caso entre Burkina Faso e Gana e é preciso que continue sendo o caso.

Você acha que nosso país teria algum problema ou dificuldades em suas relações se esse vento soprasse pelo nosso país e todos os outros países? Você acha que países teriam chegado ao ponto de ameaçar um ao outro com o apocalipse hoje se esse mesmo vento soprasse por todos os países do mundo? Atualmente, estamos falando do Irã e do Iraque – você não acha que seria bom se iranianos pudessem visitar iraquianos do mesmo jeito que ganenses visitam burkinabés e vice versa? [3]

A África encara face a face seus problemas – problemas que a OUA [4] sempre evita adiando a solução até o amanhã. Esse amanhã é hoje. Não podemos mais adiar essas questões para o dia seguinte. É por isso que pensamos ser essa crise bastante normal. Pode até ter vindo um pouco tarde.

PERGUNTA: Você poderia dizer a nós a posição do Burkina Faso no conflito no Saara Ocidental?

SANKARA: Nós reconhecemos a República Árabe Saaraui Democrática (RASD) e sentimos que não há motivo para hesitar nesta questão – quando um povo decide escolher uma organização, é um dever reconhece-la. Então, acreditamos que não pode haver nenhuma conferência da OUA sem a RASD. Alguém ficaria de fora. Se alguém está de fora e as razões para esta ausência não são legítimas, Burkina Faso não vai entrar no jogo. [5]

PERGUNTA: Você falou seguidas vezes sobre assistência e cooperação, quer seja africano ou não africano, mas não de qualquer tipo de ajuda. O que você quer dizer com isso?

SANKARA: A assistência precisa caminhar no sentido de fortalecer nossa soberania, não a enfraquecendo. A assistência deve ir na direção de destruir a assistência. Toda assistência que mata assistência é bem-vinda em Burkina Faso. Mas seremos obrigados a abandonar toda assistência que crie uma mentalidade de assistencialismo. É por isso que somos bastante cuidadosos e precisos sempre quando alguém nos promete ou propõe ajuda, ou até quando nós somos os que tomam a iniciativa de requisitá-la.

Não é possível fazer uma revolução ou ganhar sua independência sem uma certa dose de estoicismo e sacrifício. O povo de Burkina demanda tal estoicismo deles mesmo, precisamente para evitar tentações, evitar ir pelo caminho mais fácil, como algumas assistências nos encorajam fazer. Essas miragens fizeram muito mal ao nosso país e a outros. Queremos por um fim nelas.

PERGUNTA: Camarada Presidente, durante o seu refúgio em Cupela [6], você recebeu um membro da Corte Internacional de Justiça. Ele deve ter conversado com você sobre a problemática de Burkina Faso-Mali. Então, como estão procedendo as deliberações? Você está otimista com relação ao resultado?

SANKARA: Quarenta e cinco dias depois que tomamos o poder em Burkina Faso, oferecemos ao povo malinês a nossa máxima disposição no trabalho para encontra ruma solução justa para esse problema. Suspendemos todos os vetos, todos os banimentos e todos os obstáculos que impediam um diálogo franco, construtivo em torno desta questão [7]. Devo dizer que gestos espontâneos são, geralmente, os mais sinceros.

Consideramos importante assegurar ao povo malinês da nossa disposição, nossa sinceridade e nosso profundo desejo de viver em paz com eles. É por isso que nos livramos disso na corte de Burkina. Essa questão, para nós, está resolvida. Estamos focados em outros parceiros, sejam eles a Corte Internacional de Justiça ou Mali. Estamos dando a eles tempo para agir ou reagir. Não estamos preocupados com isso.

PERGUNTA: A sua contrapartida do Zaire recentemente requisitou que uma liga de Estados negros africanos fosse organizada. Você foi consultado? O que você achou dessa iniciativa do Presidente Mobutu? Especificamente, você acha que tal liga poderia resolver os problemas que a África Negra está enfrentando? E você acha que os conflitos no Saara Oriental e no Chade [8] são as causas da situação atual da OUA?

SANKARA: Sua questão me incomoda muito porque você parece estar dizendo, mais uma vez, que os chefes de Estado consultaram um ao outro acerca desta famosa proposta de uma liga de Estados negros africanos. É o que sua pergunta parece sugerir. Eu não fui consultado em qualquer proporção, sorte a minha! Talvez somente os que tinham algo a “contribuir” foram.

Não somos avessos a Africanos Negros se organizando, uma vez que a realidade é que há Africanos Negros e africanos brancos, mas, não sabemos exatamente qual o alcance disso. Não sabemos a que propósito serviria seguir repetindo que somos Negros, como se os problemas que a OUA enfrenta são devidos ao fato de que há uma OUA bicolor, e que nós deveríamos estar pensando em formar uma OUA unicolor. Isso é surrealismo, o que produz um certo tipo de pintura que não achamos atraente.

Você e a Jeune afrique parecem estar dizendo que o conflito no Saara Oriental – chamamos de conflito entre a RASD e Marrocos, só para deixar claro – e, em uma extensão mais baixa, o conflito no Chade, poderia explicar o motivo de a OUA estar começando a se dividir. É um pouco como se essas duas questões, do Chade e da RASD, fossem as que envolvem africanos Negros e que, ao retirá-los da OUA, poderíamos harmoniosamente nos encontrar de volta entre os africanos Negros. Não tenho certeza se as relações entre a RASD, que é africana e maiormente branca, e certos países africanos Negros são piores do que entre alguns países africanos Negros e outros países africanos Negros. Então, não é uma questão de cor. A respeito de como concebemos a OUA, não há espaço para os que são sensíveis à cor. Só há uma cor – a da Unidade Africana.

PERGUNTA: Qual o seu ponto de vista da evolução, particularmente do fracasso, da conferência de Brazzaville? [9]

SANKARA: Como você bem sabe, apoiamos os esforços em Brazzaville. Dissemos que a conferência de Brazzaville não devia ser um ringue de box do qual um campeão peso pesado emergiria. Demos total apoio ao presidente [congolês] Sassou Nguessoem seus esforços para estabelecer condições para um dialogo, permitindo aos chadianos resolverem as suas diferenças. Porém, também dissemos que, para a conferência ser útil, teríamos que reconhecer a vitória do povo chadiano sobre seus inimigos.

PERGUNTA: Com relação a suas relações com a Líbia, poderia mencionar um exemplo de assistência deste país para Burkina Faso?

SANKARA: Você está me fazendo uma pergunta muito delicada e difícil. Há tantos exemplos. Poderíamos passar horas e horas, senão dias, falando sobre esta ajuda. Temos muito boas relações, as quais tem somente se aprofundado, uma vez que cada país tem declarado sua própria personalidade, sua própria independência. Estamos muito satisfeitos e contentes que a Líbia respeita a nossa independência.

Visitamos a Líbia com frequência. Não faz muito tempo que conheci o Coronel Qaddafi. Discutimos tantas questões e fizemos críticas mútuas. Além disso, estamos prontos para aderir a autocríticas quando sentimos que o criticismo é bem fundamentado e deve nos encorajar a mudar de postura. Assim como convidamos a Libia a fazer o mesmo. Entre revolucionários, devemos encorajar a crítica e a autocrítica. Isso não significa que a Líbia é perfeita, porque nada é perfeito em nenhum país do mundo. E isso dá margem para discussões. Logo, nossas relações seguem sendo como têm sido e tem tomado um novo aspecto com essa forma de mútuo criticismo e debate frutífero.

PERGUNTA: Durante uma expedição na África, você visitou Moçambique e Angola. Entretanto, sabemos que esses países assinaram pactos com a África do Sul que parecem, à primeira vista, não serem naturais. [10]  Qual é a posição do Burkina Faso com relação a esses acordos?

SANKARA: Já expressamos o nosso posicionamento. Há uma questão básica envolvida aqui. A África do Sul racista nunca deixará de ser um veneno, um espinho em todos os africanos. Enquanto este espinho, essa ideologia bárbara, retrógrada e anacrônica – o apartheid – não for removido, o racismo não cessará. Então, não há espaço para titubear, mudar o posicionamento nessa questão.

As formas e os meios para resolver esse problema são questões táticas para cada país. Mas, fundamentalmente, a luta contra o racismo deve continuar. Ademais, táticas e estratégia não devem ser confundidas uma com a outra. É por isso que, enquanto evitamos ensinar lições ou criticar nossos camaradas angolanos e moçambicanos, lembramo-los da responsabilidade deles na luta contra o racismo e que, independentemente da tática que usarem, eles precisam comprar uma briga permanente contra o racismo. Qualquer outro posicionamento seria uma negação dos sacrifícios feitos pelos mártires africanos. Seria também uma negação de tudo que está sendo feito hoje e do que foi feito ontem.

Ao mesmo tempo, não hesitamos em criticar os outros Estados africanos por falhar em oferecer apoio efetivo, genuíno e concreto na frente de batalha aos países que têm se dedicado à segurança de todos no que concerne ao racismo. Foi porque Moçambique ousou a dar apoio a outras lutas que o que costumava ser a Rodésia está vivendo uma realidade diferente hoje. [11] É porque Angola fica de guarda contra a África do Sul que o resto de nós, tão distantes como o ocidente ou o norte da África, podemos escapar a ameaça direta do racismo. Porém, se um desses países cair, se os Estados da Linha de Frente colapsassem, significaria um avanço constante, perigoso e ofensivo do limite real dos racistas.

Então, só podemos encorajar ambos os países a continuar a sua luta assertiva contra o racismo, contra a África do Sul racista. E, enquanto o fazemos, somente podemos esperar que exerçam toda a vigilância necessária. Quando você lida com onça, é preciso ter uma vara longa [12] – longa o suficiente, em qualquer proporção. 

PERGUNTA: O que Burkina Faso pensa da pré-condição levantada pela África do Sul – a retirada das tropas cubanas de Angola – para a independência da Namíbia? [13]

SANKARA: A pré-condição que a África do Sul levanta é uma pista falsa porque a África do Sul tem seus negócios com países, incluindo países africanos, que possuem tropas estrangeiras em seu solo. Por que não há problema nesses casos? Por que eles querem impedir Angola de chamar tropas que parecem contribuir e dar apoio de forma útil? É o direito deles. Chamar tropas cubanas é uma questão que envolve a soberania de Angola. É a cargo dos cubanos que eles resolveram morrer por outro país enquanto eles também têm perigos batendo à porta e à espreita.

No que tange à questão da presença de tropas estrangeiras nesse ou naquele país, pensamos que há países que têm o direito de questionar e outros que não, especialmente quando possuem tropas estrangeiras em seus próprios países. As tropas cubanas não são menos legítimas do que as que estão buscando estender sua política de dominação.

PERGUNTA: Você fez referência em seu discurso a países que te saudaram com o beijo de Judas ou aqueles que apoiaram os inimigos de seu povo. Você inclui a França dentro desses países? Como você vê as relações entre França e Burkina Faso?

SANKARA: Talvez, na época, somente Jesus notou Judas. Não tenho certeza se os outros onze discípulos repararam. Não vamos nos precipitar. Não colocamos palavras na boca de ninguém. Mas também estamos cientes que os Judas sabem quem são e, talvez, tendo sido pegos em flagrante contra nós, eles se trairão de uma forma ou de outra.

Como não estamos no assunto, uma pessoa pode negar tudo, mas, as suas mais profundas intenções se revelarão no fim. O primeiro dos doze discípulos, Pedro, foi pego. Quando Pedro fingiu que não estava com o sujeito de condenação popular, disseram-no: “Seu sotaque te denunciou.” Bom, você leu as Sagradas Escrituras como todo mundo, então, não vou continuar.

A França tem relações conosco que podem achar surpreendentes. Achamos que essas relações podiam ser melhores. Nós, de fato, queremos melhorá-las. Já repetimos várias vezes. Mas, para que as relações melhorem, a França tem que aprender a lidar com os países africanos ou, ao menos, conosco, de uma maneira diferente. Lamentamos profundamente o fato de vocês serem os únicos a achar que maio de 1981 tornou possível a transformação da França. No que diz respeito às relações da França com África, em qualquer medida, maio de 1981 não mudou nada. [14]

A França de maio de 1981 está seguindo praticamente o mesmo caminho dos governos antecessores. Ela está também lidando com os mesmos representantes dos vários grupos africanos. A França de hoje não difere em nada da França de ontem. É por isso que nós, quem está expressando, quem está elaborando uma nova realidade africana, somos incompreendidos. Talvez estamos até complicando um pouco as relações franco-africanas.

Aparecemos usando a linguagem da verdade, uma veracidade ligada com sinceridade não encontrada em outro lugar. Por muito tempo, a França tem sido acostumada a este tipo de linguagem usada por – não os chamaria de bajuladores de fato, mas… A França estava muito acostumada com a linguagem dos servos do neocolonialismo. Nessas condições, ela não consegue entender que há alguns que não querem entrar na linha.

Se a França se esforçasse para entender essa nova realidade – que é vista em Burkina Faso como uma realidade amplamente compartilhada por muitos outros países africanos – se fosse feito um esforço para aceitá-la como tal, muito mudaria. Porém, infelizmente, eles querem passar o Burkina Faso como uma pequena falha, uma contingência, talvez temporária. Não, essa é a realidade em África e, portanto, as relações entre África e seus outros parceiros deve evoluir tal qual.

PERGUNTA: Você disse que estava aberto a países com ideologias diferentes, mas, a ideologia do seu país se opõe a da França. Seria certo dizer que deveria existir uma amizade condicional entre os dois países? Se sim, quais seriam as condições?

SANKARA: Eu acho que não existe amizade incondicional. Até mesmo o amor à primeira vista tem, creio eu, certas condições, as quais, quando passam o efeito, trazem os humanos de volta para a terra e para realidades surpreendentemente frias.

A amizade entre Burkina Faso e qualquer outro país é uma amizade condicional por respeito à nossa soberania e a nossos interesses, os quais nos forçam a respeitar o outro parceiro. Essas condições não são uma via de mão única. Acreditamos que o diálogo com a França tem que ser franco. Veracidade, enquanto ambos os parceiros estão, de fato, dispostos a acatá-la, pode nos levar a um programa de amizade.

O representante da França, seu embaixador, calculou que, de 4 de agosto de 1983 até hoje, o balanço de trocas diplomáticas entre a França e o então Alto Volta tem mostrado um enorme déficit em nossa desvantagem. Isso diz tudo. A França continua acreditando que as posições de Burkina Faso podem ser adivinhadas, interpretadas ou expressadas por esse ou aquele mandachuva. O que significa que, neste nível, a França não considerou Burkina Faso como algo novo – algo novo que reflete uma certa realidade em África.

PERGUNTA:O Alto Volta decidiu não participar nos Jogos Olímpicos [Verão de 1984 em Los Angeles]. Por quê? Como você explica o fato de outros países africanos decidirem participar?

SANKARA: O Alto Volta decidiu não participar, e Burkina Faso apoia essa decisão. Não porque não temos esperança em trazer medalhas para casa! Mas, por causa dos nossos princípios. Devemos usar esses jogos, como qualquer plataforma, para denunciar nossos inimigos e o racismo da África do Sul. Não podemos participar de jogos lado a lado dos apoiadores das políticas racistas da África do Sul. Nem ao lado de quem rejeita os alertas e condenações que africanos tem feito para enfraquecer a África do Sul racista. Não concordamos e escolhemos não ir, mesmo que isso signifique nunca ir aos Jogos Olímpicos.

Nossa posição não foi por ordem de ninguém. Cada países que não quis ir teve seus motivos. Os nossos tem relação com os vínculos entre as autoridades britânicas do esporte e a África do Sul. A Grã-Bretanha nunca aceitou os vários alertas e inúmeros protestos. A Grã-Bretanha não se mexeu, tampouco iremos. Não vamos estar a seu lado para celebrar. Não podemos ir para aquela festa! Não estamos a fim de festejar.

PERGUNTA: Você sabe que o que geralmente assusta o Ocidente, Europa, e França é o termo “revolução”. Em seu discurso, você disse que a “revolução não pode ser exportada”. Essa foi uma forma de tranquilizar os países que estão com um pouco de medo? É possível não exportar revoluções quando fronteiras são meramente linhas administrativas?

SANKARA: A revolução não pode ser exportada. Uma escolha ideológica não pode ser imposta em qualquer povo. Exportar revolução significaria também que nós, burkinabés, pensamos que podemos ir ensinar aos outros o que tem que fazer para resolver os seus problemas. Essa é uma visão contrarrevolucionária. Isso é o que os pequeno-burgueses pseudorrevolucionários, livrescos, dogmáticos proclamam e, sendo verdade, devíamos, supostamente, continuar a cadeia.

Não é o caso.

Dissemos que a nossa revolução não está alheia à existência de experiências de outros povos, suas lutas, seus sucessos e seus contratempos. Isso significa que a revolução em Burkina Faso, portanto, leva em consideração todas as revoluções do mundo, quaisquer que elas possam ser. A revolução de 1917 ensina-nos muitas coisas, por exemplos; e a revolução de 1789 nos oferece tantas lições. A teoria de Monroe de “América para os Americanos” nos ensina muito. Temos interesse nisso tudo. [15]

Também acreditamos que ter fronteiras que são simplesmente linhas administrativas não significa que nossa ideologia consegue invadir outros países. Porque, se eles não a aceitarem, se eles a rejeitarem, não terá tanto progresso. Para que essa fronteiras não sejam uma barreira para ideias também, elas precisarão ser entendidas, em ambos os lados da linha, como sendo meramente administrativas. Se Burkina Faso concebe essa ou aquela fronteira como sendo somente uma linha administrativa, enquanto, no outro lado, é vista como uma muralha protetiva, o resulta não será o que ocorre hoje entre Gana e Burkina Faso.

Quanto melhor a revolução for conhecida, melhor será entendida como não sendo perigosa – e isso é bom para os povos do mundo. Muitas pessoas têm medo da revolução porque não estão familiarizadas com ela ou porque só conhecem os excessos, tal como reportados por colunistas e correspondentes de jornais que buscam algo sensacionalista.

Sejamos claros. Apesar de nossa revolução não ser feita para exportação, não pretendemos sair do nosso caminho para enclausurar a Revolução Burkinabé em uma fortaleza impenetrável. Nossa revolução é uma ideologia que sopra livremente e está à disposição daqueles que sentem a necessidade de aproveitá-la.

Notas


[1] Em 1983, Iamussucro substituiu Abidjã como capital da Côte d’Ivoire (Costa do Marim), apesar de Abidjã ter permanecido a capital de facto.

[2] N.T.: Faixa delimitada pelo deserto do Saara e a savana do Sudão, entre a costa Atlântica e o Mar Vermelho.

[3] Em setembro de 1980, com o apoio de Washington, Londres, Paris e Tóquio, o governo iraquiano de Saddam Hussein invadiu o Irã. Hussein buscou controlar os campos iranianos de petróleo e adiou, em 1979, a revolução que milhões de trabalhadores ruais e urbanos e a juventude depôs a monarquia pró-estadunidense. A guerra Irã-Iraque durou oito anos e resultou em milhares de mortes.

[4] N.T.: Organização da Unidade Africana (do inglês, Organisation of African Unity).

[5] Na conferência de 1984 da Organização da Unidade Africana, a SADR foi admitida como um membro completo, com o apoio ativo da delegação burkinabé, liderada por Tomas Sankara. Marrocos, então, saiu da OUA em protesto.

[6] Cupela é localizada no Burkina Faso centro-oriental. 

[7] Baseados em uma disputa por fronteira de longa duranção com o Mali, sucessivos governos em Alto Volta haviam vetado a admissão de Mali à União Monetária do Oeste Africano

[8] Uma colônia francesa antiga na África Central, o Chade foi afetado uma guerra civil recorrente entre facções apoiadas pela França no sul, e Líbia no norte. Paris interviu militarmente em 1968-72, 1977-79, 1983-84 e 1986 até o presente. Tropas líbicas ocuparam o norte de 1983 a 1987.

[9] Diversos governos africanos participantes de uma conferência em Brazzaville, na República do Congo, tinham como objetivo negociar um fim para a guerra civil no Chade e a remoção das tropas francesas e líbicas.

[10] Em fevereiro de 1984, os governos de Angola e África do Sul assinaram o Acordo de Lusaka, por meio do qual o governo do apartheid disse que removeria sua força de invasão do sul de Angola e o governo angolano prometeu restringir as atividades em seu território da Organização do Povo do Sudoeste Africano (SWAPO), a qual liderava a luta pela independência na Namíbia, governada pela África do Sul de 1915 a 1990. Esse acordo foi sucedido, em março de 1984, pelo Acordo Nkomati entre Moçambique e África do Sul, por meio do qual o governo do apartheid disse que retiraria seu apoio às forças pró-imperialistas Renamo em Moçambique enquanto o governo moçambicano prometer não permitir mais a operação do Congresso Nacional Africano da África do Sul em seu território.

[11] Em 1980, o regime da minoria branca racista da Rodésia, encarando uma intensificação de uma guerra pela liberação nacional e um crescente isolamento internacional, foi forçado a desistir dos esforços de impedir o governo majoritário. O país se tornou a República do Zimbábue.

[12] N.T.: No original, Sankara faz menção ao um provérbio que diz: “Aquele que janta com o diabo, deve ter uma colher bem longa pra manter distância”. Optei por substituir por um provérbio de impacto e significado análogos, mas, mais conhecido no Brasil.

[13] De novembro de 1974 a maio de 1991, mais de 375000 voluntários cubanos responderam ao apelo do governo angolano por solidariedade para impedir invasões pelas forças armadas sul-africanas, apoiadas por Washington e em aliança com regime pró-imperialista no Zaire. Esse esforço internacionalista culminou em 1988 com a derrota das forças racistas na batalha do Cuito Cuanavale, levando à remoção da África do Sul de Angola e à independência da Namíbia.

[14] Em maio de 1981, François Mitterrand do Partido Socialista foi eleito presidente da França.

[15] Uma referência à Revolução Russa de 1917 e à Revolução Francesa de 1789. A Doutrina Monroe de 1823, promulgada pelo presidente dos Estados Unidos James Monroe, declarou que a jovem república estadunidense agiria no sentido de impedir qualquer interferência nas Américas pelas monarquias e colonizadores europeus reacionários.

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