Ana Montenegro – Trabalhadoras Urbanas e Trabalhadoras Rurais

Capitulo do livro Mulheres – participação nas lutas populares de Ana Montenegro.

Salvador: M&S Gráfica e Editora, 1985.

Transcrição por Ian Cartaxo.


E as locomotivas não passaram

A maior participação das operárias nas lutas por seus direitos deve-se, em primeiro lugar, a um grande número de mulheres trabalhando no setor da indústria de transformação, número que correspondia, naqueles anos, a 65% enquanto no setor metalúrgico, por exemplo, era de apenas 17%, segundo dados estatísticos oficiais.

Mas antes de falar das têxteis e de seus teares parados, comecemos falando daquelas mulheres que assumiam a tarefa de sustentar com o seu apoio, com o apoio de seus próprios corpos, as greves das categorias às quais pertenciam os seus familiares. Sem serem “trabalhadoras”, porque não tinham carteira assinada, elas o eram duas vezes: pelo trabalho que executavam em casa e pela exploração de que eram vítimas, através da exploração direta de que eram vítimas esses familiares.

Na greve dos mineiros de Lafaiete, Minas Gerais, em setembro de 1948, greve que terminou depois de 37 dias, foi decisivo o papel das mulheres. Compreendendo a importância da greve, participaram das comissões de vigilância organizadas pelos grevistas e impediram a ação dos fura-greves, ao mesmo tempo em que buscavam o apoio e a solidariedade da população.

Dois anos depois, na greve dos ferroviários, no Rio de Janeiro, no janeiro de 1950, as mulheres repetiam as mesmas atividades de participação.

Uma das mais belas páginas dessas lutas foi o heroico movimento das mulheres dos ferroviários da rede mineira. No fim de 1949, era de três meses o atraso do pagamento dos ferroviários, muitos deles ausentes por muitos dias de seus lares, levando e deixando a fome nas linhas férreas que se estendiam até Goiás “Fome! Fome! No duro!”, diziam eles. Em Itajubá, as mulheres assumindo o seu papel de “grevistas” ocuparam o telégrafo da Rede. Em Cruzeiro, deitavam-se com as crianças nos trilhos das linhas e os trens não passavam… Alegando que as crianças estavam expostas às intempéries, um juiz quis retirá-las de lá, mas as mães alegaram que em casa não estariam expostas ao mau tempo, mas estariam expostas à fome. “Nossa luta é contra a miséria e a fome”. Uma destacamento feminino tomou conta da estrada e impediu que o trem de Pouso Alegre saísse de Itajubá, no qual viajava o comandante da 4º Região Militar, que teve de seguir de avião. Inutilizaram as fitas do aparelho telegráfico, e Guiomar de Souza recolheu o trem ao depósito e apagou a fornalha. Em uma noite de fome e desespero, com a Bandeira Nacional emprestada pelo vigário, e com a senha “Joana vai casar”, um grupo de mulheres tomou o trem, como se fosse a uma romaria e obrigou o maquinista, que se chamava Orozimbo, a não avançar: as mulheres subiram à máquina, soltaram a pressão da caldeira, desceram e se deitaram nos trilhos. Algumas desmaiaram de fome. Estavam desativadas as máquinas, o telégrafo e as forças de repressão, pelas mulheres dos ferroviários da cidade de Cruzeiro, em Minas Gerais, naquele fim do ano de 1949 e começo do ano de 1950. Em Itajubá, obtiveram a solidariedade dos soldados e de alguns oficiais. Os estudantes saíram pelas ruas angariando fundos. Em Barra Mansa, no começo, só haviam 8 mulheres no Movimento e já eram 50 as que prenderam o maquinista e o fiscal.[1]

A Federação de Mulheres de São Paulo e a Associação Feminina do Distrito Federal encabeçaram, àquela ocasião, um Movimento de solidariedade às mulheres da Sorocabana e de Santos-Jundiaí (São Paulo).

Em favor de um abono

O ano de 1950 foi marcado com o sangue da operária têxtil, de quem falaremos mais adiante, Angelina Gonçalves, assassinada na cidade do Rio Grande do Sul, em uma passeata de trabalhadores, no dia 1º de maio.

O ano de 1950 foi, também, um ano de intensa campanha pela conquista de um “Abono de Natal”, que se transformaria, mais tarde, no 13º salário. E dessa campanha participaram as mulheres das famílias dos trabalhadores da Rede Mineira de Viação, da Central do Brasil, dos marítimos do Lloyd Brasileiro e dos transviários de Porto Alegre, R.G do Sul, angariando assinaturas, de porta em porta, em petição a favor do abono. No dia 14 de janeiro de 1951, a polícia de São Paulo atacou violentamente as operárias do Lanifício Linhares, em greve, desde 30/12/1950, pelo “Abono de Natal”, e muitas ficaram feridas.[2]

Greves, conferências, participação nos sindicatos, departamentos femininos

Com uma grande maioria de mulheres, os trabalhadores da fábrica têxtil Tatuapé, São Paulo, pararam os teares no dia 27 de julho de 1951, por aumento de salários.[3] As operárias da fábrica Votorantim, São Paulo, da seção de Roca, também paralisaram o trabalho, na mesma data, em sinal de protesto contra a arbitrária suspensão de uma colega e a medida foi cancelada.[4]

A I Assembleia nacional de Mulheres, promovida pela FMB, em novembro de 1952,  e a qual já nos reportamos, incluiu em suas resoluções, no capítulo também já citado, reivindicações específicas da mulher trabalhadora, entre outros direitos exigidos por aquela Assembleia: – respeito ao dispositivo legal de salário igual para trabalho igual; aposentadoria aos 25 anos de trabalho de creches.

Em São Paulo, começou, no ano de 1955, um trabalho conjunto entre a Federação de Mulheres de São Paulo, o Sindicato dos Têxteis e grupos de operárias têxteis para a preparação de uma Assembleia com a finalidade de debater os problemas das trabalhadoras. Este trabalho fazia parte das atividades para Conferência Nacional de Trabalhadoras que se realizaria, no ano seguinte, no Rio de Janeiro.

Também, no Rio de Janeiro, se reuniu, no dia 28/05/1955, a I Conferência de mulheres têxteis. Naquela ocasião, quando saudamos as delegadas, em nome da Associação Feminina do Distrito Federal, tivemos a alegria de reencontrar muitas trabalhadoras que havíamos conhecido no Sindicato dos Têxteis, quando de palestras realizadas nesse Sindicato. Durante a Conferência, foi constituída uma Comissão de trabalhadoras da fábrica Esperança, da Tecelagem Carioca, do Cotonifício Rio Branco e da fábrica Borborema, que se encarregou da organização de um Departamento Feminino no Sindicato dos Têxteis. O Departamento foi instalado no mês seguinte.

Na Bahia, realizou-se uma Conferência baiana de mulheres trabalhadoras, que foi instalada no dia 1º de maio de 1956, em Salvador, e que discutiu diversos problemas: “sindicalização das trabalhadoras; criação de Departamentos Femininos nos Sindicatos; “salário igual para trabalho igual”; condições de trabalho; casamento e gravidez como impedimentos ao direito de trabalho para a mulher e condições das trabalhadoras nos trapiches de fumo, nos armazéns de café e no beneficiamento do sisal”. Essa conferência foi mais uma contribuição para o êxito da I Conferência Nacional de Trabalhadoras.[5]

A I Conferência Nacional de Trabalhadoras, cuja sessão inaugural foi na Câmara do Distrito Federal (Rio de Janeiro), compareceram 231 delegadas de todo o país. Os trabalhos das comissões e as sessões plenárias tiveram lugar na sede do Sindicato dos têxteis, quando foram discutidos dois temas: “Direitos e reivindicações das trabalhadoras das cidades e do campo e Participação efetiva das trabalhadoras na vida e nas atividades de suas respectivas organizações”. Foram temas, também, discutidos e aprovados no curso da preparação da Conferência, como foi o caso em Pernambuco e em São Paulo, em suas Conferências Estaduais. Passadas 3 décadas, os temas e as resoluções da I Conferência Nacional das Mulheres Trabalhadoras correspondem à situação presente, como se o tempo não tivesse passado – o tempo de por fim às discriminações contra a mulher, especialmente a mulher trabalhadora, não somente no texto das leis, mas na prática de seu cotidiano.[6]

Participação nos sindicatos

Em novembro de 1953, a Revista “Momento Feminino”, publicou uma pequena reportagem sobre um Sindicato de mulheres, dirigido por Maria Zenaide Reis (a Presidente): “Belém do Pará não tem indústria. Somente beneficiamento de castanha. Grande parte da população trabalha nas fábricas de beneficiamento. São seis e todas pertencem ao Sr. Chamier.

“Maria Zenaide é ainda jovem, mas todas as trabalhadoras a conhecem. Foi eleita Presidente do Sindicato de Beneficiamento de Sementes Oleoginosas e conseguiu arrastar grande parte de suas companheiras de trabalho. E os homens ficam olhando.

As condições de trabalho nas fábricas são as piores possíveis. Entram às 6 e saem às 17:30. Não têm hora para almoço. Comem mesmo na calçada o que trazem de casa.

– Peixe frito com farinha e outras vezes nada, diz Zenaide. A falta de higiene é um caso sério. Uma senhora prepara “tacacá” (é uma comida típica) no banheiro, com dois pés de sujeira no chão. E as moças vão lá comer!… – Acho que o mais sério para nós é a questão da lei trabalhista. Aqui ninguém a respeita. Imagina só. Somos admitidas em março e despedidas em novembro. Significa que jamais temos estabilidade, nem gozamos férias.

– Zenaide, quais as campanhas que o Sindicato já fez?

– Várias. Mas a mais importante foi quando Chamier despediu 280 operárias, alegando que ia fechar a fábrica, porque era melhor vender a castanha com casca e tudo para o americano. Nós protestamos. Fizemos uma passeata. Fomos ao Palácio do Governo, e no fim de 18 dias ele foi obrigado a nos readmitir. Exigimos o pagamento dos dias que ficamos paradas. Ele acabou pagando só nove dias, mas pagou!

– E agora? Vocês têm novos planos?

– Temos muitos. Como vamos ficar paradas, quando as condições de trabalho são tão duras? Estamos agora chamando todos para o Sindicato, vamos exigir aumento para todos. Também vamos lutar para que as fábricas não fechem.

– E os homens?

– Eles virão também. Nossa campanha não é feminista…”[7]

Data do ano de 1955 – e falamos da nossa experiencia pessoal – a melhor compreensão da necessidade de organização das mulheres trabalhadoras em Departamentos Femininos, por parte dos Sindicatos. E o movimento feminino jogou um papel positivo, quando se empenhava – e, realmente, empenhou-se – junto a essas diretorias discutindo a especificidade das reivindicações das mulheres, na dupla qualidade de mulher e trabalhadora. Nesse sentido, várias palestras de representantes de organizações de mulheres, na dupla qualidade de mulher e trabalhadora. Nesse sentido, várias palestras de representantes de organizações de mulheres nos Sindicatos foram realizadas. Naquele ano de 1955, Creuza Moura, a Tesoureira do Sindicato dos Têxteis do Rio de Janeiro, foi incansável na organização de palestras sobre os direitos das trabalhadoras. Essas palestras e debates foram repetidos nos Sindicatos dos Moinhos, dos Sapateiros, dos Gráficos, dos Alfaiates e Costureiras, etc. E, em 1963, um Encontro Nacional de Mulheres Trabalhadoras, em São Paulo, era promovido pelo IV Encontro Sindical e com o apoio do Pacto de Unidade Intersindical e contou com a presença de 415 delegadas, vindas do Estado da Guanabara, R.G do Sul, Minas Gerais, Pernambuco, Paraná, Estado do Rio de Janeiro e do Ceará, além do Estado sede.

Trabalhadoras rurais – um encontro em Belo Horizonte

Embora em todas as oportunidades, em todos os documentos constassem referências às condições e às reivindicações das mulheres camponesas, foi, naqueles anos, a II Conferência Camponesa do Triângulo Mineiro, realizada em Uberlândia, em outubro de 1956, que se reportando “à mulher do campo oprimida terrivelmente e que não desfruta de nenhum direito”, aprovou um “Programa de reivindicações das mulheres lavradoras e trabalhadoras agrícolas”: “Direito de organização em Sindicatos e Associações; inclusão da mulher que vive de salários nos contratos das fazendas e usinas; fornecimento pelos patrões das carteiras de trabalho e anotação nas mesmas dos salários, férias, tempo de serviço, etc., a fim de gozar da proteção da Legislação social; assistência à maternidade e à infância, gratuita, com assinatura de contratos entre os fazendeiros e usineiros com os hospitais e as maternidades existentes nos municípios, para atender rapidamente a todos os casos de necessidade das famílias dos lavradores e dos trabalhadores agrícolas; construção pelo Estado e pelo município de postos de puericultura, onde sejam atendidas rápida e eficientemente a todas as crianças dos lavradores e dos trabalhadores agrícolas; construção pelos fazendeiros e usineiros de poços próximos às casas de morada para facilitar o trabalho das mulheres e evitar a utilização das águas dos córregos sujeitas à contaminação; concessão de licença de 3 meses com salários integrais às mulheres que vivem de salários e ordenados, por ocasião do parto, conforme manda a lei”.[8]

A Liga Feminina do Estado da Guanabara, trouxe da Paraíba, da cidade de Sapé, Elizabeth Teixeira, logo depois do assassinato de seu marido Pedro Teixeira (1962), para que ela denunciasse, no Rio de Janeiro, até que ponto havia chegado a sanha dos “senhores da gleba”, contra os que lutavam – e continuam lutando – por uma reforma agrária. Os atos de denúncias e de solidariedade à Elizabeth Teixeira, que se multiplicaram na cidade do Rio de Janeiro, estão registrados nos arquivos do Sindicato dos Bancários que apoiou essas manifestações, com grande repercussão na opinião pública nacional. Ontem Pedro Teixeira e tantos outros, em 1984 Margarida Alves, em Alagoa Grande, no mesmo Estado da Paraíba, assassinada pelos mesmos “senhores da gleba”.

Em 1963, em um Congresso de Camponeses realizado em Belo Horizonte, Minas Gerais, nos encontraríamos com mulheres que vinham das fazendas de cacau, das plantações de café, da colheita de cítricos, dos algodoais, com seus rostos marcados de rugas precoces que mais pareciam cortes, rugas que não correspondiam às datas de nascimento inscritas nas fichas e credenciais dos delegados àquele Congresso. E suas mãos eram tão ásperas que mal podiam apertar as nossas. Mas suas bocas se abriam para contar as histórias de sofrimento e de opressão, as histórias de esperanças e de lutas e para cantar o Hino da autoria  de Raphael Carvalho:

“A luta é necessária e

nós vamos lutar pela reforma

agrária para nos libertar”…

Notas de Rodapé

[1] As informações, logo depois da greve, as mais ricas e as mais comoventes, foram dadas em um livro da escritora Alina Paim, “A hora próxima”, e em uma série de reportagens do jornalistas Maurício Vinhas, publicadas no jornal “Imprensa Popular”, nas edições correspondentes às datas daquela greve, e depois reunidas em um livro. Estes dois livros, lamentavelmente, não são mais encontrados nas livrarias. Outras informações contam do jornal “O Momento” nas edições correspondentes às mesmas datas.

[2] “O Momento”, edição de 02/01/1951.

[3] Ibid, edição de 29/01/1951.

[4] Ibid, Ibid.

[5] “O Momento”, edição de 03/05/1956.

[6] “Momento Feminino”, edição nº 115/1956.

[7] “Momento Feminino”, edição nº 102/1953.

[8] “O Momento”, edição de 17/11/1954.

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