Round 6 é uma série sobre nós: inclusive brasileiros

por Andrey Santiago

A seguinte análise contém spoilers de Round 6.

Verdadeiro fenômeno mundial, a série Round 6 (conhecida no exterior enquanto Squid Game) é o mais novo sucesso produzido pela norte-americana Netflix. No momento em que se escreve este texto, a obra sul-coreana criada e dirigida por Hwang Dong-hyuk ocupa a primeira posição de mais assistida em mais 90 países e encaminha-se para ser o programa mais assistido da Netflix.

A trama conta a história de pessoas seriamente endividadas que participam de um violento jogo valendo suas vidas em busca de um prêmio milionário (45,6 bilhões de won, ou cerca de 208 milhões de reais). Round 6 vem sendo analisada em diversas mídias pela sua grande popularidade e ressonância com o público-geral.

Descrita principalmente pela visão do protagonista Seong Gi-Hun, um pai divorciado, desempregado e endividado, o enredo também explora as vidas e motivações de alguns outros personagens: Cho Sang-woo, executivo que é conhecido de Gi-Hun e agora tem uma dívida milionária; Kang Sae-byeok, jovem fugitiva da Coreia Popular que busca trazer sua mãe do país para viver com seu irmão menor; Jang Deok-su, um gangster com dívidas que cobram pela sua vida e Abdul Ali, imigrante paquistanês que não recebe de seu patrão a vários meses enquanto sua família sobrevive em situação de vulnerabilidade.

Como destacado, os temas que levantaram a popularidade da série ao redor do mundo vem sendo examinados em inúmeras plataformas, desde sites de entretenimento, portais de notícias, redes sociais e vídeo-ensaios. Em meio as diferenças de todas essas reflexões, há um acordo que parece comum em relação ao aspecto central de Round 6: a série é um retrato da sobrevivência dos despossuídos em meio a intensa competitividade do capitalismo neoliberal.

“Queria escrever uma história que fosse uma alegoria ou uma fábula sobre a sociedade capitalista moderna, algo que retratasse uma extrema competição, como a competição extrema da vida”, afirmou o criador e diretor da série, demonstrando que a obra desde sua concepção buscou lidar diretamente com o sistema que denúncia.

Este texto irá trazer proporcionar reflexões sobre as inspirações reais da série e seus paralelos com a realidade brasileira, girando em torno do problema da dívida nas famílias trabalhadoras, solidariedade de classe e natureza humana.

O contexto sul-coreano: ditadura, greves, chaebols e endividamento

Assim como o Brasil, a Coreia do Sul também foi marcada por um regime ditatorial que teve impactos duradouros na sociedade coreana. Entretanto, diferente do Brasil, o país teve um desenvolvimento extremamente avançado do capitalismo, em boa parte sustentado por fortes investimentos econômico-militares estadunidenses, com fins de subjugar a vizinha Coreia Popular e tornar o país um dos maiores aliados dos EUA na região asiática. De acordo com Caitlyn Clark em seu artigo “Squid Game é uma alegoria para o inferno capitalista”:

“Em 1960, a renda per capita da Coreia do Sul de US$ 82 a colocava atrás de uma longa lista de países economicamente explorados e empobrecidos, incluindo Gana, Senegal, Zâmbia e Honduras. Não foi até o ditador Park Chung-hee chegar ao poder em 1961 que a Coreia começou a experimentar um tremendo crescimento econômico. Conhecido como o “Milagre do Rio Han”, a Coreia do Sul passou de um país de baixa renda para uma das principais economias do mundo em poucas décadas.”

Ao mesmo tempo em que o desenvolvimento do capitalismo na Coreia do Sul se consolidava, a organização dos trabalhadores sul-coreanos também crescia, greves não foram instrumentos atípicos de enfrentamento ao sistema, assim como fortes manifestações de rua.

Entre 18 e 27 de maio de 1980, na cidade de Gwangju, uma revolta popular ocorreu contra o regime ditatorial, a insurreição acabou levando a morte de 600 pessoas no que ficou conhecido enquanto “O massacre de Gwangju”. O período de instabilidade político culminou na Luta Democrática de Junho em 1987, com protestos de rua massivos que forçaram o regime militar sul-coreano a instaurar eleições no país.

Inclusive, durante este momento, o diretor de outra recente obra de sucesso no mundo inteiro – que também lida com temas de desigualdade social – começou seus primeiros passos no meio da organização popular: Bong Joon-ho, diretor de Parasita (2019), que era um jovem universitário e esteve nas ruas enfrentando bombas de gás lacrimogêneo e a dura repressão policial.

O incentivo dos governos sul-coreanos a empresas capitalistas formou o que denominou “chaebols”, grandes conglomerados industriais que são administrados e controlados por uma pessoa ou uma família, destacam-se entre eles: Samsung, Hyundai, LG, Daewoo, Kia Motors e diversas outras. As relações entre os empresários dessas companhias e membros do governo se tornou algo corriqueiro na política do país, levando a casos graves de corrupção e exploração desenfreada de trabalhadores, com políticas econômicas priorizando sempre as elites.

Consequentemente, a desigualdade social na Coreia do Sul é nítida, mesmo contendo uma baixa taxa de desemprego (em torno de 3,6%) e se colocando enquanto um dos países com maior desenvolvimento tecno-científico na região (tendo boa parte de profissionais com ensino superior), sua população demonstra descontentamento com o ritmo das vidas que enfrentam, marcado pela instabilidade financeira, altas taxas de tensão no trabalho, competitividade acirrada e ausência de oportunidades de ascensão social.

Em uma pesquisa publicada pelo The Hankyoreh, 85% dos jovens concordaram com a seguinte declaração: “Pessoas que nasceram pobres nunca serão capazes de competir com pessoas que nasceram ricas“. A frustração com o sistema capitalista é notável em parte da população, especialmente mais jovem, com a ideia de meritocracia começando a ser questionada.

Além disso, as oportunidades de empregos em fábricas e serviços de baixa qualificação fez com que a mão-de-obra estrangeira fosse atraída ao país, muitas vezes vinda de países como Índia, Paquistão e do Sudeste Asiático em situação irregular com nenhuma proteção trabalhista. São trabalhadores que buscam por melhores condições enfrentando barreiras linguísticas, culturais e raciais, algo que vem a ser retratado na série por meio do personagem Abdul Ali.

A dívida das famílias na Coreia do Sul aumentou drasticamente nos últimos anos, com a maior taxa de crescimento da Ásia. Serviços como educação, moradia e saúde são caros e gastos não-planejados, como a doença de um familiar, podem levar famílias a situações desesperadoras. Os 20% mais ricos do país têm um patrimônio líquido 166 vezes maior que os 20% mais pobres, uma disparidade que aumentou pela metade desde 2017.

Em meio a este turbilhão de contradições dos resultados do “milagre econômico” sul-coreano, Hwang Dong-hyuk desenvolveu Round 6, particularmente após a Crise de 2008 que o deixou desempregado e endividado. Inspirado diretamente em obras como Battle Royale e outras séries de sobrevivência, o diretor buscou trazer debates com base na sua realidade – suas brincadeiras de infância -, contrastando os jogos com a brutal sobrevivência no mundo adulto. Esse contraste aparece de forma muito bem executada na série por meio de sua direção de arte, com cores vibrantes e vivas, cenários nostálgicos e cenas de mortes explicitamente gráficas.

A greve e ocupação na Ssangyong Motors em 2009 (empresa que faliu após a Crise de 2008) é uma marca indelével da trama, com o protagonista Gi-hun tendo sua história fortemente baseada na luta dos trabalhadores sul-coreanos que durou 77 dias e acabou com mais de 50 pessoas feridas e presas.

A série não despertou interesse de nenhuma produtora sul-coreana por ser muito “irreal” e demorou cerca de 10 anos para ser realizada, somente concluída com apoio da Netflix através de sua política de expansão de investimentos cinematográficos ao redor do globo, o que rendeu séries como La Casa de Papel (Espanha), Lupin (França), Dark (Alemanha), Alice in Borderland (Japão) e outras. O local utilizado para a gravação da série se tratou de um estúdio construído com investimentos públicos da indústria cinematográfica da Coreia do Sul.

O contexto-brasileiro: ditadura, greves, austeridade e exploração

Para o leitor atento, certos aspectos da sociedade sul-coreana não parecem tão distantes do cotidiano dos brasileiros. Para além dos enfrentamentos diários às contradições do sistema capitalista, o sentimento de frustração, desilusão e desesperança toma parte da população do país envolvida num caótico cenário de precária situação econômica, instabilidade política e ataques cotidianos à grupos minoritários e seus direitos.

Por se tratar de um país com um capitalismo dependente, sua situação é ainda mais estarrecedora, os dados que surgiram durante a pandemia escancaram desigualdades sociais insolúveis dentro deste sistema: De acordo com dados da ONU, o 1º mais rico do Brasil detém 28,3% da riqueza total do país, a segunda maior concentração de renda do planeta inteiro, atrás apenas do Catar onde o 1% mais rico da população fica com 29% da riqueza nacional.

Desde o início da pandemia, mais da metade dos brasileiros, 59,3%, não se alimentam em quantidade e qualidade ideais, são 125,6 milhões de pessoas que comem o que podem, não o que querem. De acordo com a Conferência Nacional da Indústria, 16 milhões de brasileiros perderam toda a renda do trabalho na pandemia. A população do país já utiliza mais lenha do que gás de cozinha, e pessoas acabam utilizando até mesmo álcool para preparar seus poucos alimentos e ficando gravemente feridas.

O Brasil também sofreu com uma ditadura militar financiada pelos EUA, que durou 21 anos e julgou ter realizado seu “milagre econômico” no país. O que se vê atualmente – e partilha-se com os trabalhadores sul-coreanos – é uma série de destrutivas políticas voltadas à desenfreada acumulação de capital em detrimento das necessidades humanas, das mais básicas.

A resistência dos trabalhadores e povos oprimidos existiu durante todos esses momentos de ataques das classe dominante, greves como a do ABC Paulista em 1979 auxiliaram na pressão pela redemocratização, em 2017, fizeram a Reforma da Previdência ser suspensa por quase dois anos. Todavia, o contexto de despolitização da classe trabalhadora durante os 14 anos de governo do Partido dos Trabalhadores (2002 – 2016) relegou pouco saldo organizativo para o povo brasileiro, seu próprio governo começou a implementar políticas de austeridade fiscal com cortes de gastos, gerando insatisfação popular e fazendo ruir sua estabilidade.

Os principais pilares dos governos petistas como investimento público, distribuição de renda e ampliação do crédito começaram a ser desestruturados, em especial o último, que resultou numa séria política de endividamento da classe trabalhadora brasileira.

Para acessar o ensino superior, criou-se o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) em que os estudantes pagavam pelo seu ensino, resultando em 1 milhão de inadimplentes em 2020. Para acessar a moradia, o programa Minha Casa, Minha Vida rendeu financiamentos a baixo custo para populações em situação vulnerável conquistarem sua residência, ainda assim, existem mais de 500 mil famílias inadimplentes em 2020.

A recente crise pela qual passa o país fez com que o número de famílias endividadas fosse o maior desde junho de 2010. De acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo em 2021, cerca de 70% das famílias brasileiras estão endividadas, com uma alta de 1,7% em relação a maio e de 2,5% em comparação a junho do ano anterior. O número de inadimplentes também aumentou, com as famílias de baixa renda sendo as mais afetadas.

Com o advento de políticas neoliberais desastrosas após o golpe jurídico-parlamentar de 2016 (e.g. Emenda Constitucional 95, que limita os gastos públicos por 20 anos), a ideologia liberal encontrou espaço fértil no debate brasileiro. Noções de meritocracia, responsabilidade pessoal e esforço próprio se fortaleceram, a cultura dos “coachs”, livros de auto-ajuda e individualização dos problemas sociais foi aumentada, ao mesmo tempo, em que a exploração dos mais pobres também.

E aqui, a série Round 6 aparece com temas extremamente atuais, ligando as realidades sul-coreanas e brasileiras, assim como, as realidades da classe trabalhadora do mundo inteiro que sobrevivem neste sistema dominante e viram na obra um retrato fantástico da situação atual.

Round 6 e a humanidade dos despossuídos

A alegoria que Round 6 faz da sociedade capitalista é avassaladora: pessoas são apenas números e brinquedos para as elites do planeta se divertirem em busca de prazer. A competitividade entre os jogadores demonstraria aos criadores do jogo que a natureza humana realmente é egoísta e pensa apenas no seu bem-estar próprio, com cenas de brigas, mortes e trapaças entre os participantes se demonstrando enquanto naturais.

O microcosmo da série com funcionários do jogo tendo uma hierarquia extremamente coesa também exemplificaria a “ordem natural das coisas”, com os operários (círculos na máscara) executando os trabalhos operativos, soldados (triângulos na máscara) salvaguardando o sistema com suas armas e reprimindo dissidências e os líderes (quadrados na máscara) aplicando as políticas que vem dos financiadores do jogo.

Nada disso passa de uma mentira. Todo o jogo acontece de forma artificial, toda a situação em que as pessoas são submetidas incentivam atitudes egoístas, matar pessoas dá recompensas, trapacear dá recompensas, vencer sozinho é o que garante sua recompensa final. O sadismo dos VIPs é o retrato da imoralidade e falta de sentido do capitalismo. Mesmo tendo fortunas bilionárias através da acumulação de capital, tais figuras não se sentem satisfeitas com a vida e acabam por sustentar um projeto mortal de diversão afim de se satisfazerem, esse é o seu projeto econômico no sentido mais puro. Esse jogo de horror, fez até mesmo com que o criador da série comparasse Donald Trump com os VIPs, Dong-hyuk comenta que ele parecia muito mais conduzir um game show do que um país, provocando o terror nas pessoas.

Ao contrário do que querem demonstrar os criadores do jogo, em particular, Il-Nam que participa dentro das próprias atividades para se sentir vivo, é a solidariedade de classe que faz os principais protagonistas avançarem nas provas, e em parte delas, a sorte também é um elemento preponderante. Como diz György Lukács em seu livro “Existencialismo ou Marxismo”:

O homem que vive num mundo fetichizado ignora que a riqueza, o valor e o conteúdo verdadeiro de sua existência encontram-se em ramificações numerosas e profundas que o ligam à existência de seus semelhantes e à da sociedade. O indivíduo isolado e egocêntrico que vive só para si, vive num mundo empobrecido. Quanto mais suas experiências pertencem-lhe exclusivamente, mais são exclusivamente interiores e mais correm o risco de perder todo conteúdo e de se perder no nada.

O desenvolvimento dos personagens, roteirizado de forma autêntica e calcado numa realidade que consegue ser vista através das janelas ao redor do mundo, faz com que os espectadores entendam o que move cada uma daquelas figuras, torcendo por elas e se envolvendo diretamente na história. Dois personagens trazem reflexões notáveis e precisam ser mencionados, são eles Abdul Ali e Sae-byeok.

A primeira aparição de Ali no fim do primeiro episódio é marcante, é ele quem segura o protagonista pelas costas e evita que Gi-hun morra na primeira prova, seu altruísmo e consideração pelos próximos é constantemente evidenciado durante Round 6. Pela sua característica enquanto imigrante no país, Ali trata as pessoas de forma bastante respeitosa e formal, não se trata necessariamente de um sinal de subserviência daqueles ao seu redor, mas uma busca de espaço e adequação às normais sociais do país.

O central da história de Ali na série gira em torno da solidariedade que demonstra com os outros em mesma situação: defendendo seus colegas na briga que acontece no dormitório, buscando dividir seu alimento, se tornando âncora para a equipe no cabo de guerra e confiando em seu parceiro de jogo para sobreviverem juntos na sua última prova. A traição de Sang-woo é um ponto emocionante e extremamente triste de Round 6, naquele momento Ali percebe que sua confiança em alguém lhe rendeu a morte.

O jogo e o sistema capitalista recompensam atitudes como a de Sang-woo, passar por cima dos outros é regra para o modo de produção que vive da exploração do homem pelo homem. De todo modo, somente devido a própria cooperação que Ali propunha com seus colegas é que chegaram tão longe no jogo vivos, separados e desorganizados nunca teriam sobrevivido.

Sae-byeok aparece com uma história relacionada a Coreia Popular e sublinhas anticomunistas, que podem ser examinadas de maneira crítica. Fugindo do país com seu irmão depois de uma epidemia, ela busca dinheiro para financiar a vinda de sua mãe e proporcionar uma vida estável na Coreia do Sul, acaba por se endividar seriamente e enfrentar uma situação de vulnerabilidade social. Dentro do jogo, por necessidade se alia com o protagonista e seus colegas afim de continuar viva, separada e desorganizada ela nunca teria sobrevivido.

Devido a Lei de Segurança Nacional na Coreia do Sul promulgada em 1948, qualquer comentário positivo acerca da Coreia Popular, políticas revolucionárias de esquerda ou comunismo podem ser punidas criminalmente, não havendo quaisquer exceções para produções midiáticas. Não é à toa que não existe nenhum Partido Comunista ou Socialista organizado legalmente no país, as leis anti-comunistas em vigor impedem e fortalecem repressão aos movimentos revolucionários no território sul-coreano.

No Brasil, tentativas de leis parecidas serem votadas pelo Congresso vem ganhando força por meio de políticos reacionários e de extrema-direita, como o Projeto de Lei 5358/16, de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que visa enquadrar qualquer manifestação favorável ao comunismo/demonstração de foice e martelo com penas de dois a cinco anos de reclusão e multa, pena que é atualmente aplicada ao nazismo.

Em Round 6, Sae-byeok se liga emocionalmente com outra jovem participante como ela, Ji-yeong. No episódio em que apenas uma das duas pode sobreviver, as personagens dialogam acerca dos projetos futuros para suas vidas, a sul-coreana diz que não consegue imaginar nada para sua vida e questiona o que a norte-coreana esperava encontrar no país, se a Coreia do Sul era realmente boa, Sae-Byeok não responde.

A falta de resposta de Sae-Byok é um sinal, ainda que tímido, de reflexão crítica sobre a situação desesperadora da Coreia do Sul e seu modo de produção, ainda que não seja possível defender a experiência da Coreia Popular, a obra não cai num discurso simplório ou reacionário.

De modo geral, Round 6 demonstra a humanidade dos despossuídos, afirmando o caráter singular e social da vida humana. O cenário artificial construído ao redor dos participantes para incentivar a competitividade e manter o status quo do jogo é mostrado ao telespectador enquanto desumano, especialmente por meio da trama do policial que tenta investigar sobre o que está acontecendo e entende melhor o funcionamento daquele lugar.

Em um breve parênteses, há de se notar aqui a denúncia que a série faz da polícia enquanto instituição, demonstrando seu caráter de braço armado do Estado para reprimir manifestações de descontentamento e inação perante casos de corrupção ou desaparecimento de pessoas pobres.

A não-reposta final da série: o papel dos revolucionários diante de obras limitadas

Apesar de todas as conotações e alegorias anti-capitalistas na série, Round 6 não se afirma enquanto uma obra explicitamente revolucionária, não existe uma propaganda pela transformação social do sistema capitalista ou ao menos pela organização sistemática dos participantes para acabar com o jogo, não há muito o que esperar nesse sentido de uma obra financiada pela Netflix.

Round 6 tem limitações evidentes em seu roteiro acerca das possibilidades além do jogo, questões que podem e inevitavelmente serão tratadas em uma segunda temporada, entretanto, sua produção é bem-vinda em meio ao mar de medíocres programações enlatadas que enchem as mentes da população mundial.

Importante notar que anos atrás, o Brasil também produziu uma série com temática bastante parecida, chamada 3%, onde num futuro ficcional jovens pobres devem passar por várias provas para poderem viver e chegar a cidade de Maralto, região com grandes oportunidades de vida. Essa foi a primeira série produzida pela Netflix no Brasil.

Os revolucionários comunistas não devem se furtar de continuar o debate que a Round 6 inicia, devem qualificar a discussão aprofundado os temas que são apresentados e interligando eles com uma visão da totalidade, apontando os caminhos na vida real para acabar com a desilusão projetada por esse sistema capitalista desumano e irresponsável.

Dong-hyuk disse em entrevista que “mesmo quando parece que há somente desespero, medo e tristeza para aqueles que estão participando do jogo, sempre existem aqueles que não desistem de sua humanidade. Eu queria demonstrar a esperança.” Essa última palavra é chave na compreensão que a série faz da situação dos despossuídos, mesmo em situações extremamente vulneráveis, eles ainda permanecem humanos e a esperança os move.

Assim como Il-Nam esteve errado em sua aposta ao afirmar que ninguém auxiliaria a pessoa em situação de rua no fim de Round 6, os capitalistas estão errados em acreditarem que o ser humano é egoísta por natureza, que são movidos inteiramente pela ganância e interesse próprio, pelo contrário, somente pela cooperação, solidariedade e esperança é que chegamos onde chegamos, coletivamente. O modo de produção capitalista não é o fim da história, mas um obstáculo que pode ser derrubado em busca da emancipação humana.

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