Walter Rodney – A Questão Angolana

Este é um trecho de “Lições de Angola”, um discurso que Rodney proferiu na Howard University em 22 de abril de 1976, apenas um mês após as tropas sul-africanas terem se retirado da Angola em sua primeira invasão sem fracassada.

Foi originalmente incluído na antologia No Easy Victories: African Libertation and American Activists Over Half a Century, 1950 – 2000, org. William Minter, Gail Howey e Charles Cobb Jr. (Trenton, NJ: African World Press, 2008), 139-42. Os organizadores de No Easy Victories e da African World Press disponibilizaram generosamente os textos compilados online. O texto reproduzido a seguir pode ser encontrado aqui.

Tradução por Giovanni Libanori.


Eu gostaria de analisar a situação nos Estados Unidos, observar os tipos de resposta, e olhar para o que considero erros horrendos cometidos por certas forças neste país em sua abordagem da questão Angolana.

Novamente irei dispensar pelo menos um elemento. Podemos dispensar aqueles que estão tentando contratar mercenários negros para a FNLA (Frente Nacional de Libertação da Angola) e UNITA (União Nacional Para Independência Total da Angola). Quando este indivíduo (Roy Innis, que assumiu o Congresso de Igualdade Racial) pretende estar organizando mercenários negros para irem e lutarem na África, e então sabemos que mercenários custam, sejam brancos ou negros – e sabemos que este funcionário negro não pode se dar ao luxo de pagar qualquer um -, sabemos que estes mercenários negros teriam sido pagos pelo imperialismo, para irem e lutarem na África.

Mas eu penso que podemos dispensar isso como um fenômeno aberrante – como a expressão de uma particular força reacionária e sem resposta dentro do ambiente político negro americano Então, devemos realmente concentrar a atenção nos elementos que são sérios. Com pessoas sérias, envolve-se um debate sério. E penso que existia um grande número de pessoas sérias em toda comunidade afro-americana (que apoiaram o UNITA), quando deveriam ter sido prestado apoio incondicional ao MPLA (Movimento do Povo pela Libertação da Angola) naquela particular conjuntura histórica.

Foi imediatamente óbvio que havia uma coincidência inusitada – uma convergência inusitada – entre as posições de certos indivíduos, que se autoproclamam progressistas, revolucionários, e quem de fato considerava a si mesmo como a essência da revolução – ainda assim, suas posições convergiam com aquela do imperialismo estadunidense. E essa convergência histórica incrível precisa ser compreendida.

Eu assumo que existem elementos na audiência que tomam esta posição, e não irei me envolver em qualquer abuso destes indivíduos. Irei dizer simplesmente que a posição está completamente incorreta historicamente. Indicarei como acredito que o erro aconteceu.

A primeira coisa é que a UNITA ganhou certa popularidade neste país pelo final dos anos sessenta e início dos setenta, particularmente no período de ascensão do movimento de libertação africano e afins. Eu estava acompanhando o processo, então sei que eles estavam ganhando exposição e se tornando mais populares neste país. E que usaram de táticas e técnicas políticas muito oportunistas. Eles apenas apelavam à crescente consciência negra, dizendo: “Dentro da Angola, defendemos a elevação do homem negro à posição de dignidade e governo, e o MPLA representa a elevação para os brancos e mulatos sobre os povos indígenas africanos. Essa era a linha padrão ao final da década de sessenta e início de setenta.

Então eles diziam, “Olhem para o MPLA. Eles têm um alguém, que está em seu executivo, que é branco, que é um português. Eles têm tantos mulatos que estão no Comitê Central, tem outro alguém que é casaco com uma mulher branca, Presidente Neto, e assim por diante.”

E no contexto dos EUA, acredito que estes são pontos em reveladores. No contexto da luta negra neste país, quando irmãos e irmãs passavam por períodos terríveis de autoidentificação, tentando se livrar da cultura branca dominante. Acredito que estes pontos causaram grande impacto.

Particularmente, pois o MPLA não estava tentando influenciar a população afro-americana. Ou mesmo a população americana.

Assim, essa é uma razão para UNITA ter ganho popularidade. E quando examinamos isso cuidadosamente, devemos, é claro, admitir que declarar negritude é algo muito fácil de fazer. Quero dizer, o mesmo sujeito que estava mobilizando mercenários negros, também estava na vanguarda da declaração de negritude – e ele se chamaria de garveista, e assim por diante.

Declarar sua negritude é uma das coisas mais fáceis de se fazer. Assim que se – hum – reconhece a oportunidade inerente nessa situação. (risos)

Mas certamente precisamos ir além disso. Precisamos examinar, primeiramente, se a realidade da Angola era a realidade retratada pela UNITA. Temos de ir além e questionar se a experiência histórica da Angola poderia ser tão facilmente assimilada à experiência histórica do povo negro nos EUA, que os afro-americanos deveriam correr para fazer um julgamento sobre Angola com base em algum conhecimento que tinham de um alguém que era casado com uma branca. Ou que um alguém era mulato.

Porque o entendimento central que devemos alcançar em qualquer situação deve ser examinado em seus próprios méritos históricos. O que é chamado de ‘raça’ nos EUA não a mesma coisa como o que poderia ser chamado de raça na Angola. Na verdade, neste país [EUA], todos aqueles chamados de negros, ou que costumavam ser chamados de Pretos[1] – se forem para Angola, muitos seriam distinguidos como mulatos. Se quisermos entender a Angola e as complexas relações entre estratos sociais e raça etc. devemos então entender a Angola. Não podemos nos sentar em Washington ou Detroit e imaginar que o que estamos vendo no quarteirão é a sociedade angolana.

E parece, para mim, ser um erro que os irmãos cometeram quando tentaram transformar um entendimento simplista da relação negro-branco no  julgamento de se deviam apoiar a UNITA ou o MPLA.

Lembramos aqui de algumas coisas que Fanon escreveu a respeito de África, quando estava falando sobre as armadilhas da consciência nacional. Ele estava falando sobre as armadilhas da consciência nacional africana. Agora podemos aplicar isso às armadilhas da consciência nacional negra. O que quer dizer que a consciência nacional é claramente uma força libertadora, mas em certo momento pode fornecer antolhos[2]. Pode se tornar um antolho e constituir uma barreira para maior compreensão do mundo real.

O segundo e mais difundido fator, que ultimamente provou ser o mais decisivo (para muitos negros progressistas), foi a noção de que o UNITA era um movimento Maoísta. E que estas forças de esquerda que (em oposição ao MPLA) tomavam como ponto de partida o apoio ao Marxismo-Leninismo e o Pensamento Mao Zedong.

Em suas próprias palavras, eles têm uma visão e uma análise da sociedade contemporânea na qual se identificam como a contradição principal entre as duas superpotências. Eles argumentam ainda que a força mais perigosa é o imperialismo socialista soviético, pois é mais escondido, mais sutil, e porque, em última análise, pode ser mais poderoso, uma vez que o capitalismo imperialista está em declínio. Portanto, em uma situação em que os soviéticos estão envolvidos, é preciso tomar uma posição do lado contrário.

Agora, qual o meu discordância com essa posição? Não vou entrar em todas as minhas discordâncias, porque não quero nenhum tipo de confronto global. Não sou a favor de tentar resolver todos os problemas do mundo ao mesmo tempo, em um único golpe. Assim, não tentarei lidar com essa postulação sobre a principal contradição e sua implicação.

O que iremos questionar é como isso se relaciona com a Angola em suas características específicas. Se alguém mantém essa crença como um princípio revolucionário sincero, quando essa pessoa se aproximar da Angola, como é que tal crença se encerra ao colocar tais forças ao lado daqueles que oprimiram o povo africano por 500 anos?

Que explicação tal pessoa dá aos angolanos que se envolveram na luta armada desde 1960 contra os portugueses, contra a OTAN, que, ao final dessa luta, se depararam com os sul africanos e com a ascensão do apoio estadunidense aos chamados movimentos de libertação, que vinha hostilizando os genuínos guerreiros pela liberdade por muitos anos?

Para que, a partir de uma perspectiva dialética e científica, lutemos e trabalhemos para descobrir a linha correta. É apenas a partir de uma perspectiva teológica que se conhece a linha correta, por conta da verdade revelada. E parece a mim que as limitações desta posição foram claramente reveladas na situação angolana. Eu não vi uma análise que seja das forças que reivindicam ter a linha “correta”, o que significou se opor aos soviéticos – nenhuma análise sobre o que está acontecendo dentro da Angola. Era puramente externo. E não acredito que possamos prosseguir nessa base.

Notas de Tradução


[1] Em inglês, o termo negro era comum ao se tratar da população africana escravizada durante a expansão pelo território norte-americano, se tornando uma expressão de cunho racista. Com a formação da sociedade estadunidense, o termo para se referenciar a população negra do país se torna o black; assim optei por traduzir este como ‘negro’ e o negro inglês, como ‘preto’.

[2] Antolho de cavalo: equipamento formado por duas peças de couro, colocado ao lado dos olhos do cavalo, fazendo com que ele olhe apenas para frente.

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