José Carlos Mariátegui – Sobre a Universidade Popular

Texto traduzido de Política Revolucionaria contribución a la crítica socialista: la escena contemporânea y otros escritos Tomo 5. Caracas: Fundación Editorial El perro y la rana, 2010.

Tradução de Jhonatan Alcântara.


As Universidades Populares

As universidades populares não são institutos de insólita e incolor extensão universitária. Não são escolas noturnas para operários. São escolas de cultura revolucionária. São escolas de classe. São escolas de renovação. Não vivem ligadas as academias oficiais nem são alimentadas por esmolas do Estado. Vivem do calor e da seiva populares. Não existem para a simples digestão rudimentar da cultura burguesa. Existem para a criação e elaboração de uma cultura proletária.

Na Escola Marxista de Paris, se divulga e se comenta o conteúdo ideológico e o sentido histórico da obra de Marx, de Lasalle, de Guesde, de Jaurés. Nas escolas do Independent Labour Party, Bertrand Russell, o grande catedrático da Universidade de Cambridge e outros intelectuais de vanguarda, estudam e debatem os grandes problemas econômicos e políticos da Inglaterra e do mundo. Na Universidade Popular de Milão, escutei a palavra Enrique Ferri e do escritor Mario Marini, líder do grupo Claridad da “capital moral” da Itália. Em Varsóvia, várias personalidades do socialismo e do mundo científico e literário acabam de inaugurar uma universidade operária que, conforme o seu vasto programa, se propõe a: organizar uma série metódica de conferências, cursos profissionais e de ensino em geral, salas de leitura, bibliotecas, museus, laboratórios e exposições, reuniões e excursões científicas e artísticas; publicar edições populares científicas e artísticas, manuais de estudo etc.; e dar seu apoio a associações que se ocupem da proteção e da instrução da infância e de todas as atividades que convirjam com a “sua”. No México, sob o auspício de Vasconcelos,  foi fundada uma Liga Social Pró Cultura destinada a iluminação cultural dos trabalhadores.

A obra das universidades populares é, atualmente, uma obra universal. Brota espontaneamente do estado social contemporâneo. Satisfaz uma necessidade espiritual desta época inquieta e grávida.

O proletariado se compromete, ansioso, com a conquista da cultura. As últimas experiências históricas o ensinaram o valor social e político da ciência e de suas criações. A burguesia é forte e opressora, não só porque detém o capital, mas também porque detém a cultura. A cultura é um dos principais, um dos seus fundamentais instrumentos de domínio. O capital pode ser expropriado violentamente. A cultura não. E, na mão da burguesia, a cultura é uma arma contrarrevolucionária. A cultura é o melhor gendarme do velho regime.

Todos os intelectuais e artistas de vanguarda, todos os intelectuais e artistas de afiliação ideológica avançada dirigem e conduzem esse assalto a ciência cativa. Barbusse, no seu chamamento aos intelectuais, disse que “latente ou realizada, a Revolução não foi nem será jamais outra coisa senão o grito e a potência do pensamento”. O dever da inteligência é um dever revolucionário. Os únicos intelectuais sem utilidade a esse dever são os “intelectuais de cátedra” que exibem sua grosseira bijuteria ideológica nas vitrines das livrarias de luxo. Os intelectuais decadentes, intoxicados de uma literatura mórbida e doente e apaixonados desde a torre de marfim e de outras utopias astrais estúpidas. Os intelectuais retrospectivos e corteses que adulam a aristocracia postiça dos novos ricos com suas nostálgicas rapsódias do passado.

Porém a deserção ou ausência destes clientes da tradição e da burguesia não desanima nem preocupa a nova intelectualidade. Surge atualmente uma geração intelectual livre, pesquisadora, atrevida. E esta geração forjará os instrumentos morais e ideológicos da civilização proletária.

O sexto aniversário da Universidade Popular[1]

Sinto como um dever a minha presença no Boletim que comemora a fundação da Universidade Popular González Prada, não sob o título de “intelectual de vanguarda”, mas de membro deste centro de cultura proletária. Do título de “intelectual de vanguarda” não tenho muito apreço e faço pouco dos que por aí o apreciam. Me classifico membro ou militante da Universidade Popular, e não um professor, porque também desse título, um atraso do espírito universitário, sempre fui pouco amigo em nossas assembleias. Na Universidade Popular não quis encontrar, em todo instante, outra coisa que não estudantes, uns vindo da oficina e outros da biblioteca ou da aula. Dos estudos superiores uns poucos, mas estudantes e operários que elaboram o heroico trabalho de construir uma cultura revolucionária, livres de manias acadêmicas e fórmulas burguesas.

A invalidez física que me impede de ocupar meu posto nas suas reuniões e aulas, não me distancia ou me exclui da Universidade Popular, pois, concebendo sua missão e entendendo seu esforço como a missão e o esforço de criar uma cultura revolucionária, sei que dei a essa obra integralmente minhas energias e capacidades nesses dois anos e meio. Algumas centenas de artigos, em todos os quais tratei de contemplar e definir os fatos e demais coisas com os critérios socialistas, representam meu aporte deste tempo em que não falei, mas escrevi, e que tenho a satisfação de ter escrito exatamente como teria falado.

Todos conhecem já na Universidade Popular, conhecem também muitos dos que estão fora dela, minha desconfiança invencível a respeito dos assim chamados intelectuais neutros. Para mim esta categoria não existe. No conflito entre exploradores e explorados, na luta entre socialistas e capitalistas a neutralidade intelectual é impossível. Constituem uma vã ilusão em todo aquele em que não há uma astúcia jesuítica.

No Peru a intelectualidade ficou restrita aos interesses e sentimentos da casta feudal herdeira sob a República dos privilégios do Vice-reinado. A fundação da Universidade Popular significou um dos episódios da revolução intelectual que atualmente se cumpre. Com esse ato a juventude tem afirmado sua vontade de socializar a cultura, libertando-a dos vínculos que antes a subordinavam ao “civilismo”, como costumeiramente é chamada a nossa plutocracia. Os professores do “civilismo” cheios de suficiência e horror de espírito, se sentiam os mantenedores e conservadores de algo que era patrimônio das “classes altas”. Os trabalhadores intelectuais da Universidade Popular e da vanguarda se sabem os forjadores de algo que é e deve ser patrimônio de toda a sociedade.

Esta batalha tem já os seus heróis. Tem já suas glórias e seus triunfos. Porém o conto de alguns e a comemoração de outros não basta como testemunho de que será devidamente continuada. No sexto ano de sua fundação, a Universidade Popular está obrigada a fazer um balanço do seu próprio trabalho, com um critério rigoroso e, até onde seja possível, objetivo. Creio que as finalidades da sua primeira etapa estão já superadas e que precisa perseguir objetivos certamente mais difíceis, mas essenciais. Há dois anos e meio propus a organização de uma espécie seminário de estudos econômicos e sociológicos que se proponham, em primeiro lugar, a aplicação do método marxista ao conhecimento e definição dos problemas do Peru. Hoje renovo minha proposta. Recomendo que vivam atentos contra o perigo de que um simples trabalho de aulas noturnas se transforme em um exercício de extensão universitária. Felizmente os percebo vigilantes e alertas.

Por isso, minhas palavras de solidariedade e saudação no sexto aniversário da nossa UP (Universidade Popular) objetivam ser de franco e leal otimismo no espírito e na capacidade dos elementos de vanguarda que continuam o trabalho iniciado há seis anos por Haya de la Torre, nosso querido ausente.

José Carlos Mariátegui

Lima, janeiro 22 de 1927


[1] Nota de adesão de José Carlos Mariátegui no sexto aniversário da Universidade Popular, publicado no “Boletín” das universidades populares González Prada, em Lima no mês de janeiro de 1927. Mariátegui não se desvinculou da instituição ao finalizar suas conferências sobre a História da Crise Mundial, nem ao concluir a revista “Claridad”. Por essa relação palpitante foi que enviou uma carta de adesão em homenagem ao destacado professor Manuel González Prada, organizado pela universidade em 1925.

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