Ana Montenegro – Momento Feminino: Porta-Voz das Lutas das Mulheres

Capítulo VII do livro “Mulheres – Participação nas Lutas Populares”.

Transcrito por Rafaela Fraga.


UM JORNAL PARA AS MULHERES,

FEITO POR MULHERES

Procuramos cuidadosamente em várias publicações sobre a imprensa brasileira e não encontramos nenhuma referência ao jornal “Momento Feminino”. “Momento Feminino” nasceu do dia 24 de junho de 1947, tendo publicado artigos, reportagens, crônicas, poesias sobre a vida e as lutas das mulheres.

Foi um jornal muito útil no decurso de seus dez anos de vida, coordenando o trabalho de todas as organizações femininas então existentes, difundindo as experiências e os seus programas, contribuindo para a conscientização das mulheres. Era vendido nos seguintes Estados e Municípios: Bahia, Ceará, Distrito Federal (Rio), Anápolis (Goiás), todas as cidades do Triângulo Mineiro, Belo Horizonte (Minas Gerais), Pernambuco, Paraná, Estado do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo-Capital e em Santo Amaro, Santo André, Santos, Tauaté, Sergipe, Goiânia (Goiás), São Luiz (Maranhão), Santa Catarina, Paraíba, Mato Grosso, Belém (Pará). Em suas páginas encontramos a maioria das resenhas das organizações femininas: congressos, conferências, assembleias, programas.

Em um dia de muita neve e de muito frio, fomos buscar os seus exemplares em casa de uma amiga brasileira, em uma cidade chamada Anemasse, na fronteira da França com a Suíça. Muito obrigada, Ethel de Souza!

“Momento Feminino” foi fundado por um grupo de mulheres cujos nomes devem ser conhecidos pelos serviços que prestaram, guardando nas páginas de um jornal para as mulheres, feito por mulheres, a memória de uma década de lutas: Eneida Moraes, jornalista e escritora; Sílvia Chalreo, pintora; Arcelina Mochel, advogada e Iíder feminina, eleita vereadora no Rio de Janeiro, em 1946; Heloisa Ramos e Luisa Lebon Regis.

Quem lê o seu número 102, de outubro e novembro de 1953, sabe o que se passou lá no interior de Alagoas, em São José de Lages, contado por Maria Leocádia de Freitas; ou nos morros da cidade de Vitória; ou na cidade de Nova Hamburgo, em Santa Catarina, onde existiam cerca de 300 fábricas de calçados, onde trabalhava uma maioria de mulheres e não existia uma única creche; ou que fora fundada a Associação Feminina de Juiz de Fora (Minas Gerais), e outras Associações em Ribeirão Preto e Franca, em São Paulo.

Uma reportagem de Ethel de Souza, publicada na edição nº 107, de 1954, conta a vida (vida?) e a morte das mulheres e das crianças das favelas do Rio de Janeiro. Nair Batista assina uma reportagem no nº 109, de 1955, sobre “a miséria que nem o rio-mar, o Amazonas, consegue carregar para a sua foz”. “Assim vivem nossas irmãs no Campo” (nº 109/1955) pode servir de fonte de informação para uma tese sobre o latifúndio. Niterói (Estado do Rio de Janeiro) também tem morro e Alice subiu os morros que as mulheres subiam, todos os dias, com latas d’água na cabeça (nº 110/1955).

Pode-se ler a denúncia de que na Usina Leão, em Alagoas, as mulheres ganhavam menos da metade do salário dos homens (nº 110/1955). E Ethel de Souza, na mesma edição, denunciava a inexistência do ensino primário gratuito e obrigatório, como rezava a Constituição. Outras denúncias no nº 111/1955, sobre “o regime de trabalho primitivo e desumano” que pesava sobre as têxteis de Santo André (São Paulo) e sobre a exploração brutal das camponesas em Goiás, onde até o corpo das mulheres era propriedade do latifundiário.

A reportagem publicada no nº 112/1955 vem de Raposos (M. Gerais), “cidade da silicose e da viuvez”, onde mandava a companhia inglesa “Saint John del Rey Mining Company”. Uma extensa lista de organizações femininas e suas atividades consta do nº 112/ 1955, e as lavadeiras de Olinda aparecem na edição seguinte falando dos sofrimentos que mancham suas vidas, manchas que nem o sabão e nem a água conseguem lavar.

“Momento Feminino”, durante 10 anos divulgou e homenageou o dia 8 de março, “Dia Internacional da Mulher”, publicando as notícias das comemorações, no presente e no passado.

Escolhemos entre as muitas opiniões sobre “Momento Feminino”, para reivindicar sua inclusão como um dos mais importantes arquivos da memória das lutas das mulheres, a opinião do jornalista, teatrólogo e escritor Raimundo Magalhães Júnior, então vereador do Distrito Federal (R/J), quando aquele jornal completou 8 anos de existência: “Não sou leitor habitual das revistas femininas, mesmo porque se destinam ao seu público habitual. No entanto, conheço ‘Momento Feminino’. Dirigido por mulheres e para mulheres é uma revista que não pode deixar de atender aos imperativos de ordem social, que são um apanágio das personalidades representativas do mundo feminino”.

Como o leitor pode perceber as mulheres souberam também criar seu órgão unitário de informação, de conscientização e mobilização.

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