Como a China está substituindo os Estados Unidos como o titã militar da Ásia

Reportagem especial da Reuters, realizada por David Lague and Benjamin Kang Lim.

Tradução por Pedro Pio.


O líder chinês Xi Jinping remodelou o Exército de Libertação Popular numa força que está rapidamente diminuindo a diferença em relação ao poder de fogo americano – e em certas áreas vitais, já o ultrapassou. A vitória americana sobre a China numa guerra regional não é mais garantida.

Em 1938, no meio de uma longa campanha para colocar a China sob domínio do Partido Comunista, o líder revolucionário Mao Zedong escreveu: “Quem quer que tenha um exército, tem poder”.

Xi Jinping, o mais recente sucessor de Mao, leva esse ditado bem a sério.

Ele vestiu uniformes de camuflagem, instalou-se como comandante-chefe e assumiu o controle de dois milhões de militares chineses, o Exército de Libertação Popular. É a maior reforma do ELP desde que Mao o levou à vitória na guerra civil do país e fundou a República Popular em 1949.

Xi acelerou a mudança do ELP de uma força tradicionalmente terrestre para uma potência naval. Ele quebrou sua vasta burocracia militar da era maoísta. Uma nova cadeia de comando aponta diretamente a Xi como presidente da Comissão Militar Central, o principal órgão de tomada de decisões militares da China. A liderança operacional das forças navais, de mísseis, aéreas, terrestres e cibernéticas foi separada da administração e treinamento – uma estrutura que analistas de Defesa chineses e ocidentais dizem que foi emprestada da organização militar estadunidense.

O líder chinês não está apenas revolucionando o ELP. XI está fazendo uma série de manobras que estão transformando tanto a China quanto a ordem global. Ele abandonou a determinação do arquiteto da reforma, Deng Xiaoping, de que a China deveria esconder sua força e esperar sua vez. O jogo da espera acabou. Os discursos de Xi são cheios de referências ao seu “sonho Chinês”, onde uma nação antiga se recupera da humilhação da invasão estrangeira e retoma seu lugar de direito como poder dominante na Ásia.

Foto: Guo Boxiong, visto aqui na gravação de seu julgamento em crimes de corrupção, é um dos membros mais velhos do exército a ser expurgado por XI Jinping. Fonte: CCTV

Os esforços incluem demonstrações características de soft power: o programa multibilionário de Xi, “Belt and Road”, para construir uma rede de troca global e infraestrutura com a China no centro, e seu plano “Made in China 2025”, para tornar o país num gigante manufatureiro de tecnologia avançada.

Mas o movimento mais ousado é a expansão do hard power chinês, através de suas reformas no ELP, a maior força armada do mundo. No centro de sua visão de renovação nacional está um exército leal e livre de corrupção, que Xi demanda estar preparado para lutar e vencer.

Seu esforço para projetar poder no exterior foi acompanhado por uma jogada poderosa internamente. Xi expurgou mais de 100 generais acusados de corrupção ou deslealdade, de acordo com a mídia oficial controlada pelo estado.

Uma demonstração pura de sua autoridade apareceu quando a televisão estatal transmitiu uma série de documentários elogiosos sobre o ELP, “Exército Forte”. Em uma cena da série de 2017, um homem idoso está sentado em um tribunal militar em uma mesa marcada como “réu”, aparentando estar bem frágil em uma jaqueta civil azul marinho. Ele é Guo Boxiong, um ex-general e o oficial mais graduado a ser condenado no expurgo de Xi. Ele lê sua confissão de acusações de suborno em um maço de papéis que segura com as duas mãos.

“A Comissão Militar Central lidou com meu caso corretamente”, diz Guo, que já serviu como vice-presidente da instituição. “Devo confessar minha culpa e assumir a responsabilidade”. Guo foi sentenciado à prisão perpétua.

Fontes: Instituto de Estudos Nacionais Estratégicos e o Pentágono.

Numa série de histórias, a Reuters está explorando como o rápido e disruptivo avanço do hard power chinês sob a observância de Xi Jinping acabou com a era da supremacia inquestionável dos Estados Unidos na Ásia. Ao longo de apenas duas décadas, a China construiu uma força de mísseis convencionais que rivalizam ou superam aqueles no arsenal americano. Os estaleiros navais da China criaram a maior marinha do mundo, que agora domina os mares no Leste Asiático. Pequim agora pode lançar mísseis nucleares de uma frota operacional de submarinos de mísseis balísticos, dando uma poderosa capacidade de contra-ataque. E o ELP está fortificando postos em vários locais do Mar do Sul da China, enquanto intensifica os preparativos para recuperar Taiwan, pela força se necessário.

Pela primeira vez desde que comerciantes portugueses chegaram à costa chinesa cinco séculos atrás, a China tem o poderio militar para dominar os mares de sua costa. O conflito entre China e Estados Unidos nessas águas seria destrutivo e sangrento, particularmente uma disputa por Taiwan, de acordo com altos oficiais americanos, em serviço e aposentados. E apesar das décadas de poder incomparável desde o fim da Guerra Fria, não haveria garantia de que os Estados Unidos iriam prevalecer.

“Os EUA poderiam perder”, disse Gary Roughhead, co-presidente de uma revista bipartidária de estratégia de defesa do governo Trump publicada em novembro. “Estamos realmente em um ponto de inflexão significativo da história.”

Roughhead não é um simples teórico. Almirante aposentado, ex-Chefe de Operações Navais, ele obteve o cargo mais alto da marinha americana até 2011. Sua preocupação reflete uma visão crescente do establishment de defesa americano. Em seu relatório, ele e seus colegas emitiram um alerta terrível. Os Estados Unidos enfrentam uma “crise de segurança nacional”, que decorre principalmente do aumento de poderio militar da China e da Rússia. “A superioridade militar americana não está mais garantida e as ameaças para os interesses e a segurança americana são severas”, conclui o painel.                          

Está claro que Xi quer dar um fim à era do domínio americano na Ásia. “Na análise final, cabe ao povo da Ásia lidar com os assuntos da Ásia, resolver os problemas da Ásia e garantir a segurança da Ásia”, diz ele em um discurso em 2014 para líderes estrangeiros em segurança regional.

O Ministro da Defesa Nacional da China, o Comando do Indo-Pacífico dos Estados Unidos e o Pentágono não responderam às perguntas deste artigo ou aos resumos detalhados de suas descobertas.

Este relato de Xi e do ELP – que apesar do “Exército” em seu nome, compreende todos os ramos militares – é baseado em entrevistas com 17 oficiais militares, atuais e aposentados, da China, dos Estados Unidos, Taiwan e Austrália. Muitos só podiam falar em condição de anonimato. Muito do relato vem de oficiais chineses e pessoas relacionadas à alta liderança em Pequim, que conhecem Xi Jinping e sua família há décadas e estão familiarizados com sua carreira conforme ele ascendeu na burocracia do partido e do governo. Também se baseia nas publicações do governo chinês descrevendo o pensamento político de Xi, seus discursos e documentos oficiais comprovando sua liderança no meio militar.

Xi sobe na hierarquia

Em Washington, a potência militar preeminente do mundo está se mobilizando para responder. Após décadas buscando engajamento com a expectativa de que Pequim se tornasse um parceiro cooperativo em assuntos mundiais, os Estados Unidos estão tratando a China como um competidor estratégico, e determinados a substituí-la como força dominante da Ásia.

Em grande parte, em reação a este desafio, Washington está aumentando os gastos com defesa, reconstruindo sua marinha e desenvolvendo urgentemente novas armas, particularmente mísseis convencionais de longo alcance. Está expandindo relações militares com outras potências regionais, como Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália, Singapura e India. E está conduzindo uma campanha internacional de diplomacia e inteligência para conter os ciber-ataques, a espionagem tradicional e o roubo de propriedade intelectual da China. Essa campanha inclui esforços para conter o alcance global das empresas de telecomunicações chinesas, Huawei e ZTE Corp.

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Foto: Tropas chinesas se preparam para a chegada do presidente Xi Jinping na Guarnição do ELP de Hong Kong durante em evento em 2017 marcando o vigésimo aniversário da transferência da cidade do domínio britânico. Reuters/ Damir Sagolj
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Foto: Membros do corpo de Fuzileiros Navais do ELP treinam na região oeste de Xinjiang em janeiro de 2016. Reuters/ Stringer
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Foto: Um caça a jato decola do Liaoning, o único porta-aviões operacional da China, durante um exercício no Mar do Sul da China em janeiro de 2017. Reuters/ Mo Xiaoliang

O confronto vem a medida em que a administração do Presidente Donald Trump está travando uma guerra alfandegária focada em reduzir o massivo superávit de trocas da China para com os Estados Unidos. Quando este conflito for sanado, um risco mais grave é a possibilidade de que tensões mais profundas poderiam gerar um conflito armado entre Pequim, Washington e seus aliados nas contestadíssimas zonas marítimas da costa chinesa.

As melhorias do ELP não são tudo o que Xi está fazendo. Muito antes dele assumir o poder, o exército havia sido transformado numa massiva, porém rudimentar, força terrestre que levou Mao e seus camaradas, incluindo o pai de Xi, à vitória contra os Nacionalistas em 1949. Décadas de avanços exorbitantes nos gastos de defesa resultaram num arsenal de armas de alta tecnologia; milhões de soldados foram desmobilizados. Mas a corrupção se tornou endêmica.

Os dois predecessores de Xi, Jiang Zemin e Hu Jintao, eram civis que tomaram posse sem uma rede de apoio entre os chefes do ELP. Eles tentaram comprar lealdade através de patrocínios, aumentos de salários e orçamentos, de acordo com analistas chineses e taiwaneses e oficiais aposentados. Sob a fraca liderança de Hu em particular, dizem, oficiais superiores exploraram suas posições para desviar dinheiro, principalmente dos orçamentos de logística e equipamentos. A compra de postos tornou-se galopante.

A hierarquia militar que Xi herdou tornou-se uma lei para si mesma sob Hu, de acordo com Li Nan, um estudioso do exército chinês da Universidade Nacional de Singapura. “Estava fora de controle, de certa forma”, disse Li. “Agora o poder é centralizado nas mãos de Xi Jinping”.

Xi, chamado muitas vezes de príncipe, cresceu dentre os membros da aristocracia do Partido Comunista Chinês, mesmo sua família tendo sofrido perseguições durante a caótica Revolução Cultural de Mao. Seu falecido pai, Xi Zhongxun, foi um líder militar revolucionário que se tornou um alto funcionário do governo nos primeiros anos do regime comunista. Mais tarde, ele foi expurgado por Mao, antes de emergir como um dos principais líderes das reformas de mercado da China na década de 1980.

Foto: Ao estabelecer controle sobre o exército, Xi Jinping se espelha em Mao Zedong. Souvenires de Mao e Xi podem ser vistos numa loja próxima à Cidade Proibida em Pequim. Reuters/ Thomas Peter

A dramática acumulação de poder de Xi foi inesperada. Ele manteve a discrição enquanto lentamente abria caminho para a burocracia do Partido Comunista e do estado, de acordo com muitos chineses familiarizados com seu início de carreira.

Seu primeiro trabalho fora da universidade em 1979 foi servindo em um posto júnior como auxiliar uniformizado do General Geng Biao, então Ministro da Defesa. A biografia oficial de Xi registra este posto de três anos como “trabalho ativo”. Nesta função, ele teve acesso a documentos militares confidenciais, incluindo arquivos sobre a invasão chinesa ao Vietnã em 1979, de acordo com fontes ligadas à liderança. Ele teve que memorizar centenas de números de telefone e não era autorizado a usar uma agenda telefônica, porque ela poderia ser perdida ou roubada, disseram.

Ele então começou uma série de governos provinciais e postos do partido. Nesses cargos, sua performance foi relativamente normal. Como governador da Província de Fujian, no Sudeste, por exemplo, ele era obcecado com a rotina burocrática das sessões de estudos políticos onde os oficiais revisavam documentos do Partido Comunista e discursos de líderes superiores, de acordo com pessoas que o conheciam na época.

E ele estava longe de ser universalmente popular. Ficou em último lugar nas eleições para membros alternados do Comitê Central do partido, com 200 cadeiras, durante o 15º Congresso do Partido Comunista em 1997.

Esse histórico parece ter funcionado a seu favor. Durante seu período como líder supremo da China, o Presidente Jiang Zemin escolheu Xi a dedo para um cargo sênior porque o jovem parecia não ter ambição, de acordo com fontes ligadas a liderança chinesa. Xi também soava como um candidato influenciável porque não tinha base política, disse uma fonte na condição de anonimato.

Foto: Xi Jinping abandonou a postura cautelosa de seus predecessores. Aqui ele é visto entre os ex-presidentes Hu Jintao (esquerda) e Jiang Zemin (direita) no 19º Congresso do Partido Comunista em Pequim, em outubro de 2017. REUTERS/ Thomas Peter

Mas como o principal líder da China, ele mostrou disposição para impor mudanças radicais na cúpula do Partido, no governo e no exército.

“Quando eu falo com meus amigos da China Continental, todos dizem que ele é de assumir riscos”, diz Andrew Yang Nien-Dzu, ex-ministro da Defesa de Taiwan. “Você nunca sabe qual será seu próximo movimento”.

Xi Doma o Exército

Desde o começo, o expurgo à corrupção e a promoção de oficiais leais fez com que ficasse claro os grandes planos que Xi tinha para o ELP. Então, no meio de 2015, ele cortou 300.000 funcionários majoritariamente não-combatentes e administrativos antes de iniciar uma revisão geral da estrutura militar.

Ele separou os quatro “departamentos gerais” do ELP da era maoísta que haviam se tornado superpoderosos, autônomos e altamente corruptos, disse Li da Universidade Nacional de Singapura. Xi os substituiu com 15 novas agências que reportam diretamente à Comissão Militar Central liderada por ele.

Ele também desmantelou as sete regiões militares geográficas e as substituiu por cinco comandos de teatro de serviço combinado. Esses novos comandos regionais, comparáveis aos que lideram as forças armadas americanas, são responsáveis pelas operações militares e tem foco em combinar as capacidades aéreas, navais e mais outras das forças armadas chineses para se adaptar as guerras modernas.

Xi também promoveu seus comandantes favoritos, muitos deles oficiais que ele conheceu nas províncias de Fujian e Zhejiang, onde serviu a maior parte de seu início de carreira como oficial, de acordo com observadores chineses e ocidentais do ELP. Outros vem de sua província natal de Shaanxi ou são outros “príncipes” como ele próprio.

No 19º Congresso do Partido Comunista em 2017, Xi garantiu ainda mais seu controle sobre a liderança militar, diminuindo as cadeiras da Comissão Militar Central de onze para sete e os preenchendo com os homens de sua lealdade. Xi conheceu a maior parte deles em Shaanxi e Fujian.

Xu Qiliang, 69 – General

Xi promoveu Xu a seu principal comandante como vice-presidente sênior da comissão. Xu, um piloto, é o primeiro general da força aérea a ocupar esse posto. Antes, Xu serviu na província de Fujian em alguns postos de comando da força aérea de 1988 a 1993 enquanto XI era um oficial da província, de acordo com suas biografias oficiais. Os dois permaneceram próximos desde então, de acordo com experts militares chineses.

Zhang Youxia, 68 – General

Xi promoveu Zhang ao segundo posto de vice-presidente da comissão. Zhang, um veterano da guerra da fronteira da China com o Vietnã de 1979, é outro “príncipe” e nativo de Shaanxi. Num exército em que experiência de combate é rara, a indicação de Zhang traz um soldado endurecido pela guerra ao topo do exército chinês ao tempo em que as tensões se amontoam com rivais regionais, de acordo com experts militares chineses. Xi e Zhang também tem fortes laços familiares. O pai de Zhang, Zhang Zongxun, foi amigo próximo e companheiro da guerra civil do pai de Xi, de acordo com uma fonte ligada a liderança e experts militares chineses.

Zhang Shengmin, 61 – General

O oficial mais jovem na comissão é o General Zhang Shengmin, um oficial político de carreira que passou períodos extensivos nas forças de mísseis chinesas. Zhang é uma figura chave no desmantelamento corrente da corrupção no exército promovido por Xi. Ele encabeça o mecanismo de inibição à corrupção, a Comissão Disciplinar de Inspeção. Assim como Xi, Zhang é nativo de Shaanxi.

Li Zuocheng, 65 – General

Li é um veterano combatente do conflito fronteiriço com o Vietnã. Ele participou de combates pesado e foi ferido, de acordo com reportagens da mídia continental, e após isso foi condecorado por sua bravura e liderança. Sua carreira aparentava estar estagnada durante as lideranças Jiang Zemin-Hu Jintao mas ele foi promovido rapidamente sob a de Xi. Ele também cumpre um papel chave no comando operacional sênior do exército chinês como chefe do Departamento de Estado-Maior Conjunto.

Wei Fengue, 65 – General

Ministro da Defesa Wei, um comandante veterano da força de mísseis do ELP, está no posto para aconselhar sobre o poder de dissuasão nuclear cada vez mais poderoso da China. Wei foi um dos primeiros oficiais promovidos a general depois que Xi tomou o poder.

Miao Hua, 63 – Almirante

O Almirante Miao Hua serviu por períodos extensos na Província de Fujian. Ele era um oficial político sênior de uma unidade do exército baseada em Xiamen quando XI era um líder provincial, de acordo com experts militares chineses. Mais tarde, ele foi transferido para a marinha.

Foto: Membros da Comissão Militar Central Xu Qiliang (frente), (atrás, da esquerda para a direita) Zhang Shengmin, Li Zuocheng, Zhang Youxia, Wei Fenghe e Miao Hua fazem um juramento de lealdade no Grande Salão do Povo em Pequim em março do ano passado. REUTERS/Jason Lee

Enquanto lustra suas credenciais militares, Xi usa seu uniforme inicial no serviço militar. Em discursos para audiências militares, ele descreve a si mesmo como um soldado que se tornou oficial, de acordo com relatos da mídia controlada pelo estado. Em distintivos uniformes de camuflagem do ELP, quepe e botas de combate, ele supervisionou alguns dos maiores desfiles militares desde a vitória comunista de 1949. Na mais recente dessas exibições, Xi recebeu a saudação das tropas sem compartilhar o pódio com a formação usual de outros líderes partidários e anciãos.

Num exercício naval massivo em abril do ano passado, Xi embarcou no destroyer de mísseis teleguiados Changsha para revisar a frota chinesa de 48 navios de guerra no Mar do Sul da China. A televisão estatal mostrou o comandante da marinha, Vice Almirante Shen Jinlong, e o comissário político da marinha, Vice Almirante Qin Shengxiang, em posição de atenção enquanto reportavam a Xi e o saudavam. Xi então deu a ordem para prosseguir o exercício.

Ambos os chefes da marinha são protegidos de Xi. Shen foi promovido rapidamente sob Xi, ultrapassando outros oficiais mais antigos, de acordo com analistas chineses e ocidentais. Qin trabalhou próximo ao líder chinês num posto superior na Comissão Militar Central antes de sua promoção em 2017 ao seu cargo na marinha, reportou a mídia oficial militar da China.

Xi também estava de uniforme novamente em julho de 2017, em um desfile militar mássivo para marcar o 90º aniversário do ELP no campo de treinamento Zhurihe, no interior da Mongólia. Ele foi saudado pelo comandante do desfile, General Han Weiguo, um oficial que serviu em Fujian enquanto Xi era oficial do partido e do governo na província. Han teve uma ascensão meteórica sob Xi, tendo sido promovido ao comando das forças terrestres chineses pouco depois de seu desfile.

“Quando eu falo com meus amigos da China Continental, todos dizem que ele é de assumir riscos. Você nunca sabe qual será seu próximo movimento”.

Andrew Yang Nien-Dzu, ex-ministro da Defesa de Taiwan, sobre Xi Jinping

“Xi Jinping é obcecado por desfiles militares”, disse Willy Lam Wo-lap, um veterano observador dos movimentos pessoais das elites políticas e militares chinesas e professor da Universidade Chinesa de Hong Kong. “Ele ama essas demonstrações de poder bruto”.

Como parte da construção de uma imagem marcial de XI, a máquina de propaganda do partido o retrata como o líder responsável por um giro decisivo na recuperação da China das conquistas e dominação coloniais que começaram na Primeira Guerra do Ópio no meio do século 19.

Nas cenas iniciais do documentário “Exército Forte”, Xi é mostrado embarcando no destruidor de mísseis teleguiados Haikou no porto de Sheikou em 8 de dezembro de 2012, e navegando para o Mar do Sul da China pela primeira vez desde que se tornara chefe do partido e do exército, naquele mesmo ano. Enquanto XI olha para o horizonte através de binóculos, o narrador diz: “Enquanto o navio de guerra atravessa pelas ondas, XI Jinping mira em direção a uma visão obscurecida na névoa da história quando, 170 anos atrás, potências ocidentais vieram do mar abrir as portas para a China, o início de um pesadelo horrível para a China antiga.

O pesadelo acaba, de acordo com o documentário, com a vitória dos comunistas sob Mao e os períodos de crescimento econômico e militar sob o poder de líderes antigos como Deng, Jiang e Hu. Com Xi no comando, mostra a série, uma China fortemente armada está preparada para retomar sua glória.

Propaganda de lado, Xi está se provando muito mais assertivo do que seus predecessores mais recentes ao implementar uma nova potência militar na China. Em 2013, a China começou a dragar e construir ilhas nas disputadas Ilhas Spratly no Mar do Sul da China, uma área em que Pequim trava conflitos territoriais com as Filipinas, Malásia, Taiwan, Vietnã e Brunei.

Foto: Esta imagem estática, de um vídeo feito por uma aeronave de vigilância P-8ª Poseidon americana em 2015, supostamente mostra embarcações de dragagem chinesas em torno do Recife Mischief nas disputadas ilhas Spratly no Mar do Sul da China. Marinha Americana/ entregue via Reuters

Xi pessoalmente coordena esses movimentos, de acordo com um comentário de julho de 2017 no Study Times, o porta-voz oficial da Escola Central do Partido Comunista. “É o equivalente a construir uma Grande Muralha no mar”, diz o comentário.

A fortificação extensiva desses postos avançados, incluindo baterias de mísseis, significa que a China praticamente anexou uma vasta faixa desse oceano. Antes de sua nomeação, dia 30 de maio, para chefiar o Comando Indo-Pacífico dos EUA, o Almirante Phillip Davidson disse num comitê do Congresso que a China agora era capaz de controlar o Mar do Sul da China em todos os cenários “sem guerra”.

Xi também está fazendo pressão militar em Taiwan, Japão e Índia. Juntamente com um massivo arsenal de mísseis capazes de atingir Taiwan, a marinha e as forças aéreas chinesas conduzem exercícios cada vez mais complexos que regularmente circundam a ilha autogovernada.

Esses exercícios foram pensados para intimidar Taiwan e desgastar suas forças que devem responder a esses exercícios, de acordo com analistas de defesa taiwaneses. “Eles estão obviamente aplicando força coercitiva sob Taiwan”, diz Yang, o Ex-Ministro da Defesa de Taiwan. Pequim trata Taiwan como uma província renegada e está determinada a trazê-la de volta para o controle da China continental.

Em resposta às perguntas do Reuters, o Ministro da Defesa de Taiwan disse que iria continuar a manter vigilância e implantar aeronaves e navios de guerra para “garantir a segurança do território aéreo e marítimo de nossa nação”.

As forças navais e aéreas chinesas também estão aumentando o ritmo de implantações, exercícios e patrulhas no arquipélago japonês. O Livro Branco militar anual do Japão no ano passado disse que a “escalada unilateral” das atividades da China em todo o Japão estava despertando fortes preocupações com a segurança. Interceptadores japoneses se misturaram 638 vezes no ano passado com aeronaves chinesas, reportou o governo esse mês, um acréscimo de quase trinta por cento em relação ao ano passado.

“A China expandiu e intensificou atividades militares não apenas no Mar do Sul da China, mas também no Oceano Pacífico e nos mares ao redor do Japão”, disse o Ministro da Defesa do Japão em resposta ao Reuters. “Essas atividades parecem ter como objetivo melhorar a capacidade operacional e reforçar a presença chinesa”.

Foto: os pilotos dos caças Mirage taiwaneses caminham na pista de uma base da cidade de Hsinchu em janeiro deste ano, durante os exercícios de preparação militar antes do Ano Novo Chinês. Enquanto o poderio militar chinês cresce, os Estados Unidos estão expandindo laços estratégicos com aliados regionais como Taiwan. REUTERS/ Tyrone Siu

Apesar desses movimentos assertivos, ainda há dúvidas de dentro do ELP sobre a capacidade das forças chinesas de competir com os EUA e outras potências militares avançadas. Em inúmeros comentários publicados, oficiais e estrategistas chineses apontam a falta de experiência em conflito do ELP, deficiências tecnológicas e falha na introdução de comando e controle eficazes.

A tomada de poder e a agenda ousada de Xi também representam um grande risco para ele pessoalmente, o partido e a China. Tem havido especulação generalizada na China de que a repressão à corrupção no exército e o expurgo paralelo no partido e nos funcionários do governo são, pelo menos em parte, uma resposta de Xi para uma violenta luta pelo poder nos bastidores.

Evidências raras disso vieram à tona numa reunião estratégica de oficiais do alto escalão. Próximo do 19º Congresso do Partido em outubro de 2017, Liu Shiyu, até então o principal regulador do mercado de ações na China, acusou um grupo de oficiais sênior expulsos durante o expurgo de planejarem um golpe, incluindo o ex-chefe militar Guo Boxiong. Mais cedo, o jornal oficial militar sugeriu acusações similares, sem citar evidências. Guo, que estava preso sob denúncias de corrupção, não pode ser contatado para comentar. O governo chinês não fez mais comentários sob essa alegação.

Ao derrubar tantos militares poderosos, líderes do partido e suas facções, Xi fez muitos inimigos perigosos, dizem pessoas ligadas à liderança. E aumentos exorbitantes dos gastos militares vão se tornar mais difíceis de sustentar se o crescimento da economia chinesa sobrecarregada de dívidas continuar a desacelerar.

Ainda assim, Xi não mostra sinais de diminuir seu ímpeto para galvanizar os militares chineses. Em 25 de outubro, ele fez um tour no Comando Teatral Sul na cidade de Guangzhou, o quartel general responsável pelo contestado Mar do Sul da China. A televisão estatal mostrou Xi de uniforme e botas de combate, caminhando pelo posto de comando com altos executivos. Xi, reportou a mídia estatal, disse a oficiais para se concentrarem em “se preparar para guerra e para o combate”.

Foto: Xi Jinping inspeciona tropas em Hong Kong durante o evento em 2017 marcando o 20º aniversário da transferência da cidade do domínio britânico.

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