“Ele me dizia para recuperar a resistência dos negros”: Entrevista com Ana Montenegro sobre Carlos Marighella

Este depoimento foi realizado no dia 6 de novembro de 1998, em Salvador, com Ana Montenegro, militante do Partido Comunista Brasileiro.

Originalmente disponível no livro “Carlos, A Face Oculta de Marighella” de Edson Teixeira da Silva Junior, publicado pela Editora Expressão Popular, em 2009.

Transcrição de Andrey Santiago.


Ana Montenegro – Certa vez eu disse ao Marighella: “Você não pode tomar esse caminho, lembre-se do que disse Lenine, que a revolução não é obra de algumas pessoas, mas de milhões”.

Ele disse: “Ana você tem que me entender, eu estou cansado de ficar na praia esperando a onda”.

Eu disse: “Você se lembra daquele trecho de um texto meu? Tinha uma pedra lá na praia que as ondas não deixaram sair. Ela ficou lá para sempre”.

Ele disse: “Mas eu vou vencer, você sabe que eu deixo a pedra aí e volto, mas para outra praia, não esta, pois eu já estou cansado de ficar nessa praia”.

Eu achava Marighella especial, muito especial, pelas respostas filosóficas e humanas que ele dava. Eu fui para a Europa e estava para voltar, e me encontrei com alguns companheiros, lá na Itália, mas de- morei muito, não cheguei no dia certo e o pessoal me criticou por isso.

Edson – Isso foi quando?

Ana – Isso foi à ocasião da chamada revolução que houve aqui. Então, disseram a Marighella que Ana Montenegro não apareceu no dia certo. Ele disse que Ana não chegou no dia certo porque tinha uma exposição de pintores franceses, que eu amava muito, surrealistas, mais ligados a esse companheiro da Espanha, Picasso. Eu conheci Picasso, aliás eu tenho até um presente que ele me deu.

Eu disse, certa vez, a Marighella sobre os pintores surrealistas: “Esse realismo, essa claridade, parece que recolheram toda a luz da natureza”.

Ele disse: “Isso é engano seu, venha cá, olhe aqui desta janela, o universo continua iluminado, logo não recolheram toda a luz”.

Ele tinha respostas que eram humanas, mas eram filosóficas. Ele era dialético – ‘o universo continua iluminado’ – é uma resposta que não é todo mundo que dá.

Edson – A senhora se lembra de alguma outra passagem?

Ana – Outra coisa de Marighella era que a gente queria saber quem era ele. É uma coisa que eu nunca esqueci na minha vida, é a simplicidade com que ele se autodefinia. Eu disse uma vez: “Marighella, você que foi torturado, que sofreu tanto, você que está dando sua vida, tudo isso, sendo ameaçado – foi nas vésperas de quando eu fui embora do Brasil – eu quero lhe perguntar uma coisa: quem é você”?

Ele disse: “Olha Ana, eu me considero um mulato baiano! Como é que você não me vê como um mulato baiano”?

Eu disse: “Eu vejo, fisicamente”.

Ele disse: “Não, dentro de mim também, porque eu não sou uma pessoa diferente dos outros, você não pode me considerar uma pessoa diferente dos outros”.

Outra coisa que eu achava de Marighella era o problema que ele tinha a respeito da necessidade de se pôr as coisas em prática. Ele foi quem me ensinou uma coisa que os gregos escreveram.

Edson – O quê?

Ana – “A prática é o critério da verdade”. Eu participava de uma subcomissão de mulheres da Comissão de Massas do Comitê Central do PCB no Rio de Janeiro e eu disse a ele: “Não sei, as mulheres não aparecem, a coisa não vai”.

Ele disse: “Sente aí! Depois que vocês fizeram toda aquela programação, lembre-se do que eu te disse sobre a prática é o critério da verdade? É o seguinte Ana, vocês têm um programa, vocês planejaram alguma coisa para a Comissão, um novo programa determinando aquelas tarefas todas?”

Eu disse: “Não”.

Ele disse: “Como é que você quer que as coisas aconteçam? Vocês não têm uma proposta, um programa, não chegaram a conclusões do que é mais necessário”.

Eu disse: “Tá certo, eu vou fazer”.

Passou-se uns tempos ele me procurou e disse: “Como é que está o negócio lá das mulheres, para eu dar informações ao pessoal da Comissão”.

Eu disse: “Olhe Marighella, depois que você me deu aquele conselho da prática…”

Ele disse: “Eu já lhe disse que a prática é o critério da verdade, se você não leva à prática o que projeta, as pessoas não podem trabalhar”.

Ele era uma pessoa muito concreta, objetiva. Ele me dizia: “Você adora os pintores”. Por isso eu guardo isso aqui, esta pomba foi desenhada por Picasso, em homenagem ao 8 de março, por ocasião da Federação Internacional das Mulheres, em Paris, em 1945. Isso foi Picasso que pintou e nos deu. Marighella teve várias vezes com isso na mão.

Edson – O que ele disse?

Ana – Ele disse o seguinte: “Realmente a paz depende das mulheres, porque vocês têm os filhos, como dizia José Marti, o cubano, que as crianças nascem para serem felizes, então, elas merecem isso que fez o Picasso, porque o que ele fez foi a pomba da paz levando flores para todas as crianças.

Eu sempre perguntava pelo filho dele, o Carlinhos, você sabe a história do Carlinhos? A mãe dele não pôde registrar imediatamente o menino, por que não pôde registrar o menino? Porque ele estava ilegal.

Outra coisa que eu quero dizer de Marighella, isso eu tenho muita vontade de contar, quando houve essa discussão, não sei se a palavra é essa, você que vai me dizer, sobre o Partido Comunista, quando o Partido Comunista se dividiu entre os que eram a favor da luta armada, eu estava em Paris, ele foi a Cuba e lá, em 1967, eu pensei que ele nunca se encontrasse comigo, porque nós tínhamos ideias diferentes a respeito da luta. Passei por Cuba para ir a um seminário do trabalho que eu fazia na América Latina, ele soube do que eu pensava e disse: “O que é isso? Se eu for à Europa a primeira pessoa que eu pergunto é por você”. Ele disse: “Amizade é uma coisa Ana. Os princípios, outra”.

Ele disse: “Se eu quero um pequeno caminho diferente e você quer um caminho diferente, a amizade faz com que esses caminhos se juntem, você pensa que a amizade de tantos anos, a solidariedade, o nosso conhecimento, você se preocupava até com a camisa que eu ia vestir, queria saber se eu tinha camisa para o Natal, queria até saber o número do meu sapato, como é que eu vou deixar de ter amizade com uma pessoa dessas? Os meus princípios não acabaram, nem os seus, apenas você sabe que para se chegar a um lugar, o lugar que nós queremos, o socialismo, os caminhos podem ser diferentes, mas nós seremos conduzidos pelos mesmos transportes”.

Eu me lembro dessa palavra.

Edson – Como ele retribuía a amizade com a senhora?

Ana – Retribuía desse jeito, com essas conversas, com esse contato, com tudo isso, ele passou a ser a pessoa a quem eu levava meus problemas. Por incrível que pareça ele sabia do amor que eu tinha pelas crianças, do amor por Carlinhos e tudo isso, ele disse que eu não tinha direito de não sair do Brasil, porque eu tinha que cuidar dos meus filhos: “Você não pode ter o direito de ficar aqui, você pode prejudicar seus filhos, a criação”.

Ele tinha uma capacidade de comunicação nos comícios extraordinária.

Edson – Como ele era nesses discursos, ele se preparava?

Ana – Não era nada preparado, nada preparado, claro, ele não se afastava dos princípios do socialismo, da defesa da unidade dos trabalhadores do campo e da cidade, da defesa de um instrumento que era o Partido Comunista, ele não se afastava desses princípios básicos e práticos, ele não se preparava, ao contrário, a gente viajava pra cima e pra baixo, para esses subúrbios e nunca vi assim ele se preparar anteriormente. Ele era uma pessoa como outra qualquer, normal, o problema era o seguinte: era uma pessoa de que todo mundo gostava dele.

Edson – Por que todo mundo gostava dele?

Ana – Talvez por essa comunicação social e por não ter essa empáfia de personalidade. Apesar do valor que ele tinha, apesar da capacidade de comunicação, de levar à prática, ele não dava a aparecer isso, uma pessoa como outra qualquer.

Uma vez eu censurei Marighella. Houve uma reunião no Partido Comunista, em São Paulo, as pessoas se preparavam para fazer um pouco de referências ao Luiz Carlos Prestes, eu estava louca que ele fizesse essas críticas, não sei se você conhece meu artigo sobre o Prestes, na minha opinião foi o guerrilheiro número um da América Latina, mas ele não fez, mas aí eu disse: “Olha! Ô Mariga” – chamava ele, naquele tempo, de Mariga – “ô mulato, você não fez a crítica que devia fazer a Prestes por essa personalidade dele, de trazer as coisas arrumadas, feitas”.

Ele disse: “Olha! não valia a pena, nós éramos minoria para criar uma briga, acho que não era a ocasião, de uma atitude que pudesse dividir – nunca me esqueço disso – eu não quero dividir nada, quero somar, acrescentar, somar, unir”.

Esse negócio da unidade de Marighella me influenciou até hoje. Essa influência que ele podia exercer, mas não exercia. Eu quero lhe contar uma pequena história de Marighella que me impressionou, que está relacionada ao problema do “Não tive tempo de ter medo”.

Edson – Eu gostaria que a senhora falasse sobre isso.

Ana – Eu dizia que estava com medo, ele dizia: “É aquela frase que eu disse sempre a vocês, eu nunca tive tempo de ter medo, porque se eu tivesse medo não tinha estado na prisão, se eu tivesse medo não continuava na luta, então, é melhor que na vida não se tenha tempo de ter medo”.

Foi nessa ocasião que eu ouvi pela primeira vez essa frase dele, eu disse que ficava com medo de enfrentar essa maioria aqui no Partido, ele disse: “Imagina, nós temos que ter medo de outras coisas, da polícia, da repressão, você acha que a gente tem de ter medo de companheiros?” Tanto que eu achei que não era justo, na ocasião.

Edson – Ele disse isso quando para a senhora?

Ana – Numa ocasião em que houve uma reunião em São Paulo, no fim da década de 1950. Agora também a preocupação que ele tinha com os problemas dos outros…

Edson – Como que se dava a relação dele com vocês que estavam mais próximos da militância política, como era essa relação no cotidiano, em termos de brincadeiras, o homem comum Marighella?

Ana – O homem comum Marighella era justamente isso, ele era aquela coisa que chegava na minha casa e sempre dizia: “Eu vim colocar um problema”.

Ele se preocupava com esse negócio de família, isso eu tenho que dizer a você: quando eu fui a Cuba, depois da revolução, passei uns dias lá para ajudar, eu não sabia como fazer, pois eu tinha um filho pequeno. Eu disse a ele: “Eu não sei como meu marido vai reagir”.

Ele disse: “Ah! Seu marido, eu falo com ele”.

Quando ele chegava ia conversar com os maridos também, para poder amenizar a situação da família das mulheres. Outra coisa interessante, ele fazia muito trabalho nos bairros, o pessoal dos bairros o conhecia, ele conseguiu uma mulher baiana no Rio de Janeiro, que foi ela quem criou meus filhos. Ele disse que eu ia ter muitas dificuldades com essas crianças: “Vou arranjar uma pessoa, vou arranjar uma empregada”. Arranjou uma moça lá para casa, que criou meus filhos. Mandou uma mulher lá do Rio de Janeiro, de uma favela. Ele disse: “Olha! O marido dela foi assassinado numa greve, você tem que levar isso em consideração, ela é uma mulher que tem consciência”. Sabina, meus filhos a chamavam tia Sabina. Ele se preocupava com a organização das famílias dos comunistas.

Edson – Além das preocupações políticas.

Ana – Ele se preocupava que os militantes comunistas, os companheiros, tivessem condições familiares de prestar a ajuda necessária. Olha! As mulheres se apaixonavam por Marighella, ele era muito atrativo.

Edson – Ele era assediado?

Ana – Não sei se ele chegava a ser assediado, mas, conversando com a gente, elas confessavam estar apaixonadas por ele. Havia uma coisa, eu não sei se você sabe, mas o Evangelho de Cristo, eu sou ecumênica, tem muitas coisas interessantes. Então, ele diz o seguinte: “entre o céu e a terra, ainda tem muita coisa a se descobrir”. Por que você gosta de umas pessoas e outras não? Por que você sente essa atração, essa simpatia? Muitas pessoas dizem: “Como você gosta das pessoas sem conhecê-las!?” Eu digo: “Eu não sei”. Há qualquer coisa de interior, era isso que Marighella tinha, talvez o próprio Prestes tivesse também. Eu queria te mostrar um trabalho sobre princípios, você conhece?

Edson – Não, eu conheço um trabalho seu que me foi fornecido por Emiliano José.

Ana – Saiu na Tribuna, um artigo sobre Jorge Amado e sobre Castro Alves. Era essa coisa, o problema da história. Ele, por exemplo, foi quem mais me incentivou para ver esse problema da Guerra do Paraguai. De forma que, quando eu voltei da Europa, eu me lembrei disso, e me lembro dele, me lembrei da preocupação que ele tinha para que se esclarecesse historicamente o problema da Guerra do Paraguai. E então eu fui lá no Rio Grande do Norte e fiz todo um estudo, eu cheguei à conclusão que as mulheres lutaram contra a Guerra do Paraguai, as mulheres do Rio Grande do Norte, principalmente da cidade de Mossoró, rasgaram os documentos que chamavam os soldados para irem para a guerra, nas igrejas, nos cartórios, eu tenho tudo isso.

Edson – Que interesse ele tinha?

Ana – Que se recuperasse a verdade histórica. Isso me influenciou demais a primeira vez que eu soube desse poema de Bertold Brecht – “quem reconstruiu Babilônia mil vezes destruída…” – me lembrei dele.

Edson – O que ele falava para a senhora?

Ana – Ele me dizia muito que era para se recuperar esse problema da história. Principalmente, esses negócios dos negros, a resistência dos negros.

Você vê vários militantes foram presos, torturados e ainda há interesse por Carlos Marighella, por quê?

Edson – A pessoa mais indicada para responder isso aqui é a senhora. Por que a senhora acha?

Ana – Talvez pela continuidade, por essa luta e por esse não afastamento, em nenhuma ocasião, dos princípios, por causa do exemplo que ele dava, principalmente esta frase “Não tive tempo de ter medo”, dizia com tanta convicção, era com tanta convicção com que ele expressava suas ideias, os seus pensamentos, será por isso? Eu penso que sim, mas não posso assegurar com referência aos outros.

Edson – A senhora escreveu aqui no artigo de Prestes que ele não era carinhoso, e Carlos era?

Ana – Era.

Edson – A senhora pode me dar um exemplo?

Ana – Eu estive doente, cansada e ele soube. Eu não me lembro de nenhum companheiro que tenha em toda vida me telefonado, perguntado, insistido para saber como estava minha saúde, como eu estava. E foi ele. Tinha um médico no Rio de Janeiro, Niemeyer, que examinava esse negócio cerebral, foi ele que foi atrás desse médico para me ver, mas ele não fazia esse negócio só comigo não, mas com qualquer companheiro que estivesse nessa situação de doença, de dificuldade.

Ele dizia: “Ana você tem que saber dizer as coisas, saber expressar de forma que toque – era essa a apreciação que ele fazia do meu trabalho – você tem que aproveitar isso”.

Edson – Incentivava a senhora?

Ana – Para fazer comícios, comunicar-me com as pessoas. Por exemplo, dentro do Partido, quando o pessoal dizia que tinha que falar com uma pessoa, ele dizia: “manda a Ana, ela chega lá e conversa com as pessoas, se comunica, ela tem uma capacidade, essa condição de se comunicar com as pessoas”.

Edson – Logo ele que era um bom discursador?

Ana – Não, era o melhor, eu admirava que ele fizesse essa comunicação e ainda tivesse essa capacidade de compreender o que as pessoas podiam dar. Os humanistas franceses dizem que o herói é aquele que faz tudo o que pode. Eu acho que todos nós somos heróis e heroínas, quando você abre a janela de manhã e vê o homem limpando a rua. Como você andaria na rua sem esse homem? Quando você come um pão, quem plantou o trigo? Você iria comer o pão sem o trigo?

Edson – A senhora falou que Che era poeta e Marighella a senhora presenciou ele fazendo poesias?

Ana – Ele gostava de escrever poemas. Era poeta, além disso gostava muito de fazer palestras como eu, comunicação com as massas populares, transmitir aos jovens, porque a convivência da gente era meio difícil.

Edson – E na hora do lazer dele ele gostava de música, futebol?

Ana – Não, mais de ler, cansou de levar livros lá de casa para ler. Eu tentava enfiar na cabeça dele esses humanistas franceses.

Edson – Ele discutia essas leituras com a senhora?

Ana – De vez em quando, mas, principalmente, história do Brasil. Ele foi o primeiro a me despertar o interesse em não escrever estória, mas sim história. Eu aprendi com ele uma coisa e depois fui buscar no dicionário: é fatores e fautores, fautores é a motivação do fato, nunca se usa essa palavra, fatos e fautores.

Edson – Ele que falou para a Senhora?

Ana – Foi a primeira pessoa que eu vi usar essas palavras, porque o problema não era só ter efeito e causa, ninguém passa fome sem causas, o mundo está cheio de comida, né.

Edson – Qual a relação que a senhora teve com Clara naquela época?

Ana – Convivi como membro do partido, não tive grande convivência até quando os encontrei em Cuba. Eu conheci Clara e ela me aceitou muito bem. Achava bonita a minha amizade com Marighella. Ela também colocava a amizade acima das divergências.

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