Ana Montenegro – Falta de Imaginação

Artigo de Ana Montenegro para a revista Novos Rumos, ano 1, nº 39, de 20 a 26 de novembro de 1959.

Fotografia de Sebastião Salgado.

Transcrição de Ian Cartaxo.


Eu já tinha me lembrando, e muito, do Padre Carlos (personagem do Gonzagas de Castro Alves), a respeito do empenho do grupo entreguista em acabar com a escola pública no Brasil. Dizia o padre: “Quando a plebe brasileira quer empolgar um punhado de instrução, já um sopro mau que lhe apaga a luz – É a metrópole”. Mas o padre não podia adivinhar que, quase dois séculos depois, a metrópole continuaria devoradora, cruel, roubando os frutos do trabalho dos brasileiros. A metrópole continuaria impondo, humilhando, conspirando. É como dizia Gonzaga: “O escravo tem o azorrague, o trabalhador o imposto, o colono a lei, a inteligência o silêncio, o coração a morte e o povo as trevas. É a Metrópole! É sempre a metrópole.” E ainda tira os alimentos da boca da colônia para exportá-los. E quando manda alimento muito bem pago pela colônia, como é o caso do feijão, só serve para ração de porcos. O capim, a terra, o boi, o suor dos trabalhadores, e da colônia, mas a carne e os lucros são da metrópole. E ainda arma provocações. A quem interessará a explosão de bombas? A quem interessará o terrorismo? Ao povo interessa o trabalho e os frutos desse trabalho. Ao povo interessa a alegria dos dias de folga.

Anda pelo ar a necessidade que tem certos setores em certas ocasiões de criar um determinado clima. Um clima dentro do qual não sejam reclamadas as soluções para os problemas urgentes. E nos países sul-americanos o imperialismo tem, sempre, se encarregado de cria-lo. Disso temos inúmeros exemplos. Aliás, o método é histórico. Nero incendiou Roma e culpou os cristãos. Mais proximamente, Hitler incendiou o parlamento alemão e culpou os comunistas. A metrópole, na realidade, não tem muita imaginação e nem progrediu nesses quatrocentos anos.

Mas é como dizia o poeta, no seu drama: “O sol continuará a brilhar para todos, as árvores darão sempre sombra…”

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