Ousmane Sembène – Uma Voz para os Silenciados

Em março de 1979, Ousmane Sembène (nascido em 1º de janeiro de 1923) foi o primeiro presidente não-indiano do júri do 7º Festival Internacional de Cinema da India (IFFI). Sua entrevista desta visita é muito perspicaz para pensar sobre cinema, literatura e o ‘terceiro mundo’.

Texto originalmente disponibilizado por Rakesh Sengupta em seu Twitter.

Tradução por Luana Ferretti.


Esse é o papel de um escritor no terceiro mundo, diz o escritor e cineasta senegalês Ousmane Sembène, para VEENA GOYAL SHARMA. Em seu trabalho ele debruçou-se sobre problemas peculiares a nações recém-independentes com um passado colonial, como, por exemplo, a quebra de valores tradicionais e a irrelevância de valores alheios.

O Sr. Ousmane Sembene, que foi o presidente do júri no Sétimo Festival Internacional de Cinema, não é apenas um distinto cineasta da África, mas também um escritor de renome.

Em trabalhos como God’s Bits of Wood, The Money Order, The White Genesis ele manteve seu foco em problemas peculiares a nações recém-independentes com um passado colonial. Alguns dos problemas tratados são a quebra de valores tradicionais e a irrelevância de novos impostos pelos regimes coloniais. Seus trabalhos exibem um profundo comprometimento à libertação política e “espiritual” do homem.

Você usa a escrita como uma ferramenta política. Qual é, em sua opinião, o papel do escritor africano? Você, assim como Chinua Achebe, o vê como um professor? Ou como Ngugi wa Thiong’o, como um revolucionário? ou seria ele um visionário?

É bem difícil responder isso. Entretanto, eu sinto que quando nós escrevemos, basicamente queremos trazer conscientização às pessoas. Então, a um certo nível, podemos ser chamados de visionários. Mas escrever também é um ato político e um escreve com a intenção de humanizar o mundo. Um escritor no terceiro mundo pode ser considerado todas as bocas daqueles que são silenciados. Ele é, também, um olho para a miríade de olhos que são incapazes de distinguir por si mesmos. Ele é um guardião da dignidade deles. 

Em seu trabalho, há um profundo entendimento de valores tradicionais e um sentimento que novos valores são frequentemente disruptivos. Em White Genesis, por exemplo, há uma quebra da confiança que existe dentro da configuração familiar tradicional e isso leva ao desastre. Que modo de nova ordem moral você prevê?

É uma esperança minha (essas são esperanças prévias), que a África, se ela quer sobreviver, terá que encontrar uma nova síntese – como outros países em desenvolvimento, incluindo uma a Índia. Por muito tempo nossos pais viveram com seus antigos valores e isso os ensinou um tipo de resistência passiva e eles fizeram dessa resistência passiva uma arma vis-à-vis os colonialistas. Mas agora que estamos libertos, estamos tentando viver com valores e idiomas importados e tentando usá-los para governar nossos países. 

Ao mesmo tempo, houve uma forma de libertação de nossas culturas tradicionais. Mas achamos que as superestruturas em nossos países têm sido minadas e completamente usadas desde as fundações. O resultado é que esses novos valores vêm à tona com muita dificuldade e os valores antigos não são suficientes para satisfazer nossas necessidades. Há uma necessidade, em Senegal, pela mistura e síntese das culturas regionais. Use as metrópoles como exemplo, cidades como Bamako ou Dacar onde, como em Calcutá ou Bombaim,  pequenos grupos étnicos co-existem. Esses grupos se configuram em pequenos círculos. Pode-se chamar de círculos por legítima defesa, mas aos poucos vai tendo uma interpenetração dentro desses grupos e um novo modo de vida, um novo modo de comportamento, começa a emergir. 

 Ao ler seus livros, é possível ter a impressão que, ao lidar com experiências comuns e simples da vida, o indivíduo tem vislumbres de um mundo superior e melhor. As rezas diárias, as relações humanas, são todas imbuídas de uma aura de algo maior que a vida. Como que a espiritualidade irá contribuir para a África moderna?

Eu acredito que a necessidade pela espiritualidade está definitivamente presente. Sempre esteve presente. O homem quer viver pela ideia que existe algo mais importante que ele mesmo, algo maior que ele mesmo. Ele precisa ter um sonho pelo qual possa viver, um sonho que ele pode se agarrar. Na verdade, esse livro que escrevi é baseado em uma história verídica, vivida por esses trabalhadores. Todos os desafios que enfrentamos na África não são apenas materiais. A opressão não é somente física, mas também espiritual. 

Os colonizadores tentaram mais que tudo matar nossas mentes e nossos espíritos. Nós precisamos fazer o possível para nos proteger e conservar deste assédio. Em meu livro tem pessoas de todos os tipos – aqueles que rezam e aqueles que não; os que são comunistas e os que não são; os que vivem muito inseridos na antiga cultura e outros que estão em contato direto com a atual realidade. Todos eles vivem em um universo completo. É esperado que a maioria deles possua esse aspecto espiritual, porque é disso que constitui a grandeza de um homem.

Nós podemos ter possuir todas as coisas materiais do mundo, mas se nos falta espírito, somos tão bons quanto os bárbaros. Sobre o futuro, não posso falar. Tudo que posso fazer no presente momento é testemunhar o que vejo e sugerir que tenhamos fé para o futuro.

Que problemas um escritor enfrenta e quais responsabilidades ele possui na manutenção e reavaliação dos valores tradicionais dentro de uma sociedade em rápida mudança?

Eu acho que você dá muita importância ao escritor. Ele não pode parar o crescimento. Eu não sei o que realmente constitui um povo. Eu não sei o que faz eles lutarem, o que faz eles viverem. Eu falo apenas pela África. Eu não sei o que eles irão manter e o que irão rejeitar. Tudo que sei é que eu sou totalmente contra qualquer forma de opressão do homem, da mulher e da criança e isso é algo que nós deveríamos nos livrar definitivamente – da opressão.

É essencial que a literatura, para ser literatura, tenha que ser mais do que um retrato da racionalização materialista? 

Eu não quero te dar nenhuma lição ou te ensinar alguma coisa porque escrever é um ato muito individual. Um homem escreve o que ele quer e como ele quer. Na África nós não podemos escapar do fato que iremos ser cada vez mais comunistas. Mas permita que nós consigamos nos compreender. No marxismo há uma abordagem dialética e compreendimento materialista do homem. Para ser significativa, a nova cultura deverá ser um sincretismo das atitudes religiosas e racionais do homem. 

Há muito comprometimento envolvido na escrita. É possível ser um escritor sem possuir um coração revolucionário?

Comprometimento é bem necessário, mas o que exatamente queremos dizer com essa palavra? Um escritor tem que se comprometer no sentido de que ele deve ter um profundo conhecimento das forças antagônicas que se chocam no plano nacional e internacional. Pode-se dizer que ele deve ter sua própria política cultural, por assim dizer. Para possuir isso ele precisa ter um meticuloso conhecimento da etnografia de seu povo. Ele pode, ou não, ser parte de um partido político, mas em nenhum momento ele pode dizer que está acima da luta. Ele precisa participar dela. O importante no caso de um escritor é sua profunda sensibilidade e sua profunda penetração dentro de sua própria sociedade. É necessário que ele consiga perceber o vento começar a se acumular antes do ciclone.

Que valor que a literatura do terceiro mundo pode ter para o mundo ocidental?

Eu acho que comecei dizendo que para mim o ocidente não é o centro do mundo ou mesmo um modelo de sociedade. Portanto, eu não fico olhando para o ocidente por inspiração. Eu acho que o ocidente vive em volta do mundo sobre o qual eu escrevo. Eu preferiria ter meus livros traduzidos apenas para o hindi. não querendo ser racista ao dizer isso, mas eu realmente acredito que o ocidente não tem nada para nos agregar quando se trata de realidade espiritual e crenças. Existe uma porção de escritores de terceiro mundo que sentem que precisam ser compreendidos pelo ocidente. Isso nos mostra o quanto eles alienaram a si mesmos. Eles constantemente usam o ocidente como ponto de referência. Sinto que nós precisamos ter nossos próprios valores, nossa própria literatura para nos conformar com as nossas próprias populações. 

Agora, você trabalha com filmes. Isso seria porque o cinema alcança as massas iletradas mais facilmente?

Eu trabalho com ambos. Eu escrevo e faço filmes. Eu entrei para o mundo do cinema com a visão de mostrar às pessoas que elas precisam lutar, não para retratar danças e músicas tradicionais, já que essa não é a realidade. Eu tenho visto alguns vestidos de noiva maravilhosos na Índia e tenho certeza que no dia do casamento as pessoas cantam e dançam. Mas antes de vestir esse belo vestido, você deve comprá-lo. O que me interessa é a longa jornada percorrida para conseguir o vestido, quando as danças e cantorias começam.

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