Angela Davis, uma revolucionária lésbica

Texto por Andrey Santiago

Fotografia da capa por John Edmonds

Em fevereiro de 1998, Angela Davis, reconhecida mundialmente enquanto uma importante revolucionária comunista, feminista negra e intelectual acadêmica, revelou publicamente na revista Out – voltada ao público LGBT estadunidense – que era lésbica.

Ao comentar sobre sua sexualidade, Davis argumentou que compreendia a sua lesbianidade enquanto uma declaração política, mas que buscava manter um espaço privado para seus relacionamentos pessoais. Isso de modo algum privou-a de continuar lutando pelos direitos LGBTQIA+ em diversas manifestações, palestras e publicações pelos anos que se seguiram, mantendo-se sempre comprometida com a defesa dessa população, agora, abertamente ao lado de sua companheira Gina Dent, também acadêmica e ativista social.

Na entrevista em que comenta sobre sua sexualidade, a ex-membra do Partido Comunista dos EUA recorda que sua pesquisa acerca das mulheres negras no Blues forneceu importantes reflexões sobre como a vida pessoal também pode ser política, tal pesquisa resultou no livro “O Legado do Blues e o Feminismo Negro”, lançado em 1998, ainda sem tradução no Brasil. [1]

Abaixo há o trecho da entrevista conduzida por Sara Miles para revista Out, publicada em fevereiro de 1998, em que Angela Davis assume que é lésbica:

Capa da Revista Out em que Angela Davis assume sua orientação sexual, fevereiro de 1998.

[Na década de 1970], Davis rejeitou todas as “políticas identitárias” que tornavam categorias como raça, gênero ou orientação sexual a base da organização política. Por trás de muitas de suas objeções estava a desconfiança de Davis em relação ao princípio de que “o pessoal é político”. A política era política, ela acreditava, e o pessoal não era uma arena que ela quisesse explorar.

A abordagem de Davis começou a mudar nos anos 80, diz ela, à medida que “surgiram novos feminismos, particularmente por meio das feministas de cor, com novos vocabulários para falar sobre gênero e sexualidade”. Ela diz que sua pesquisa sobre o blues, por exemplo, a ajudou a entender como a vida “pessoal” historicamente desempenhou um papel na libertação das mulheres negras. As mulheres de blues que cantavam sobre seu desejo homossexual, homens abusivos, ciúme, luxúria, viagens e amor estavam criando, diz ela, “um feminismo negro da classe trabalhadora” e “uma política de resistência que desafia a identidade racial e de gênero”.

Davis credita aos ativistas mais jovens outras percepções: como questões como a sexualidade podem “entrar na consciência e se tornar o foco da luta”, como questões “privadas” como violência doméstica e AIDS podem desencadear movimentos sociais.

Enquanto isso, seu senso de personalidade e política mudou. Sua lesbianidade, ela diz, é “algo que me sinto bem enquanto uma declaração política. Mas ainda quero um espaço privado para realizar meus relacionamentos.” [2]

Sua luta próxima as causas do povo LGBTQIA+ pode ser vista de forma bastante notável em sua palestra realizada na Universidade de Illinois em 24 de fevereiro de 2008, onde discursou acerca dos últimos avanços da comunidade LGBTQIA+ e refletiu criticamente sobre os limites que estava percebendo, principalmente em relação ao fato das lutas começarem a se dar majoritariamente pela via eleitoral:

“Votar é um importante direito civil. Mas eu temo que nossa política progressiva está muito especificamente focada nas eleições, nós não podemos esquecer que existem outras formas de intervenção política coletiva. Então, enquanto absolutamente precisamos acelerar nosso envolvimento com o processo da votação – e nós podemos, realmente, votar para mudar – votar para mudar é apenas o início. Participação nas eleições em todos os níveis precisa ser complementada por um envolvimento continuo com os movimentos sociais, e não focando apenas nas questões LGBT, mas na militância antirracista e anti-machista, pelos direitos dos imigrantes, das pessoas presas, pelos direitos trabalhistas, na militância anti-guerra, na justiça ambiental etc., e também aprendendo a reconhecer e formular as profundas conexões entre todas essas questões.

Então votar para a mudança deve ser complementada pelo apoio a se organizar pela mudança – pela mudança radical.

Eu não quero subestimar todo o poder do voto, especialmente sendo que as estratégias legislativas tem sido elementares na jornada de justiça para as comunidades LGBT. Entretanto, mesmo enquanto necessitamos dessas medidas reparativas e de proteções que podem ser garantidas pela lei, não podemos depender apenas da lei sozinho como uma solução para o problema da LGBTfobia.”

Recentemente, em 2020, durante a entrevista concedida para o jornal The New York Times, Davis resgatou que a incorporação das questões de gênero, raça e sexualidade nas lutas que travava tinham várias dificuldades. Tais opressões basicamente não eram incluídas nas pautas daquele período, mas que com o passar do tempo, através de seus estudos e experiências alcançou a consciência entre a relação dessas opressões e seu papel nas lutas contemporâneas:

“Nenhum movimento é estático. O ativismo negro contemporâneo também foi amplamente formado pela agitação simultânea em torno dos direitos trans e queer, ambas forças que se opuseram aos valores cis e heteronormativos que dominaram a política negra dominante. É uma mudança que se encaixa com a própria biografia de Davis. Embora brevemente casada com um homem no início dos anos 80, Davis se declarou lésbica em 1997 e agora vive abertamente com sua parceira, a acadêmica Gina Dent. Seu anúncio público representou uma declaração pessoal e tornou mais urgente sua crença de que as questões raciais e de gênero estão profundamente interligadas.

“Não incluímos as questões de gênero nas lutas [anteriores]”, diz ela. “Não haveria como imaginar que os movimentos trans demonstrariam efetivamente às pessoas que é possível desafiar efetivamente o que é considerado normal em tantas áreas diferentes de nossas vidas.” Ela sorri. “Uma parte de mim está feliz por não termos vencido a revolução pela qual lutávamos naquela época, porque ainda haveria a supremacia masculina. Ainda haveria hetero-patriarcado. Haveria todas essas coisas sobre as quais ainda não havíamos chegado à consciência.” [3]

Entre a discrição em relação aos assuntos de sua vida pessoal e seu cotidiano impacto político em várias temas atuais, Angela Davis compreende que ambos aspectos da vida humana estão relacionados intrinsecamente, as lutas da classe trabalhadora são moldadas pelas diversas experiências que formam socialmente as pessoas, um não existe sem o outro: o pessoal também é político.

Atualização: Em 2020 (mesmo ano da entrevista para o The New York Times), durante uma live disponibilizada abaixo, Angela Davis se identificou enquanto queer, não se colocando enquanto lésbica, mas continuando parte da comunidade LGBTQIA+.

Referências

[1] A introdução do livro “O Legado do Blues e o Feminismo Negro” e o capítulo “Música e Consciência Social” estão disponíveis no TraduAgindo.

[2] https://www.glbthistory.org/angela-davis-info

[3] https://www.nytimes.com/interactive/2020/10/19/t-magazine/angela-davis.html

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